sábado, 15 de agosto de 2026

A estapafúrdia explicação de Flávio Bolsonaro para a mentira em seu currículo

O currículo do senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) apresenta uma informação que não é confirmada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Segundo revelou o g1 nesta quarta-feira (12), o perfil do parlamentar na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) informa que ele seria pós-graduado em Ciências Políticas pela universidade.

A UFRJ, porém, afirmou que não possui registro de Flávio Bolsonaro como aluno da instituição.

Em resposta ao g1, a universidade informou que uma consulta ao Sistema Integrado de Gestão Acadêmica (SIGA) não encontrou registros de Flávio Nantes Bolsonaro como discente. A instituição acrescentou que há registro de Eduardo Nantes Bolsonaro, irmão do senador, como concluinte do curso de Direito.

Campanha diz que informação é um erro

A campanha de Flávio Bolsonaro afirmou que a formação acadêmica correta do candidato é composta por graduação em Direito pela Universidade Cândido Mendes, pós-graduação em Políticas Públicas pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ) e MBA em Empreendedorismo pela Fundação Getulio Vargas (FGV).

Essas são as formações apresentadas atualmente no site oficial do senador.

Em nota, a campanha afirmou que eventuais registros diferentes dessas informações seriam resultado de “erros ou equívocos”, possivelmente reproduzidos a partir de páginas como a Wikipedia. Segundo a equipe do parlamentar, já foram solicitadas correções.

Flávio Bolsonaro foi deputado estadual no Rio de Janeiro por quatro mandatos antes de chegar ao Senado.

<><> Adversários reagem

A informação provocou críticas de outros candidatos à Presidência. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), afirmou que uma inconsistência no currículo comprometeria a credibilidade de um candidato.

“Se um médico coloca especialização falsa no currículo, perde o CRM. Na vida pública, parece que virou só ‘erro de digitação’”, declarou.

Renan Santos (Missão) também criticou o adversário e ironizou a formação acadêmica atribuída a Flávio Bolsonaro.

“Agora a gente descobre que a tal da pós-graduação dele na UFRJ não existiu”, afirmou o candidato.

<><> Histórico de questionamentos

O episódio ocorre em meio a outros casos de integrantes do círculo político da família Bolsonaro que tiveram informações sobre formação acadêmica questionadas.

Em janeiro de 2019, a Folha de S.Paulo publicou reportagem apontando que Damares Alves (Republicanos), então ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos e hoje senadora, não possuía os títulos de “mestre em educação” e “mestre em direito constitucional e direito da família” que mencionava em discursos.

No mês seguinte, em fevereiro de 2019, o The Intercept Brasil informou que Ricardo Salles (Novo-SP), então ministro do Meio Ambiente e atualmente candidato ao Senado, não havia estudado na Universidade Yale, nos Estados Unidos, nem obtido o título de mestre em direito público pela instituição.

Na época, as informações sobre a suposta formação de Salles em Yale haviam sido divulgadas durante participação dele no programa Roda Viva, da TV Cultura.

No caso de Flávio Bolsonaro, a campanha atribui a divergência a um erro nos registros e afirma que as informações corretas sobre a formação acadêmica do senador são as que constam em seu site oficial.

•        Após ser desmentido pela UFRJ, Flávio Bolsonaro exibe diplomas — mas não o da pós que dizia ter

senador e candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) publicou nas redes sociais, na noite desta quarta-feira (12), seus diplomas universitários, numa tentativa de encerrar a controvérsia sobre sua formação acadêmica. A manifestação ocorreu depois que a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) desmentiu a informação, presente em registros oficiais do parlamentar, de que ele teria cursado uma pós-graduação em Ciências Políticas na instituição.

“Para que não restem dúvidas sobre minha formação acadêmica, conquistada à base de vários anos de muito estudo e dedicação, seguem meus diplomas”, escreveu Flávio. Em seguida, apresentou documentos referentes a três formações: bacharelado em Direito pela Universidade Cândido Mendes, especialização em Políticas Públicas pelo Iuperj-UCAM e Escola de Políticas Públicas e Governo e MBA em Empreendedorismo e Desenvolvimento de Novos Negócios pela Fundação Getulio Vargas (FGV).

