Dormir
pouco pode matar?
Muitas
pessoas convivem com dificuldades para dormir ao longo da vida. Às vezes, a
percepção de uma noite mal dormida é apenas uma sensação; em outras, ela é
reforçada por dados fornecidos por dispositivos de monitoramento.
Paradoxalmente,
a tecnologia criada para ajudar a acompanhar o sono também pode aumentar a
preocupação com ele. Alertas constantes sobre horários de dormir e avaliações
negativas da qualidade do sono podem elevar os níveis de ansiedade, acelerar os
batimentos cardíacos e dificultar ainda mais o adormecimento.
Mesmo
assim, nem sempre uma noite considerada ruim pelos indicadores se traduz em
cansaço ou prejuízo no dia seguinte. Muitas vezes, a percepção do sono e o
funcionamento real do organismo não coincidem completamente.
"Quando
você está privado de sono, seu julgamento piora", afirma Catia Reis,
pesquisadora do sono da Universidade de Lisboa, em conversa com a DW.
Isso
pode explicar o dilema. Porque, mesmo quando nos sentimos bem durante a semana,
acabamos dormindo mais tempo nos fins de semana, o que é um sinal claro de
déficit acumulado de sono, diz ela.
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O que a ciência sabe sobre quem precisa de poucas horas de sono
Catia
Reis estuda diferentes condições relacionadas ao sono, incluindo os efeitos do
jet lag (desconforto físico e mental causado por viagens rápidas entre fusos
horários diferentes, geralmente em voos longo) e da privação de sono em
atletas.
Em uma
de suas pesquisas, ela comparou os níveis de sonolência de pacientes com apneia
do sono, condição em que a respiração para repetidamente durante a noite, com
os níveis de sonolência de pessoas que trabalham em turnos.
A
pesquisadora confrontou avaliações subjetivas feitas pelos próprios
participantes da pesquisa e os testes clínicos objetivos aplicados por ela. Ela
identificou uma discrepância intrigante: quanto mais sonolentas as pessoas
estavam, menos capazes se tornavam de avaliar com precisão o próprio nível de
sonolência. Em outras palavras, o cérebro deixa de funcionar adequadamente. E
isso é preocupante, já que ele desempenha um papel central no sono.
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Dormir ou morrer
Enquanto
dormimos, o organismo realiza diversas funções de recuperação. Ele elimina
toxinas absorvidas pelos alimentos e pelo ambiente, restaura energia e
consolida processos essenciais para a aprendizagem e à memória.
"O
sono envolve muitas partes do cérebro", afirma Ying-Hui Fu, pesquisadora
do sono da Universidade da Califórnia em São Francisco. "Quase todas as
doenças cerebrais, incluindo as neurológicas e psiquiátricas, podem estar
associadas a problemas de sono".
Em
média, uma pessoa precisa de cerca de 7,5 a 8,5 horas de sono por noite.
Ainda
assim, de tempos em tempos surgem relatos de pessoas que se orgulham de dormir
poucas horas por noite, como se isso demonstrasse dedicação extrema ao
trabalho.
Um
exemplo recente é o da primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, que afirmou
dormir entre zero e três horas por noite desde que assumiu o cargo.
Mas,
mesmo que a privação crônica de sono seja voluntária ou resultado de um hábito,
não se trata de uma estratégia saudável no longo prazo.
No
melhor dos cenários, um déficit prolongado de sono pode levar ao acúmulo de
toxinas no organismo, aumentando o risco de doenças cardíacas e cerebrais. No
pior, pode ser fatal.
"Existem
apenas duas coisas mais importantes para a nossa saúde do que o sono", diz
Fu à DW. "Uma é o ar. Sem ar, morremos em poucos minutos. A outra é a
água. Sem água, morremos em poucos dias. Sem comida, conseguimos viver por
meses. Mas sem sono provavelmente sobreviveríamos apenas algumas semanas".
E isso
vale para todos os animais, acrescenta ela: "se não dormimos,
morremos".
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A exceção: quem naturalmente dorme pouco
Existem,
porém, exceções. Algumas pessoas conseguem dormir menos de seis horas por noite
e não apenas se sentem bem, como realmente apresentam boa saúde, disposição e
qualidade de vida. São os chamados "dormidores naturais de curta
duração" (natural short sleepers).
Pesquisadores
acreditam que essas pessoas tenham variações genéticas que lhes permitem
prosperar com menos horas de sono. Fu cita o caso de uma pessoa de 80 anos com
essa característica que continuava competindo em provas de triatlo.
Em
2009, o laboratório de Fu identificou a primeira dessas variações, no gene
DEC2. Dez anos depois, os pesquisadores publicaram um estudo sugerindo uma
ligação entre a síndrome do sono curto natural e o gene ADRB1. Posteriormente,
outras variantes genéticas associadas ao fenômeno foram encontradas nos genes
NPSR1, GRM1 e SIK3, entre outros, que ainda estão sendo investigados.
Os
cientistas preferem falar em "variações" genéticas, e não em
"mutações", já que o segundo termo costuma estar associado a efeitos
negativos para a saúde. Até o momento, o sono natural de curta duração não
parece trazer os mesmos riscos observados em pessoas que dormem pouco por
hábito ou porque sofrem de privação de sono.
As
funções desses genes são variadas. DEC2: ajuda a regular a duração dos ciclos
de sono e vigília; ADRB1: participa da sinalização cardíaca e neuronal; NPSR1:
contribui para regular estados de alerta e ansiedade; GRM1: está ligado ao
funcionamento cerebral e pode ter relação com a depressão; e SIK3: participa da
regulação celular, metabólica e inflamatória. Cada uma dessas descobertas
exigiu anos de pesquisa.
"Cada
indivíduo possui entre 500 e 1.000 variações exclusivas em seu genoma.
Identificar qual delas realmente causa determinado efeito é extremamente
difícil", explica Fu.
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Sono melhor impacta a humanidade
O
número de pessoas identificadas como "dormidoras naturais de curta
duração" ainda é pequeno. Mesmo assim, Fu acredita que o fenômeno possa
ser mais comum do que estudos atuais indicam.
Grande
parte das descobertas da pesquisadora se baseia em famílias que compartilham a
mesma variação genética. O motivo é metodológico: se vários parentes apresentam
a mesma alteração genética e todos permanecem saudáveis dormindo apenas quatro
a seis horas por noite, há uma forte indicação de que aquela variação esteja
relacionada ao fenômeno. Ainda assim, a pesquisa está apenas começando.
"Sabemos
que essas pessoas têm melhor desempenho e são mais saudáveis. A explicação mais
lógica é que a qualidade do sono delas é superior", diz Fu.
Catia
Reis também pede cautela. Para ela, ainda existem poucos estudos sobre os
chamados "dormidores naturais de curta duração".
"Quando
avaliamos pessoas que dormem pouco por hábito e aumentamos seu tempo de sono,
percebemos que elas melhoram seu desempenho", afirma. "O problema é
que ainda não temos estudos de longo prazo suficientes com os dormidores
naturais."
Fu
concorda. Mas ressalta que obter financiamento para esse tipo de pesquisa
continua sendo um desafio.
"Meu
objetivo é ajudar todas as pessoas a terem um sono de qualidade. Porque, se
conseguirmos isso, a incidência de todas as doenças diminuirá", diz.
"Todo o espectro de doenças seria reduzido. Você consegue imaginar o
impacto disso para a humanidade?".
Fonte:
DW Brasil

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