Do
colorau a cosméticos: como o urucum ganhou o mundo
Bastante
popular no Brasil, o urucum colore alimentos e tradições indígenas há séculos.
Embora esteja presente em produtos consumidos diariamente em diferentes partes
do mundo, o fruto originário das Américas permanece pouco conhecido fora das
regiões onde seu uso faz parte da cultura local. Agora, impulsionado pela
demanda da indústria alimentícia e de beleza, o ingrediente vê suas exportações
crescerem. No Brasil, o pó-vermelho alaranjado das sementes moídas do urucum é
vendido como colorau.
"É
importante entender que o urucum começou como um pigmento ancestral. Ele era
usado pelas culturas pré-colombianas do Equador e de outras regiões das
Américas", afirma à DW Miguel Ángel Méndez, chef do restaurante Ayawaskha,
em Madri.
Conhecido
por diferentes nomes nas Américas e no Caribe, como urucú, bija, axiotl e anato
e achiote, o urucum entrou nos registros europeus em meados do século 16 devido
às primeiras expedições pelo rio Amazonas.
O
fruto, de coloração vermelha intensa, abriga sementes da mesma cor. Ao longo
dos séculos, elas foram utilizadas como pigmento natural para a pele e para
tecidos, além de aplicações medicinais e culinárias.
"No
nosso caso, usamos o achiote no refogado", explica Méndez, que define sua
cozinha como uma vitrine da gastronomia equatoriana. Filho de imigrantes, ele
destaca o uso de ingredientes produzidos por pequenos agricultores do país de
origem de sua família.
O
refogado preparado com cebola bem picada e óleo de urucum é a base de inúmeras
receitas do litoral do Equador, da Colômbia e do Peru. Dependendo da região,
também pode levar alho, tomate, pimentão, ervas e especiarias.
"Usamos
nos pratos conhecidos como 'secos', preparados com carne bovina, cabra ou
frango", diz o chef. O seco é um ensopado cozido lentamente após a carne
ser marinada em naranjilla, fruta tropical de sabor ácido semelhante ao cubiu,
ou em ingredientes como vinagre ou cerveja. Trata-se de um dos pratos mais
emblemáticos da costa equatoriana.
No
Ayawaskha, as sementes são usadas diretamente na produção de óleos
aromatizados, mas também na forma de pasta. "Essa pasta vem de Loja, no
sul do Equador, e chega com a textura ideal", afirma.
<><>
Exportações em crescimento
As
exportações de urucum, comercializado em sementes, pasta, pó ou óleo, vêm
aumentando. Segundo dados da PromPerú, o volume exportado no primeiro semestre
de 2026 cresceu mais de 135% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Países
como Brasil, Bolívia e Equador também vendem o produto ao exterior. Na América
Central, Guatemala, México e Costa Rica participam do mercado em menor escala.
Os Estados Unidos são o principal destino das exportações, seguidos por países
europeus e pelo Japão.
O
primeiro impulso comercial ao urucum ocorreu no fim do século 17, quando
fabricantes de queijo da Holanda e da Inglaterra passaram a utilizá-lo para
conferir coloração alaranjada a produtos como o cheddar. A substância
substituía corantes mais caros, como o açafrão, e tornava os alimentos
visualmente mais atraentes.
No
século 20, o produto ganhou espaço na indústria de alimentos e cosméticos por
meio da bixina, pigmento responsável pela cor das sementes. Na indústria
alimentícia, ela é identificada como aditivo E160b; na cosmética, como CI75120.
Quanto maior a concentração de bixina nas sementes, maior costuma ser seu valor
comercial.
Presente
no cotidiano, mas pouco reconhecido
Apesar
da ampla utilização, o urucum segue pouco conhecido pelos consumidores.
Em um
restaurante mexicano de Bruxelas, uma cliente afirmou que o conhecia apenas
como "uma sementinha". Outra o associou ao preparo da tradicional
cochinita pibil, prato típico mexicano feito com carne de porco marinada em
pasta de urucum e frutas cítricas. Nenhuma delas, porém, reconheceu o fruto da
planta.
Em Nova
York, Leonor Martí lembra do uso doméstico do ingrediente durante a infância.
"Minha
avó e minha mãe colocavam as sementes em uma lata vazia de atum, com pequenos
furos. Depois adicionavam óleo e aqueciam a mistura, que ganhava uma cor
amarela usada no refogado", conta.
Ela
ainda utiliza o ingrediente, mas de forma mais prática. "Hoje compro o
óleo pronto, importado do Equador", diz.
<><>
Cor, proteção e tradição
Leonor
também conhece a aplicação cosmética do urucum. "Em Santo Domingo de los
Tsáchilas, os tsáchilas usam a planta para tingir os cabelos", afirma
sobre indígenas do Equador que ficaram conhecidos como "colorados"
pelo uso de urucum.
Embora
hoje esse uso seja visto como estético, sua origem está ligada às propriedades
tradicionalmente atribuídas às sementes, empregadas por povos indígenas para
aliviar problemas de pele e ajudar na proteção contra o sol.
Na
Amazônia, diversas comunidades indígenas continuam utilizando o urucum, em
práticas tradicionais associadas a cuidados corporais e bem-estar.
Atualmente,
seja como E160b na indústria alimentícia ou como CI75120 no setor cosmético, o
chamado "açafrão dos latinos" chega a mercados como Espanha, Holanda,
Reino Unido, França, Itália e Alemanha. Neste último país, a planta é conhecida
como Lippenstiftbaum, ou "árvore do batom".
Fabricantes
de ingredientes para os setores alimentício e cosmético, além de empresas como
L'Oréal e Lush, utilizam o fruto para produzir tonalidades que variam do
laranja ao vermelho intenso.
Essas
mesmas cores continuam presentes em comunidades amazônicas do Alto Marañón,
onde a pintura corporal feita com urucum é usada para receber visitantes.
Para
Miguel Ángel Méndez, o ingrediente segue sendo fundamental na culinária do
Pacífico equatoriano. "O urucum está presente em praticamente todas as
nossas receitas. Além de colorir os pratos de forma natural, acrescenta
profundidade de sabor e um retrogosto marcante", conclui.
Fonte:
DW Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário