sábado, 15 de agosto de 2026

O que Ceuta nos revela?

Novamente, pessoas pobres morreram no mar sonhando que a imigração lhes permitiria viver melhor. E, mais uma vez, antes que saibamos os seus nomes, histórias e motivações, somos bombardeados por termos-imagens como: “invasão”, “crise imigratória”, “risco”, “perigo”, “controle de fronteira” e muitos outros. As diversas classificações imediatas transformam uma crise fronteiriça concreta – é isso que significa realmente – numa ameaça civilizacional ou numa crise de imigração. Os jovens marroquinos, na sua grande maioria, deixam de ser trabalhadores na condição de desemprego, filhos de uma sociedade profundamente desigual e empobrecida, para se transformarem numa imagem: o invasor que avança sobre a Europa (ainda no continente africano).

Ceuta revela, em primeiro lugar, que os imigrantes se tornaram, cada vez mais e de modo mais violento, um instrumento político a ser arremessado. Há fortes indícios de que autoridades marroquinas facilitaram a mobilização de jovens pobres, difundindo expectativas sobre documentos, trabalho e melhores condições de vida. Isso precisa ser investigado com rigor, mas tudo aponta para algo organizado em parceria com os EUA e sucedâneos. Temos um padrão político conhecido: Marrocos atua como guardião externo da fronteira europeia, reprimindo imigrantes quando interessa a Bruxelas e administrando a pressão fronteiriça segundo os seus próprios objetivos diplomáticos e geopolíticos.

A monarquia marroquina é profundamente autoritária e reacionária. Mantém relações estratégicas com os Estados Unidos e Israel, ocupa o Saara Ocidental e transforma a própria juventude empobrecida em instrumento de negociação nesse tabuleiro político. Do ponto de vista interno, o Marrocos apresenta um contraste brutal: de um lado, a riqueza concentrada em torno do palácio e da família real; do outro, jovens desempregados, sem salários que garantam o básico para sobreviver ou perspectivas de futuro, dispostos a arriscar a própria vida numa travessia marítima.

Mas Ceuta também expõe uma verdade que a Europa prefere ocultar: a permanência neocolonial. Ceuta e Melilla estão no continente africano, embora sejam apresentadas pelo vocabulário oficial como territórios espanhóis “ultramarinos”. A mudança de nome não altera a história. Ceuta foi conquistada por Portugal em 1415, no início da expansão mercantil e colonial europeia, e permanece como enclave estratégico para o controle do Estreito de Gibraltar, da circulação marítima, de mercadorias e de pessoas consideradas seres humanos de “segunda categoria”, isto é, desumanizadas pelo racismo.

A extrema-direita compreendeu perfeitamente a utilidade política dessa fronteira e o modo como articula politicamente a lógica da fronteira/limite, o racismo e a resposta das classes dominantes à crise. Desse modo, quanto mais a crise capitalista empobrece a classe trabalhadora europeia, mais as classes dominantes precisam ocultar o responsável pelo desemprego, pelos baixos salários, pela crise habitacional e pela destruição dos serviços públicos – o modo de relação social e de produção capitalista. A figura do imigrante torna-se o bode expiatório perfeito. É nesse contexto que os    neofascistas se apresentam (falsamente) como defensores dos trabalhadores (só que dos nacionais) que identificam viver um processo de empobrecimento constante nos últimos anos. Tais movimentos e partidos políticos procuram apresentar os trabalhadores imigrantes como uma das causas fundamentais da crise permanente no continente europeu. Todavia, é preciso salientar sempre, a tática neofascista tem como objetivo primeiro manter a acumulação do capitalismo funcionando e ao mesmo produzir e deslocar o empobrecimento para outras zonas ou pessoas do globo.

O racismo sob o capitalismo é indispensável para essa operação política e ideológica de desumanização. É preciso retirar dos imigrantes a condição de pessoas, transformá-los numa massa indiferenciada, perigosa e sub-humana. Depois disso, militarizar fronteiras, limitar garantias básicas, dificultar documentos e aceitar mortes no Mediterrâneo passam a parecer medidas razoáveis – não esqueçamos, Gaza foi um laboratório desse processo de dessensibilização. Até partidos social-liberais incorporam progressivamente o vocabulário e as práticas securitárias da direita. O governo de Pedro Sánchez condena, corretamente, o genocídio em Gaza e adota posições menos reacionárias do que outros governos europeus (pode ser de modo instrumental), mas no momento de identificar o problema geopolítico e fronteiriço em Ceuta, recorreu à categorização de “invasão” (legitimando a gramática da extrema-direita e da retórica racista). Tenho insistido na análise de que vivemos um período de neofascização, talvez essas ações e posturas sejam mais reveladoras do tempo histórico em que vivemos do que da posição particular do governo espanhol. 

