Política:
seria exagerada a crítica ao lulismo?
O
debate público brasileiro costuma se organizar em torno de duas perguntas.
A
primeira é a pergunta da manchete: o que aconteceu? Quem subiu na pesquisa,
quem perdeu uma votação, quem foi denunciado, qual declaração dominou as redes,
qual crise substituirá a anterior até o fim da semana.
A
segunda é a pergunta do horizonte: o que deveria acontecer? Qual é o programa
correto, o horizonte ideal, o modelo de desenvolvimento adequado, a sociedade
desejável, a forma política capaz de superar as contradições do presente.
As duas
perguntas são indispensáveis. Sem acompanhar o que acontece, perde-se a disputa
concreta. Sem formular um horizonte, a política se reduz à administração do que
existe.
O
problema começa quando o debate se acomoda entre essas duas pontas. De um lado,
a espuma da conjuntura. Do outro, o conforto da abstração. Entre ambas,
desaparece aquilo que deveria funcionar como princípio balizador: a vida real
das pessoas.
É nesse
intervalo que alguém pega um ônibus lotado antes do dia nascer. Que uma pessoa
vai à feira contando quanto pode gastar. Que um trabalhador precisa pagar a
carenagem da moto que o leva ao emprego. Que uma família tenta fazer o
aniversário de uma criança sem transformar a festa numa dívida de seis meses.
Que um jovem entra na escola ou na universidade e ainda precisa descobrir se
terá condições de permanecer.
A
abstração não paga o aniversário do filho. Não encurta o caminho até o
trabalho. Não segura o fim do mês.
Isso
não significa reduzir a política à administração imediata da necessidade.
Significa reconhecer que nenhuma transformação digna desse nome pode tratar a
vida concreta como assunto secundário, a ser resolvido depois que a teoria
finalmente encontrar sua forma perfeita.
Não
basta perguntar o que aconteceu, nem apenas o que deveria acontecer. A pergunta
decisiva é outra: o que mudou de mãos na vida real — e o que ainda precisa
mudar para que a transformação deixe de ser promessa e se torne poder concreto
na vida das pessoas?
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Uma pergunta que muda o debate
Essa
pergunta muda o debate porque desloca o centro da intenção declarada para a
distribuição efetiva do poder. Em vez de perguntar primeiro a qual tradição um
projeto pertence ou quão radical é a linguagem que utiliza, ela pergunta o que
acontece com as capacidades de viver, produzir, criar e decidir.
Qualquer
proposta que se apresente como transformadora precisa mostrar onde o poder
efetivamente se moveu. Quem passou a decidir? Quem controla o que foi criado?
Que capacidades permaneceram depois da intervenção? Que dependência foi
reduzida? Que força existe para defender a conquista e exigir a seguinte?
A mesma
exigência vale para os horizontes mais ambiciosos. Nomear a estrutura que
precisa desaparecer não demonstra, por si só, como o poder será deslocado. É
preciso tornar visíveis os sujeitos, os meios, as transições e as capacidades
capazes de converter uma direção histórica em experiência social efetiva.
Por
isso, partir da ponta não significa abandonar a estrutura. Significa obrigar a
estrutura a chegar ao chão. Uma estrutura econômica organiza quem precisa
vender quase todas as horas do dia para sobreviver. Uma estrutura educacional
define quem pode produzir conhecimento. Uma estrutura cultural separa quem cria
de quem retém o valor da criação. Uma estrutura tecnológica distribui entre
países o fornecimento de recursos e o controle do comando.
A vida
concreta não é o contrário da estrutura. É o lugar onde a estrutura exerce seu
poder — e onde uma transformação precisa demonstrar que alterou alguma coisa
além do discurso.
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O que significa mudar de mãos
Mudar
de mãos não significa apenas transferir dinheiro ou propriedade, embora
dinheiro e propriedade sejam decisivos. Significa redistribuir e acumular
capacidades reais de viver, produzir, criar e decidir.
