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‘06’ de Bolsonaro disputa Senado em Roraima e quer garimpar terras indígenas
O
DEPUTADO FEDERAL Hélio Lopes, do PL, nunca morou em Roraima, mas registrou sua
candidatura ao Senado pelo estado com o nome de urna “Hélio Bolsonaro”. Foi
mandado para lá pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, de quem não é parente, e
chega com uma trajetória parlamentar favorável à regulamentação do garimpo em
terras indígenas.
Procurado
pela Repórter Brasil, confirmou que defende a mineração e a lavra garimpeira
nesses territórios e protocolou na Câmara uma nova proposta sobre o tema na
quinta-feira (12).
Lopes
se refere a Jair como “o irmão que a vida me deu” e conta que foi o
ex-presidente quem pediu que trocasse o título eleitoral. “Assim como ele
mandou o Carlos Bolsonaro para Santa Catarina [para disputar uma vaga no
Senado], ele me deu o privilégio de me indicar para Roraima”, afirma no vídeo
de anúncio da candidatura.
Lopes
segura a mesma bateia que seu padrinho político. A defesa da mineração em
terras indígenas é uma bandeira antiga de Jair Bolsonaro.
Em
1992, em seu primeiro mandato como deputado, Bolsonaro apresentou uma proposta
para revogar o decreto que homologou a demarcação da Terra Yanomami, mas o
projeto foi arquivado anos depois. Em 2019, já presidente, afirmou em Roraima
que havia “R$ 3 trilhões embaixo da terra” e que os indígenas não poderiam
continuar pobres sobre terras ricas.
Antes,
durante uma visita a Boa Vista na primeira campanha, em 2018, Bolsonaro afirmou
que, se fosse “rei de Roraima”, o estado teria em 20 anos “uma economia igual à
do Japão”. Lopes adaptou a frase num dos vídeos de campanha e prometeu
“destravar” o Congresso para que Roraima voltasse a crescer.
A
defesa do garimpo continuou depois que Bolsonaro deixou a Presidência. Em
dezembro de 2023, o ex-presidente pediu desculpas aos garimpeiros por não ter
regulamentado a atividade durante o mandato e atribuiu o fracasso aos dois anos
consumidos pela pandemia.
Também
prometeu voltar ao Monumento ao Garimpeiro, no centro de Boa Vista, para
agradecer a votação recebida no estado. No segundo turno de 2022, Bolsonaro
obteve 76% dos votos válidos de Roraima, seu melhor resultado proporcional no
país.
Questionado
pela Repórter Brasil sobre os vínculos que mantém com Roraima, Lopes disse ter
vivido e servido em diferentes cidades e unidades militares da Amazônia quando
era subtenente do Exército. Na resposta, não detalhou os locais nem indicou
vínculo. Afirmou que pretende representar garimpeiros artesanais, agricultores,
pecuaristas e famílias que vivem em áreas de fronteira, caso seja eleito.
Candidato
defende exploração econômica de terras indígenas
Desde
que chegou à Câmara, em 2019, Lopes acumula iniciativas relacionadas à abertura
de terras indígenas à exploração econômica. Em abril, apresentou o Projeto de
Lei 1.786, que regulamentava a pesquisa e a lavra de minérios e
hidrocarbonetos, além do aproveitamento de recursos hídricos para a geração de
energia nesses territórios.
Em 10
de junho, Lopes pediu a retirada do projeto. Seis dias depois, Flávio Bolsonaro
anunciou sua pré-candidatura ao Senado. A proposta só foi formalmente retirada
em 8 de julho. O requerimento apresentado pelo deputado não contém
justificativa.
Em
março de 2022, Lopes votou a favor da urgência do PL 191, projeto enviado pelo
governo Bolsonaro para regulamentar mineração, garimpo, petróleo, gás e geração
de energia em terras indígenas, apelidado de PL do Garimpo. A urgência foi
aprovada, mas a proposta não chegou a ter o mérito votado no plenário.
O voto
e os projetos foram apresentados entre 2022 e 2026, período marcado primeiro
pela expansão do garimpo ilegal e, depois, pelas operações federais de retirada
de invasores. Durante esses anos, Jair Bolsonaro repetiu que a exploração
mineral era uma saída para que os indígenas deixassem de ser pobres.
Ao lado
da deputada federal Silvia Waiãpi (PL-AP), Lopes também assinou o PL 2.454, de
2024, que prevê entregar aos povos indígenas títulos de propriedade sobre as
terras homologadas que ocupam.
O
projeto não regulamenta diretamente a mineração, mas sua justificativa pergunta
se os Yanomami viveriam na “penúria” caso recebessem royalties de uma
exploração “consciente” do ouro em seu território. O documento afirma ainda que
os indígenas brasileiros vivem no “Paleolítico” e precisam sair da dependência
de programas assistenciais.
