O
que corrói as democracias?
Pela
primeira vez em mais de meio século, os Estados Unidos perderam o selo de
“democracia liberal”, regredindo a níveis da década de 1960, conforme aponta
o Relatório da Democracia 2026 do
Instituto V-Dem.
Este retrocesso não é um acidente isolado, mas o realinhamento de estruturas de
poder a partir do que Ian Bruff define como a ascensão do
neoliberalismo autoritário. Em suas fases iniciais, o neoliberalismo era
caracterizado por promover o isolamento das decisões políticas por meio de
concessões que visavam conseguir o consentimento popular. Atualmente, em sua
fase autoritária, representa um projeto de poder voltado à reconfiguração do
Estado para transformá-lo em um sistema progressivamente mais autocrático. Esse
processo opera por meio de blindagens constitucionais e legais desenhadas para
insular — acentrar no executivo e isolar — o processo decisório de conflitos
políticos e sociais. Em vez de buscar o consentimento, a agenda prioriza os
interesses do capital e a institucionalização da austeridade. Esse processo
ocorre muitas vezes de maneira sutil, operando uma reprogramação do Estado
que marginaliza grupos dissidentes e
transfere os debates de sua arena própria — as instituições democráticas,
os parlamentos e a esfera da participação popular — para mecanismos
tecnocráticos e para blindagens legais imunes ao voto e à soberania popular.
Especialistas que estudam o tema apontam que este não é um fenômeno exclusivo de
democracias jovens,
mas atualmente presente na maior parte das democracias do mundo. Trata-se de um
retrocesso global sem precedentes que corrói estruturas até então tidas por
consolidadas, que apenas em alguns casos têm a capacidade de regressar à
democratização após eventos de autocratização (U-Turn).
Diferente
das rupturas militares e dos golpes que marcaram o início do século XX, o atual
processo de autocratização é qualitativamente mais insidioso, operando uma
espécie de reprogramação do Estado para que ele sirva prioritariamente aos
interesses do capital e das elites econômicas, como afirmam Vidal e Lopes. Nesse cenário,
enquanto o ritual eleitoral é mantido em sua forma procedimental, internamente
as instituições são esvaziadas e o Poder Executivo é agigantado e blindado
contra a soberania popular ou contestação social, que não é anulada
completamente. Porém, importa salientar que o cenário de declínio democrático
descrito não deve ser visto como um fenômeno distante, mas sim como um espelho
das dinâmicas de poder que também pressionam outras regiões, como a América
Latina, tendo a Argentina e o Brasil como uns dos principais centros de
disputa. Se, por um lado, os Estados Unidos representam o alerta de uma
estrutura consolidada em erosão porque ela se manifesta numa potência
hegemônica, por outro o Brasil emerge no Democracy Report 2026 como o maior
caso global de resiliência democrática e ‘U-turn’, sendo considerado a maior
democracia do mundo a reverter ativamente um processo de autocratização que se
revelou mais crítico entre os anos de 2016 a 2022. Entretanto, vale salientar
que, sob a ótica de Ian Bruff, essa recuperação institucional brasileira ainda
enfrenta o desafio estrutural do neoliberalismo autoritário. Trata-se de um
projeto que busca capturar o Estado para proteger agendas de austeridade e
interesses das elites econômicas, os quais são fortemente amplificados por
processos de autocratização e não desaparecem nas democracias. Assim, o Brasil
torna-se o laboratório fundamental para entendermos se o conteúdo democrático
pode de fato ser restaurado ou se o esvaziamento institucional a partir do formalismo
procedimental das urnas continuará servindo à desconfiguração do Estado voltada
à marginalização social e ao controle do dissenso.