Há uma contradição decisiva: o capitalismo europeu não sobrevive sem a força de trabalho imigrante. Agricultura, construção, turismo, limpeza, logística, etc., dependem dela. A Europa precisa incluir esses trabalhadores na produção e, simultaneamente, excluí-los da cidadania plena (política, social, econômica, cultural, etc.). O neoliberalismo flexibiliza a mobilidade do trabalho, mas endurece a documentação, a vigilância, a punição e o controle. O medo mantém os imigrantes precarizados, politicamente frágeis e mais facilmente submetidos às condições de superexploração.

Por fim, Ceuta revela a força das imagens. As mesmas plataformas que difundem rumores capazes de mobilizar milhares de jovens fazem circular vídeos destinados a apresentá-los como ameaça. A imagem chega antes da explicação; o medo, antes da razão. O neofascismo não precisa criar o acontecimento diretamente, basta dominar a maneira como ele será visto socialmente.

¨      Os perfis no Instagram que espalham desinformação e aplicam golpe em migrantes que tentam chegar a Ceuta

Neste fim de semana, Mohammed quer ir do Marrocos para o enclave espanhol vizinho de Ceuta, no extremo norte da África.Ele é um marroquino na casa dos vinte anos de idade que quer emigrar para a Europa, principalmente porque tem visto muitos vídeos no Instagram que fazem a travessia parecer fácil. Ele contatou várias contas do Instagram e uma delas respondeu, alegando ter ajudado "muitas pessoas" e oferecendo conselhos sobre como atravessar a fronteira por centenas de dólares. Só que Mohammed não existe de verdade – ele é uma conta falsa que eu criei para investigar uma rede de perfis no Instagram que estão impulsionando o fluxo de migrantes para Ceuta com conteúdo inspirador e oferecendo ajuda mediante pagamento.

Isso ocorre depois que aproximadamente 78 mil imigrantes vindos do Marrocos chegaram por mar a Ceuta em questão de horas no mês passado, 100 dos quais morreram, segundo o prefeito de Ceuta. A crise se abrandou desde então, mas gerou tensões entre as nações da União Europeia que partilham fronteiras abertas, bem como críticas ao governo espanhol. A BBC identificou dezenas de perfis no Instagram que disseram que fazer a curta travessia a nado ao redor da cerca da fronteira entre Marrocos e Ceuta é algo seguro e fácil – mas, na realidade, pessoas se afogaram tentando fazer a travessia e optaram por rotas muito mais longas. As contas também mostram erroneamente Ceuta como uma rota viável para a Europa continental.

<>< 'Ajuda'

Após interagir com os perfis e publicações das contas, a BBC foi adicionada a vários canais e grupos do WhatsApp. Quando perguntei a uma das contas anônimas se poderiam me ajudar a atravessar para Ceuta neste fim de semana, disseram que sim e pediram "5.000 dirhams adiantados" (R$ 2,8 mil) por "informações que me ajudarão a entrar em Ceuta". Eles disseram que já tinham ajudado "muitas pessoas" a atravessar antes e que me dariam informações sobre a tubulação de esgoto que eu poderia usar para chegar ao enclave em segurança. A conta confirmou que muitos outros perfis do Instagram ajudam pessoas a atravessar para Ceuta dessa forma e solicitaram pagamento "via conta bancária" com um serviço específico de transferência de dinheiro. Mas eles não responderam quando perguntei se eu receberia um reembolso caso a travessia não fosse bem-sucedida. Desde então, eles apagaram várias mensagens que enviaram para a conta.

O mesmo perfil que deu esse conselho já havia dito à minha conta real do Instagram, da BBC, que "isso não incentiva a imigração para Ceuta" — uma mensagem que vários outros perfis repetem. E a situação continua: publicações nas redes sociais, ativamente recomendadas pelo algoritmo do Instagram, anunciam mais uma tentativa de travessia neste fim de semana. Isso aumenta o risco de mortes e acirramento das tensões diplomáticas entre Marrocos e Espanha. Vários dos perfis foram removidos do Instagram depois que a BBC entrou em contato com a Meta, proprietária da plataforma. "Temos uma equipe monitorando a situação em Ceuta em tempo real e removendo conteúdo que viola nossas políticas, incluindo conteúdo que oferece, facilita ou busca serviços de tráfico de pessoas", declarou a empresa.

<><> Por que a rede é importante

Percebi pela primeira vez a enxurrada de conteúdo sobre Ceuta quando vi um vídeo viral mostrando duas mulheres de roupa de mergulho caminhando pela cidade. Embora a publicação original em espanhol buscasse dissuadir migrantes com a legenda "Ceuta não aguenta mais", algumas versões compartilhadas por contas marroquinas e de língua árabe alteraram a legenda ou a cortaram, de modo que o vídeo mostrava apenas as mulheres caminhando livremente. Esta foi apenas uma das centenas de publicações que classificamos como conteúdo "miragem" — ou seja, que pintam um retrato enganoso de um lugar, distinto da realidade.

Alguns vídeos mostram grupos de jovens, homens e mulheres, nadando alegremente no mar — embora muitos tenham se afogado ao tentar fazer o mesmo percurso nas últimas semanas. Outros relatos mostram histórias de pessoas que conseguiram chegar a Ceuta e afirmam ter ido para a Espanha ou para a Europa continental, apesar de cerca de 75 mil dos 78 mil recém-chegados terem sido devolvidos a Marrocos pelas autoridades. Havia muitas semelhanças nos perfis que compartilhavam esse tipo de conteúdo. Quase 40 deles tinham variações do termo "Haraga" e incluíam Ceuta em seu nome ou apelido, frequentemente com uma bandeira espanhola como foto de perfil e com os códigos de área de Marrocos e Espanha na descrição.

Haraga, em árabe, pode ser traduzido como "aqueles que queimam" e é usado coloquialmente para se referir a migrantes que chegam a um novo local e queimam ou destroem documentos para que não possam ser identificados e deportados de volta para seus países de origem. O histórico dessas contas, juntamente com suas postagens e seguidores, indicava que a maioria era administrada de Marrocos, enquanto algumas possivelmente estavam baseadas na Espanha ou na Itália. Muitas delas já existiam há vários anos, mas o conteúdo sobre Ceuta ganhou mais visibilidade nas últimas semanas. Essas contas conseguiram manipular os algoritmos das principais redes sociais compartilhando conteúdo emotivo e otimista para ganhar mais visibilidade. Fontes internas das maiores empresas de mídia social já me disseram que as postagens que provocam uma reação forte têm maior probabilidade de se tornarem virais. Ao tentar contatar alguns desses perfis usando minha própria conta, alguns deles me direcionaram para os mesmos números de WhatsApp ou endereços de e-mail.

Minha conta falsa, Mohammed, era um perfil privado, criado para se parecer com as contas de jovens marroquinos que curtiam e comentavam as postagens que anunciavam travessias. Eu seguia conteúdo relevante, incluindo vários perfis de Haraga, e em pouco tempo meu feed ficou repleto de vídeos e conteúdo incentivando viagens para Ceuta. Parece haver uma tendência mais ampla, em que pessoas que tentam cobrar dinheiro de migrantes por conselhos conseguem facilmente criar perfis e manipular os algoritmos das redes sociais. Embora já existissem grupos no Facebook e contas em outras grandes redes sociais publicando sobre Ceuta, foi no Instagram que encontrei o grupo mais ativo e disseminado de contas interconectadas.O alcance recém-adquirido desses perfis, facilitado pelos algoritmos do Instagram, os expõe a uma gama maior de clientes pagantes. Este é mais um exemplo de como manipular um algoritmo pode gerar danos no mundo real.

¨      Belarus está usando migração como arma de "guerra híbrida"?

Migrantes estão utilizando uma nova rota para conseguir entrar na Lituânia. E essa rota usa túneis subterrâneos escavados ilegalmente para ultrapassar as cercas que dividem o país, membro da União Europeia (EU) e da Otan, e a nação vizinha de Belarus, governada por um regime autoritário alinhado com a Rússia. Especialistas suspeitam que a presença dos túneis possa ser uma indicação de que Belarus tem alimentado o trânsito de migrantes para fomentar instabilidade política na Lituânia e na UE. A guarda de fronteira da Lituânia afirma ter encontrado 12 desses túneis desde o início do ano, todos próximos à fronteira com Belarus, alguns com extensões de até 25 metros no lado lituano. Suspeita-se que mais túneis existam.

A fronteira da Lituânia com Belarus tem cerca de 700 quilômetros de extensão, dos quais aproximadamente 550 quilômetros são separados por uma cerca. "Dispomos de um sistema sísmico de solo capaz de detectar facilmente quando há um alto nível de vibrações por um longo período", explicou à DW o general Rustamas Liubajevas, comandante do Serviço Estatal de Guarda de Fronteira da Lituânia. "Então, aguardamos [do lado de fora do túnel] a fase final da escavação e, quando os migrantes saem, nós os detemos", disse ele, acrescentando que cerca de 40 migrantes já foram presos ao sair desses túneis.

A Procuradoria da Lituânia confirmou à DW que está em curso uma investigação preliminar envolvendo cerca de 20 pessoas suspeitas de escavar um túnel ilegalmente. Possíveis acusações incluem também tráfico humano. Devido à investigação, não são permitidas, no momento, visitas da imprensa aos locais. Liubajevas demonstra surpresa com o fato de migrantes tentarem uma travessia subterrânea. "É preciso muito esforço para escavar um túnel, e os migrantes são presos quase imediatamente; no máximo, um pequeno grupo consegue passar", afirmou.

<><> O regime de Belarus está alimentando esse fluxo?

A natureza elaborada dos túneis leva Liubajevas a acreditar que os migrantes não estejam agindo sozinhos. "Eles não conseguiriam levar isso adiante sem apoio logístico das autoridades belarrussas, pois precisam de muito material, como madeira, para reforçar as paredes dos túneis", ressaltou ele, acrescentando que Belarus parece querer "manter elevado o nível de tensão na fronteira".

O ditador de Belarus, Alexander Lukashenko, que está no poder desde 1994 e que mantém um relacionamento estreito com o russo Vladimir Putin, nega que seu regime esteja por trás desses fluxos migratórios para países vizinhos. Túneis de migrantes semelhantes já haviam sido descobertos anteriormente na fronteira de Belarus com a vizinha Polônia. Margarita Seselgyte, diretora do Instituto de Relações Internacionais e Ciência Política da Universidade de Vilnius, na Lituânia, compartilha as suspeitas do general Liubajevas. "Belarus monitora sua fronteira muito de perto, e o país não faz parte da rota migratória natural de migrantes do Afeganistão, do Irã ou do Sri Lanka", disse ela à DW, acrescentando que o regime de Lukashenko deve ter, no mínimo, feito vista grossa para qualquer atividade de escavação ocorrendo perto da fronteira. Assim, Seselgyte vê os túneis como "um ataque híbrido para gerar ansiedade em nossa sociedade". "Não existe vácuo no campo da segurança. À medida que a Lituânia elimina vulnerabilidades e reforça a cerca em sua fronteira, Belarus agora ajuda os migrantes a passar por baixo dela", aponta.

<><> Um problema de longa data no flanco oriental da Europa

Para a cientista política Seselgyte, o regime belarruso está auxiliando seus aliados no Kremlin. A Rússia lançou sua invasão em larga escala da Ucrânia em fevereiro de 2022, em parte a partir da Belarus, onde havia concentrado tropas sob o pretexto de exercícios militares. "A Lituânia tem se manifestado de forma contundente sobre a defesa contra a Rússia — tanto convencional quanto híbrida — nos âmbitos da UE e da Otan, e eles querem silenciar essa voz causando caos em nosso país", disse a cientista política. "O objetivo principal é, provavelmente, enfraquecer o apoio à Ucrânia e romper a unidade europeia", acrescentou.

