sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Ondas de calor ainda são negligenciadas no Brasil e podem piorar com El Niño, diz pesquisadora

As ondas de calor ainda são um desastre “completamente negligenciado” no Brasil e podem se tornar mais frequentes e intensas com a chegada de um novo El Niño. O alerta é da professora do Departamento de Meteorologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Renata Libonati, que também é membro do Comitê de Especialistas em Monitoramento Climático da Organização Meteorológica Mundial (OMM).

Com base em dados do Sistema Único de Saúde (SUS) de 14 regiões metropolitanas do país, a pesquisadora afirma que foram identificadas 50 mil mortes motivadas por ondas de calor entre os anos 2000 e 2020. Apesar do número expressivo, o problema ainda não recebe a devida importância, na avaliação da pesquisadora.

“Esse número é 20 vezes maior do que o número de mortes por deslizamentos de terra no mesmo período. Isso significa que as ondas de calor ainda são um desastre completamente negligenciado no nosso país. Não têm o impacto de outros tipos de tragédia, em que as mortes são imediatas. Estamos acostumados a achar que, por morarmos em um país tropical, estamos acostumados com calor. E isso não é verdade”, disse Renata Libonati.

A afirmação foi feita durante o painel O que esperar do El Niño, realizado nesta terça-feira (11/08) no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Também participaram os pesquisadores Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo (USP), e José Marengo, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

O fenômeno climático, que altera a circulação dos ventos e o clima em todo o planeta, deve fazer com que 2026 registre temperaturas excepcionalmente altas, disseram os especialistas.

Além dos impactos sobre a saúde, Renata Libonati apresentou dados que relacionam El Niño, ondas de calor, secas e incêndios. Segundo ela, o fenômeno pode favorecer o acoplamento desses eventos, aumentando as condições para propagação do fogo.

“Nos últimos 40 anos, as condições de perigo elevado de fogo aumentaram cerca de 18% durante anos de El Niño nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Temos um contexto de mudança climática com um acoplamento maior entre seca, fogo e ondas de calor”, afirmou.

<><> Impactos variam entre regiões

José Marengo, do Cemaden, ressaltou que os efeitos do El Niño não serão iguais em todo o país. No Sul, o fenômeno costuma estar associado ao aumento das chuvas e, consequentemente, ao maior risco de enchentes.

No Norte e no Nordeste, a tendência é de redução das chuvas e aumento do risco de seca. No Centro-Oeste, pode haver atraso no início da estação chuvosa e mais ondas de calor. No Sudeste, a expectativa é de temperaturas elevadas e maior irregularidade das chuvas.

“O El Niño não cria problemas. Ele agrava a situação de problemas que já existem”, resumiu Marengo.

O pesquisador também destacou que os efeitos do fenômeno ultrapassam o campo meteorológico e podem atingir a produção de alimentos, o transporte, o fornecimento de energia e a economia.

“Não vemos o El Niño só como um fenômeno climático que aquece as águas do Oceano Pacífico. É um choque climático que afeta todos esses setores, portanto, tem impacto sobre a vida de todas as pessoas”, disse.

<><> Preparação

Paulo Artaxo participou dos três últimos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), principal órgão científico global das Nações Unidas. Segundo o pesquisador, o Brasil precisa acelerar a adaptação a um clima que já apresenta temperaturas mais elevadas e maior frequência de eventos extremos. O país já registra aquecimento médio próximo de 2°C, acima da média global.

Para Artaxo, experiências anteriores de desastres deveriam ter servido de lição para governos municipais, estaduais e federal.

“A gente tinha que mais bem preparado para a chegada de um próximo El Niño, para não repetir sofrimentos iguais aos que tivemos em 2024”, afirmou.

Ele destacou também que os processos de adaptação climática nas cidades devem levar em consideração as desigualdades sociais, porque os efeitos dos eventos extremos não atingem a população de maneira uniforme.

“Esses fenômenos impactam principalmente os mais vulneráveis, os mais pobres”, afirmou.

A vulnerabilidade está relacionada, entre outros fatores, ao acesso desigual aos serviços de saúde, às condições de moradia, à exposição ao ar livre e à possibilidade de utilização de mecanismos de refrigeração. O pesquisador citou a diferença entre pessoas que podem utilizar ar-condicionado durante períodos de calor extremo e moradores de comunidades que vivem em casas com telhados de zinco, que podem permanecer expostas a temperaturas elevadas durante a noite.

“É responsabilidade nossa cuidar para minimizar esses danos na população”, disse Artaxo. “O Brasil é a nona maior economia do planeta. Nós não somos um país pobre. Nós não precisamos nem podemos passar por esses problemas que temos passado por falta de estratégia de adaptação climática.”

•        A Europa é o continente que está aquecendo mais rapidamente no mundo. A quem atribuir a culpa?

O mundo inteiro está ficando mais quente à medida que a poluição por carbono proveniente da queima de combustíveis fósseis retém cada vez mais calor, mas a Europa está aquecendo duas vezes mais rápido que outros continentes. As consequências são cada vez mais mortais, com dezenas de milhares de mortes por ondas de calor registradas somente neste verão.

<><> Por que a Europa é o continente mais afetado pelo aquecimento global?

A terra precisa de menos calor para aquecer do que os vastos e profundos oceanos, por isso todos os continentes estão aquecendo mais rapidamente do que os mares. Mas a Europa é particularmente vulnerável por quatro razões: mudanças nos padrões climáticos, sua proximidade com o Ártico, menos neve e menos poluição do ar.

Como resultado, a Europa está agora 2,5°C mais quente do que antes da queima massiva de combustíveis fósseis, quase o dobro do aumento médio global de 1,4°C. As temperaturas na Europa subiram 0,56°C por década desde meados da década de 1990, em comparação com 0,42°C na América do Norte, 0,36°C na África e 0,27°C na América do Sul.

<><> Como mudaram os padrões climáticos da Europa?

Alterações na circulação atmosférica sobre a Europa têm levado a ondas de calor de verão mais frequentes e intensas. Isso inclui a pior onda de calor já registrada, em junho de 2026, na qual uma vasta área de ar quente ficou presa sob uma "cúpula de calor" estacionária.

Os cientistas ainda estão investigando o papel do aquecimento global na alteração da circulação atmosférica, mas uma ligação parece cada vez mais provável.

A Dra. Samantha Burgess, do Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus da UE, afirmou: "Observamos mudanças estatisticamente significativas nos padrões de pressão atmosférica e em outras medidas de circulação quando analisamos as tendências dos últimos 40 anos ou mais, e nessa escala de tempo é mais provável que estejam associadas às mudanças climáticas do que à variabilidade natural."

Essa associação pode ser resultado de uma mudança na corrente de jato , um vento forte em altitude que exerce uma poderosa influência sobre o clima europeu e que, por sua vez, é afetado pelo aumento das temperaturas.

<><> Por que o Ártico é importante?

O Ártico é a região que está aquecendo mais rapidamente no planeta, apesar de não possuir terra firme. Isso ocorre porque a camada de gelo polar branca, que normalmente reflete a grande maioria da luz solar de volta para o espaço, está derretendo rapidamente. Como resultado, o oceano mais escuro exposto pelo derretimento absorve muito mais calor, que por sua vez derrete mais gelo, formando um ciclo vicioso. Com uma parcela significativa da Europa relativamente próxima ao Ártico, as temperaturas estão, portanto, subindo mais rapidamente.

<><> E quanto à cobertura de neve?

Antigamente, grande parte da Europa tinha neve no inverno. Tal como o gelo marinho do Ártico, essa neve refletia a luz solar e mantinha o continente mais fresco. Mas a crise climática está a reduzir as áreas cobertas de neve.

Em março de 2025, a cobertura de neve na Europa estava cerca de 1,3 milhão de km² abaixo da média de 1991-2020, uma queda de 31%. Essa área perdida corresponde aproximadamente à área combinada da França, Itália, Alemanha, Suíça e Áustria. Foi a terceira menor cobertura de neve desde que os registros começaram, em 1983.

<><> Por que a redução da poluição do ar afeta as temperaturas?

A poluição atmosférica mata milhões de pessoas em todo o mundo todos os anos, portanto, o histórico da Europa na redução dos níveis de poluição atmosférica nas últimas décadas é inequivocamente positivo. No entanto, o ar mais limpo também está revelando o impacto do aumento da poluição por dióxido de carbono na atmosfera.

As partículas poluentes do ar podem refletir os raios solares, diretamente ou contribuindo para a formação de nuvens, o que significa que o calor não chega ao solo. Menos partículas significam menos reflexão e mais calor retido pelos gases de efeito estufa. A redução da poluição pode até estar relacionada ao aumento de padrões climáticos de bloqueio .

<><> Qual a importância de cada um dos quatro fatores acima?

A resposta curta é que os cientistas ainda não sabem, mas pretendem ter uma estimativa no próximo ano.

Burgess afirmou: "O que podemos dizer é que a importância de cada fator deve variar conforme a estação do ano, sendo a proximidade com o Ártico importante no outono e inverno, e as mudanças na circulação atmosférica desde o final da década de 1970 apresentando maior significância estatística no verão."

A redução da poluição atmosférica é mais acentuada no inverno devido à diminuição do uso de carvão para aquecimento residencial, e a cobertura de neve é um problema recorrente nessa estação. O aquecimento invernal na Europa nas últimas décadas tem sido mais intenso no norte, enquanto o aquecimento estival tem sido mais acentuado no sudeste.

<><> Quais são as consequências?

O aquecimento acelerado está causando um número cada vez maior de mortes e incêndios florestais e secas mais intensos. Tempestades, chuvas torrenciais e inundações também estão sendo intensificadas pelo calor extra no sistema climático. Todos esses fatores afetam profundamente vidas e meios de subsistência em todo o continente e continuarão a piorar até que as emissões atinjam zero líquido. Reduções rápidas na poluição por CO₂ e a implementação de medidas para proteger os cidadãos são urgentemente necessárias.

O chefe do clima da ONU, Simon Stiell, disse no final de julho: “Os custos terríveis desta crise climática – tanto humanos quanto econômicos – estão agora atingindo níveis de emergência nacional. O que precisa ser feito é claro: abandonar o carvão, o petróleo e o gás mais rapidamente, expandir as energias renováveis e proteger as pessoas.”

 

Fonte: Agencia Brasil/The Guardian

 

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