Diatribes
contra o PT
Eduardo
Luiz Zen publicou no site A Terra é Redonda um texto sobre o PT que
gerou bastante debate, dadas as consequências políticas de seus argumentos –
resumidamente: o petismo estava fadado ao neoliberalismo por suas origens. O
que indica, ao menos, que o tema é candente. Afinal, como foi que o PT, que
propunha superar os erros de todas as experiências pretéritas da esquerda,
terminou domesticando-se a ponto de protagonizar governos cada vez mais
parecidos com qualquer centro-esquerda europeia, sem perspectiva de
transformações profundas e puramente reativos à ameaça da extrema-direita? A
era dos programas ficou no passado: hoje a política progressista é concebida
como freio de contenção contra o ímpeto fascistoide.
Há,
contudo, outro motivo para a repercussão: o texto confirma as convicções
prévias de quem avalia o surgimento do PT como um erro histórico. Poucas
experiências são mais satisfatórias do que ver as próprias crenças corroboradas
por outrem. Militantes de organizações concorrentes à época, ao confabularem
que a história teria sido outra sem o partido de Lula, deleitam-se com a
própria imagem refletida: “é isso! Nós sempre estivemos certos! O PT nos roubou
a chance!”.
O
problema do contrafactual histórico é dar asas à imaginação. O que permite
concluir que, não fosse a hegemonia petista, haveria uma esquerda brasileira
muito mais combativa ao neoliberalismo em plena crise do socialismo, desmonte
da URSS e embarque da social-democracia na canoa furada da “third way“? Vale
lembrar o espírito da época: François Mitterrand, eleito com um programa
radical que envolvia até a nacionalização do sistema financeiro, termina
responsável pelo avanço do neoliberalismo na França.
Quais
outros partidos de massa, em países de importância considerável ao Brasil,
tiveram êxito com uma política à esquerda do petismo no pior período do mundo
do trabalho desde que este virou força política real? O Brasil estava na
contramão da história – não à toa era lido assim pela esquerda europeia em
busca de inspirações -, o que explica ter protagonizado iniciativas como o Foro
de São Paulo, criação conjunta do PT e de Cuba para resistir àqueles tempos
bicudos.
A
comparação interna também tem dificuldade em rastrear alternativas superiores.
O trabalhismo não produziu frutos muito saudáveis (de Paulinho da Força a
Anthony Garotinho): é difícil achar vício vigente no PT atual que esteja
ausente no partido fundado por Leonel Brizola, enquanto o mesmo não ocorre com
as virtudes. O PCB, nos anos 1980 já uma força muito mais recuada que o petismo
(chegou a se opor à greve geral de 1983, um dos estopins para a migração do
grupo de David Capistrano Filho rumo ao PT), deu origem ao PPS, dificilmente um
exemplo de trajetória positiva. O MR-8 tornou-se um pequeno grupo dentro do
radicalíssimo PMDB de Michel Temer, chegando a apoiar a Lava-Jato antes de se
integrar ao PCdoB.
Na
realidade, não há nada de surpreendente na história do petismo. É a trajetória
padrão de partidos socialistas oriundos do movimento operário que concentraram
suas energias no crescimento eleitoral e institucional, como notou o
historiador Lincoln Secco, em seu importante livro sobre a história do PT, ao
compará-lo à social-democracia europeia.
O
partido social-democrata alemão, modelo de organização e teoria marxista até
para Vladímir Lênin antes de degringolar com o apoio aos créditos de guerra em
1914, é o “pai fundador” prototípico: as pressões adaptativas são inerentes ao
parlamento, aos governos executivos e ao próprio sindicalismo, cuja matriz é
reivindicativa e integrativa, não revolucionária, como Vladímir Lênin já
alertara em Que Fazer diante da experiência das trade-unions
britânicas.
Mais
tarde, o Partido Comunista Italiano, que tanta admiração suscitou mundo afora
(inclusive em Lula), entrou em bancarrota melancólica. O PDS, originado de seu
desmantelamento, estava bem à direita do PT nos anos 1990. Ou seja, nem
partidos munidos de anticorpos mais sólidos que os do PT, por virem da
inspiração da Revolução de 1917 e da III Internacional, preservaram-se dos
efeitos corrosivos do jogo eleitoral – e olha que sequer chegaram à chefia do
governo nacional! Seria justo responsabilizar Friedrich Engels e Antonio
Gramsci pelo desfecho? Se o PT escapasse de tal sina, seria um fenômeno
realmente inédito na história mundial.
O
texto, contudo, apresenta diagnósticos pertinentes. A “relação profundamente
negativa com a história brasileira” é mesmo característica do discurso inicial
do PT. Tal arrogância impediu o partido de pensar suas semelhanças e diferenças
com a esquerda pretérita: trabalhismo, comunismo reformista do Partidão,
nacional-desenvolvimentismo. E há uma lei infalível na história: o que não é
pensado volta como sintoma – velhos hábitos e esquemas mentais são repetidos
inconscientemente (ao contrário da suposta “superação” autoproclamada) e
impede-se o balanço tanto dos limites quanto dos aspectos positivos dessas
experiências.
Ocorre
que, mesmo quando capta algo verdadeiro, o autor dissolve o grão de real em um
ácido confuso: a demarcação contra essas tradições explica-se muito mais pela
necessidade prática de lidar com seus fracassos (afinal, não houve o golpe de
1964?) e de demarcar contra rivais no movimento operário e social (toda força
ascendente que busca superar uma tradição sedimentada recorre à polêmica,
inevitavelmente injusta) do que pela influência da onipotente “intelectualidade
uspiana”, cuja hipóstase indica bem as tendências pouco materialistas de sua
análise. Voltaremos a esse método que atribui às ideias papel demiúrgico na
história – lembrando os “jovens hegelianos” de A Ideologia Alemã.
O mesmo
ocorre com outro aspecto importante visado por Eduardo Luiz Zen: houve, de
fato, uma mania “basista”, na falta de termo melhor, na cultura da esquerda dos
anos 1980. E não era restrita ao PT: vejam as formulações dos “renovadores”
gramscianos do PCB. Nessa visão de mundo, o Estado era o mal e a sociedade
civil, o bem. Desse maniqueísmo à promoção do Terceiro Setor como solução da
gestão pública há continuidade quase natural.
O culto
à descentralização influenciou a Constituição de 1988 – marcada por
municipalismo excessivo – e o abandono progressivo, pela esquerda, de qualquer
projeto coletivo mais sólido que o mero atendimento de demandas esparsas de
movimentos segmentados. Só que um materialismo elementar lembraria a razão
comezinha para tal estado de coisas (além da conjuntura internacional: mesmo
Estados “nacionalistas” passaram por reformas liberais abrangentes): era
necessário enfrentar a ditadura militar e sua cultura centralizadora.
Alguém
já viu um movimento popular contra o Estado (em regra é assim que todo
movimento popular emerge) desenvolver carinho pelo alvo que combate? É
simplificador equiparar a crítica ao Estado vinda dos movimentos populares –
afinal, o marxismo não nasce defendendo o definhamento paulatino do Estado? –
ao neoliberalismo, mesmo havendo paralelos. Lembra o procedimento, comum entre
os guerreiros da Guerra Fria, de igualar comunismo soviético e nazismo pelo
rechaço de ambos ao liberalismo político.
Mesmo
quando acerta o diagnóstico da doença, portanto, o texto erra profundamente na
reconstrução de sua etiologia. A crítica à pouca importância conferida pelo PT
à chamada “questão nacional” é pródiga em ilustrar esse mecanismo
interpretativo descarrilhado. Um sobrevoo panorâmico sobre o petismo dos anos
1980 pode levar a crer que a “Nação” era mais problema que solução. Para
Eduardo Luiz Zen isso decorre de uma espécie de vício sociológico originário:
“A dimensão internacional ocupava o lugar da questão nacional. […] O capital
podia ser combatido como relação entre patrão e empregado sem ser enfrentado
como poder internacional organizado sobre uma economia dependente.”
Vejam
como as coisas são simples: essa suposta preponderância da “dimensão
internacional” sobre o nacionalismo seria resultado da consciência imediata dos
operários das multinacionais do ABC! Se fosse o caso, não caberia celebrar
tamanho grau de consciência? Desde quando o internacionalismo virou problema
para uma tradição inaugurada por um manifesto que celebra o fato de os
proletários não terem pátria? O nosso escriba atribui à consciência sindical
uma capacidade política e intelectual muito inflacionada frente a seus
objetivos imediatos, o que o aproxima mais dos anarco-sindicalistas que de
Vladímir Lênin. E, convenhamos, responsabilizar o sindicalismo pela ausência de
uma teoria da dependência (quando isto já ocorreu?) é obviedade que não abre
pistas.
Seria
mais interessante entender – mas aí seria preciso contextualizar com precisão
os debates políticos em voga no período, o que não é do feitio do autor, que
não perde tempo com pormenores factuais quando já detém o esquema teleológico
de que precisa – as razões desse temor perante o nacionalismo a partir da
oposição à estratégia pecebista de apostar fichas na “burguesia nacional” como
vetor principal da revolução democrática.
Tal
crítica não se origina do operário do ABC: a Polop já nasce, no início dos anos
1960, com essa posição. E, vejam a ironia, por lá passaram alguns dos
principais teóricos da dependência, como Ruy Mauro Marini. Era, na verdade,
consciência comum de muitas organizações revolucionárias, inclusive algumas
marxistas-leninistas (como o PRC ou o MRC, ambos tendências internas do PT).
Quando
o PT elabora seu documento estratégico mais importante, no 5º. Encontro de
1987, prefere a fórmula “democrático-popular”, evacuando a nação por essas
mesmas razões classistas: o uso do termo “nacional” pelo PCB “indica a
participação da burguesia nessa aliança de classes – burguesia que é uma classe
que não tem nada a oferecer ao nosso povo”.
Pode-se
alegar que essa crítica ao chamado “etapismo” errou na dose ao subestimar a
importância das tarefas nacionais num país dependente. Mesmo aceitando a
hipótese, é preciso considerar que o PT dava extrema centralidade, já nos anos
1980, ao tema da dívida externa. A campanha de Lula em 1989 se baseava no
famoso tripé “anti-imperialista, antilatifundiário, antimonopolista”. Entre as
tarefas “anti-imperialistas” constavam a estatização do sistema financeiro, o
rompimento com o FMI e o não pagamento da dívida externa.
Para
esse fim valia até ampliar o arco de alianças, contra o “obreirismo” purista
que caracterizou os primeiros passos do PT, conforme o mesmo documento do 5º.
Encontro: “Na defesa da soberania nacional, contra o pagamento da dívida
externa e a submissão de nossa economia ao FMI, ao capital estrangeiro e ao
Imperialismo, o nosso arco de alianças atinge até mesmo alguns setores
burgueses e liberais.”
Nos
anos 1990, a centralidade da questão nacional só cresceu, pelas necessidades
práticas de enfrentamento aos governos FHC. Até o PSTU passou a falar em defesa
da nação. Para alguns petistas, como Valter Pomar em seu importante trabalho
historiográfico sobre o partido, tal aggiornamento é sintoma
de rebaixamento estratégico, aproximando o PT das formulações do antigo PCB.
Não
entraremos nesse mérito, mas é importante indicar que “há mais coisas entre o
céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”, a fim de evitar caricaturas.
E filosofia parece a palavra apropriada, pois Eduardo Luiz Zen se entrega à
metafísica, no pior sentido, ao deduzir o complexo encadeamento histórico,
recheado de contingências, de premissas originárias simples e puramente
intelectuais. Louis Althusser e Jacques Derrida viram na busca pela origem que
engendra o fim uma marca do pensamento metafísico.
Outra
passagem idiossincrática da diatribe contra o PT considera que seu problema foi
não ter sido muito reformista! Ao se pautar pela busca da revolução em vez de
um projeto reformista coerente, o partido teria abandonado qualquer perspectiva
factível de gestão transformadora do Estado: “quem considera as reformas
impossíveis sem a revolução acaba, enquanto a revolução não chega,
administrando aquilo que existe”.
De novo
o defeito de fabricação do método cobra seu preço: quando o PT se preparou para
a revolução? Seu momento mais combativo, no final dos anos 1980, era calcado em
reformas que poderiam abrir espaço para um processo revolucionário conforme as
circunstâncias – o que explica por que tendências mais “ortodoxas”, como a
Convergência Socialista, acusavam a estratégia de reformista. A fórmula do PT
era uma espécie de Salvador Allende com final feliz.
Como
Lula não venceu, não sabemos se esse caminho era aventura rumo ao desastre ou
perspectiva promissora. De todo modo, a ideia de que a busca pela revolução
impedia a luta por reformas reais é invenção sem nenhuma corroboração empírica,
já que todas as campanhas de Lula foram pautadas por reformas. Impressiona que
afirmação tão equivocada circule tão desembaraçadamente.
Fica
evidente que tal método teleológico tem pouco apreço pela história efetiva. Se
da combinação simples de átomos (as tais “seis matrizes fundadoras”) eu posso
engendrar o destino histórico de um fenômeno, para que levar a sério os
acontecimentos da história do PT pari passu com o contexto
nacional e internacional? É perda de tempo lidar com discussões internas,
momentos decisivos, elaborações políticas influentes (como a estratégia do 5º.
Encontro), viradas táticas com consequências estratégicas, se é possível
derivar o final pela reação entre elementos químicos puros. No entanto, mesmo
um químico precisa de experimentos em laboratório.
Podemos
classificar as hipóteses históricas em dois quadrantes: umas estimulam a
investigação e abrem caminho para novas pesquisas; outras bloqueiam qualquer
interesse pela história devido à força do esquema apriorístico. O estilo de
Eduardo Luiz Zen é espécime perfeito da segunda (anti)heurística, impedindo que
questões decisivas sejam colocadas: como se consolidou a estratégia
democrático-popular na segunda metade dos anos 1980, o auge da síntese entre
marxismo e estratégia política na história do PT? Por que ela foi abandonada
(hipótese de Valter Pomar) ou ajustada (visão de Mauro Iasi)?
Por que
a tendência Articulação, principal esteio dirigente do partido na época, se
divide após o 1º Congresso do PT em 1991, em um contexto de fim do socialismo
soviético? Por que dirigentes da extrema-esquerda partidária, egressos do PRC,
tornam-se os principais formuladores da direita petista, pressionando cada vez
mais rumo ao social-liberalismo?
Por que
Lula se autonomiza cada vez mais das instâncias partidárias, entrando em
conflito com a direção na campanha de 1994, quando funda o Instituto da
Cidadania a fim de contornar as deliberações emanadas do PT? Por que a direção
guiada pelo documento “Hora da Verdade”, marco do enfrentamento à adaptação do
partido em tempos de crise do socialismo, não teve continuidade, sendo logo
substituída pelo arranjo mais pragmático consolidado no Encontro de Guarapari
em 1995?
Tudo
isso é matéria de investigação histórica, que deveria interessar a quem busque
entender a política petista não a partir de um esquema pré-configurado (leito
de Procusto retalhando a realidade para caber no modelo), mas de sua vida real.
Um
sintoma dessa incapacidade de lidar com a efetividade histórica é a busca por
fantasmas de poder misterioso. Exemplo é a tal “intelectualidade uspiana”, uma
das três principais matrizes (!!!) do petismo. Nem o mais fanático ufanista da
FFLCH atribuiria tamanha potência à universidade paulista, mas virou moda
inflacionar o peso dos intelectuais na determinação de fenômenos complexos. É
claro que intelectuais da USP exerceram papel no PT (o caso mais emblemático é
o de Francisco Weffort, que sai do partido em 1994), assim como na cultura
geral da esquerda do período, mas nada autoriza elevá-los ao plano de
reis-filósofos do petismo, já que este era conformado por uma cultura política
diversa, incluindo múltiplos trotskismos e variantes de marxismo-leninismo.
Aliás,
seriam todos os “uspianos” agentes de uma desforra pseudo-esquerdista contra
Getúlio Vargas pela derrota de São Paulo em 1932? Alguns leem a história
recente do país a partir do embate entre duas entidades quase cosmológicas, tal
como Alexandre Dugin lê a geopolítica a partir do confronto mítico entre terra
e mar: São Paulo e o resto do Brasil, geralmente metonimizado na figura do Rio
de Janeiro. Um nome como Florestan Fernandes, deputado constituinte pelo PT, se
encaixa facilmente nesse figurino?
Tratava-se
de um intelectual que celebrava Cuba e defendia o marxismo-leninismo e a
ditadura do proletariado em plena Folha de São Paulo, a ponto de alguém como
Luiz Carlos Prestes referenciá-lo positivamente… A impressão é que a
importância recente de Fernando Haddad (que não emerge dos fóruns internos do
PT, jamais exercendo tarefas de direção partidária) fez com que,
anacronicamente, alguns descobrissem o “segredo” da história petista: a
malévola USP, monolito conspiratório por trás das últimas quatro décadas do
país.
Esse
quadro de cores saudosistas (ah, o que poderia ter sido!) e reativas (seria
melhor que os acontecimentos no ABC paulista não tivessem ocorrido) reflete um
desprezo pela luta das massas exploradas como chave explicativa do país. Se a
luta operária entra na equação, o esquema não fica tão bonito: o PT possuía
posições mais avançadas que as organizações comunistas que não entraram no seu
seio.
O
PCdoB, não à toa, é obrigado a se reposicionar e passa a seguir o PT a partir
de 1987. O niilismo histórico imputado ao PT está, na verdade, entranhado na
subjetividade de Eduardo Luiz Zen: toda a história recente do país seria um
grande mal-entendido, um véu de maya, uma prisão do demiurgo (chamado Lula) da
qual nos livraríamos pela sabedoria dos afortunados que viram a luz.
Ironicamente,
não é postura muito diferente da adotada pelo PT em relação a seus adversários
à época, repleta de caricaturas. Só que essa vontade de passar borracha no
passado se justificaria num contexto de ascensão da luta de massas e disputa
política real por hegemonia. A farsa é repetir isso sem tal substrato
histórico. A cultura política dos anos 1980 era muito superior à dos tempos que
correm, como atestam os documentos das organizações e os aparelhos de formação
e circulação de ideias.
Uma
olhada nos cursos do Instituto Cajamar, responsável pela formação de inúmeros
militantes, bastaria para indicar que o PT – cuja secretaria nacional de
formação era comandada por Wladimir Pomar, um marxista-leninista de quatro
costados – não era um aglomerado de igrejeiros caridosos e sindicalistas
despolitizados. Chegou-se a organizar seminários sobre as experiências
socialistas reais (Jacob Gorender sobre
a URSS, Pomar sobre a China) e a estratégia socialista. Talvez esse espírito devesse
ser recuperado, para organizarmos discussões produtivas em vez de estereótipos
manjados.
Este
último fio conduz à conclusão: por que se aceita tão facilmente esse tipo de
visão superficial da história do petismo? O assunto é sério demais para tanta
leviandade. Quando se trata do PT, o mínimo de rigor esperado de uma síntese
histórica é descartado como floreio desnecessário. Ninguém aceitaria que
tratassem o PCB assim, como desiderato de matrizes originais elencadas (sem
hierarquia, em justaposição confusa) para revelar o motivo de seus insucessos,
elidindo qualquer engajamento com seus documentos, congressos, resoluções e
polêmicas internas.
No caso
do PT, a ânsia de assassinar o objeto contamina o processo de cognição. Isso
não seria um problema caso a ausência de compreensão real da história recente
do Brasil (pois é disso que se trata) não prejudicasse a nossa ação futura.
Assim como não bastava ser anti-Stalin ou anti-PCB para superar os obstáculos
da experiência soviética e dos PCs ligados a ela, não avançaremos um milímetro
em nossas tarefas se optarmos pela via mais fácil do gozo da caricatura,
através de cacoetes batidos, em vez da investigação precisa e bem periodizada.
Fonte:
Por Diogo Fagundes, em A Terra é Redonda

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