Guerras
diminuem oferta de flúor e prejudicam saúde bucal
A cárie
dentária não tratada é a condição crônica mais prevalente no mundo. No Brasil,
causa infecção, dor e sofrimento em mais de 90 milhões de pessoas. Provoca o
afastamento da escola e do trabalho e leva às perdas dentárias, impactando
negativamente a qualidade de vida, pelo comprometimento de atividades como
falar, sorrir, dormir e manter contato com outras pessoas, causando
constrangimentos e diminuindo a autoestima.
O
flúor, adicionado aos cremes dentais e às águas de abastecimento público, é um
importante aliado na prevenção da doença. O uso da água e dos dentifrícios para
levar flúor à cavidade bucal vem sendo uma estratégia preventiva bem-sucedida
em nosso país, desde meados do século 20.
A
fluoretação da água começou em 1953. Em 1989, o Ministério da Saúde (Portaria
nº 22) autorizou as empresas a comercializarem cremes dentais com flúor.
Atualmente, mais de 50% das crianças brasileiras não apresentam um dente sequer
atingido por cárie, onde a água é fluoretada. Cinquenta anos atrás, essa
porcentagem não chegava a 5%.
Porém,
essa estratégia foi enfraquecida em 1994 com a permissão, pelo Ministério da
Saúde (Portaria nº 108), de comercialização de cremes dentais “fluoretados”,
sem garantia de fluoreto ativo. Isto significa que, ainda que presente nos
cremes dentais, o flúor não tem ação preventiva, pois não reage com o esmalte
dentário. Mas esses cremes dentais, “fluoretados” apenas no rótulo, seguem
sendo comercializados e comprados pelo SUS, para uso em atividades educativas.
É muito importante, por razões éticas e sanitárias, corrigir essa falha
normativa. Éticas, porque as pessoas pensam que estão sendo beneficiadas e não
estão. E sanitárias, porque as condições epidemiológicas da cárie no Brasil
requerem o uso de cremes dentais com flúor ativo.
Contudo
esse êxito da saúde pública brasileira está sob risco neste período em que
conflitos geopolíticos resultam em guerras envolvendo países que estão na
cadeia de produção de fertilizantes, da qual deriva a condição brasileira de
autossuficiência na disponibilidade de ácido fluossilícico, utilizado
amplamente para ajustar as concentrações de flúor, que ocorrem naturalmente na
águas utilizadas para o abastecimento público. Desde o início da guerra
envolvendo Ucrânia e Rússia e, atualmente, o conflito entre Estados Unidos e
Irã, que levou ao bloqueio naval no estreito de Ormuz, a produção de
fertilizantes no Brasil vem sendo prejudicada, causando a diminuição do estoque
de ácido fluossilícico. Sem esse produto, as empresas de saneamento não
conseguem cumprir a Lei 6.050/1974, que determina a obrigatoriedade de que as
águas tratadas, usadas para consumo humano, tenham concentrações adequadas de
flúor. No início de julho, circularam notícias sobre a diminuição da oferta de
flúor, atrasos na entrega do produto às empresas de saneamento e aumento do
preço, superior a 300%.
O ácido
fluossilícico, utilizado para corrigir e estabilizar a concentração de flúor,
durante o tratamento da água, é um subproduto da fabricação dos fertilizantes
fosfatados, cuja fabricação vem sendo afetada pela diminuição na
disponibilidade de enxofre no mercado internacional. Com a redução na produção
de fertilizantes, vem diminuindo a disponibilidade de ácido fluossilícico, o
que torna uma prioridade nacional a substituição das fontes de enxofre e o
apoio à indústria nacional, para trazer a oferta para níveis compatíveis com as
necessidades da agricultura.
A
proteção conferida pela fluoretação da água beneficia cerca de 70% da nossa
população e gera uma economia enorme para as famílias. Seu custo para as
empresas de saneamento equivale a menos de 1% das despesas totais para tratar a
água em cidades de médio e grande porte populacional. A cada real investido na
fluoretação, as famílias economizam cerca de R$ 150,00 por ano com gastos que
teriam se a doença não fosse evitada.
Ser
autossuficiente em ácido fluossilícico é uma vantagem sanitária que o Brasil
não deveria perder. As elevações de preços derivadas da conjuntura de guerra
devem retornar ao padrão histórico tão logo cessem as hostilidades no Oriente
Médio. Nada justifica interromper a fluoretação da água no Brasil, o que seria
uma tragédia sanitária a mais.
As
empresas de saneamento estão reivindicando ao Ministério da Saúde a suspensão,
por 90 dias, da obrigatoriedade de corrigirem as concentrações de flúor nas
águas de abastecimento público. Comprovada a falta do produto, é razoável que o
Ministério Público celebre um Termo de Ajustamento de Conduta, definindo prazos
e outras condições para a retomada da fluoretação.
Neste
contexto, são muito importantes os incentivos à indústria nacional de insumos
agrícolas e as ações de vigilância da qualidade da água de abastecimento
público. A Lei 14.572, de 2023, que instituiu a Política Nacional de Saúde
Bucal, determina que os municípios, com apoio dos estados e do Ministério da
Saúde, mantenham ações de vigilância da concentração de fluoreto nas águas de
abastecimento.
O
Brasil tem estrutura e conhecimento especializado, um corpo diplomático da mais
alta qualidade e um setor industrial de minerais e de insumos agrícolas bem
distribuído. É preciso articular ações no âmbito do governo federal, do setor
produtivo de fertilizantes e as empresas de saneamento, com a participação de
entidades de odontologia e de saúde pública, com o objetivo de retomar, com a
máxima urgência, as linhas de produção da indústria nacional, para garantir que
os benefícios do ajuste da concentração de fluoreto na água de abastecimento
sigam protegendo a saúde bucal da população brasileira.
Fonte:
Por Paulo Frazão e Paulo Capel Narvai, no Jornal da USP

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