Empresa
de energia renovável quer transformar pequena cidade da Bahia em quintal de
data centers
Da
praça central de Gentio do Ouro, no norte da Bahia, você vê o que existe em
quase toda pequena cidade do Brasil: a prefeitura, uma agência bancária, um
coreto e um letreiro com o nome do município. O que distingue a paisagem está
no horizonte: não importa para qual direção você olhe, verá cata-ventos
gigantes usados para gerar energia. O município entrou no mapa das turbinas
eólicas há 15 anos e, hoje, conta com 28 empreendimentos ativos, segundo dados
do Observatório da Transição Energética. Só que isso não faz de Gentio do Ouro,
nos arredores da Chapada Diamantina, um polo sustentável. Na praça central, a
escultura de uma pepita de ouro faz um aceno ao garimpo, forte na região. E
outra ameaça vem ganhando força longe dos olhos da população: um plano para
fazer da pacata cidade um quintal de data centers. Semelhantes a fábricas, essas estruturas
processam tudo o que é feito na internet – gastando muita energia, beneficiando
a poucos, empregando ainda menos e causando uma nova gama de impactos
ambientais.
Embora
tenha apenas 11 mil habitantes, Gentio do Ouro já é alvo de 12 pedidos para a
conexão de data centers à sua rede básica de energia. Quem lidera essa corrida
são as mesmas empresas que encheram a região de turbinas eólicas, impactando
biomas ameaçados e até atrapalhando o sono dos vizinhos desses empreendimentos.
A
proliferação de projetos de data centers ganha força no Nordeste por causa do
excedente de energia de fontes renováveis na região. À primeira vista, pode
parecer algo positivo. Mas, em vez de evitar que essa energia seja
desperdiçada, esses empreendimentos estão desestimulando investimentos em redes
de transmissão, que poderiam levar a produção para onde ela é realmente
necessária. Não é difícil de imaginar possíveis usos para essa energia: da
iluminação pública nas grandes cidades até a substituição da energia vinda de
fontes poluentes — alimentando carros elétricos, por exemplo. Em vez disso, as
turbinas que perturbam os moradores de Gentio do Ouro podem servir apenas para
atender à demanda excessiva dos data centers, que só deve crescer com a corrida
da inteligência artificial.
O
projeto de Gentio do Ouro tem à frente a Serena, empresa de energia renovável
que opera turbinas eólicas na região. O primeiro data center já foi instalado —
uma pequena unidade dentro do Complexo Eólico Assuruá — e outros dois estão
autorizados, segundo documentos aos quais o Intercept Brasil teve acesso. A empresa também pediu a autorização do
Ministério de Minas e Energia, MME, para instalar, pelo menos, mais nove data
centers na cidade. Segundo o Operador Nacional do Sistema, ONS, foi dado
parecer favorável à expansão, mas a Serena não seguiu com o processo dentro do
prazo – o que não significa que tenha desistido da ideia. O plano da Serena são data centers pequenos,
hospedados dentro de contêineres e focados em processamento de dados —
diferentes dos empreendimentos de hiperescala, como o do TikTok, no Ceará. Mas,
apesar de menores, os projetos de Gentio do Ouro, somados, poderão
alcançar 270 MW de capacidade instalada –
o equivalente a um data center grande. Nós procuramos a Serena e enviamos perguntas
sobre o plano e os projetos para instalar data centers em Gentio de Ouro. Não
houve resposta até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.
Gentio
do Ouro é apenas uma das muitas localidades para as quais empresas de energia
renovável estão levando o boom do desenvolvimento de IA. Uma análise exclusiva
do Intercept Brasil e Mongabay constatou que o setor de energia renovável
responde por 6 em cada 10 solicitações de conexão de data centers à rede
elétrica apresentadas submetidas até dezembro de 2025. Assim como Gentio do
Ouro, muitos dos municípios visados por essas empresas abrigam territórios
tradicionais, como quilombolas ou indígenas. Nossa análise identificou que 78%
dos municípios para os quais estão previstos data centers têm um dos tipos de
território protegido regularizado ou em regularização.
