sábado, 15 de agosto de 2026

Como o estresse na adolescência pode afetar a saúde mental dos adultos?

Pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP identificaram que a exposição ao estresse durante a adolescência pode provocar alterações persistentes na atividade cerebral, diferentemente do que ocorre na vida adulta, quando os efeitos tendem a ser transitórios. O trabalho foi publicado em artigo na revista Cerebral Cortex, que investigou em ratos como o estresse afeta neurônios responsáveis pelos sinais de excitação e inibição no córtex pré-frontal medial, área ligada à tomada de decisão, controle emocional e comportamento. Os resultados apontam que a adolescência representa uma janela crítica de maior vulnerabilidade para alterações associadas ao desenvolvimento de transtornos psiquiátricos.

A pesquisa analisou os efeitos do estresse em diferentes fases da vida para compreender por que experiências estressantes podem ter consequências mais duradouras quando ocorrem durante o desenvolvimento cerebral. Para isso, os cientistas expuseram ratos adolescentes e adultos a situações repetidas de estresse e avaliaram, semanas depois, o funcionamento dos circuitos neurais do córtex pré-frontal medial, região essencial para o equilíbrio emocional, cognição e tomada de decisões.

Segundo os pesquisadores, o cérebro adolescente ainda passa por um intenso processo de maturação. Nessa fase, os circuitos neurais responsáveis pelo equilíbrio entre estímulos de ativação e controle ainda estão em desenvolvimento, tornando o organismo mais sensível aos efeitos do estresse. “Quando o mesmo protocolo de estresse é aplicado a animais adultos, ele causa alterações de curto prazo no organismo que tende a se recuperar dessas alterações, ainda menos pronunciadas quando comparadas àquelas induzidas pelo estresse na adolescência”, afirma Felipe Villela Gomes, professor da FMRP e coordenador do estudo.

O estudo, conduzido pela pós-doutoranda da FMRP Flávia Verza, indica que o momento da vida em que ocorre a exposição ao estresse influencia diretamente seus impactos no cérebro. Nos animais expostos ao estresse durante a adolescência, os pesquisadores observaram mudanças persistentes na atividade cerebral, semanas após o término da exposição, com efeitos mantidos até a vida adulta. Já os animais submetidos ao mesmo protocolo quando adultos, apresentaram alterações temporárias, sugerindo maior capacidade de recuperação do cérebro maduro.

<><> Impactos do estresse

Para compreender os impactos do estresse, a pesquisa investigou o equilíbrio entre dois tipos fundamentais de células cerebrais, os neurônios excitatórios e os inibitórios. Como a pilotagem de um carro, os neurônios excitatórios atuam como o acelerador: eles liberam uma substância chamada glutamato, responsável por ativar circuitos cerebrais. Já os neurônios inibitórios, também conhecidos como GABAérgicos, funcionam como o freio: ao liberarem o neurotransmissor GABA, eles reduzem os estímulos e impedem que a atividade cerebral entre em sobrecarga. A sintonia fina entre acelerar e frear é o que mantém o funcionamento saudável do cérebro.

“É importante que interneurônios GABAérgicos atuem como um freio sobre a atividade de neurônios glutamatérgicos. Quando você tem uma alteração desse freio (como a hipofunção de interneurônios GABAérgicos causada pelo estresse na adolescência), você pode aumentar a atividade do neurônio glutamatérgico, por exemplo, resultando em alteração nesse balanço excitatório-inibitório”, explica Gomes. Nos animais expostos ao estresse durante a adolescência, os pesquisadores identificaram aumento persistente da atividade dos neurônios excitatórios, além de alterações prolongadas nos neurônios inibitórios. Essas mudanças indicam uma desregulação no balanço excitatório-inibitório, mecanismo que mantém a atividade neural rítmica e sincronizada, garantindo o funcionamento coordenado das redes cerebrais.

Além da atividade de tipos neuronais específicos, o estudo avaliou as chamadas oscilações cerebrais, padrões rítmicos de atividade elétrica que ajudam diferentes regiões do cérebro a se comunicarem de forma coordenada. Entre elas, os pesquisadores observaram alterações nas oscilações do tipo gama, consideradas importantes para processos ligados à cognição, comportamento e integração de informações emocionais. “Essas oscilações gama são consideradas oscilações de alta frequência, entre a faixa dos 30 hertz (hz) até os 100 hz, e elas são moduladas pelo balanço excitatório-inibitório, principalmente pela atividade de neurônios GABAérgicos”, informa Gomes.

Animais que foram estressados na adolescência apresentaram uma redução duradoura das oscilações gama no córtex pré-frontal medial. Para os pesquisadores, essa alteração sugere prejuízo na comunicação entre circuitos cerebrais e na coordenação das redes neurais. Na prática, o cérebro funciona com “ritmo”, e as oscilações cerebrais atuam como uma “estação de rádio”, nesse sentido, garantindo que diferentes áreas façam a interação no momento certo. A consequência direta é que sem um padrão correto, os circuitos cerebrais não conseguem se comunicar direito. É como se os neurônios tentassem conversar com “ruído na linha”, o que prejudica a capacidade do cérebro de integrar pensamentos, emoções e comportamentos no dia a dia.

<><> Sinais de alerta

Quando esse equilíbrio é comprometido, a comunicação entre diferentes áreas do cérebro também pode ser prejudicada. Segundo os pesquisadores, alterações nesse sistema estão associadas a dificuldades relacionadas à cognição, ao controle emocional e ao comportamento, além de serem observadas em diferentes transtornos psiquiátricos. Os pesquisadores acreditam que esses efeitos mais duradouros acontecem porque o cérebro ainda está em desenvolvimento durante a adolescência. Nessa fase, alguns neurônios inibitórios, especialmente um grupo conhecido como neurônios GABAérgicos parvalbumina-positivos, ainda não atingiram a maturação completa. Essas células desempenham papel importante no controle e na organização da atividade cerebral.

Os estudos do grupo de pesquisa indicam que o estresse durante a adolescência pode comprometer o funcionamento desses neurônios, provocando alterações persistentes na atividade cerebral. Mas, quando o estresse ocorria na vida adulta, esse mesmo tipo de neurônio não parecia sofrer alterações funcionais significativas. Nesse caso, os impactos do estresse provavelmente envolvem outros tipos de células e mecanismos cerebrais. Os achados ajudam a compreender mecanismos biológicos pelos quais estressores podem aumentar a vulnerabilidade ao desenvolvimento de transtornos psiquiátricos, como ansiedade, depressão e esquizofrenia ao longo da vida. Segundo os pesquisadores, alterações persistentes no equilíbrio entre excitação e inibição podem comprometer funções essenciais do cérebro e criar um ambiente mais suscetível ao surgimento dessas condições.

Os autores destacam, no entanto, que os resultados não significam que todo adolescente submetido ao estresse desenvolverá necessariamente um transtorno mental. O estudo aponta, sobretudo, para um aumento de vulnerabilidade associado à exposição prolongada ao estresse em uma fase particularmente sensível do desenvolvimento cerebral.

Diante do aumento de pressões sociais, frustrações e exposição às redes sociais, abordagens como a terapia cognitivo-comportamental surgem como uma alternativa para o público jovem. Estratégias de prevenção e cuidado com a saúde mental são decisivas durante esse período vulnerável. Na conclusão de Gomes, se conseguirmos identificar indivíduos “com a responsividade aumentada ao estresse”, e atuarmos preventivamente, dando suporte para lidar com situações diversas, podemos frear o desenvolvimento desses transtornos.

 

Fonte: Por Laura Madalossi, no Jornal da USP

 

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