Considerações
sobre a política climática
As
emissões de gases de efeito estufa geradas pelas atividades humanas são a
principal causa da mudança climática e continuam aumentando, apesar de décadas
de negociações internacionais, avanços tecnológicos e políticas de mitigação. O
ano de 2024 foi o mais quente desde o início dos registros e o primeiro ano
civil com temperatura média global superior a 1,5° C em relação ao período
pré-industrial. Em 2025, mesmo com uma temperatura inferior à de 2024, o
planeta permaneceu cerca de 1,43° C acima da média de 1850–1900.
Segundo
estimativas do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, a continuidade
do aumento das emissões pode conduzir a um aquecimento de aproximadamente 3,1°
C ao longo deste século. Limitar o aquecimento global exige reduções rápidas,
profundas e sustentadas dessas emissões, o que pressupõe transformar os
sistemas de energia, transporte, produção e consumo e reduzir drasticamente a
dependência de combustíveis fósseis. A lentidão dessa transformação está
ligada, entre outros fatores, a conflitos sobre quais atividades serão
restringidas, quais setores receberão investimentos e como serão distribuídos
seus custos e benefícios.
Esse é
o ponto de partida de Growth, democracy, or climate action? The new political
trilemma of advanced capitalism, livro recém-publicado por Aidan Regan, Hanna
Schwander, Cyril Benoît e Tim Vlandas, ainda sem tradução para o português. Os
autores argumentam que as democracias capitalistas avançadas enfrentam um
trilema entre três objetivos incontornáveis: crescimento econômico,
legitimidade democrática e ação climática efetiva. Um trilema é um problema com
três opções em que se pode escolher apenas duas delas, pois não é possível
obter as três ao mesmo tempo. Nesse sentido, os governos conseguiriam conciliar
dois desses objetivos, mas dificilmente realizariam os três ao mesmo tempo.
A
distribuição das emissões revela a dimensão dos conflitos envolvidos na
transição. Os países ricos respondem por mais de 80% das emissões históricas de
dióxido de carbono, enquanto populações de países que pouco contribuíram para o
problema sofrem suas consequências mais graves. Os 10% mais ricos da população
mundial produzem quase metade das emissões, e os 50% mais pobres, menos de 10%
delas.
Viagens
aéreas frequentes, uso de SUVs, casas com elevado consumo de energia e outros
hábitos intensivos em carbono estão concentrados entre os grupos mais ricos. As
populações de baixa renda emitem menos, mas sofrem mais com ondas de calor,
insegurança alimentar, aumento do preço da energia, moradias precárias e
eventos extremos. Essa disparidade não resulta apenas das decisões individuais
dos consumidores, mas reflete diferenças de renda e patrimônio, padrões
urbanos, sistemas de transporte, matrizes energéticas e formas de organização
da produção.
As
desigualdades também aparecem nos efeitos das políticas climáticas. Um imposto
sobre combustíveis pesa de maneira diferente sobre uma família rica de uma
grande cidade, com várias alternativas de transporte, e sobre um trabalhador
que vive em uma área rural ou periférica e depende diariamente do automóvel. O
fechamento de uma indústria intensiva em carbono pode reduzir emissões e
destruir empregos em uma região sem alternativas econômicas. Subsídios à compra
de veículos elétricos podem beneficiar principalmente quem já possui renda
suficiente para adquirir um carro novo.
O
trilema apontado por Regan, Schwander, Benoît e Vlandas descreve três situações
possíveis. A manutenção do modelo atual preserva o crescimento econômico e
algumas formas de consentimento democrático, enquanto posterga a redução de
emissões na escala necessária. Um “grande Estado verde” poderia combinar
crescimento e descarbonização por meio de intervenções rápidas, embora corresse
o risco de reduzir a participação democrática e impor custos sem o
consentimento dos grupos afetados.
Já o
decrescimento buscaria conciliar democracia e limites ecológicos mediante a
redução planejada da produção e do consumo material nos países ricos, mas
careceria de uma base política capaz de sustentá-lo. Isso porque o
decrescimento exige uma contração deliberada da economia em sistemas nos quais
os partidos competem prometendo prosperidade, os eleitores punem governos em
períodos de dificuldade econômica e os interesses organizados lutam para
preservar seus ganhos.
O
crescimento continua ligado ao emprego, à arrecadação tributária, ao
financiamento dos serviços públicos e às expectativas de melhoria das condições
de vida. É também uma das principais fontes de legitimidade das democracias
capitalistas. Na ausência de crescimento, as disputas distributivas tornam-se
mais explícitas, pois a melhoria da situação de um grupo depende mais
diretamente da redução da parcela apropriada por outro. Isso poderia favorecer
uma redistribuição mais profunda da riqueza, mas também intensificar conflitos
e produzir reações autoritárias. Para os autores, o diagnóstico ecológico do
decrescimento é consistente, porém sua teoria política é frágil.
A
formulação do trilema é deliberadamente provocativa. Nem toda política
climática envolve uma escolha direta entre os três objetivos, e há medidas
capazes de produzir benefícios econômicos, sociais e ambientais
simultaneamente. O mérito do argumento está em questionar a expectativa de que
essas soluções parciais bastarão para conduzir toda a transição. À medida que
as mudanças exigidas se tornam mais profundas, os conflitos entre interesses
sociais dificilmente poderão ser evitados.
