Sob
Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era
Bolsonaro
Em 10
de março de 2025, mais de 300 lideranças indígenas dos povos Pataxó e Tupinambá
estavam em Brasília (DF) para participar de uma audiência pública, agendada
para o dia seguinte, na sede da Procuradoria-Geral da República. O objetivo era
discutir soluções para fazer avançar a demarcação de terras no sul da Bahia,
uma das regiões mais violentas do Brasil para os povos indígenas. Naquele mesmo
dia, em Porto Seguro, na Terra Indígena (TI) Barra Velha do Monte Pascoal,
pistoleiros deram mais uma demonstração da urgência da discussão, assassinando
o Pataxó Vitor Braz, de 51 anos, em um ataque atribuído por organizações locais
a fazendeiros contrários à demarcação.
Vitor
Braz é uma das 258 pessoas indígenas assassinadas em 2025, de acordo com o
relatório “Violência contra os Povos Indígenas no Brasil – 2025”, lançado em 13
agosto pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), e ao qual a Agência
Pública teve acesso. O número de assassinatos registrado pelo Cimi no ano
passado representa um aumento de mais de 22% em relação a 2024, quando 211
indígenas foram mortos. É uma cifra maior do que as registradas ao longo do
governo Bolsonaro, em que uma média de 199 indígenas foram assassinados por
ano.
Mas não
foi só o número de indígenas mortos que cresceu, mostra o relatório. Nas três
categorias de violência sistematizadas pela organização, contra a pessoa (que
incluem assassinatos), contra o patrimônio e por omissão do poder público,
houve aumento em comparação com o ano passado.
Para o
Cimi, mais uma vez, a recorrência de ataques aos direitos territoriais
indígenas no Congresso Federal e a falta de uma decisão definitiva do Supremo
Tribunal Federal (STF) quanto à lei 14.701/2023, que instituiu o Marco
Temporal, foram centrais para a manutenção e o crescimento dos casos de
violência contra os povos originários.
A tese
do Marco Temporal, que considera que só devem ser demarcadas as terras em que
havia ocupação por indígenas na data de promulgação da Constituição de 1988,
foi declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em setembro
de 2023, mas virou lei em dezembro do mesmo ano, depois de o Congresso Federal
derrubar vetos do presidente Lula (PT).
A
novela em relação à tese, que já se arrastava há anos, ganhou um novo capítulo
quando o ministro Gilmar Mendes, relator das ações que questionam a lei,
resolveu manter a vigência do Marco Temporal e estabelecer uma Câmara de
Conciliação, rechaçada por lideranças indígenas. No final de 2025, o STF
declarou novamente a inconstitucionalidade da tese, mas vários pontos vistos
como problemáticos pelo movimento indígena foram mantidos e seguem em discussão
no Tribunal. Ao mesmo tempo, tramita no Congresso Federal uma Proposta de
Emenda à Constituição (PEC) para incorporar o Marco Temporal na Constituição, o
que pode gerar mais um capítulo na interminável batalha jurídica.
Para
fazer frente à essa realidade, os povos indígenas têm buscado ampliar sua
representatividade nos espaços de poder. Em 2026, a “Bancada do Cocar” lançou
46 pré-candidaturas espalhadas pelo país, como mostrou a Pública. Atualmente,
há cinco parlamentares autodeclarados indígenas no Congresso Nacional, todos
eles na Câmara dos Deputados.
A Funai
e o Ministério dos Povos Indígenas foram procurados para comentar o aumento dos
assassinatos de indígenas, mas eles não se manifestaram até a publicação desse
texto. O espaço segue aberto.
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Mortes de crianças por doenças evitáveis sobem 18%
Assim
como em 2024, os estados de Roraima (82), Amazonas (47) e Mato Grosso do Sul
(37) concentram os casos de indígenas assassinados, com quase dois terços do
número total. Em todos eles, o número de mortos cresceu em relação ao ano
anterior. A Bahia, onde Vitor Braz foi assassinado, teve 19 mortes. A
organização indigenista também registrou 18 ameaças de morte e 38 tentativas de
assassinato. Ao todo, foram 474 casos de violência contra a pessoa, um aumento
de cerca de 12% em comparação com 2024.
Além do
assassinato do indígena Pataxó da TI Barra Velha do Monte Pascoal, o relatório
também destaca outros dois casos de violência contra a pessoa, em diferentes
regiões do país.
Um
deles ocorreu logo nos primeiros dias de 2025, quando quatro indígenas do povo
Avá-Guarani foram baleados em um ataque armado na TI Tekoha Guasu Guavirá, no
oeste do Paraná – região que é presença constante no relatório do Cimi por
conta da recorrência da violência contra os povos originários.
O
segundo caso, em 16 de novembro, também ocorreu em área marcada por ataques
contra indígenas, a TI Iguatemipegua I, em Iguatemi, no sul do Mato Grosso do
Sul. Na ocasião, o Guarani Kaiowá Vicente Fernandes foi assassinado em um
ataque realizado contra uma retomada. Outros quatro indígenas ficaram feridos.
“Os
três casos, exemplos trágicos de situações registradas ao longo de todo o ano
em diversas regiões do Brasil, ocorreram em Terras Indígenas já oficialmente
delimitadas pelo Estado, mas cujos processos demarcatórios se estendem há mais
de uma década. Uma longa espera prolongada, em 2025, por atos dos poderes
Executivo, Legislativo e Judiciário”, aponta o relatório.