Em
janeiro de 2025, Lopes também se posicionou contra uma proposta que estabelece
regras para a consulta a indígenas, quilombolas e outras comunidades
tradicionais durante o licenciamento de empreendimentos.
A
Constituição e a Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho)
já asseguram esse direito. Contudo, o projeto procura definir o momento e as
condições da consulta, com informações apresentadas de maneira culturalmente
adequada. O deputado argumentou que as exigências poderiam tornar o
licenciamento inviável.
Procurado,
Lopes confirmou que defende a regulamentação da mineração e da lavra garimpeira
em terras indígenas. “O garimpeiro artesanal que trabalha de forma regular,
sustenta sua família e busca uma oportunidade não pode ser tratado como
integrante de organização criminosa”, disse.
O
deputado negou que a retirada do PL 1.786 tivesse relação com a candidatura
anunciada seis dias depois. Disse que a decisão foi “estritamente técnica e
regimental”.
Às
16h28 desta quarta-feira (12), no mesmo dia em que enviou as respostas à
Repórter Brasil, Lopes protocolou o PL 5.029/2026. A nova proposta mantém a
possibilidade de exploração mineral e de lavra garimpeira em terras indígenas,
inclusive por meio de parcerias entre cooperativas indígenas e cooperativas de
garimpeiros artesanais regularizados. Ao mesmo tempo, o projeto torna
explícitas algumas salvaguardas: concede à comunidade afetada poder para
interromper o processo, proíbe mercúrio e cianeto e exige garantia financeira
para a recuperação ambiental.
Na
resposta, Lopes também atribuiu a resistência à mineração na Amazônia a uma
“teia de interesses” formada por ONGs estrangeiras ou financiadas por
organismos internacionais. Sem apresentar evidências à reportagem, afirmou que
essas organizações querem “travar o desenvolvimento nacional”, manter a
Amazônia subdesenvolvida e controlar a oferta mundial de ouro e diamante. Na
mesma resposta, definiu-se como “defensor e fiel soldado” de Jair Bolsonaro.
20 mil
garimpeiros invadiram Terra Indígena Yanomami
O
estado para onde Lopes foi enviado é o mesmo que se tornou símbolo nacional de
uma crise humanitária que marcou a gestão de Jair Bolsonaro na saúde indígena.
A invasão da Terra Yanomami vinha de décadas anteriores, mas ganhou nova escala
durante o governo do ex-presidente. A Hutukara Associação Yanomami estimou que,
no auge da crise, cerca de 20 mil garimpeiros atuavam dentro do território.
Só em
2022, último ano do governo Bolsonaro, a área destruída pelo garimpo cresceu
54%, passando de 3.272 para 5.053 hectares. Máquinas destruíram a floresta, o
mercúrio usado para separar o ouro contaminou a água e os peixes consumidos
pelas comunidades, e a presença armada dos invasores afastou equipes de saúde
das aldeias.
Três
semanas depois de assumir a Presidência, Lula (PT) viajou a Roraima. O
Ministério da Saúde declarou emergência em saúde pública, e o presidente
classificou a situação como genocídio. Desde então, operações federais
desmantelaram grande parte da estrutura aberta do garimpo. Segundo dados
divulgados pelo governo federal, a área com sinais de atividade caiu de 4.570
hectares, em março de 2024, para 56,13 hectares no fim de 2025, uma redução de
98,77%. A atividade ilegal, contudo, nunca cessou.
A
repercussão da crise tampouco fez desaparecer o discurso favorável ao garimpo
no estado. Em suas pesquisas, o sociólogo Rodrigo Chagas, professor da UFRR
(Universidade Federal de Roraima) e pesquisador do Fórum Brasileiro de
Segurança Pública, ouviu entrevistados repetirem que as imagens da desnutrição
seriam falsas ou mostrariam indígenas venezuelanos levados ao Brasil. Versões
falsas como essas também circularam nas redes sociais.
‘Fiel
escudeiro do presidente Bolsonaro’, diz Flávio
A
candidatura de Lopes ao Senado foi apresentada em vídeos publicados nas redes
sociais, nos quais aparecem dois filhos de Jair Bolsonaro, Eduardo e Flávio.
Ex-deputado
federal, Eduardo apresenta Lopes como “06”, numa referência à numeração adotada
pela família para os cinco filhos do ex-presidente. Em um dos vídeos, Eduardo
afirma que Lopes seria uma “conexão direta” com Flávio no Senado, caso o 01
seja eleito presidente.
