Polônia
ergue maior estátua da Virgem Maria da Europa
Na
paisagem idílica e plana entre campos de cereais, prados e um lago, uma
monumental estátua de Maria ergue-se em direção aos céus da Polônia. Por causa
dela, o até então desconhecido povoado de Konotopie, com apenas 120 habitantes
e a 160 quilômetros da capital Varsóvia, está há semanas no noticiário.
O
monumento de mais de 55 metros de altura supera a famosa estátua do Cristo
Redentor, no Rio de Janeiro, que mede 38 metros com o pedestal. A estátua
branca tem 40,6 metros e está sobre uma base de 15 metros em forma de coroa,
que deverá funcionar como mirante.
A
inauguração oficial será neste sábado (15/08), na festa católica da Assunção de
Nossa Senhora. Embora as obras finais ainda estejam em andamento e a área
permaneça cercada e sob vigilância, milhares de visitantes, entre peregrinos e
curiosos, já passaram pelo local nos últimos meses.
O
projeto divide os poloneses.
"Um
pesadelo. Um grande zero. Em vez de investir esse dinheiro em projetos úteis,
financiaram uma montanha gigantesca de concreto", afirma um crítico na
revista semanal Newsweek.
"Essa
Maria é lindíssima. Todo o respeito. Um feito fantástico", diz uma
visitante devota citada pela revista semanal conservadora Sieci.
<><>
Obra bancada por bilionário polonês
O
idealizador da estátua, Roman Karkosik, de 75 anos, nasceu num vilarejo vizinho
e hoje é uma das pessoas mais ricas da Polônia. Há quase 40 anos, quando o
capitalismo substituiu a economia socialista de escassez, o formado em uma
escola técnica começou trabalhando como bartender. Mais tarde, comprou sucata,
produziu refrigerantes e tornou-se o primeiro empresário no país a fabricar
garrafas plásticas.
Karkosik
ganhou notoriedade na Bolsa de Varsóvia. Alguns jornalistas comparam sua
influência na Polônia à de Warren Buffett em Wall Street. Sua fortuna é
estimada em 1,9 bilhão de zlotys (R$ 2,6 bilhões), o que o coloca no 44º lugar
na lista dos poloneses mais ricos da revista Wprost. O empresário vive em um
castelo do século 18 na cidade de Kikol, a apenas dois quilômetros de
Konotopie.
Karkosik
e sua esposa, Grazyna, evitam aparições públicas e contato com a imprensa. O
custo da escultura também é mantido em segredo. A mídia especula que a obra
possa ter custado 100 milhões de zlotys (R$ 139,5 milhões).
Segundo
uma breve declaração do casal Karkosik, a estátua de Maria é um "gesto de
gratidão". De acordo com a imprensa, o empresário profundamente religioso
queria agradecer à Virgem Maria por sua recuperação após uma doença grave. Seus
dois irmãos, também empresários bem-sucedidos, adoeceram e morreram
prematuramente.
Já em
2011, Karkosik financiou a construção de uma igreja em um centro de
peregrinação próximo, onde existe uma capela na floresta com uma Pietà do
século 19.
O
artista por trás da estátua da Virgem é Adam Jakub Matejkowski. Ele diz ter se
inspirado no olhar de sua filha de 11 anos e no rosto delicado da própria
esposa para conceber o esboço, e aprovou o resultado final.
"A
Mãe de Deus abre os braços para nos acolher", disse, satisfeito, à
imprensa polonesa. "Era exatamente isso que eu queria: que a figura
tivesse um caráter humano, que viesse ao nosso encontro."
<><>
Impulso à economia local
A área
ao redor de Konotopie está entre as regiões economicamente mais frágeis da
Polônia. Não há indústrias nem empregos suficientes. Por isso, a expectativa é
que a estátua de Maria atraia turistas e impulsione a economia local.
A
Polônia é conhecida por suas monumentais estátuas cristãs. Após a transição
democrática de 1989, foi construída em Lichen, no centro do país, uma
gigantesca basílica que supera em tamanho as catedrais de Paris e Colônia. O
templo tem 138 metros de comprimento, 77 metros de largura e uma cúpula com 35
metros de diâmetro. A construção comporta até 20 mil fiéis.
Desde
2010, a Polônia também é sede da maior estátua de Jesus do mundo. Ela fica na
cidade de Swiebodzin, perto da fronteira com o estado alemão de Brandemburgo,
tem 36 metros de altura e está sobre uma colina de quase 17 metros.
<><>
Igreja Católica em declínio também na Polônia
Há
incerteza sobre se essas construções gigantescas conseguirão deter o processo
contínuo de secularização da sociedade polonesa.
Embora
a Polônia continue sendo um dos países mais católicos da Europa, a confiança na
Igreja Católica vem diminuindo constantemente.
A fé
católica foi, durante séculos, um elemento fundamental da identidade polonesa.
No século 19, quando a Polônia estava sob domínio de potências estrangeiras, a
religião desempenhou um papel central na resistência contra os protestantes
prussianos e os russos ortodoxos.
Após a
Segunda Guerra Mundial, a oposição anticomunista e a Igreja Católica uniram
forças contra a ditadura comunista, apesar das divergências. As igrejas
tornaram-se refúgio para dissidentes perseguidos pelo regime, e vários padres
foram assassinados pelos serviços secretos. O papa polonês João Paulo 2º também
teve um papel importante na luta contra a ditadura.
Desde a
transição democrática de 1989, porém, a Igreja Católica na Polônia vem
enfrentando uma crise semelhante à observada em outras partes da Europa.
Segundo
uma pesquisa do instituto polonês Ibris, realizada em setembro de 2025, apenas
35% dos poloneses ainda confiavam na instituição, contra 58% em 2016. Já a
desconfiança aumentou de 24% para 47%.
Em
2026, o número anual de ordenações sacerdotais na Polônia caiu pela primeira
vez desde 2000 para menos de 200. E cada vez menos pessoas vão à igreja,
principalmente os jovens. Essa tendência, ao que tudo indica, não poderá ser
revertida nem mesmo por uma gigantesca Virgem Maria.
Fonte:
DW Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário