O
que Ceuta nos revela?
Novamente,
pessoas pobres morreram no mar sonhando que a imigração lhes permitiria viver
melhor. E, mais uma vez, antes que saibamos os seus nomes, histórias e
motivações, somos bombardeados por termos-imagens como: “invasão”, “crise
imigratória”, “risco”, “perigo”, “controle de fronteira” e muitos outros. As
diversas classificações imediatas transformam uma crise fronteiriça concreta –
é isso que significa realmente – numa ameaça civilizacional ou numa crise de
imigração. Os jovens marroquinos, na sua grande maioria, deixam de ser
trabalhadores na condição de desemprego, filhos de uma sociedade profundamente
desigual e empobrecida, para se transformarem numa imagem: o
invasor que avança sobre a Europa (ainda no continente africano).
Ceuta
revela, em primeiro lugar, que os imigrantes se tornaram, cada vez mais e de
modo mais violento, um instrumento político a ser arremessado. Há fortes
indícios de que autoridades marroquinas facilitaram a mobilização de jovens
pobres, difundindo expectativas sobre documentos, trabalho e melhores condições
de vida. Isso precisa ser investigado com rigor, mas tudo aponta para algo
organizado em parceria com os EUA e sucedâneos. Temos um padrão político
conhecido: Marrocos atua como guardião externo da fronteira europeia,
reprimindo imigrantes quando interessa a Bruxelas e administrando a pressão
fronteiriça segundo os seus próprios objetivos diplomáticos e geopolíticos.
A
monarquia marroquina é profundamente autoritária e reacionária. Mantém relações
estratégicas com os Estados Unidos e Israel, ocupa o Saara Ocidental e
transforma a própria juventude empobrecida em instrumento de negociação nesse
tabuleiro político. Do ponto de vista interno, o Marrocos apresenta um
contraste brutal: de um lado, a riqueza concentrada em torno do palácio e da
família real; do outro, jovens desempregados, sem salários que garantam o
básico para sobreviver ou perspectivas de futuro, dispostos a arriscar a
própria vida numa travessia marítima.
Mas
Ceuta também expõe uma verdade que a Europa prefere ocultar: a permanência
neocolonial. Ceuta e Melilla estão no continente africano, embora sejam
apresentadas pelo vocabulário oficial como territórios espanhóis
“ultramarinos”. A mudança de nome não altera a história. Ceuta foi conquistada
por Portugal em 1415, no início da expansão mercantil e colonial europeia, e
permanece como enclave estratégico para o controle do Estreito de Gibraltar, da
circulação marítima, de mercadorias e de pessoas consideradas seres humanos de
“segunda categoria”, isto é, desumanizadas pelo racismo.
A
extrema-direita compreendeu perfeitamente a utilidade política dessa fronteira
e o modo como articula politicamente a lógica da fronteira/limite, o racismo e
a resposta das classes dominantes à crise. Desse modo, quanto mais a crise
capitalista empobrece a classe trabalhadora europeia, mais as classes
dominantes precisam ocultar o responsável pelo desemprego, pelos baixos
salários, pela crise habitacional e pela destruição dos serviços públicos – o
modo de relação social e de produção capitalista. A figura do imigrante
torna-se o bode expiatório perfeito. É nesse contexto que os
neofascistas se apresentam (falsamente) como defensores dos trabalhadores (só
que dos nacionais) que identificam viver um processo de empobrecimento
constante nos últimos anos. Tais movimentos e partidos políticos procuram
apresentar os trabalhadores imigrantes como uma das causas fundamentais da
crise permanente no continente europeu. Todavia, é preciso salientar sempre, a
tática neofascista tem como objetivo primeiro manter a acumulação do
capitalismo funcionando e ao mesmo produzir e deslocar o empobrecimento para
outras zonas ou pessoas do globo.
O
racismo sob o capitalismo é indispensável para essa operação política e
ideológica de desumanização. É preciso retirar dos imigrantes a condição de
pessoas, transformá-los numa massa indiferenciada, perigosa e sub-humana.
Depois disso, militarizar fronteiras, limitar garantias básicas, dificultar
documentos e aceitar mortes no Mediterrâneo passam a parecer medidas razoáveis
– não esqueçamos, Gaza foi um laboratório desse processo de dessensibilização.
