O
sapo, o escorpião e a imprensa
A
fábula sobre o sapo e o escorpião é bem conhecida. Fala do aracnídeo predador
que pede ajuda ao sapo para atravessar o rio. Num primeiro momento, o sapo
recusa com medo de receber uma ferroada. Todavia, ante a insistência do
escorpião, que argumenta não ser possível lhe picar, porque os dois morreriam
afogados, o sapo confia e deixa o predador subir em suas costas. Eles nadam. No
meio do caminho, o escorpião pica o sapo. Afundando na água, o sapo pergunta o
porquê da picada. O escorpião responde: “É a minha natureza.”
São
diversas as lições dessa pequena história, cada um ou uma pode tirar a sua. Eu
me identifico com essa: certas pessoas (ou instituições) ou instintos não
mudam, mesmo quando agir contra a própria lógica traz destruição. Fica o alerta
de se ter cuidado ao confiar em quem tem histórico de maldade e em acreditar em
promessas de mudanças ou arrependimentos.
Lembrei-me
da fábula nesses dias ao ver, de novo, a imprensa brasileira como uma predadora
da vida de pessoas. Em “eterno retorno”, em 2026, a mídia hegemônica volta a
ferroar a sociedade brasileira, ou o Brasil; para isso, não poupa ninguém.
Em ano
eleitoral, o monopólio midiático – o predomínio descomunal na produção,
reprodução e divulgação de discursos ideológicos, travestidos de informação e
notícias isentas – volta a atacar. O alvo é o mesmo: as forças sociais que não
estão alinhadas à burguesia nacional predatória e lesa-pátria e ao capital
internacional.
Nesta
semana, tivemos “exemplo clássico” do que a imprensa burguesa é capaz de fazer
para barrar (ou prejudicar) o avanço de projetos opostos aos interesses
históricos das famílias Marinho, Mesquita, Frias, Civita, Sirotsky etc. Não
importa que, para isso, vendam a alma para o capeta.
Mesmo
tendo comido o “pão que o diabo amassou” no governo bolsonarista entre
2018-2022, sendo desrespeitados no exercício profissional do jornalismo
(jornalistas eram escorraçados, ameaçados etc.) e até vendo o ex-presidente
segurando cartaz com a frase “Globo lixo”, a imprensa-escorpião não foge à
própria natureza; mesmo sendo testemunhas oculares da regressão política,
econômica, social e civilizatória daquele (des)governo; igual ao escorpião da
fábula, essa mídia pica quem trata-a dentro de preceitos republicanos e
constitucionais.
Na
própria contradição entre o discurso que noticia e a prática, nesta semana,
três jornalões estamparam quase a mesma manchete imputando, com a ajuda do
ministro do STF terrivelmente evangélico (nas palavras de Jair Bolsonaro,
quando o indicou para ocupar a Corte, em 2021), um suposto caso em cima das
costas de um dos filhos do presidente Lula.
Como já
nos ensinou Marcondes Filho (1993, p. 127), “a imprensa instrumentaliza as
informações que colhe, recebe ou mesmo fabrica-as, transformando-as em notícias
para usá-las no jogo político-ideológico, em uma palavra, no jogo do poder. É
de fato um jogo por que há lances, blefes, cartadas, guerras psicológicas e
muita encenação”.
Para
Ramonet (2012, p. 62), os proprietários da mídia, como aparelho ideológico da
globalização neoliberal, a exemplo da oligarquia latifundiária, se transformam
em “latifúndios midiáticos” se opondo a qualquer ação que vise reformas sociais
e a “distribuição um pouco mais justa das imensas riquezas nacionais”.