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O projeto neoliberal de captura do Estado: do discurso à prática estatal
O
cenário de declínio das democracias apontado no Relatório V-Dem, atrelado a outros estudos, revela como ocorre
a expansão do neoliberalismo autoritário e como se dá o recrutamento de aliados
globais para estabilizar seu projeto de poder. Segundo Vidal e Lopes, assim
como nos Estados Unidos, esse processo manifesta-se na América Latina através
de uma triangulação estratégica de instituições como a Atlas
Network, institutos
liberais locais e dirigentes econômicos. Há uma instrumentalização do sistema
político para viabilizar a implementação das ideias neoliberais, ou seja,
utilizam as regras democráticas para autocratizar o sistema por dentro. Uma vez
no poder, líderes autocratas acionam aparelhos privados de hegemonia —
institutos liberais financiados por uma complexa rede transnacional — para
incitar “pânicos morais” e ataques coordenados contra
universidades, a imprensa livre e ao sistema judiciário. Essa foi a cartilha
de Donald Trump nos Estados
Unidos; de Jair Bolsonaro no
Brasil; e de Javier Milei na Argentina,
por exemplo. Longe de serem coincidências ideológicas, essas ofensivas são
práticas comuns ao neoliberalismo autoritário para reorganizar a consciência
coletiva — em continuidade com o populismo autoritário teorizado por Stuart Hall — e
silenciar contrapontos e resistências institucionais ao projeto de poder. O
objetivo central não é apenas a retórica inflamada, mas a formalização da
captura do Estado para garantir privilégios e desregulamentações que beneficiam
setores específicos da classe dominante.
Vidal e
Lopes apontam que, na América Latina, essa captura é alimentada por
financiamento de recursos públicos do governo dos Estados Unidos. Segundo as
autoras, embora a Atlas Network se apresente como organização privada, grande
parte de seus recursos advém do Departamento de Estado dos EUA, especificamente
de organismos como o National
Endowment for Democracy (NED) e o Center for
International Private Enterprise (CIPE). Após ganhar aparência de financiamento
privado, esses recursos são disponibilizados para as elites locais manterem uma
dependência teórico-estrutural e garantirem a institucionalização do projeto
neoliberal e, paralelamente, a estagnação da soberania popular. Longe de ser
coincidência, essa estrutura procedimental reflete o modelo de atuação
estratégica e autoritária dos novos autocratas para eliminar qualquer
contraponto institucional ao projeto de poder em curso.
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Neoliberalismo autoritário e a reprogramação do Estado brasileiro
O
projeto neoliberal em curso no Brasil é capitaneado através de uma rede de
apoio intelectual e social financiada com recursos oriundos de instituições e
organismos internacionais como a Atlas Network, NED e CIPE. Grupos como o Movimento Brasil
Livre (MBL), Estudantes pela Liberdade (EPL), Instituto de Estudos
Empresariais (IEE), Instituto Millenium, representam alguns dos grupos e movimentos
que são beneficiários diretos dos treinamentos e apoio financeiro
oriundos dessas instituições e organismos internacionais.
A
ingerência desses movimentos neoliberais pode ser identificada a partir da
análise da formação da equipe econômica do governo Bolsonaro, onde pelo menos
14 dirigentes de institutos parceiros da Atlas Network ocuparam cargos
estratégicos no governo federal, merecendo destaque para a equipe
econômica de Paulo Guedes, então ministro da Economia. Essa posição
possibilitou a implementação de políticas públicas neoliberais, inclusive com
uso de medidas menos burocráticas e carentes de discussão imediata e mais
aprofundada nas casas legislativas. Um exemplo é a Medida Provisória da Liberdade
Econômica,
formulada sob o respaldo direto desses institutos. Como resultado dessa agenda
neoliberal, a equipe econômica de Paulo Guedes buscou também
intensificar reformas na previdência social através da
implementação de um modelo de capitalização obrigatório para novos ingressantes
no mercado de trabalho. Ou seja, enquanto reformas anteriores mantinham a
previdência privada como algo complementar e facultativo, a agenda neoliberal
do governo Bolsonaro, liderada por Paulo Guedes, buscou instituir o regime
privado como a principal fonte para a aposentadoria. Outro exemplo do avanço
dessa agenda neoliberal no Brasil é identificado com o desmonte da
infraestrutura estratégica do Estado, tendo a venda da Eletrobrás, principal empresa
geradora de energia elétrica da América Latina, como seu principal
expoente.
Portanto,
as análises mais atentas sobre esse fenômeno global de deslegitimação da
democracia revelam que se trata de um projeto de poder fundamentado no
neoliberalismo autoritário. A retórica inflamada e o uso estratégico de
“pânicos morais”, conforme abordagem de Stuart Hall, funcionam como um
mecanismo de disciplinamento e distração necessária, enquanto coalizões com
elites econômicas financiam o projeto através de um investimento calculado. O objetivo central
é formalizar a captura do Estado para garantir privilégios e
desregulamentações, operando o engrandecimento e blindagem do poder executivo
contra a soberania popular. Na América Latina, esse processo é ainda mais complexo e
perigoso:
a captura envolve não apenas o apoio das elites, mas a infiltração de recursos
ilícitos e o abuso crônico de recursos públicos. Esses fatores, isolados ou em
conjunto, fertilizam o terreno para que líderes eleitos subvertam a democracia
por dentro,
transformando o ritual das urnas em uma mera camuflagem procedimental para o
esvaziamento das instituições e a supressão de direitos sociais.
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O desafio da emancipação democrática
As
pesquisas extraídas dos relatórios V-Dem e Freedom House, conjugadas com
recentes estudos acadêmicos, confirmam que o atual processo de regressão
democrática, longe de ser um fenômeno localizado ou exclusivo de democracias
jovens, revela-se como um objetivo deliberado da agenda do neoliberalismo
autoritário. Esse projeto visa reorganizar as estruturas de poder
para remodelar o Estado contra os direitos coletivos, operando uma
reprogramação que isola as decisões econômicas da soberania popular. O que une a crise nos EUA às
dinâmicas da América Latina e do Brasil é a agenda de engrandecimento e
blindagem do Poder Executivo contra a accountability, uma
estratégia de isolamento identificada até mesmo em democracias tidas como
consolidadas. Esse fenômeno revela como a triangulação estratégica operada por
organismos como a Atlas Network, o NED e o CIPE tem conseguido influenciar a
erosão institucional global, convertendo financiamento público e privado em uma
dependência teórico-estrutural que esvazia as instituições por dentro e elimina
os espaços de debate. No entanto, como argumenta Bruff, esse fortalecimento
coercitivo do Estado revela sua fragilidade intrínseca, tornando-o alvo direto
do descontentamento social. Para superar a mera camuflagem procedimental das
urnas, é necessário que a sociedade, como propunha Stuart Hall, construa uma
nova concepção de mundo onde o povo se identifique como o verdadeiro sujeito da
mudança. O povo, enquanto sujeito político que detém o poder assim como o dever
de o implementar.
¨ 'Liberdade de
imprensa não está em questão no Brasil', diz Cármen Lúcia
A
ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), defendeu
nesta sexta-feira (14/8) a liberdade de imprensa e disse que ela "não está
em questão no Brasil".
A
declaração ocorreu após a magistrada ser questionada pela editora-chefe da BBC
News Brasil em São Paulo, Flávia Marreiro, sobre a decisão do ministro Alexandre de
Moraes, que, no início desta semana, determinou uma operação de busca e
apreensão contra a fonte de um jornalista responsável por reportagens
sobre o também ministro Flavio Dino. "A liberdade de imprensa não está em
questão no Brasil. Não existe democracia sem liberdade de imprensa. É garantido
o sigilo da fonte, isso é o que está na Constituição", declarou,
esclarecendo, contudo, que não poderia falar especificamente sobre o caso. "Eu
sou proibida por lei de falar sobre o que está sub judice do
Supremo [...] Mas quando chegar lá eu vou ter que votar."
O caso
deve ser levado ao plenário no STF, como indicou o presidente da Corte, Edson
Fachin. Na quinta-feira (13/8), Fachin citou a importância da liberdade de
imprensa e defendeu o sigilo da fonte.
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Entenda o caso
Na
terça-feira (11/8), o ministro Alexandre de Moraes autorizou uma operação de
busca e apreensão da Polícia Federal (PF) contra Raimundo Cutrim, ex-secretário
do governo do Maranhão apontado como uma das fontes do jornalista Luís Pablo,
que publicou reportagens sobre o ministro Flávio Dino. A medida faz parte de
uma investigação sobre a obtenção e divulgação de informações relacionadas a
Dino e foi tomada depois que a PF identificou Cutrim a partir da análise de
equipamentos apreendidos anteriormente com o jornalista.