Até partidos social-liberais incorporam progressivamente o vocabulário e as
práticas securitárias da direita. O governo de Pedro Sánchez condena,
corretamente, o genocídio em Gaza e adota posições menos reacionárias do que
outros governos europeus (pode ser de modo instrumental), mas no momento de
identificar o problema geopolítico e fronteiriço em Ceuta, recorreu à
categorização de “invasão” (legitimando a gramática da extrema-direita e da
retórica racista). Tenho insistido na análise de que vivemos um período de
neofascização, talvez essas ações e posturas sejam mais reveladoras do tempo
histórico em que vivemos do que da posição particular do governo
espanhol.
Há uma
contradição decisiva: o capitalismo europeu não sobrevive sem a força de
trabalho imigrante. Agricultura, construção, turismo, limpeza, logística, etc.,
dependem dela. A Europa precisa incluir esses trabalhadores na produção e,
simultaneamente, excluí-los da cidadania plena (política, social, econômica,
cultural, etc.). O neoliberalismo flexibiliza a mobilidade do trabalho, mas
endurece a documentação, a vigilância, a punição e o controle. O medo mantém os
imigrantes precarizados, politicamente frágeis e mais facilmente submetidos às
condições de superexploração.
Por
fim, Ceuta revela a força das imagens. As mesmas plataformas que difundem
rumores capazes de mobilizar milhares de jovens fazem circular vídeos
destinados a apresentá-los como ameaça. A imagem chega antes da explicação; o
medo, antes da razão. O neofascismo não precisa criar o acontecimento
diretamente, basta dominar a maneira como ele será visto socialmente.
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Os perfis no Instagram que espalham desinformação e
aplicam golpe em migrantes que tentam chegar a Ceuta
Neste
fim de semana, Mohammed quer ir do Marrocos para o enclave
espanhol vizinho de Ceuta, no extremo norte da África.Ele é um marroquino na casa
dos vinte anos de idade que quer emigrar para a Europa, principalmente porque
tem visto muitos vídeos no Instagram que fazem a travessia parecer fácil. Ele
contatou várias contas do Instagram e uma delas respondeu, alegando ter ajudado
"muitas pessoas" e oferecendo conselhos sobre como atravessar a fronteira por centenas de
dólares. Só que Mohammed não existe de verdade – ele é uma conta falsa que eu
criei para investigar uma rede de perfis no Instagram que estão
impulsionando o fluxo de migrantes para Ceuta com conteúdo inspirador e
oferecendo ajuda mediante pagamento.
Isso
ocorre depois que aproximadamente 78 mil imigrantes vindos do Marrocos chegaram
por mar a Ceuta em questão de horas no mês passado, 100 dos quais morreram,
segundo o prefeito de Ceuta. A crise se abrandou desde então, mas gerou tensões
entre as nações da União Europeia que partilham fronteiras abertas, bem como
críticas ao governo espanhol. A BBC identificou dezenas de perfis no Instagram
que disseram que fazer a curta travessia a nado ao redor da cerca da fronteira
entre Marrocos e Ceuta é algo seguro e fácil – mas, na realidade, pessoas se
afogaram tentando fazer a travessia e optaram por rotas muito mais longas. As
contas também mostram erroneamente Ceuta como uma rota viável para a Europa
continental.
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'Ajuda'
Após
interagir com os perfis e publicações das contas, a BBC foi adicionada a vários
canais e grupos do WhatsApp. Quando perguntei a uma das contas anônimas se
poderiam me ajudar a atravessar para Ceuta neste fim de semana, disseram que
sim e pediram "5.000 dirhams adiantados" (R$ 2,8 mil) por
"informações que me ajudarão a entrar em Ceuta". Eles disseram que já
tinham ajudado "muitas pessoas" a atravessar antes e que me dariam
informações sobre a tubulação de esgoto que eu poderia usar para chegar ao
enclave em segurança. A conta confirmou que muitos outros perfis do Instagram
ajudam pessoas a atravessar para Ceuta dessa forma e solicitaram pagamento
"via conta bancária" com um serviço específico de transferência de
dinheiro. Mas eles não responderam quando perguntei se eu receberia um
reembolso caso a travessia não fosse bem-sucedida. Desde então, eles apagaram
várias mensagens que enviaram para a conta.
O mesmo
perfil que deu esse conselho já havia dito à minha conta real do Instagram, da
BBC, que "isso não incentiva a imigração para Ceuta" — uma mensagem
que vários outros perfis repetem. E a situação continua: publicações nas redes
sociais, ativamente recomendadas pelo algoritmo do Instagram, anunciam mais uma
tentativa de travessia neste fim de semana. Isso aumenta o risco de mortes e
acirramento das tensões diplomáticas entre Marrocos e Espanha. Vários dos
perfis foram removidos do Instagram depois que a BBC entrou em contato com a
Meta, proprietária da plataforma. "Temos uma equipe monitorando a situação
em Ceuta em tempo real e removendo conteúdo que viola nossas políticas,
incluindo conteúdo que oferece, facilita ou busca serviços de tráfico de
pessoas", declarou a empresa.
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Por que a rede é importante
Percebi
pela primeira vez a enxurrada de conteúdo sobre Ceuta quando vi um vídeo viral
mostrando duas mulheres de roupa de mergulho caminhando pela cidade. Embora a
publicação original em espanhol buscasse dissuadir migrantes com a legenda
"Ceuta não aguenta mais", algumas versões compartilhadas por contas
marroquinas e de língua árabe alteraram a legenda ou a cortaram, de modo que o
vídeo mostrava apenas as mulheres caminhando livremente. Esta foi apenas uma
das centenas de publicações que classificamos como conteúdo "miragem"
— ou seja, que pintam um retrato enganoso de um lugar, distinto da realidade.
Alguns
vídeos mostram grupos de jovens, homens e mulheres, nadando alegremente no mar
— embora muitos tenham se afogado ao tentar fazer o mesmo percurso nas últimas
semanas. Outros relatos mostram histórias de pessoas que conseguiram chegar a
Ceuta e afirmam ter ido para a Espanha ou para a Europa continental, apesar de
cerca de 75 mil dos 78 mil recém-chegados terem sido devolvidos a Marrocos
pelas autoridades. Havia muitas semelhanças nos perfis que compartilhavam esse
tipo de conteúdo. Quase 40 deles tinham variações do termo "Haraga" e
incluíam Ceuta em seu nome ou apelido, frequentemente com uma bandeira
espanhola como foto de perfil e com os códigos de área de Marrocos e Espanha na
descrição.
Haraga,
em árabe, pode ser traduzido como "aqueles que queimam" e é usado
coloquialmente para se referir a migrantes que chegam a um novo local e queimam
ou destroem documentos para que não possam ser identificados e deportados de
volta para seus países de origem. O histórico dessas contas, juntamente com
suas postagens e seguidores, indicava que a maioria era administrada de
Marrocos, enquanto algumas possivelmente estavam baseadas na Espanha ou na
Itália. Muitas delas já existiam há vários anos, mas o conteúdo sobre Ceuta
ganhou mais visibilidade nas últimas semanas. Essas contas conseguiram
manipular os algoritmos das principais redes sociais compartilhando conteúdo
emotivo e otimista para ganhar mais visibilidade. Fontes internas das maiores
empresas de mídia social já me disseram que as postagens que provocam uma
reação forte têm maior probabilidade de se tornarem virais. Ao tentar contatar
alguns desses perfis usando minha própria conta, alguns deles me direcionaram
para os mesmos números de WhatsApp ou endereços de e-mail.
Minha
conta falsa, Mohammed, era um perfil privado, criado para se parecer com as
contas de jovens marroquinos que curtiam e comentavam as postagens que
anunciavam travessias. Eu seguia conteúdo relevante, incluindo vários perfis de
Haraga, e em pouco tempo meu feed ficou repleto de vídeos e conteúdo
incentivando viagens para Ceuta. Parece haver uma tendência mais ampla, em que
pessoas que tentam cobrar dinheiro de migrantes por conselhos conseguem
facilmente criar perfis e manipular os algoritmos das redes sociais. Embora já
existissem grupos no Facebook e contas em outras grandes redes sociais
publicando sobre Ceuta, foi no Instagram que encontrei o grupo mais ativo e
disseminado de contas interconectadas.O alcance recém-adquirido desses perfis,
facilitado pelos algoritmos do Instagram, os expõe a uma gama maior de clientes
pagantes. Este é mais um exemplo de como manipular um algoritmo pode gerar
danos no mundo real.
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Belarus está usando migração como arma de "guerra
híbrida"?
Migrantes estão
utilizando uma nova rota para conseguir entrar na Lituânia. E essa rota usa
túneis subterrâneos escavados ilegalmente para ultrapassar as cercas que
dividem o país, membro da União Europeia (EU) e da Otan, e a nação vizinha
de Belarus, governada por um
regime autoritário alinhado com a Rússia. Especialistas suspeitam que a presença dos túneis
possa ser uma indicação de que Belarus tem alimentado o trânsito de
migrantes para fomentar instabilidade política na Lituânia e na UE. A guarda de
fronteira da Lituânia afirma ter encontrado 12 desses túneis desde o início do
ano, todos próximos à fronteira com Belarus, alguns com extensões de até 25
metros no lado lituano. Suspeita-se que mais túneis existam.
A
fronteira da Lituânia com Belarus tem cerca de 700 quilômetros de
extensão, dos quais aproximadamente 550 quilômetros são separados por uma cerca. "Dispomos de
um sistema sísmico de solo capaz de detectar facilmente quando há um alto nível
de vibrações por um longo período", explicou à DW o general Rustamas
Liubajevas, comandante do Serviço Estatal de Guarda de Fronteira da Lituânia. "Então,
aguardamos [do lado de fora do túnel] a fase final da escavação e, quando os
migrantes saem, nós os detemos", disse ele, acrescentando que cerca de 40
migrantes já foram presos ao sair desses túneis.
A
Procuradoria da Lituânia confirmou à DW que está em curso uma investigação
preliminar envolvendo cerca de 20 pessoas suspeitas de escavar um túnel
ilegalmente. Possíveis acusações incluem também tráfico humano. Devido à
investigação, não são permitidas, no momento, visitas da imprensa aos locais. Liubajevas
demonstra surpresa com o fato de migrantes tentarem uma travessia subterrânea. "É
preciso muito esforço para escavar um túnel, e os migrantes são presos quase
imediatamente; no máximo, um pequeno grupo consegue passar", afirmou.
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O regime de Belarus está alimentando esse fluxo?
A
natureza elaborada dos túneis leva Liubajevas a acreditar que os migrantes não
estejam agindo sozinhos. "Eles não conseguiriam levar isso adiante
sem apoio logístico das autoridades belarrussas, pois precisam de muito
material, como madeira, para reforçar as paredes dos túneis", ressaltou
ele, acrescentando que Belarus parece querer "manter elevado o nível de
tensão na fronteira".
O
ditador de Belarus, Alexander Lukashenko, que está no poder
desde 1994 e que mantém um relacionamento estreito com o russo Vladimir Putin, nega que seu regime
esteja por trás desses fluxos migratórios para países vizinhos. Túneis de
migrantes semelhantes já haviam sido descobertos anteriormente na fronteira de
Belarus com a vizinha Polônia. Margarita Seselgyte, diretora do Instituto de
Relações Internacionais e Ciência Política da Universidade de Vilnius, na
Lituânia, compartilha as suspeitas do general Liubajevas. "Belarus
monitora sua fronteira muito de perto, e o país não faz parte da rota
migratória natural de migrantes do Afeganistão, do Irã ou do Sri Lanka",
disse ela à DW, acrescentando que o regime de Lukashenko deve ter, no mínimo,
feito vista grossa para qualquer atividade de escavação ocorrendo perto da
fronteira. Assim, Seselgyte vê os túneis como "um ataque híbrido para
gerar ansiedade em nossa sociedade". "Não existe vácuo no campo da
segurança. À medida que a Lituânia elimina vulnerabilidades e reforça a cerca
em sua fronteira, Belarus agora ajuda os migrantes a passar por baixo
dela", aponta.
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Um problema de longa data no flanco oriental da Europa
Para a
cientista política Seselgyte, o regime belarruso está auxiliando seus aliados
no Kremlin. A Rússia lançou sua invasão em larga escala da Ucrânia em fevereiro de 2022, em parte a partir
da Belarus, onde havia concentrado tropas sob o pretexto de exercícios
militares. "A Lituânia tem se manifestado de forma contundente sobre a
defesa contra a Rússia — tanto convencional quanto híbrida — nos âmbitos da UE
e da Otan, e eles querem silenciar essa voz causando caos em nosso país",
disse a cientista política. "O objetivo principal é, provavelmente,
enfraquecer o apoio à Ucrânia e romper a unidade europeia", acrescentou.