Durante
as últimas décadas, muitos governos tentaram evitar essas disputas ao delegar
aos mercados e aos especialistas a condução da transição e apostar nas
inovações tecnológicas. Apesar do crescimento da geração de energia por fontes
renováveis, do armazenamento por baterias e do uso de veículos elétricos, a
transformação permaneceu muito aquém da escala necessária e as emissões globais
continuaram aumentando.
Essas
tecnologias são componentes indispensáveis da transição, mas não determinam sua
velocidade ou escala, nem decidem como seus custos serão financiados, onde
serão instaladas novas infraestruturas, quais trabalhadores receberão proteção
ou quem controlará os benefícios econômicos. Essas escolhas dependem de
decisões políticas, enquanto os investimentos privados permanecem subordinados
à rentabilidade.
Por
essas razões, Regan, Schwander, Benoît e Vlandas defendem a recuperação da
capacidade estatal de planejamento econômico, enfraquecidas ao longo das
últimas décadas pelo predomínio de políticas neoliberais. Isso significa
estabelecer prioridades, direcionar investimentos, coordenar setores produtivos
e regular o sistema financeiro de modo a orientar o crédito para a
descarbonização. A transformação dos sistemas de energia, transporte, habitação
e produção industrial exige um Estado capaz de reorganizar a economia numa
escala que mecanismos dispersos de mercado dificilmente alcançariam.
A
alternativa não se resume a escolher entre Estado e mercado. Os mercados operam
dentro de instituições políticas, e o Estado já desempenha um papel decisivo na
definição dos investimentos, riscos e oportunidades econômicas. A questão
relevante diz respeito aos interesses que orientarão sua capacidade de
intervenção. O fortalecimento da capacidade estatal também suscita uma disputa
sobre esses interesses.
Ao
conduzir a transição de cima para baixo, um governo pode conceder subsídios
públicos a empresas sem exigir contrapartidas, elevar o preço da energia e
deixar sem apoio regiões dependentes de atividades poluentes. Esse tipo de
transição reforça a percepção de que as elites preservam seus privilégios
enquanto transferem os sacrifícios para os demais.
Essa
percepção oferece terreno fértil para a extrema direita. O negacionismo
climático se alimenta da rejeição à ciência, mas também explora inseguranças
materiais, ressentimentos contra instituições e experiências de abandono
econômico. Quando as forças democráticas tratam a transição como uma questão
exclusivamente técnica, deixam sem resposta a pergunta política decisiva sobre
quem pagará por ela.
Para os autores de Growth, democracy, or
climate action?, o trilema permanece sem solução definitiva, embora suas
tensões possam ser atenuadas pela via democrática. Nessa proposta, a contração
da atividade econômica decorrente do decrescimento recairia sobre os mais
ricos, principais responsáveis pelas emissões e maiores beneficiários da
economia intensiva em carbono.
Para o
restante da sociedade, a transição deveria trazer ganhos materiais, como a
criação de empregos, a redução do custo da energia, a melhoria do transporte
público e maior segurança econômica. Uma garantia de emprego vinculada à
transição, com o Estado funcionando como empregador de última instância e
financiada por impostos sobre o carbono cobrados progressivamente dos mais
ricos, é um exemplo de política capaz de tornar esse ganho tangível.
É essa
combinação de políticas que os autores chamam de “decrescimento para os ricos e
crescimento verde para o resto”. Sua realização depende da formação de
coalizões sociais capazes de enfrentar tanto os interesses ligados aos
combustíveis fósseis quanto as tentativas de transformar a economia verde em
outra fonte de concentração de renda e poder. Nesse sentido, o papel dos
partidos políticos seria fundamental.
Concordo
com esse diagnóstico e com a orientação geral proposta pelos autores. A
democracia, contudo, não garante por si só uma transição justa, pois decisões
majoritárias também podem transferir os custos para grupos socialmente
vulneráveis e preservar privilégios.
A
fórmula do “decrescimento para os ricos e crescimento verde para o resto”
constitui um bom ponto de partida, mas precisa ser sustentada por princípios de
justiça que distribuam os encargos de acordo com a responsabilidade pelas
emissões, a capacidade econômica e os benefícios obtidos com atividades
emissoras, ao mesmo tempo que protejam as necessidades básicas e as
perspectivas dos menos favorecidos.
Para
que a proposta adquira viabilidade política, esses princípios precisam
incorporar-se à cultura política das sociedades democráticas, às demandas dos
movimentos sociais e aos programas partidários que orientarão a atuação dos
governos eleitos.
Após
décadas de atraso no enfrentamento efetivo da crise, os conflitos em torno da
transição ocorrerão inevitavelmente sob a pressão de eventos extremos e
desigualdades profundas, com cada vez menos tempo para reduzir as emissões. Seu
rumo definirá quem controlará os investimentos, quem receberá proteção diante
dos choques econômicos e quais grupos participarão das decisões sobre o futuro.
Em
algum momento, a transição para a descarbonização terá que ser planejada. Resta
saber se esse planejamento ficará nas mãos do poder econômico de poucos ou sob
o controle democrático da sociedade.
Fonte:
Por Ulysses Ferraz, em A Terra é Redonda

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