Há, porém, uma ausência justamente no ponto que provocou a polêmica: Flávio não publicou nenhum diploma ou certificado da UFRJ. A universidade também não é mencionada no texto em que o senador afirma apresentar seus documentos para afastar dúvidas sobre sua trajetória acadêmica.

<><> UFRJ desmentiu pós-graduação atribuída a Flávio

Como mostrou a Fórum, a biografia de Flávio mantida no site da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), onde exerceu quatro mandatos como deputado estadual, afirmava que ele havia feito uma especialização em Ciências Políticas na UFRJ. A informação também apareceu em registros relacionados ao senador no Senado Federal e em uma página do LinkedIn associada a ele.

A UFRJ, no entanto, foi taxativa ao ser consultada sobre a passagem do presidenciável pela instituição. Segundo a universidade, uma consulta ao Sistema Integrado de Gestão Acadêmica (Siga) não encontrou registro de Flávio como aluno.

“Pelo Sistema Integrado de Gestão Acadêmica, o SIGA, não há registro referente ao sr. Flávio Nantes Bolsonaro como discente na Universidade Federal do Rio de Janeiro.”

A manifestação da universidade derrubou, portanto, justamente a formação acadêmica que não aparece entre os diplomas agora divulgados pelo candidato.

Campanha atribuiu informação a “erro ou equívoco”

Após a revelação do caso, a campanha de Flávio afirmou que a referência à pós-graduação na UFRJ seria resultado de “erros ou equívocos” e sustentou que a informação poderia ter sido “possivelmente extraída de páginas como a Wikipedia”. A equipe informou ainda ter solicitado correções nos registros.

A explicação, porém, não encerrou a controvérsia. Conforme revelou a Fórum, a informação de que Flávio havia cursado a pós-graduação na UFRJ também constou de material biográfico oficial distribuído pela própria assessoria do presidenciável a jornalistas no fim de julho.

Na postagem feita após a repercussão do caso, Flávio não explicou como a formação inexistente na UFRJ foi parar em seu histórico, tampouco mencionou a universidade. Preferiu divulgar os diplomas das três instituições em que sua formação é reconhecida e encerrar a publicação falando sobre seus quase 24 anos de vida pública e sobre seus planos caso seja eleito presidente.

•        Mentira sobre diploma da UFRJ foi propagada em honrarias propostas por aliados

informação falsa de que Flávio Bolsonaro teria feito pós-graduação em Ciência Política na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) não ficou restrita aos perfis oficiais do senador na Alerj e no Senado. Documentos levantados pela Fórum mostram que o currículo inexistente atravessou o país e foi usado até para justificar honrarias propostas a Flávio por parlamentares aliados.

A Fórum encontrou a referência à suposta formação na UFRJ em propostas de homenagem apresentadas em Santo André (SP), Goiás e Espírito Santo. Em dois dos casos, Santo André e Espírito Santo, a informação aparece no próprio documento legislativo que propõe a homenagem. Em Goiás, ela consta tanto da justificativa original assinada pelo autor da proposta quanto da página oficial da Assembleia Legislativa criada para divulgá-la.

Não se trata, portanto, apenas de uma informação publicada por terceiros em páginas da internet. Em Santo André e Goiás, os textos atribuindo a Flávio uma passagem pela UFRJ constam de proposições apresentadas por parlamentares do PL, partido do senador. No Espírito Santo, a afirmação aparece em projeto apresentado pelo deputado Alcântaro Filho (Republicanos), que declarou apoio à candidatura presidencial de Flávio.

A Universidade Federal do Rio de Janeiro afirma que não há registro de Flávio Nantes Bolsonaro como aluno em seu Sistema Integrado de Gestão Acadêmica (Siga). Depois da revelação do caso, a campanha disse que as referências à formação seriam fruto de “erros ou equívocos” e levantou a possibilidade de a informação ter sido extraída de páginas como a Wikipédia.

O novo levantamento amplia o tamanho do problema: a mesma formação acadêmica inexistente foi transformada em argumento para homenagear o senador em diferentes Legislativos estaduais e municipais.

<><> Santo André: a falsa pós na UFRJ virou argumento para conceder título

O caso mais explícito está na Câmara Municipal de Santo André, no ABC paulista.

Em fevereiro de 2026, o vereador Major Vitor Santos apresentou projeto para conceder o Título de Cidadão Honorário de Santo André a Flávio Bolsonaro. A justificativa do documento dedica uma seção específica à formação acadêmica do senador.

Sob o intertítulo “Formação e Reconhecimento”, o texto afirma:

“Com sólida formação acadêmica, é Bacharel em Direito pela Universidade Cândido Mendes, Pós-graduado em Ciências Políticas pela UFRJ e Técnico em Eletrônica.”

Não é uma referência lateral. O currículo aparece exatamente no trecho em que o autor enumera as qualidades e reconhecimentos que, em sua avaliação, justificariam a homenagem. Logo após mencionar a UFRJ, o projeto lista outras honrarias já recebidas por Flávio e, ao final, pede apoio dos demais vereadores à concessão do título.

O documento foi assinado pelo vereador Major Vitor Santos. A proposta deixa expresso no artigo primeiro que a Câmara concederia a Flávio Nantes Bolsonaro o Título de Cidadão Honorário e prevê a realização de sessão solene para a entrega da honraria.

A página é especialmente importante porque reúne no mesmo documento três elementos: a homenagem a Flávio, a alegação de que ele cursou a UFRJ e a justificativa para conceder o título.

<><> Goiás: mentira aparece na justificativa assinada por Major Araújo

Em Goiás, a documentação é igualmente direta.

O deputado estadual Major Araújo (PL) apresentou na Assembleia Legislativa de Goiás (Alego) o projeto para conceder a Flávio Bolsonaro o Título Honorífico de Cidadão Goiano. A proposição tramita no processo nº 8303/2026 e foi registrada como Projeto de Lei de Título de Cidadão nº 97/2026.

Na primeira página, o texto determina:

“Fica concedido ao SENADOR FLÁVIO NANTES BOLSONARO o Título Honorífico de Cidadão Goiano.”

Na página seguinte vem a justificativa assinada pelo parlamentar do PL. É justamente aí que reaparece a formação inexistente:

“Possui graduação em direito pela Universidade Cândido Mendes e especializações em ciência política pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, em políticas públicas pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro e em empreendedorismo pela Fundação Getúlio Vargas.”

A informação, portanto, não foi acrescentada por um veículo de imprensa ao noticiar a proposta. Ela está na peça original do processo legislativo, apresentada por Major Araújo, identificado no próprio documento como “Deputado Estadual do PL”.

A própria Agência Assembleia de Notícias também reproduziu a mesma biografia ao anunciar, em 18 de maio, que Major Araújo havia protocolado a cidadania para Flávio. A página oficial afirma novamente que o senador possui especialização em Ciência Política pela UFRJ.

A homenagem avançou até o fim da tramitação. O sistema oficial da Alego registra aprovação em discussão e votação única nominal em 17 de junho e, em 25 de junho, o processo foi encaminhado para arquivamento como “Projeto de Lei Aprovado e Sancionado”.

<><> Espírito Santo: projeto de cidadania repete a mesma UFRJ

A mesma biografia chegou à Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales) meses antes.

Em 9 de dezembro de 2025, o deputado estadual Alcântaro Filho (Republicanos) apresentou o Projeto de Decreto Legislativo nº 158/2025. O processo oficial da Assembleia identifica Flávio Nantes Bolsonaro como homenageado e Alcântaro Filho como autor da proposição.

O objetivo do projeto é conceder a Flávio o Título de Cidadão Espírito-Santense.

Na justificativa, ao apresentar a trajetória do homenageado, o texto volta a atribuir ao senador a formação na universidade federal:

“Flávio Bolsonaro é graduado em direito pela Universidade Candido Mendes e concluiu especializações em ciências políticas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro…”

Mais uma vez, a informação não está em uma matéria jornalística sobre Flávio. Ela consta do documento legislativo criado especificamente para conceder uma honraria ao senador. O projeto está registrado no processo nº 29016/2025, protocolo nº 31958, no sistema da Assembleia capixaba.

Alcântaro Filho não pertence ao PL, mas integra a base política que se aproximou da candidatura de Flávio. Em publicação posterior, o deputado declarou apoio ao senador na disputa presidencial.

Os três episódios revelam uma característica em comum: a passagem pela UFRJ é apresentada como fato positivo da biografia de Flávio justamente em textos destinados a justificar ou divulgar homenagens públicas ao senador.

<><> Alerj ainda exibe pós-graduação que UFRJ diz não existir

O rastro da informação é mais antigo e ajuda a dimensionar como o currículo se espalhou.

O perfil oficial de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), onde ele exerceu quatro mandatos como deputado estadual, ainda registra entre seus cursos acadêmicos:

“Pós-graduação em Ciências Políticas pela UFRJ, Rio de Janeiro, RJ.”

A referência é particularmente relevante diante da explicação dada pela própria Assembleia. Questionada pela Folha sobre a origem das informações publicadas nas páginas dos deputados, a Alerj afirmou que os dados são encaminhados pelos próprios parlamentares.

O Senado também publicou a informação de que Flávio era pós-graduado em Ciências Políticas. Em matéria oficial de outubro de 2018 sobre sua eleição, a Agência Senado o apresentou como “bacharel em direito e pós-graduado em ciências políticas”. Outra reportagem institucional, publicada no mês seguinte, repetiu a mesma informação. Nesses textos, entretanto, o Senado não identifica a UFRJ como instituição responsável pelo curso.

<><> UFRJ: não há registro de Flávio como aluno

O problema é que a própria Universidade Federal do Rio de Janeiro nega que o senador tenha estudado na instituição.

Segundo resposta da universidade divulgada após a inconsistência vir à tona, não existe no Sistema Integrado de Gestão Acadêmica (Siga) registro de Flávio Nantes Bolsonaro como aluno da UFRJ.

A formação acadêmica confirmada pela assessoria do senador é outra: graduação em Direito pela Universidade Cândido Mendes, pós-graduação em Políticas Públicas pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) e MBA em Empreendedorismo pela Fundação Getulio Vargas.

Ou seja: nenhuma das três formações confirmadas corresponde à especialização em Ciência Política na UFRJ repetida pelos documentos das honrarias.

<><> Campanha fala em “erro ou equívoco” e cita Wikipédia

Após o desmentido da universidade, a campanha de Flávio Bolsonaro afirmou que as informações divergentes seriam resultado de “erro ou equívoco” e que poderiam ter sido retiradas de páginas como a Wikipédia. A equipe informou ainda que havia solicitado correções.

A explicação, entretanto, não esclarece como a formação inexistente chegou a tantos registros institucionais — e, agora, também a projetos de homenagens apresentados por aliados em diferentes estados.

No caso de Santo André, a falsa pós-graduação aparece dentro da justificativa assinada por um vereador do PL. Em Goiás, consta da justificativa original de Major Araújo e foi novamente divulgada pela agência oficial da Assembleia. No Espírito Santo, a mesma UFRJ foi incorporada à biografia usada em um projeto de decreto legislativo para transformar Flávio em cidadão espírito-santense.

Os documentos, isoladamente, não permitem afirmar quem forneceu o currículo a cada um dos gabinetes, tampouco provam que Flávio Bolsonaro tenha revisado pessoalmente os textos antes de sua apresentação.

Mas demonstram algo objetivo: uma formação acadêmica que a UFRJ afirma não existir foi repetida em documentos oficiais produzidos para homenagear Flávio Bolsonaro e usada como elemento de valorização de sua trajetória.

E isso ocorreu não uma única vez, mas em três Legislativos diferentes, em três estados, por proposições de parlamentares politicamente alinhados ao senador.

 

Fonte: Fórum

 

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