Linas
Kojala, diretor-executivo do think tank Centro de Estudos de Geopolítica e
Segurança, sediado em Vilnius, observou que os túneis têm o efeito de manter as
forças de fronteira lituanas ocupadas — mesmo que apenas alguns poucos
migrantes consigam passar. Ele descreveu os túneis como "apenas mais uma
fase do ataque de instrumentalização da migração que enfrentamos desde
2021". Foi nessa época que dezenas de milhares de migrantes cruzaram a
fronteira de Belarus para a Lituânia, a Polônia e a Letônia. À época, a União Europeia
classificou os eventos como uma "instrumentalização de migrantes com
patrocínio estatal na fronteira externa da UE", e acusou Lukashenko de
estar por trás do fluxo. Ainda na mesma época, as relações entre a UE e Belarus
atingiram um novo ponto baixo, após os europeus se recusarem a reconhecer o
resultado oficial da eleição presidencial belarrussa de 2020 por suspeita de fraude em larga escala
para manter o poder de Lukashenko. "Desde então, a Letônia, a Polônia, a
Lituânia e outros países reforçaram suas fronteiras externas, e conseguimos
reduzir a migração ilegal a um nível mínimo", disse Kojala à DW. Os
guardas de fronteira da Lituânia registraram 1.652 tentativas de entrada
irregular no país em 2025. No entanto, esse número não cairá para zero a menos
que Belarus lide com o problema do seu lado, segundo Kojala. "E isso é
improvável: Belarus está claramente tentando criar o maior número possível
de problemas."
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Migração como ferramenta de pressão
Belarus
não seria, de forma alguma, o primeiro país a utilizar a migração como
ferramenta de pressão estratégica, ressalta Robert Gonzci, analista do
Instituto de Pesquisa sobre Migração, sediado em Budapeste, na Hungria. "É
uma maneira de exercer pressão sobre outros países com custo e risco
relativamente baixos; desde a década de 1950, houve inúmeros casos documentados
de governos criando ou manipulando fluxos migratórios", disse à DW. Ele
acrescentou que até mesmo o Império Assírio — que entrou em colapso no século 7
a.C. — utilizava a migração para consolidar o controle imperial.
Recentemente,
o tema voltou a ganhar destaque em meio à crise de Ceuta, com alguns analistas levantando suspeitas de que o
Marrocos pode ter facilitado o fluxo de
dezenas de milhares de migrantes para o território espanhol no norte da
África como uma forma de retaliação contra Madri, num contexto de tensões
diplomáticas entre os dois países. Em 2021, em meio a um incidente similar, a
ministra da Defesa da Espanha, Margarita Robles, acusou diretamente o Marrocos
de "chantagem". Gonzci não descartou a possibilidade de que redes
autônomas de contrabando estejam por trás dos túneis recém-descobertos na
Lituânia, os quais as autoridades belarrusas não controlam totalmente. Ele
acrescentou que Belarus e a Rússia têm utilizado a migração como arma para
"desviar a atenção do Ocidente da agenda estratégica mais ampla do
Kremlin e criar instabilidade ao longo do flanco oriental da Otan,
alimentando tensões políticas e sociais dentro dos países europeus".
Os
Estados que organizam tais operações — frequentemente regimes autoritários — desfrutam
de uma vantagem estratégica inerente, ressaltou Gonzci. "O alvo é,
geralmente, um Estado democrático que enfrenta um dilema fundamental: é preciso
proteger a soberania garantindo a segurança das fronteiras e, ao mesmo tempo,
cumprir as obrigações legais e os compromissos humanitários", disse ele.
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Países do Leste "demonstram resiliência”
No
entanto, especialistas parecem concordar que os países do flanco oriental da UE
têm tido um bom desempenho nesse aspecto. "Há uma cooperação e coordenação
crescentes entre os países nórdicos, os bálticos e a Polônia, uma vez que essas
nações enfrentam desafios semelhantes. Além disso, a missão Frontex da UE tem
enviado equipamentos adicionais", afirmou Seselgyte. A Frontex tem a
função de ajudar os países da UE e do Espaço Schengen a gerir as
fronteiras externas, combater o crime transfronteiriço e coordenar operações de
controlo fronteiriço. A Lituânia está recebendo, atualmente, apoio técnico de
países vizinhos. "Estamos testando equipamentos de varredura poloneses,
por meio dos quais conseguimos identificar espaços vazios no subsolo. Se essas
ferramentas funcionarem bem, iremos adquiri-las e colocá-las em operação",
explicou o general lituano Liubajevas.
Fonte:
Por Carlos Hortmann, em Opera Mundi/BBC News Mundo/DW Brasil

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