Pode
mudar de mãos o tempo. O acesso ao conhecimento. O controle sobre uma
tecnologia. O valor produzido por uma obra. A possibilidade de recusar uma
relação degradante. A capacidade de uma sociedade interpretar a si mesma. A
força necessária para defender uma conquista e exigir a seguinte.
A
pergunta funciona como uma régua porque obriga a observar, ao mesmo tempo, três
dimensões: a melhora imediata, a dependência preservada e a capacidade que
permanece depois da intervenção.
Quem
passou a dispor de mais escolhas? Que instituição ficou instalada? Que
conhecimento foi produzido? Quem controla o que passou a existir? O que se
tornou possível para a rodada seguinte?
Essa
lente impede confusões recorrentes. Vitória eleitoral não é necessariamente
poder social. Crescimento não é necessariamente desenvolvimento. Acesso não é
controle. Reconhecimento não é distribuição de valor. Investimento não é
soberania. Radicalidade verbal não é capacidade de transformação.
Impede
também o erro inverso: considerar irrelevante toda melhora que não realize, de
uma só vez, a transformação completa da sociedade. O fato de uma mudança não
ser suficiente não a torna irreal. O fato de ser real não elimina seus limites.
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Política: vencer não é ainda governar a vida social
Uma
eleição muda quem ocupa o governo. Pode alterar orçamento, prioridades,
direitos e políticas públicas. Mas a vitória institucional não transfere
automaticamente a capacidade de organizar a experiência cotidiana.
Um
campo político pode vencer nas urnas e continuar ausente dos bairros, das redes
de solidariedade, dos locais de trabalho, das igrejas, das plataformas e dos
circuitos culturais nos quais as pessoas interpretam o mundo. Nesse caso, o
governo muda de mãos, mas parte importante da vida social permanece sob o
comando do adversário.
A
pergunta, portanto, não é apenas quem venceu. É quem produz pertencimento,
linguagem, proteção, mediação e horizonte no cotidiano. Que organizações
ficaram mais fortes? Que vínculos se formaram? Que sujeitos passaram a
participar da definição das decisões? Que conquista deixou base social capaz de
defendê-la?
Essa
régua evita tanto o fetiche eleitoral quanto o desprezo pela eleição. Vencer
importa porque governos distribuem recursos, reconhecem direitos e criam
instituições. Mas uma vitória adquire densidade histórica quando deixa, além do
mandato, capacidade social organizada.
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Educação: acesso que deixa capacidade
Uma
transformação educacional não se limita ao número de estudantes matriculados.
A
expansão das universidades e dos institutos federais, o Reuni, o ProUni, a
assistência estudantil e as políticas de cotas ampliaram o acesso de grupos
historicamente afastados do ensino superior. Mas também deixaram prédios,
bibliotecas, laboratórios, cursos, servidores, grupos de pesquisa e relações
com os territórios.
Formaram
profissionais, cientistas, professores, escritores, artistas e intelectuais.
Ampliaram a produção de ciência e tecnologia e a capacidade de uma sociedade
pensar sistematicamente sua história, sua cultura, seus conflitos e suas
possibilidades.
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O acesso ao conhecimento mudou de mãos.
Não
porque o Estado determine aquilo que as pessoas deverão pensar. Uma
universidade ampliada pode formar marxistas, liberais, conservadores ou
críticos radicais do governo que expandiu o sistema. Essa abertura é parte da
transformação: o Estado amplia a capacidade de pensar; a sociedade disputa o
sentido do pensamento produzido.
A
educação mostra uma mudança que acumula capacidades. O efeito permanece em
instituições, conhecimentos, redes e gerações seguintes. Mostra também um
limite: conhecimento não se converte automaticamente em organização ou força
política. Entre capacidade intelectual e poder coletivo existe o trabalho da
política.
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Cultura: reconhecimento sem controle do valor
Na
cultura, a pergunta revela um movimento diferente.
Políticas
de acesso e reconhecimento permitiram que agentes antes excluídos recebessem
recursos, circulassem e fossem reconhecidos como produtores de cultura. Algo
mudou: a visibilidade, a legitimidade, a possibilidade de entrar.
Mas a
periferia produz música, dança, estética e linguagem antes de possuir empresas,
catálogos, contratos ou estruturas de distribuição. Quando uma criação alcança
escala, o valor costuma ser capturado por quem já controla esses ativos.
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O criador recebe reconhecimento. Outro retém a propriedade.
A
pergunta permite distinguir uma política que abre a porta daquela que altera a
capacidade de possuir, negociar e decidir. Não basta abrir a porta da frente se
o valor continua escapando pela janela dos fundos.
Mudar
de mãos, nesse campo, significa ampliar não apenas a presença do artista, mas
sua capacidade de controlar catálogo, dados, direitos, distribuição, negociação
e continuidade da própria obra. Visibilidade sem propriedade pode produzir
consagração e dependência ao mesmo tempo.
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Tecnologia: infraestrutura sem comando
A mesma
lente precisa orientar o debate sobre reindustrialização e tecnologia.
Um data
center não é automaticamente símbolo de modernização. Se o país fornece
energia, água, terra, incentivos fiscais e infraestrutura, enquanto o controle
dos dados, dos contratos e das decisões permanece no exterior, aquilo que
parece avanço pode ser atraso com aparência de futuro.
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A máquina está aqui. O comando está fora.
A
infraestrutura mudou de endereço, mas não mudou de mãos. A pergunta relevante
não é apenas quanto foi investido. É que custos o país assume, que conhecimento
produz, que propriedade conserva e que capacidade nacional permanece depois.
O mesmo
vale para minerais críticos, inteligência artificial, energia e plataformas
digitais. Tecnologia avançada pode operar sobre uma relação subordinada.
Modernização se mede menos pela aparência das máquinas do que pelo poder que
uma sociedade conserva sobre elas.
Uma
política tecnológica transforma quando cria pesquisadores, fornecedores,
patentes, instituições, capacidade regulatória e poder público de orientar o
desenvolvimento. Sem isso, o país pode hospedar o futuro dos outros enquanto
terceiriza o próprio.
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Tempo e vida material
A
pergunta também precisa alcançar mudanças que parecem pequenas quando
observadas de cima, mas reorganizam uma vida quando vistas da ponta.
Uma
dívida renegociada não elimina o poder do sistema financeiro, mas pode devolver
a alguém a possibilidade de planejar o mês. Uma moto comprada quando a renda
melhora não supera a sociedade de consumo, mas pode devolver horas antes
perdidas no transporte. Uma máquina de lavar não rompe a divisão sexual do
trabalho, mas reduz uma carga concreta que recai sobretudo sobre mulheres. Uma
redução da jornada não reorganiza sozinha o sistema de propriedade, mas
transfere tempo do trabalho para a vida.
Essas
mudanças não devem ser apresentadas como suficientes. Devem ser compreendidas
pelo que efetivamente alteram e pelo que ainda preservam.
A
questão é saber se a melhora termina como alívio individual ou deixa capacidade
material, institucional, intelectual, produtiva ou política para que outras
mudanças se tornem possíveis.
É aí
que uma mudança ganha densidade histórica: quando deixa capacidade para
avançar. O critério não é o rótulo da intervenção, mas a capacidade que ela
acumula e o poder que efetivamente desloca.
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Capacidade não se acumula sozinha
Nenhuma
capacidade se converte automaticamente em poder. Renda amplia escolhas, mas não
cria organização por si só. Educação produz conhecimento, mas não determina seu
uso político. Reconhecimento cultural pode abrir circulação sem transferir
propriedade. Investimento pode instalar infraestrutura sem produzir soberania.
Entre
uma mudança e a capacidade de sustentá-la existe um trabalho de ligação:
partidos, sindicatos, movimentos, organizações territoriais, intelectuais e
instituições capazes de transformar experiências dispersas em força comum.
Esse
trabalho não é uma etapa secundária, acrescentada depois que a política
verdadeira acontece. É justamente o processo pelo qual uma melhora deixa de ser
episódio isolado, ganha duração, produz sujeitos e passa a alterar a correlação
de forças.