A
relevância do papel da mídia na política contemporânea leva à indagação, para
Chomsky (2013), sobre o tipo de mundo e de sociedade em que vivemos e queremos
viver e, correlato a isso, qual espécie de democracia desejamos. O linguista
estadunidense apresenta dois tipos de democracia: um deles pressupõe a
participação do povo na condução de assuntos pessoais tendo à disposição canais
de informação acessíveis e livres; o outro, considera o impedimento do povo em
conduzir suas questões e os canais de informação devem ser estreita e
rigidamente controlados (pelo poder econômico). Para ele, se atendo ao período
moderno, o problema da mídia e da desinformação se insere no segundo contexto,
criando “uma democracia de espectadores” (Chomsky, 2013, p. 14).
O
enquadramento jornalístico, também conhecido como framing, é a forma como a
produção jornalística seleciona e organiza as informações para apresentar um
fato – ele pode destacar certos elementos e minimizar outros, dependendo dos
objetivos da linha editorial. “A maneira conforme as informações são
apresentadas podem influenciar diretamente no modo como as pessoas entendem
essa informação. A mídia influi diretamente no modo de interpretação das
pessoas construindo a mensagem, de modo a deixar margem para uma única maneira
de interpretá-la” (Martino, 2014, p. 46).
Em
situações de crise do sistema político e econômico, a mídia empresarial
hegemônica se transforma numa trincheira de classe e, a partir do peso
desproporcional de produção e circulação de informação em relação a outros
segmentos da sociedade – jornais de sindicato e meios alternativos de
comunicação (jornal Brasil de Fato, Rede Brasil Atual, TVT etc.) –, interfere
“nos processos de escolha de governantes, pressionando governos politicamente
vulneráveis e se beneficiando de suas relações com o poder econômico e
financeiro” (Moraes, 2020, s/p).
A mídia
corporativa pode mobilizar agendas que lhe são convenientes. No Brasil, podemos
citar o caso de crise política que se sucedeu com acontecimentos nos anos de
2013, 2014 e 2016, mas antes, em 2005, o grande tema do país, disseminado
diuturnamente foi o chamado Mensalão – “ali se iniciou uma espécie de
treinamento para o lawfare que viria mais tarde. O Mensalão pode ser entendido,
assim, como um “esquenta” para a Lava Jato” (Nassif, 2024, p. 19).
Em
2013, vimos como as manifestações conhecidas como Jornadas de Junho foram
veiculadas, ou capturadas, inclusive com transmissões ao vivo, “quando os
sentidos das reivindicações por direitos e renovação política também foram
disputados pela rede Globo, principalmente, para adaptá-los às demandas do
capital, que diante da crise precisava de mais abertura para implantar um
programa ultraliberal sem depender de mediações, e instrumentalizar as
manifestações para uma agenda de “combate à corrupção” bastante seletiva”
(Martins, 2020, p.20, grifo original).
Em
2014, os holofotes se voltaram à operação Lava Jato numa cena organizada
centralmente pelos grupos de mídia – direcionando e espetacularizando ações
jurídicas como as do STF, julgamentos e condução coercitiva de testemunhas e
transformando em celebridades ministros da Suprema Corte, juízes de primeira
instância, delegados e procuradores públicos.
“À
medida em que os alicerces da velha ordem eram derrubados pela crise da
financeirização e pela desorganização da informação – provocada pelas novas
tecnologias –, abriu-se espaço para todo tipo de vírus oportunista. Houve um
redesenho total das disputas políticas, no plano das nações, dos partidos
políticos, das corporações públicas, em luta selvagem acelerada pela
desregulação econômica” (Nassif, 2024, p. 31-32).
Nassif
(2024, p. 45) entende a campanha do impeachment contra Dilma Rousseff, em 2016,
como “mera consequência dos passos anteriores. E se tornou a comprovação mais
acabada do desvirtuamento de fatos e de conceitos”. Nos casos envolvendo
diretamente o PT, partido que estava no poder desde 2003, em situações de
desvio de conduta e corrupção – Mensalão, Lava jato e pedaladas fiscais – houve
uso intensivo da mídia na construção de narrativas de ódio, disseminação de
vazamentos de conversas, falsificação de depoimentos contra o partido e figuras
do governo.