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Data centers gastam energia e empresas lucram mais
O
excedente de geração é uma ameaça para o lucro do setor energético. Essa
energia tem sido desperdiçada porque, do contrário, poderia desequilibrar a
rede, levando a apagões. Para evitar a sobrecarga, o ONS obriga as empresas a
desligar a produção, causando prejuízos. Um estudo mostra que o curtailment —
como é chamado o excesso de energia — fez o setor energético perder R$ 3,2
bilhões só no primeiro semestre de 2025. É aí que os data centers entraram na
história: consumidores vorazes de eletricidade, eles permitem conter as perdas
do setor sem que os empresários precisem colocar a mão no bolso para investir
em transmissão. A estratégia ganhou a simpatia até dos governos, pois ajuda a
pôr fim às reclamações do empresariado. “Os data centers nos interessam porque
eles são consumidores de muita energia”, admitiu Paulo Guimarães,
diretor-presidente da empresa pública de investimentos do Estado da Bahia, a
Bahiainvest, em entrevista ao jornal A Tarde.
Nem a
própria Serena esconde seu objetivo. Ao pedir ao MME para acelerar a liberação
dos data centers que quer conectar perto de suas usinas eólicas em Gentio do
Ouro, a empresa argumentou que “o projeto está estrategicamente posicionado em
uma região de sobreoferta de geração de energia elétrica, favorecendo um uso
mais eficiente da infraestrutura de transmissão”. “A gente poderia direcionar esse excedente de
energia para ações e iniciativas que, de fato, contribuam para o enfrentamento
das crises socioambientais”, critica Julia Catão Dias, advogada, ativista e
pesquisadora que tem se debruçado sobre a chegada de data centers ao Brasil nos
últimos anos.
E nem
precisava ir muito longe. Enquanto o plano de transformar Gentio do Ouro em um
quintal de data centers avança, muitos moradores locais sofrem com a falta de
luz. É o caso de Valmir Pereira de Carvalho, que vive na vila de Santo Inácio,
um distrito do município. “Na época da chuva, quando dá trovoada, tem vezes que
passa até três dias [sem energia]”, afirma o aposentado. A região onde ele mora
guarda tesouros. Uma caminhada de 10 minutos no meio de rochas leva ao sítio
arqueológico Cruzeiro I, registrado no Instituto do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional, o Iphan. Ali, Carvalho nos mostrou pinturas rupestres
avermelhadas. Só no município, há mais de 234 sítios arqueológicos
reconhecidos.
Na
década de 2010, Carvalho trabalhou para empresas de energia renovável na
prospecção de sítios arqueológicos que poderiam ser impactados pelas turbinas.
“Nós capturamos 22 mil peças históricas. Teve ponta de flecha, raspador, pata
de cavalo, porta de cerâmica, cachimbo, fogueira inteira”, afirma. Nada sobrou
para a região. “Está tudo lá em São Paulo. Era para ter ficado aqui”, diz o
morador, segurando o único registro desse patrimônio a que ainda tem acesso: um
folder com fotos dos sítios arqueológicos já apagadas pelo tempo, produzido por
uma empresa de consultoria ambiental.
À
semelhança do que ocorreu com os achados arqueológicos, muito pouco do
progresso prometido a Gentio do Ouro pelo avanço da tecnologia sobra para os
“vizinhos do vento” – como são chamados os moradores das comunidades próximas
às eólicas. A energia produzida na região já beneficia os arredores de São
Paulo — em novembro de 2025, a Serena anunciou parceria com a NextStream para
abastecer data centers da empresa, incluindo o localizado em Tamboré, no
município de Santana de Parnaíba.
Contratos para fornecer energia produzida na Bahia também foram firmados
com a Scala Data Centers, que desenvolve o projeto da AI City na cidade gaúcha
de Eldorado do Sul, e com a Odata — provedora de data centers que, na semana
passada, virou sócia da Serena em três eólicas na Bahia que sequer estão em
operação, segundo informações passadas ao Conselho Administrativo de Defesa
Econômica.
Embora
reconheça que a vila onde mora em Gentio do Ouro teve melhorias nos últimos
anos – incluindo a reforma de uma quadra poliesportiva e um salão de festas
bancados pela Serena –, Carvalho queixa-se que, recentemente, precisou pagar R$
400 na conta de luz pelo consumo de uma casa que não tem ar-condicionado nem
chuveiro elétrico onde vivem três pessoas. “Se eles distribuíssem para a gente,
para a gente não pagar a energia, eu achava que seria uma coisa muito boa”,
pontua.
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Um quilombo no meio do caminho
Existe
uma ponta solta na história de que os data centers estão chegando a Gentio do
Ouro apenas para aproveitar o excedente de energia. Como há sobreoferta de
energia, seria esperado que as empresas parassem de aumentar a produção. A própria Serena já declarou publicamente que
o momento é de “frear investimentos” por
conta do curtailment. Curiosamente, porém, a companhia está na última etapa de
licenciamento do Complexo Assuruá VI, que prevê a instalação de pelo menos 91
novas torres eólicas em Gentio do Ouro.
O caso reflete o risco de um ciclo vicioso: a instalação de data centers
está estimulando a construção de novos geradores eólicos, que atrairão mais
data centers, perpetuando a proliferação desenfreada de turbinas pelo interior
do Brasil.
No ano
passado, a então ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, já havia alertado
para o problema, considerando que o uso intensivo de energia para processamento
de dados “faz com que novas fontes sejam cada vez mais buscadas”. Na ocasião, o
MMA discutia com outras pastas como proteger o Brasil de uma “pressão
insustentável” relacionada ao tema. O MMA disse, em nota enviada ao Intercept,
que “mantém atenção ao tema na sua agenda de atuação para futuras políticas
para o setor” e citou as manifestações feitas em consulta pública sobre o
Redata, em outubro de 2025. A pasta disse ainda que data centers “estão
sujeitos ao marco regulatório ambiental vigente no país, incluindo a Política
Nacional de Recursos Hídricos, a Política Nacional de Resíduos Sólidos e a
Política Nacional de Meio Ambiente”.
Em
Gentio do Ouro, o Complexo Assuruá VI ocupará uma área de oito quilômetros
quadrados em uma serra próxima à BR-330. Ali do lado, a quatro quilômetros,
está a Comunidade Remanescente de Quilombo do Pacheco, território que recebeu a
certificação da Fundação Palmares em 2018 e aguarda a titulação do Instituto
Nacional de Colonização e Reforma Agrária, o Incra. Uma rua de terra liga a comunidade de uma
ponta a outra. As casas são enfileiradas lado a lado, e todos os moradores têm
algum grau de parentesco. Ali também se encontram uma pracinha recém-reformada,
a antiga escola local (desativada pela falta de alunos), a sede da associação
de moradores — e o barulho incessante da rotação de turbinas eólicas. Se
dependesse da Serena, o complexo Assuruá VI atravessaria o território do
quilombo por dentro. A empresa tentou fazer com que a comunidade assinasse um
documento autorizando o projeto. Prometeu pagar um valor pela instalação mais
uma mensalidade, mas os moradores não quiseram.
A
decisão ocorreu após as lideranças do Pacheco pedirem a ajuda da Comissão
Pastoral da Terra, a CPT, para analisar o contrato e ver se não havia nele
nenhuma “pegadinha”. Ligada à Igreja Católica, a entidade atua na defesa de
trabalhadores do campo e povos tradicionais.
“Em regra, os contratos são muito ruins, em todos os aspectos: no
jurídico, no financeiro, no político”, avalia Carivaldo Ferreira dos Santos,
agente e pesquisador da CPT-Bahia que acompanhou a comunidade. A Serena foi insistente nas negociações. “O
interesse deles era tão grande que eles fizeram muita proposta”, conta Damares
Teixeira, secretária da associação de moradores. Após cinco meses de idas e
vindas do contrato, com inúmeras modificações, a empresa deu um ultimato. Em
votação, a maioria da comunidade decidiu não assinar o documento. Uma das que votou contra a assinatura foi
Elexandra Torres Peixoto, tesoureira da associação. Ela acredita que o povoado
vai ser afetado de qualquer jeito pela expansão do complexo, mas o acordo com a
Serena poderia trazer o impacto dos aerogeradores para ainda mais perto das
casas.
Hoje já
existem turbinas instaladas no território do Pacheco, mas elas estão na região
que a liderança quilombola chama de “o outro lado”. Peixoto se refere à margem
oposta da rodovia BR-330, que corta o território do Pacheco ao meio, onde está
um complexo eólico operado pela Engie, gigante francesa do ramo da energia.
Como parte do processo de licenciamento desse empreendimento, a empresa
realizou um estudo antropológico sobre o povoado remanescente de quilombo, com
dezenas de entrevistas. A pesquisa deu origem a um livro, mas, segundo a os
moradores, apenas um exemplar ficou para a comunidade. Além dessa publicação,
os moradores também ganharam a reforma da pracinha que fica no meio do
vilarejo. Já o distúrbio causado pelas torres eólicas vai além do ruído
constante e começou já na instalação das torres. Embora as turbinas estejam na
parte do território que não possui casas, a detonação de explosivos para abrir
os acessos chegou a provocar rachaduras em moradias que ficam do outro lado da
rodovia, relatou a moradora Valdenir Alves de Souza.
Os
problemas continuaram mesmo após o início da operação, já que o parque eólico
está em uma área onde muitos moradores têm suas roças. “Meu pai planta mandioca no fundo dessas
torres. Aí os caititu [tipo de porco-do-mato], devido ao barulho, saíram do
habitat deles e destruíram a roça inteira”, conta Eloísa Cerqueira, presidente
da associação de moradores do Pacheco. Ela diz que levou o caso aos
representantes da Engie, “mas eles deram risada”. Em resposta aos questionamentos da
reportagem, a Engie disse que exemplares foram distribuídos no sarau de
apresentação do vídeodocumentário e do livro e que desconhecia “eventual
limitação de acesso à publicação e irá disponibilizar exemplares adicionais à
comunidade.” Sobre o impacto às roças, a empresa disse não identificou
registros nos canais de ouvidoria ou junto às equipes de campo.
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Chegando sem pedir licença
Ainda
que a maioria dos moradores de Gentio de Ouro não saiba, já existe um data
center em operação no município. Mas, como ele está conectado à uma subestação
elétrica que fica dentro do complexo eólico, só é visível do alto, em imagens
de satélite. O projeto ocupa menos de 1 hectare, é composto por seis módulos e
foi instalado entre julho de 2023 e julho de 2024 . Em breve, outros data
centers devem se unir ao empreendimento pioneiro, já que a Serena obteve
autorização do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos, o Inema, para
limpar o terreno, abrindo espaço para dois novos projetos. Cada um deles
ocupará uma área de cerca de 5 hectares antes coberta por vegetação nativa da
Caatinga, o bioma brasileiro mais frágil e vulnerável às mudanças climáticas. Todos esses projetos têm em comum o fato de
que não passaram por licenciamento ambiental, processo mais rigoroso do que a
mera autorização para desmatar a vegetação e manejar a fauna. Tampouco os
outros data centers que a Serena quer instalar em Gentio do Ouro.
Entre
os documentos apresentados pela empresa nos processos de autorização dos novos
empreendimentos, está uma carta de inexigibilidade de licenciamento concedida
pelo próprio Inema, que a livra de submeter seus projetos a análises de impacto
ambiental. Segundo Jefferson Araújo e
Marcelo Guimarães Costa, servidores da Coordenação de Infraestrutura, Energia e
Turismo do Inema, isso ocorreu porque, à época dos pedidos, o órgão ainda não
tinha regulamentação específica para a atividade de data center. Um decreto
regulamentando o licenciamento desse tipo de infraestrutura só foi aprovado
pelo órgão em fevereiro de 2026 e vale apenas para projetos apresentados a
partir desta data.
Na
Bahia, o porte dos data centers será definido a partir da área ocupada em
hectares. Projetos com menos de 10
hectares serão considerados de pequeno porte e submetidos ao licenciamento
unificado, em uma única etapa. Os três
data centers da Serena já autorizados pelo Inema somam uma área maior do que
essa, o que os enquadraria na categoria de empreendimentos de porte médio. No
entanto, como o processo de autorização foi fracionado em três partes, eles
escapariam de um licenciamento mais rigoroso mesmo pelas regras do novo
decreto. O Inema confirmou, em resposta
a questionamentos enviados pela reportagem, que a Serena possui carta de
inexigibilidade em relação aos outros dois data centers, mas que ainda não
ocorreu a ampliação. O órgão disse ainda que o data center em operação
atualmente usa água de poços artesianos “devidamente outorgados”, mas que a
empresa está “desmobilizando o referido data center para a instalação de um
novo empreendimento, com alteração da tecnologia de resfriamento dos
equipamentos para um sistema de circuito fechado, com utilização de fluidos
refrigerantes.” Leia a resposta na íntegra.
O
complexo de data centers que nasce sem análise de impacto ambiental está
situado na área de proteção da Lagoa de Itaparica, um corpo d’água de 24
quilômetros de extensão do qual as comunidades da região dependem para a pesca. “É uma lagoa que requer atenção por ser um
corpo d’água frágil, apesar da extensão. Ela é uma área de uma planície de
inundação”, explicou Roberto Rivelino, secretário de Meio Ambiente e
Desenvolvimento Sustentável de Xique-Xique, cidade vizinha a Gentio do Ouro, e
integrante do Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco. Nós questionamos o
Inema sobre isso, mas não houve resposta.
Ponto
mais crítico da pegada ambiental dos data centers, o uso de água e energia por
essas infraestruturas têm relação inversamente proporcional: data centers que
usam menos água gastam mais energia. O consumo de energia para resfriamento
também é afetado pela temperatura
exterior — um ponto de atenção quando se considera a instalação de data centers
no Nordeste, onde as temperaturas costumam ser mais altas. “Durante períodos de calor, temperaturas
ambientes mais elevadas podem reduzir a eficácia da rejeição de calor a seco e
exigir maior potência dos ventiladores, maior potência do compressor ou outro
suporte de resfriamento mecânico”, escreveram pesquisadores de data centers da
Universidade da Califórnia em Riverside, da Universidade do Texas em Arlington
e do Instituto de Tecnologia da Califórnia em um artigo de maio de 2026. Mas
quem pensa na chegada dos data centers apenas pela lógica da energia se arrisca
a repetir o argumento das empresas de renováveis, alerta Rárisson Sampaio,
advogado e consultor que faz assessoria nas áreas socioambiental e de transição
energética para o Instituto de Estudos Socioeconômicos, o Inesc. “Se você pauta
a chegada desse tipo de empreendimento unicamente pensando em energia, já está
errado o debate, porque você tem que olhar para toda a questão cumulativa, de
uso de água, de impacto territorial”, explicou. “Nada disso é considerado,
porque está sendo visto unicamente como uma moeda de troca para o setor
[energético]”, completou.
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Pagando o preço do ‘progresso’
Nenhum
morador que conhecemos em Gentio do Ouro tinha ouvido falar do plano de
instalar data centers na cidade até ser questionado por nós. “É o meu primeiro
contato com essa palavra, e saber que já tem prescrito aqui para perto da gente
me preocupa muito”, afirma a quilombola Damares Teixeira. “A tecnologia é boa,
mas muitas vezes ela prejudica também”, completa. Parte do ceticismo vem da própria experiência
que esses moradores tiveram com a indústria eólica — que prometeu muito para os
municípios, mas entregou pouco. “Gentio
do Ouro hoje era para ser a cidade dos sonhos, uma princesa. No entanto, a
gente não vê isso”, reclama Claudia Oliveira, vereadora do município pelo PSD e
integrante da comunidade Pacheco, sobre as promessas que acompanharam a chegada
das eólicas em 2009. “Nós temos hoje
diversos prejuízos no município por falta de organização, de orientação, de
planejamento”, acrescentou. Um dos problemas mais latentes, segundo ela, é a
falta de oportunidades para jovens e a falta de investimentos em capacitação
para que os trabalhadores locais possam atuar nos empreendimentos.