O
espaço que ele não ocupa não permanece vazio. O capitalismo forma sujeitos
todos os dias por meio da competição, do endividamento, do mérito individual e
da responsabilização pessoal por problemas coletivos. Plataformas, igrejas,
empresas e redes políticas também disputam o sentido da experiência social.
Por
isso, a pergunta sobre o que muda de mãos mede também o que uma intervenção
deixa organizado: quem aprendeu a decidir, que vínculos foram criados, que
instituições permaneceram e que capacidade coletiva existe para proteger a
conquista e avançar além dela.
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A vida não pode esperar no rodapé
Há
formas de pensamento que reconhecem corretamente a força das estruturas, mas
perdem contato com a diferença concreta entre viver de uma forma ou de outra.
Quando isso acontece, a vida real aparece como detalhe provisório diante de uma
transformação sempre adiada para o horizonte.
Quem
vive no aperto não mora no rodapé de um livro. Mora no aluguel que vence, no
ônibus lotado, na parcela atrasada, na carenagem da moto que precisa ser
substituída e no aniversário do filho que não pode esperar que a história
encontre sua fórmula perfeita.
O
problema não é escolher entre aliviar a vida e transformar as estruturas. É
perguntar se uma mudança reduz dependências, amplia capacidades e abre
condições para que novas decisões deixem de ser tomadas sobre as pessoas e
passem a ser tomadas também por elas.
A
crítica relevante não diminui uma conquista para preservar a superioridade do
crítico, nem transforma qualquer melhora em prova de transformação concluída.
Ela mostra o que mudou, o que permaneceu concentrado e qual poder ainda precisa
mudar de mãos.
Essa
exigência vale para liberais que chamam qualquer investimento de modernização,
para gestores que confundem edital com política cultural completa, para
desenvolvimentistas que medem apenas crescimento e infraestrutura, para
eleitoralistas que confundem vitória institucional com base social e para
discursos de transformação que não explicitam os sujeitos e os meios capazes de
realizá-la.
A
pergunta sobre o que muda de mãos não pertence a uma polêmica interna da
esquerda. É uma régua para qualquer projeto que se apresente como
transformação.
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A política acontece no intervalo
Não é
preciso escolher entre a manchete e o horizonte.
A
conjuntura importa porque decisões imediatas alteram vidas e correlações de
força. O projeto de futuro importa porque o presente não fornece sozinho a
direção de sua superação.
Mas é
no intervalo entre ambos que a política se confirma ou se esvazia.
Ela se
confirma quando renda significa mais escolha; quando educação produz
conhecimento e instituições; quando uma redução da jornada devolve tempo;
quando uma política cultural transforma reconhecimento em propriedade e poder
de negociação; quando um investimento tecnológico aumenta o domínio do país
sobre seu desenvolvimento; quando uma vitória eleitoral deixa sujeitos e
organizações capazes de exigir a seguinte.
Ela se
esvazia quando a mudança permanece no anúncio, quando o acesso não se converte
em capacidade, quando o reconhecimento não distribui valor, quando a tecnologia
não produz soberania e quando a melhora não encontra organização capaz de
protegê-la.
Política
é disputa sobre quem pode viver de outro modo. Quem controla o próprio tempo.
Quem tem condições de produzir conhecimento. Quem fica com o valor do que cria.
Quem decide sobre o território e os recursos do país. Quem deixa de ser apenas
objeto de uma decisão e passa a participar da definição do futuro.
Não
basta, portanto, perguntar o que aconteceu. Também não basta proclamar o que
deveria acontecer.
A
pergunta que liga o presente ao futuro, a vida concreta às estruturas e a
transformação ao poder é outra:
O que
mudou de mãos na vida real — e o que ainda precisa mudar para que a
transformação deixe de ser promessa e se torne poder concreto na vida das
pessoas?
Fonte: Por
Edgar Silva dos Anjos, em Outras Palavras

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