Fazer
falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura
Sobre
uma toalha azul, os ossos ficam dispostos em fileiras, alguns identificados por
tiras de fita adesiva branca. São fêmures alinhados por tamanho, vértebras em
sequência, alguns crânios. Ao fundo, a parede exibe retratos de pessoas em
preto e branco e traz a pergunta: “Onde estão os nossos desaparecidos?”.
O
cenário faz parte do dia a dia do laboratório do Centro de Antropologia e
Arqueologia Forense (CAAF) da Universidade Federal de São Paulo que, desde
2022, tem filmado essa rotina dos peritos de luva que medem, giram e descrevem
em voz alta fragmentos exumados de valas comuns. Agora, o material será parte
de uma exposição inédita: “Fazer falar os ossos: engajamentos presentes com o
passado”, que abre as portas em 14 de agosto no Centro MariAntônia, da USP, e
fica em cartaz até 27 de setembro em São Paulo.
A
curadoria é das linguistas Lorenza Mondada, de Basileia, e Fernanda Cruz, da
Unifesp, e do filósofo Edson Teles, também da Unifesp. O que eles propõem ao
visitante não é olhar para os mortos, mas sim para o trabalho de quem os
procura.
“Os
ossos nunca são apresentados de forma sensacionalista”, diz Lorenza Mondada à
Agência Pública. “Eles só são visíveis indiretamente, por meio de vídeos que
mostram esse trabalho.” A violência, argumenta a curadora, está no contexto: “a
ditadura brasileira que torturou, matou e desapareceu pessoas”. O manuseio dos
ossos pelos peritos é “um trabalho cotidiano, técnico e científico que se
conecta com a história de um fragmento de osso, com a busca dos familiares e
com o modo de funcionamento da repressão, da produção de falsos laudos, do
silêncio do Estado”, explica.
A
mostra nasceu do projeto homônimo, o Making Bones Talk, conduzido pela Unifesp
e pela Universidade de Basileia, na Suíça, com financiamento da Fapesp e da
Swiss National Science Foundation.
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Fazer falar os ossos
O
método por trás das filmagens tem tradição acadêmica: etnometodologia e análise
da conversa, campos que estudam como as pessoas produzem sentido nas interações
cotidianas. Aplicada a um laboratório forense, a situação desloca a atenção do
resultado (o laudo, a identificação etc.) para o processo. As imagens são
transcritas em detalhes, como, por exemplo, o modo como duas pessoas seguram o
mesmo osso. É daí que sai a estética da exposição, avalia Mondada: “na
possibilidade de olhar o gesto repetido das mãos; no azul contrastante da
toalha anatômica que também deixa ver detalhes nos ossos; na leitura em voz
alta sobre o desaparecimento sem pistas de um militante em um documento de
arquivo”.
A
pergunta do cartaz, “Fazer falar os ossos”, organiza a mostra: “É uma pergunta
dos familiares, mas não só. Ela passa também a ser uma pergunta nossa, enquanto
sociedade que se quer democrática e mais justa”, argumenta Fernanda Cruz.
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A dívida impagável
Edson
Teles conhece a pergunta por dentro. Filho de militantes presos e torturados,
foi levado, ainda criança, ao DOI-Codi de São Paulo com a irmã. Hoje coordena o
CAAF, o centro que examina os ossos. Para ele, o que emerge das valas, 40 anos
depois, diz mais sobre o presente do que sobre a morte. “Quando uma sociedade
não pode se despedir de seus mortos, os corpos ganham uma multiplicidade de
sentidos”, afirma à Pública. Os restos que reaparecem agora “dizem muito sobre
o quanto o país tem uma dívida histórica com as vítimas da violência de Estado
e sobre como esta dívida, praticamente impagável, expõe a baixa qualidade de
nossa democracia”.
A
comparação com os vizinhos da América do Sul mede o tamanho do buraco.
Argentina e Chile julgaram agentes de Estado, criaram programas permanentes de
busca e abriram arquivos militares. No Brasil, nenhum agente da ditadura foi
condenado, não há programa institucional de busca, os arquivos das Forças
Armadas seguem fechados e o estatuto das instituições militares nunca foi
revisto. Dos mais de 200 desaparecidos políticos reconhecidos oficialmente, os
identificados cabem em uma curta lista.
Foi na
ausência do Estado que as famílias construíram os primeiros acervos de prova,
explica Teles: “Apesar de todos os bloqueios, conseguiram reunir uma extensa
documentação sobre as vítimas, ainda sem a participação dos profissionais das
ciências forenses”. Dessa mobilização nasceu o CAAF, instalado numa
universidade pública, com estrutura permanente, que investiga e forma
pesquisadores ao mesmo tempo — um arranjo que Teles descreve como único na
América Latina e que manteve o trabalho de identificação de pé, pela autonomia
universitária, mesmo durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro,
defensor do período de exceção.
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Do laboratório às empresas cúmplices da ditadura
O mesmo
CAAF produziu outra frente de prova. Com 55 pesquisadores e em parceria com o
Ministério Público Federal (MPF), o centro investigou a responsabilidade de
empresas por violações de direitos durante o regime. Os resultados foram
antecipados pela Pública no especial “Empresas Cúmplices da Ditadura”, que
mostrou a sala de interrogatório da Fiat em Betim, o monitoramento de
funcionários pela Petrobras e as listas sujas da Mannesmann. Em maio deste ano,
as controladoras da Mannesmann e da Belgo-Mineira passaram a negociar um termo
de ajustamento de conduta com o MPF e o MPT. O levantamento traz outras
empresas, como a Fiat, Companhia Docas de Santos, Itaipu, Josapar,
Paranapanema, Cobrasma, Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), Aracruz e Folha
de S. Paulo.
A
antropologia forense, observa Teles, não serve só ao tribunal: alimenta
“diferentes níveis do debate social e político”, do luto das famílias ao dever
de memória e ajuda a mostrar o método, não só o desfecho. Durante o período de
exposição haverá exibição de filmes, debates sobre a chamada virada forense, um
curso aberto e uma mesa-redonda com familiares de desaparecidos. As mesmas
pessoas que, há meio século, começaram a juntar as provas.
Fonte:
Por Thiago Domenici, da Agencia Pública

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