A
investigação começou após Luís Pablo publicar, em novembro de 2025, reportagens
sobre o uso de veículos do Tribunal de Justiça do Maranhão por Dino e
familiares. Em março, o jornalista foi alvo de uma primeira operação, quando a
PF apreendeu celulares, notebook e outros dispositivos. De acordo com a Polícia
Federal, essas informações foram repassadas ao jornalista por Raimundo Cutrim,
que usou o cargo público para obtê-las em sistemas de acesso restrito. Com base
nisso, a PF pediu a realização de novas buscas contra Cutrim.
A
decisão de Moraes provocou reação de entidades brasileiras e internacionais de
defesa da liberdade de imprensa porque a identificação da suposta fonte ocorreu
a partir da análise do material apreendido com o jornalista. Para organizações
como ARTICLE 19, Repórteres Sem Fronteiras (RSF) e Sociedade Interamericana de
Imprensa (SIP), o caso levanta questões sobre a proteção constitucional e
internacional das fontes jornalísticas. Nesta sexta-feira (14/8), o ministro
Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirou o sigilo sobre três
decisões que envolvem investigações de casos de corrupção no Maranhão.
¨
Ministra do TSE que vai julgar uso de 'Bolsonaro de IA'
por campanha de Flávio: 'Autenticidade é um direito básico'
A
ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), defendeu o direito
do eleitor à autenticidade em meio à onda de vídeos feitos com inteligência
artificial na eleição brasileira. "A autenticidade das pessoas na política
é um direito básico. Daqui a pouco a gente só vai ter candidato de IA",
afirmou. Estela Aranha é uma dos sete ministros que julgará em breve uma ação
apresentada pelo PT questionando o uso de um avatar do
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) durante a convenção do PL que oficializou
a candidatura de Flávio Bolsonaro no fim de julho. "Queremos saber em que
candidato estamos votando, e não numa versão mais bonita e inteligente dele
feita por IA", afirmou a ministra, em comentário geral.
Para
ela, o julgamento do caso de Bolsonaro terá um "impacto muito grande"
na campanha. "Certamente vai ter um impacto muito grande, porque a grande
questão é obviamente, você sempre teve gente e mentiras, entre outras coisas,
mas a plausibilidade que você tem numa imagem de fake é muito grande."
Ela
também alertou que a lei veda "expressamente" o uso de uma pessoa com
identidade real em conteúdos feitos com IA. O julgamento do caso do uso de um
avatar de Bolsonaro, cujo relator é o presidente do TSE, o ministro Kássio
Nunes Marques, foi adiado nesta semana e ainda não tem data para ocorrer.
Na
gravação que será analisada, o avatar de Bolsonaro começa avisando que se trata
de conteúdo artificial. Depois, faz críticas à sua prisão, diz ter escolhido
Flávio para sucedê-lo e conclui: "o Brasil tem futuro e o futuro é Flávio
Bolsonaro Presidente". Caso a Corte entenda que houve irregularidade, o
cenário mais provável é que a campanha de Flávio seja multada por propaganda
antecipada e proibida de usar gravações de Jair Bolsonaro feitas com IA devido
a uma resolução do TSE que restringe o uso de conteúdo gerado artificialmente.
A
defesa de Jair Bolsonaro negou que ele tenha autorizado a produção e uso do
vídeo exibido na convenção, depois que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), exigiu
explicações. Ao negar ter autorizado esse conteúdo específico, a defesa disse,
por outro lado, que o ex-presidente nunca se opôs ao uso de sua imagem pelos
filhos. Para a ministra, a campanha agora ocorre de forma permanente, e não
depende do calendário eleitoral. Determinado pelo TSE, o calendário deste ano
prevê, por exemplo, que a campanha eleitoral começa neste domingo (16/08) nas
ruas, no rádio e na televisão. Nas redes sociais, não. "Hoje em dia a
gente tem campanha eleitoral permanente nas rede sociais", afirmou ela. Por
isso, é preciso que as plataformas se ajustem às regras. "Não estamos
falando de liberdade de expressão, as empresas têm que seguir normas", diz
a ministra. "Não vamos fechar todas as plataformas, mas elas têm que
cumprir a lei."
Fonte: Por
Benício Fagner e Cristiano Gianolla, em Outras Palavras/BBC News Brasil

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