Foram
momentos em que não interessavam “as coletas de provas, indícios, evidências:
vale a versão publicada. Não interessa o processo jurídico: vale o julgamento
midiático. Todos os vazamentos têm objetivos políticos claros e exibição de
músculos por parte dos seus atores. E abandona-se definitivamente a presunção
da isenção para perseguições políticas ostensivas” (Nassif, 2024, p. 45).
Observa-se
como os meios de comunicação de massa servem às dinâmicas da economia
capitalista, como na fase neoliberal, em duas dimensões: como pertencente ao
próprio mercado e para manutenção desse mercado. Mercado a ser visto para além
do econômico, mas produtor de discursos políticos e culturais para obter ou
manter apoio e sustentação, “[mercado] que tem sua catequese, suas formas de
discursar proselitistas pelos programas jornalísticos e de entretenimento para
manter os seguidores (a audiência) ou os prosélitos” (Cunha, 2016).
Há uma
vasta e importante produção sobre os caminhos trilhados pelo grupo de
comunicação Globo na vida política brasileira e internacional. Citamos apenas
alguns momentos (porque senão este artigo se tornaria quase eterno) de
interferência na cena política nacional:
Na
campanha contra a nacionalização do petróleo e criação da Petrobrás e no cerco
ao presidente Getúlio Vargas acusado de corrupção (entre os anos 1940 e 1950);
na demonização do governo de João Goulart e suas reformas de base (anos 1960);
no apagamento inicial ao movimento Diretas-já! e na tentativa de interferência
no resultado das eleições para o governo do Estado do Rio de Janeiro, conhecido
como Caso Proconsult, tentando emplacar a vitória de Moreira Franco (PDS) e não
a de Leonel Brizola (PTB).
Na
edição de debate entre os candidatos Collor (PRN) e Lula (PT), à Presidência da
República, reservando ao primeiro os melhores momentos e ao segundo, os piores
(anos 1980); nos passos neoliberais iniciais, no país, no apoio aos governos
Collor e Fernando Henrique Cardoso, difusores do discurso da modernização,
flexibilização, privatização e demonização do Estado, caso flagrante foi o
apoio à narrativa “caçador de marajás” do primeiro presidente civil eleito
pós-ditatura militar, Fernando Collor de Mello (entre final dos anos 1980 e
início da década de 1990); ampla divulgação de esquema alcunhado “Mensalão” e à
Operação Lava jato, destacando protagonismo do PT e do próprio presidente Lula.
Na
veiculação, ao vivo, das manifestações de 2013 de cunho amplo e indefinido, mas
com fortes críticas a instituições públicas, à corrupção, aos serviços
públicos, ao governo etc., reverberação do argumento de “pedaladas fiscais”
atribuídas à então presidente Dilma Rousseff, que sofreu impeachment (anos
2000).
Durante
o regime militar, veículos de comunicação de grande alcance – jornais,
revistas, rádios e, principalmente, televisão – alinharam-se, por interesse
próprio ou pressão, à narrativa do governo. Na televisão, programas como o
Jornal Nacional da Rede Globo e campanhas institucionais, como o famoso slogan
“Brasil: ame-o ou deixe-o”, reforçavam o otimismo e a confiança no projeto do
regime.
As
manchetes exaltavam recordes de produção, inaugurações de obras e índices de
crescimento, enquanto minimizavam ou silenciavam críticas ao regime e denúncias
de violações de direitos humanos. Por trás do brilho midiático, diversos
problemas graves eram ignorados ou deliberadamente ocultados. A concentração de
renda se aprofundou: enquanto parcela restrita da população se beneficiava da
expansão econômica, a maior parte dos brasileiros continuava à margem, sem
acesso à educação, saúde e moradia dignas.