Assim
como ocorre com os data centers, projetos eólicos geram empregos durante a
construção, mas demandam poucos trabalhadores após o início da operação. O
impacto econômico para os municípios, portanto, é temporário. A expansão dos complexos ou a construção de
novos empreendimentos eólicos enchem a cidade de trabalhadores, muitos de fora.
Quando a obra é concluída, essas pessoas vão embora. Mas o impacto dessas ondas
migratórias podem perdurar. Isso se
sente, por exemplo, no setor imobiliário da comunidade. A chegada dos
trabalhadores aumenta a procura por casas na sede de Gentio do Ouro. Com isso,
aluguéis que costumavam custar R$ 500 ou R$ 600 chegam a R$ 2 mil, R$ 3 mil. O
problema é que os preços não retornam aos patamares anteriores depois que a cidade
esvazia. O esquema inflacionário se estende para as compras em supermercados e
restaurantes. “Quando a empresa estava, subiu o preço de tudo. Eles foram
embora e permaneceu [caro] para a gente, o que acabou complicando”, contou
Damares. Com a possível expansão de
Assuruá VI, a expectativa é que o movimento se repita. “Se vier a expansão,
certamente virá outra levada de gente de fora, porque aqui não há mão de obra
qualificada”, avalia a vereadora Claudia Oliveira, que também se queixa que o
aumento da arrecadação de impostos pelo município durante essas ondas não se
reverteu em investimentos para a população.
A
instalação de eólicas é subsidiada por uma combinação de isenções de impostos
nos níveis federal e estadual e financiamentos subsidiados com dinheiro
público. Em maio do ano passado, a Superintendência de Desenvolvimento do
Nordeste, a Sudene, liberou um aporte de R$ 8,6 milhões para a implantação de
quatro usinas do Complexo Assuruá V, da Serena, que já havia recebido R$ 556,4
milhões em crédito da Sudene. Enquanto
isso, em municípios como Gentio do Ouro, as contas não fecham. Segundo dados do
Tribunal de Contas do Estado da Bahia, em 2025, a cidade arrecadou R$ 27,3
milhões, mas só os gastos locais com saúde e educação totalizaram R$ 45,9
milhões. O município recebeu R$ 62,4 milhões em transferências de recursos para
cobrir as despesas. Perguntamos sobre isso à prefeitura de Gentio de Ouro, mas
não houve resposta. Questionada se houve alguma melhoria desde o boom das
eólicas, a moradora Valdenir balançou a cabeça. “Nada mudou. Entra prefeito,
entra outro, é a mesma coisa”, disse. Em termos de empregos, ela diz que nem
dez pessoas foram contratadas na comunidade, e os que conseguiram oportunidades
atuaram como vigias, motoristas ou ajudantes de construção civil.
Como os
incentivos fiscais variam por município e estado, não há estudos que
dimensionem o tamanho dessa renúncia de impostos. Mas ela implica,
invariavelmente, na redução de receita para as localidades, explica Rárisson
Sampaio.O assessor do Inesc também lembra de que não há transparência na
distribuição desses incentivos nem garantias de que eles beneficiarão as
comunidades e territórios atingidos pelos investimentos. O Intercept tentou conversar com Cicero Elizeu
Oliveira da França, prefeito de Gentio do Ouro, mas ele não quis receber a
reportagem. Nós procuramos a administração municipal, mas não houve resposta
aos nossos questionamentos enviados por e-mail. O espaço segue aberto.
Fonte:
Por Laís Martins, em The Intercept

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