O texto
acrescenta que “enquanto os povos indígenas em luta pela terra sofrem com a
violência e a vulnerabilidade, em terras demarcadas as ações de invasores não
cessaram, apesar de operações de desintrusão efetuadas pelo governo federal –
grande parte delas por determinação judicial do Supremo Tribunal Federal
(STF).”
Na
categoria de violência por omissão do poder público, entre desassistência
geral, na área de educação, na área da saúde, disseminação de álcool e outras
drogas e mortes por desassistência na saúde, o Cimi contabilizou 366 casos, um
aumento de quase 18% em comparação com 2024.
Na
mesma categoria, a entidade registrou 215 casos de suicídio entre indígenas,
mais de um terço deles (77) concentrados no Amazonas, estado que historicamente
registra os maiores índices, como já mostrou a Pública. Foram sete casos a mais
do que em 2024.
Além
disso, a violência por omissão do poder público também engloba casos de
mortalidade na infância. Em 2025, segundo o relatório, 1.024 crianças indígenas
entre 0 e 4 anos morreram, sendo que 586 (57% do total) foram por causas
evitáveis, como gripe, pneumonia, doenças infecciosas intestinais e
desnutrição. As mortes na infância aumentaram cerca de 11%, enquanto as mortes
nessa faixa etária por causas evitáveis aumentaram quase 18%.
Os
dados do Cimi são colhidos pelas equipes missionárias da entidade ao redor do
país e junto a meios de comunicação, organizações da sociedade civil e órgãos
como o Ministério Público Federal (MPF). Também são compiladas a partir de
bases de dados públicas, como o Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM),
junto a secretarias estaduais de saúde, à Secretaria Especial de Atenção à
Saúde Indígena (Sesai) e por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI).
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Demarcação caminha lentamente e garimpo segue vitimando
Mais
uma vez, o avanço no processo de demarcação foi considerado insuficiente pela
organização indigenista – a despeito da promessa de Lula, feita durante o
Acampamento Terra Livre de 2023, de demarcar todas as terras até o final de seu
mandato. De acordo com o relatório, 897 das 1.443 terras e reivindicações
territoriais indígenas existentes no Brasil ainda não tiveram sua demarcação
concluída; destas, 582 não tiveram nenhuma providência administrativa adotada.
Ao
longo do ano, sete terras indígenas foram homologadas e cinco registradas como
patrimônio da União – o que representa a conclusão do processo de demarcação.
Outras nove tiveram Relatórios Circunstanciados de Identificação e Delimitação
(RCIDs) publicados pela presidência da Funai, dez tiveram portarias
declaratórias emitidas pelo Ministério da Justiça e 16 tiveram Grupos Técnicos
(GTs) criados. Além disso, dez novas reservas indígenas foram constituídas pela
Funai.
Os
números do processo demarcatório em 2025, semelhantes ao do ano anterior, fazem
com que a média de novas terras homologadas na terceira gestão de Lula seja de
7,5 ao ano, cifra inferior ao de seus dois primeiros mandatos, quando 79 TIs
foram homologadas ao longo de oito anos (9,9 por ano).
Além de
897 casos de violência relacionados à omissão e morosidade na regularização de
terras, a categoria de violências contra o patrimônio também inclui 169 a
conflitos relativos a direitos territoriais e 210 relacionados a invasões
possessórias, exploração ilegal de recursos naturais e danos diversos ao
patrimônio indígena. Os 1.276 casos representam um aumento de 2% em comparação
com 2024.
Nessa
categoria, o Cimi destaca o caso da Terra Indígena Sararé, localizada no oeste
do Mato Grosso, próxima à fronteira com a Bolívia. Demarcado desde 1985, o
território habitado pelos Nambikwara vem sofrendo com mais uma onda de invasões
de garimpeiros. Uma imagem da destruição do território indígena pelo garimpo é
capa da edição de 2025 do relatório do Cimi, repetindo algo que já havia
ocorrido em 1996.
A
presença da mineração ilegal na TI Sararé voltou a crescer a partir de 2015,
quando o território foi apontado como uma “nova Serra Pelada”, mas ainda era
diminuta quando comparada com outras terras indígenas. Com ações de desintrusão
em territórios marcados pelo garimpo ilegal, como as TIs Yanomami, Munduruku e
Kayapó, nos primeiros anos do governo Lula, a atividade criminosa migrou e a
Sararé foi um dos principais alvos.
Como
mostrou a Pública no ano passado, a presença garimpeira no local disparou entre
2023 e 2024, quando a área destruída dobrou, chegando a quase 1.200 hectares –
o equivalente a mais de sete vezes o tamanho do Parque do Ibirapuera, em São
Paulo. Desde então, apesar de medidas pontuais do poder público, a situação
continuou piorando, inclusive com a instalação de facções criminosas na região.
O caso
da Sararé, aponta o relatório, “é simbólico da incapacidade do Estado em manter
os invasores fora das terras indígenas” e exemplifica uma situação recorrente,
em que TIs invadidas passam por grandes operações de desintrusão, mas, assim
que o poder público deixa o local, os invasores retornam.
“A
situação da terra do povo Nambikwara sintetiza os efeitos graves e sistêmicos
do garimpo, que transforma florestas e rios em desertos de lama revolvida,
desestrutura comunidades, amplia a exposição a doenças e drogas e instaura a
insegurança dentro dos próprios territórios”, afirma o Cimi.
Fonte:
Por Rafael Oliveira, em Agencia Pública

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