Eduardo
também descreve Lopes como um aliado que acampou diante do Supremo Tribunal
Federal, faz orações em frente à casa de Jair Bolsonaro e atua como “braço” do
pai nos momentos mais difíceis. “Alguém da nossa total confiança, um fiel
escudeiro do presidente Bolsonaro”, disse, em outro vídeo, Flávio Bolsonaro,
candidato do PL à Presidência.
Lopes
superou resistência do PL para sair candidato em Roraima
Em
Roraima, o garimpo não está somente nos rios e nas terras indígenas. Está
também no centro do poder político. Em Boa Vista, uma estátua de garimpeiro
empunhando uma bateia está fincada desde 1969 entre as sedes do governo
estadual, da Assembleia Legislativa e do Tribunal de Justiça.
A
poucos metros da estátua, ainda no centro da capital, a chamada Rua do Ouro
reúne dezenas de estabelecimentos que compram e vendem o metal.
Para
Chagas, professor da UFRR, a estátua ajuda a explicar por que candidatos de
diferentes partidos evitam enfrentar o garimpo. “O apelo à garimpagem aqui não
é novo. Ele vem se repetindo há muito tempo”, afirma.
Segundo
o pesquisador, muitos trabalhadores chegaram a Roraima atraídos pelas frentes
de mineração incentivadas pelos governos militares. O garimpo ajudou a povoar o
território, virou promessa de enriquecimento e passou a fazer parte do discurso
dos políticos locais. “Vir para Roraima e fazer um discurso contra o garimpo é
que seria mais difícil”, diz Chagas.
Hélio
Lopes vem de fora, mas chega com uma mensagem conhecida. É militar da reserva,
como Jair Bolsonaro, e defende a exploração mineral em terras indígenas. Para
Chagas, as duas características se encaixam na história de um estado onde a
mineração e a presença das Forças Armadas foram apresentadas durante décadas
como caminhos para ocupar a Amazônia e desenvolver a economia.
“São
pouquíssimos os políticos que vão falar contra. Mesmo quem não é a favor tende
a não tocar no tema”, afirma Chagas. Entre os 13 candidatos às duas vagas de
Roraima no Senado, a defesa da atividade aparece em mais de uma chapa e
ultrapassa as fronteiras da direita bolsonarista.
O
deputado federal Nicoletti, segundo candidato do PL ao Senado, votou com Lopes
pela urgência do PL 191. Em 2023, durante o início da retirada dos invasores da
Terra Yanomami, declarou que “garimpeiro não é bandido”, afirmou que a economia
roraimense sempre esteve ligada à mineração e prometeu continuar trabalhando
pela regulamentação da atividade.
A
resistência inicial do PL local à chegada de Hélio não nasceu de uma
divergência sobre o garimpo. O diretório reclamou de não ter sido consultado e
defendeu que o candidato tivesse vínculo efetivo com Roraima. Nicoletti chegou
a dizer que não havia tempo para o deputado fluminense construir uma
candidatura no estado. A disputa era por votos e espaço dentro da direita
local. Em julho, a convenção do partido confirmou os dois como candidatos ao
Senado.
A
defesa da atividade também aparece fora do PL. Candidato à reeleição pelo PSB,
Chico Rodrigues pediu em junho a regulamentação do garimpo, que classificou
como parte da história e da identidade de Roraima.
Em
fevereiro de 2023, Rodrigues foi um dos signatários de um ofício pedindo que os
garimpeiros que deixassem voluntariamente a Terra Yanomami não fossem
submetidos a “persecução penal”.
Quem é
Hélio Bolsonaro
Hélio
Fernando Barbosa Lopes, de 57 anos, nasceu em Queimados e cresceu em Nova
Iguaçu, na Baixada Fluminense, filho de um pedreiro e de uma empregada
doméstica. Seguiu carreira militar, chegou a subtenente do Exército e conheceu
Jair Bolsonaro em eventos da caserna, há décadas.
Em
2018, com o apoio direto de Bolsonaro e uma doação de R$ 45 mil do
ex-presidente, adotou o nome de urna “Hélio Bolsonaro”, recebeu 345 mil votos,
foi o deputado federal mais votado do Rio de Janeiro e se elegeu pela primeira
vez.
Tentou
repetir o sobrenome em 2022, mas foi impedido pelo Tribunal Regional Eleitoral
do Rio de Janeiro, que considerou que o nome poderia sugerir um parentesco
inexistente. Lopes apareceu na urna com o nome civil e recebeu 132.986 votos,
212 mil a menos do que quatro anos antes, mas conseguiu se reeleger.
Agora,
voltou a registrar a candidatura como “Hélio Bolsonaro” em Roraima. Até a
conclusão desta reportagem, o pedido ainda aguardava julgamento na Justiça
Eleitoral.
Fonte:
Repórter Brasil

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