O
chamado “milagre” foi acompanhado pelo aumento da desigualdade social, do
desemprego estrutural e da precarização das condições de trabalho. Além disso,
a repressão política – censura, prisões arbitrárias, tortura, assassinatos e
desaparecimentos – era sistematicamente abafada pela mídia. Notícias sobre
greves operárias, movimentos sociais e manifestações estudantis eram suprimidas
ou distorcidas, consolidando atmosfera de aparente consenso e paz social. O
papel da mídia, nesse contexto, foi fundamental para legitimar o regime e criar
percepção ilusória de estabilidade e progresso e enquadrar a crítica e a
oposição fora da conduta moral e legal.
No
Brasil, a pluralidade informativa está comprometida quando o perfil da
comunicação de massa se assenta no controle dos principais grupos midiáticos
nas mãos de menos de dez famílias, na propriedade cruzada, no alto custo
operacional, no direcionamento de grande parte dos recursos públicos para as
emissoras dos conglomerados, o controle de grupos regionais por políticos que
se transformam em (re)transmissores do conteúdo das redes nacionais. “Através
deste oligopólio eles controlam a informação que chega aos cerca de 200 milhões
de brasileiros e impedem que vozes dissonantes ganhem maior repercussão”
(Mielli; Damasceno, 2015, p. 34).
No
processo de redemocratização do Brasil, o tema ganhou destaque na Assembleia
Nacional Constituinte, em 1987, opondo-se posições distintas entre os
apoiadores do status quo comunicacional da mídia comercial e os defensores de
regras garantidoras da democratização e da pluralidade. A nova Constituição
Federal, promulgada em outubro de 1988, reserva o bloco normativo “Da
Comunicação Social” (capítulo V do título VIII).
Entre
as proposições constitucionais, veta-se, expressamente, a formação de
monopólios e oligopólios para inibir a captura do setor pelo poder econômico.
Princípio fundamentado no pluralismo para oferecer amplo leque de pontos de
vista e opiniões de modo a refletir a diversidade da sociedade. Contudo, o
preceito não foi regulamentado – ou seja, os cincos artigos constitutivos da
norma (de 220 a 224). Para Franklin Martins (2021), a democratização dos meios
de comunicação de massa deve ser tema central sobre o futuro do país, “ou o
Brasil seguirá tutelado, amordaçado, manipulado e censurado pelos barões da
mídia, especialmente na radiodifusão – televisão e rádio.”
Essa
mesma mídia, nos últimos quatro anos, se calou ante a “camisa de força”
imposta, por exemplo, por parlamentares aliados aos interesses externos
capitaneados pelos Estados Unidos de Donald Trump e pela família Bolsonaro e
seus asseclas, contra o governo Lula. Infelizmente, o Executivo teve como maior
inimigo grande parte (e não boa) do Congresso Nacional. Para desacreditar ou
desidratar o governo eleito em 2022, não pensaram duas vezes em barrar e não
aprovar projetos importantes para toda a sociedade. Ao contrário, apresentaram
e aprovaram projetos ruins e prejudiciais.
A
imprensa da elite branca brasileira repele o que classifica de governos
ditadores e autoritários, mas pactua com forças políticas internas
autoritárias, antidemocráticas, golpistas e propensas à ditadura. É a parte
mais visível do novo (ou da reafirmação) do pacto (ou acordo) da mídia com sua
própria natureza.
Nas
origens, essas famílias têm, em comum, o DNA da elite do atraso, escravocrata,
exploradora, violenta e antidemocrática. A democracia, na boca dessa
imprensa-escorpião, é apenas peça de autopromoção, como estamos vendo agora no
comercial institucional da TV Globo na cobertura das eleições de 2026. A
emissora fala em “Democracia ao vivo” para elogiar o seu jornalismo no próximo
pleito.
Ao povo
brasileiro exige-se o esforço de não se transformar no sapo que leva a
imprensa-escorpião às costas para não ser ferroado assim que o processo
eleitoral terminar.
Fonte:
Por Rosângela Ribeiro Gil, em a Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário