O
novo programa de governo responde ao esgotamento do lulismo?
Até
pouco tempo atrás, o projeto que Lula vinha ensaiando nos discursos –
soberania, trabalhadores, terras raras, enfrentamento retórico com o sistema
financeiro – ainda não havia se transformado em programa. Havia sinais
dispersos: o discurso no encontro da Mobilização Progressista Global, em
Barcelona, em que o presidente admitiu que a esquerda se tornou “gestora do
neoliberalismo”; o 1º de maio classista; a mobilização vitoriosa pela isenção
do Imposto de Renda e pelo fim da escala 6×1. Mas não havia o documento que
organizasse esses sinais em um projeto de sociedade.
Agora
há: o programa de governo registrado pela coligação Brasil Pronto pra Mais para
a eleição de outubro. É, então, o teste empírico da hipótese com que encerrei
minha análise anterior nestas páginas, repetindo as palavras do Presidente em
entrevistas: a de que o terceiro mandato teria sido a “arrumação da casa” e o
quarto seria o momento de “olhar para as causas”.
A
estrutura dos dois tempos é repetida quase literalmente. Proclama que o governo
recuperou “uma década de retrocessos em três anos e meio” e reconhece, na frase
seguinte, que “a simples recuperação do passado é insuficiente diante das
exigências do futuro”. Uma promessa formal de campanha.
Já que
o governo promete querer olhar para as causas, trata-se de verificar se o
programa contém instrumentos para enfrentá-las. E a resposta é: não. O programa
incorpora o vocabulário da ruptura e preserva a arquitetura do modelo esgotado.
É uma atualização do mecanismo do lulismo – tradicionalmente definido por André
Singer como reformismo fraco (reforma gradual e pacto conservador), agora
operando como enfrentamento de classes retórico e manutenção de instrumentos
neoliberais.
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A adoção seletiva da segunda fase
O que
um projeto de superação do reformismo fraco exigiria é conhecido – conhecido,
inclusive, dentro do próprio campo: em plena campanha, a Fundação Perseu
Abramo, escola de formação do PT, ofereceu um curso sobre o projeto nacional de
desenvolvimento cujas ementas assumem o compromisso com a “derrota da ortodoxia
e do rentismo”, discutem a vulnerabilidade cambial da periferia e se encerram
com uma aula sobre mobilização social. Planejamento estatal,
reindustrialização, aproveitamento soberano da janela dos minerais críticos e
das terras raras, investimento público robusto e, como condição de tudo isso, a
revisão da política econômica.
O
programa de governo contém quase toda essa lista. Promete “ampliar a capacidade
de planejamento do Estado brasileiro” e invoca um “projeto nacional de
desenvolvimento” – o vocabulário voltou e isso não é pouco.
O
programa ainda anuncia uma política específica para minerais críticos e terras
raras destinada a “evitar a simples exportação de matérias-primas
estratégicas”. Projeta o Nordeste como polo de plantas eletrointensivas –
siderurgia verde, hidrogênio, processamento mineral. Declara a soberania, em
todas as suas dimensões, como eixo do mandato.
Falta a
condição de tudo o mais. O documento é textual: “manteremos o novo arcabouço
fiscal”. A regra que limitou o crescimento das despesas no terceiro mandato é
reafirmada como conquista a preservar, não como constrangimento a rever. Fora
do papel, o compromisso é ainda mais explícito: a Folha de São Paulo revelou
que o ministro da Fazenda, Dario Durigan, escalado pela campanha como porta-voz
do programa econômico, sinalizou a três grandes instituições financeiras, “como
programa de governo”, não só a manutenção, mas o aperto da regra – redução do
teto anual de crescimento das despesas de 2,5% para 1,5%, com novos gatilhos
sobre os gastos obrigatórios –, aceno prontamente saudado pela mídia
corporativa.
O
resultado é um programa de governo que promete a segunda fase com o regime
fiscal da primeira: a narrativa da transformação estrutural, financiada pela
mesma regra que a impede, mobilizando o mercado de capitais, as debêntures
incentivadas e o Eco Invest – instrumentos de atração e “desriscagem” do
capital privado – como motores do novo ciclo. O Novo PAC continua, mas cada vez
mais como articulador de concessões e capital privado, e não como investimento
direto do Estado. A financeirização estendida à transição ecológica.
Não se
trata de detalhe técnico. Como já advertia a tradição desenvolvimentista, de
Celso Furtado a Maria da Conceição Tavares, não há ciclo de desenvolvimento sem
investimento público massivo – em pesquisa, em capacidades humanas, em
indústria de fronteira.
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As cinco camadas diante do programa
O
desgaste do governo tem várias causas, dispostas em camadas. Vejamos três
delas.
À
percepção de injustiça e à revolta contra o “sistema”, o programa responde
disputando a própria palavra: “Somos o verdadeiro novo porque enfrentamos o
velho sistema que mantém o Brasil no atraso”. É uma tentativa explícita de
reocupar a posição antissistema capturada pela extrema direita.
Ao
endividamento das famílias, o programa responde celebrando o Desenrola e
prometendo “monitorar a evolução do endividamento”. A resposta aprofunda o
diagnóstico que pretendia superar. Se o crédito é, como formulou Wolfgang
Streeck, a forma contemporânea do “tempo comprado” – o mecanismo pelo qual o
capitalismo adia a revolta social quando os salários são estruturalmente baixos
–, então o Desenrola não é solução, é sintoma: houve a primeira edição, há a
segunda, haverá a terceira e a quarta, porque a substituição do salário pela
dívida permanece intocada.
Lena
Lavinas e Maria Paula Bertran, a partir de relatório do Banco Central de 2022,
mostraram que 73% da renda de juros paga aos bancos provinha de tomadores
individuais de baixa renda – os pobres sustentando o rentismo por meio do
crédito de consumo e do consignado. Para as autoras, o Desenrola inaugura um
novo marco da política social: o Estado como gestor da dívida e fiador da
acumulação financeira. Diante desse quadro, o programa oferece um detalhe que
condensa toda a contradição: linhas de crédito para que trabalhadores de
aplicativo comprem seus veículos e motos. A resposta à precarização é financiar
o instrumento de trabalho do precarizado.
À
mobilidade bloqueada, o programa responde ampliando o acesso: Pé-de-Meia
fortalecido, expansão dos institutos federais, assistência estudantil,
qualificação profissional. São políticas que aumentam o ingresso na base do
mercado de trabalho – sem alterar o teto que a estrutura produtiva impõe. Há
contrapesos reais e relevantes: a regulação do trabalho de plataforma com
proteção previdenciária, o compromisso com o fim da escala 6×1 e o combate à
pejotização. Mas a gramática do empreendedorismo via crédito, que preenche o
vazio da mobilidade bloqueada com a promessa de autonomia individual, segue
sendo consolidada pelo próprio governo que a diagnostica.
Essa
última camada devolve a discussão à estrutura produtiva. A qualidade dos
empregos que uma economia gera é função do que ela produz: a indústria de
transformação paga mais, formaliza, encadeia carreiras e puxa serviços
qualificados; a economia primarizada e de serviços precários oferece ocupação
sem trajetória. A desindustrialização é, por isso, a base material da
mobilidade bloqueada – o jovem que entra no mercado pelo aplicativo não
encontra escada porque a estrutura que construía escadas foi desmontada. O
programa promete “empregos de qualidade” em quase todos os capítulos; mas
empregos de qualidade não se decretam, decorrem da estrutura produtiva que os
gera.
André
Singer, Cicero Araujo e Leonardo Belinelli mostraram que a reprimarização não é
politicamente neutra: foi nas regiões do agronegócio em expansão – o “Novo
Oeste” – que se formou a base territorial e cultural do bolsonarismo. O
programa preserva a centralidade desse setor na estratégia econômica e amplia
os instrumentos públicos e privados de seu financiamento – Plano Safra, crédito
rural, mercado de capitais e títulos do agronegócio –, agora com
rastreabilidade do rebanho e pecuária de baixo carbono: ajustes que modificam a
inserção ambiental do modelo, não sua posição na divisão internacional do
trabalho. E a aritmética que o próprio documento comemora confirma o quadro: a
indústria brasileira, “6ª que mais cresceu no G20”, acumulou 3,2% em três anos
– enquanto a indústria de transformação segue em sua menor participação
histórica no PIB. A construção interrompida de que falava Furtado continua
interrompida; a novidade é que agora um programa a promete sem orçá-la.
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Margens estreitas
O
lulismo opera, por definição, em margens estreitas. Há, no documento, um mapa
involuntário dessas margens. Onde houve mobilização popular disponível – o
Imposto de Renda, a jornada 6×1 –, o programa usa verbos fortes e exibe
resultados, porque o governo mobilizou e avançou num Congresso hostil – venceu
a isenção do Imposto de Renda e aprovou o fim da escala 6×1 na Câmara, com a
batalha ainda em curso no Senado. Onde a mudança exigiria confronto com o bloco
agro-financeiro que sustenta a governabilidade – as emendas, os juros, o
controle de capitais –, os verbos recuam: “debater”, “buscar”, “criar
condições”. E onde o objetivo é conservar, tornam-se categóricos: “manteremos o
novo arcabouço fiscal”. A experiência do terceiro mandato demonstrou que a
mobilização direta do eleitorado é o único instrumento que alargou, na prática,
as margens do lulismo. O programa registra essa lição em seus êxitos e a
abandona em seus silêncios.
Seja
dito com clareza: dentro das margens dadas, dificilmente se escreveria um
programa melhor. O documento tensiona os limites onde pode – na regulação do
trabalho de plataforma, na jornada, no controle de armas, na taxação dos
super-ricos – e recua onde o custo seria a governabilidade. Mas atribuir todo
recuo ao cálculo seria generosidade excessiva: parte do que o programa preserva
é o possível; parte é convicção neoliberal. Quando o porta-voz econômico da
campanha oferece à Faria Lima, por iniciativa própria, um arcabouço mais duro
do que o escrito no próprio programa – e vem a público descartar o controle de
capitais aventado pelo coordenador do programa –, o que se expressa não é o
constrangimento da governabilidade: é a adesão sincera de parte do campo
governista ao consenso que o texto promete superar.
A
gramática da financeirização e do empreendedorismo individual – cada um
responsável por si e pelos seus, o crédito como alavanca, o esforço como
explicação do êxito e do fracasso – produz exatamente o sujeito que a extrema
direita colhe. Ao preservá-la, o programa disputa a posição antissistema no
discurso enquanto segue fabricando, na base da sociedade, o eleitor do
antissistema adversário.
Não se
trata de um risco abstrato. A extrema direita contemporânea cresceu sobre um
terreno preparado por décadas: a quebra da promessa de que cada geração viveria
melhor do que a anterior, o resgate dos bancos com dinheiro público em 2008
enquanto famílias perdiam casas e serviços, a demonstração prática de que os
credores vêm antes dos cidadãos. E avançou mais depressa justamente onde as
forças que deveriam representar uma alternativa se converteram em gestoras
competentes desse arranjo, administrando a contradição em vez de enfrentá-la –
foi essa renúncia que deixou os que ficaram para trás disponíveis para a raiva.
Na América Latina, a maré rosa redistribuiu sem desmontar a estrutura herdada;
quando o boom das commodities acabou, a base material do pacto cedeu, o ajuste
voltou e a onda de extrema direita veio com ele. Manter o regime fiscal,
celebrar o agronegócio e financiar o empreendedor individual é apostar que esse
ciclo, desta vez, terminará diferente.
A
pergunta que fica para o quarto mandato, portanto, não é se Lula deseja a
segunda fase – o programa demonstra que a campanha compreendeu o esgotamento e
adotou seu diagnóstico. A pergunta é se estará disposto a mobilizar o povo para
pagá-la. Sem isso, a segunda fase do lulismo terá existido apenas onde hoje se
encontra: no papel.
Fonte:
Por Marina Basso Lacerda, no Le Monde

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