Linas Kojala, diretor-executivo do think tank Centro de Estudos de Geopolítica e Segurança, sediado em Vilnius, observou que os túneis têm o efeito de manter as forças de fronteira lituanas ocupadas — mesmo que apenas alguns poucos migrantes consigam passar. Ele descreveu os túneis como "apenas mais uma fase do ataque de instrumentalização da migração que enfrentamos desde 2021". Foi nessa época que dezenas de milhares de migrantes cruzaram a fronteira de Belarus para a Lituânia, a Polônia e a Letônia. À época, a União Europeia classificou os eventos como uma "instrumentalização de migrantes com patrocínio estatal na fronteira externa da UE", e acusou Lukashenko de estar por trás do fluxo. Ainda na mesma época, as relações entre a UE e Belarus atingiram um novo ponto baixo, após os europeus se recusarem a reconhecer o resultado oficial da eleição presidencial belarrussa de 2020 por suspeita de fraude em larga escala para manter o poder de Lukashenko. "Desde então, a Letônia, a Polônia, a Lituânia e outros países reforçaram suas fronteiras externas, e conseguimos reduzir a migração ilegal a um nível mínimo", disse Kojala à DW. Os guardas de fronteira da Lituânia registraram 1.652 tentativas de entrada irregular no país em 2025. No entanto, esse número não cairá para zero a menos que Belarus lide com o problema do seu lado, segundo Kojala. "E isso é improvável: Belarus está claramente tentando criar o maior número possível de problemas."

<><> Migração como ferramenta de pressão

Belarus não seria, de forma alguma, o primeiro país a utilizar a migração como ferramenta de pressão estratégica, ressalta Robert Gonzci, analista do Instituto de Pesquisa sobre Migração, sediado em Budapeste, na Hungria. "É uma maneira de exercer pressão sobre outros países com custo e risco relativamente baixos; desde a década de 1950, houve inúmeros casos documentados de governos criando ou manipulando fluxos migratórios", disse à DW. Ele acrescentou que até mesmo o Império Assírio — que entrou em colapso no século 7 a.C. — utilizava a migração para consolidar o controle imperial.

Recentemente, o tema voltou a ganhar destaque em meio à crise de Ceuta, com alguns analistas levantando suspeitas de que o Marrocos pode ter facilitado o fluxo de dezenas de milhares de migrantes para o território espanhol no norte da África como uma forma de retaliação contra Madri, num contexto de tensões diplomáticas entre os dois países. Em 2021, em meio a um incidente similar, a ministra da Defesa da Espanha, Margarita Robles, acusou diretamente o Marrocos de "chantagem". Gonzci não descartou a possibilidade de que redes autônomas de contrabando estejam por trás dos túneis recém-descobertos na Lituânia, os quais as autoridades belarrusas não controlam totalmente. Ele acrescentou que Belarus e a Rússia têm utilizado a migração como arma para "desviar a atenção do Ocidente da agenda estratégica mais ampla do Kremlin e criar instabilidade ao longo do flanco oriental da Otan, alimentando tensões políticas e sociais dentro dos países europeus".

Os Estados que organizam tais operações — frequentemente regimes autoritários — desfrutam de uma vantagem estratégica inerente, ressaltou Gonzci. "O alvo é, geralmente, um Estado democrático que enfrenta um dilema fundamental: é preciso proteger a soberania garantindo a segurança das fronteiras e, ao mesmo tempo, cumprir as obrigações legais e os compromissos humanitários", disse ele.

<><> Países do Leste "demonstram resiliência”

No entanto, especialistas parecem concordar que os países do flanco oriental da UE têm tido um bom desempenho nesse aspecto. "Há uma cooperação e coordenação crescentes entre os países nórdicos, os bálticos e a Polônia, uma vez que essas nações enfrentam desafios semelhantes. Além disso, a missão Frontex da UE tem enviado equipamentos adicionais", afirmou Seselgyte. A Frontex tem a função de ajudar os países da UE e do Espaço Schengen a gerir as fronteiras externas, combater o crime transfronteiriço e coordenar operações de controlo fronteiriço. A Lituânia está recebendo, atualmente, apoio técnico de países vizinhos. "Estamos testando equipamentos de varredura poloneses, por meio dos quais conseguimos identificar espaços vazios no subsolo. Se essas ferramentas funcionarem bem, iremos adquiri-las e colocá-las em operação", explicou o general lituano Liubajevas.

 

Fonte: Por Carlos Hortmann, em Opera Mundi/BBC News Mundo/DW Brasil

 

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