EUA
x Irã: O agressor enrascado
Donald
Trump cancelou há dias um ataque militar em larga escala, que havia planejado
contra o Irã. Essa reviravolta ocorre após relatos de que os EUA gastaram
grandes quantidades de munições críticas desde o início da guerra, em 28/2.
Este esgotamento inclui mísseis Tomahawk de longo alcance, lançados do mar
contra alvos terrestres. Dos cerca de 3 mil Tomahawks nos EUA, 1
mil já foram aparentemente utilizados. Cerca de 1.100 mísseis JASSM de longo
alcance, lançados do ar, de um total de aproximadamente 4.000, também foram
usados na guerra. Entre 40 e 70 mísseis PrSM (Precise Strike Missiles) de longo alcance,
lançados do solo, dos quais os EUA possuíam apenas 90, foram disparados contra
o Irã, praticamente esgotando o inventário.
LEIA A
ENTREVISTA:
·
Alistair, vamos começar com a situação atual. Como
mencionei na introdução, Trump ameaçou uma campanha de bombardeio maciça.
Mais uma vez, recuou. Há um acordo entre Omã e Irã. Pode nos explicar
o contexto?
Alastair
Crooke: Certamente.
Há algo muito impressionante. Você leu a lista de mísseis e armas
norte-americanas que se esgotram durante a guerra, e o que é notável é em quão
pouco isso resultou. Não reduziu significativamente a capacidade em mísseis do
Irã. Não alterou a postura do país. Falhou completamente em mudar o rumo da
guerra.Acredito que representa o fim de uma forma de lutar. Ao longo do período
pós — II Guerra Mundial, o Ocidente priorizou completamente a ideia de controle
do espaço aéreo, a capacidade de bombardear seus inimigos de modo
indiscriminado, acreditando ter total liberdade para ir aonde quisesse, quando
quisesse e como quisesse. Isso chegou ao fim, e a causa foram basicamente
componentes eletrônicos baratos, que permitiram aos Estados produzir mísseis. O
Irã encontrou a resposta para isso: enterrar seus mísseis, enterrar os sistemas
de produção, enterrar a liderança. Isso foi chamado de Sistema Mosaico, e tem
sido muito eficaz. Teerã não têm uma força aérea, mas exerce, neste momento, domínio
aéreo de mísseis sobre o Golfo, em contraste com o domínio aéreo que os Estados
Unidos não conseguiram alcançar plenamente. Em que ponto estamos? Nestas
negociações entre Irã e Omã. Para ser claro, são, no momento, apenas
conversações técnicas. Os Estados Unidos não estão envolvidos, embora alguns
mediadores estejam em contato telefônico constante com os omanitas. Mas, em essência,
não há intenção por parte do Irã de abrir o Estreito de Ormuz para todo o
tráfego a custo zero. Pode ser aberto com muita cautela, por exemplo, para
navios e petroleiros chineses, mas não será aberto como era antes. Em segundo
lugar, os iranianos vão cobrar taxas; cogita-se 7%. Eles também vão aplicar
multas de 20% a qualquer embarcação que não cumprir as regras estabelecidas
pela nova administração do Estreito de Ormuz. As discussões giram em torno de
se haverá dois corredores – um de saída, outro de entrada – ou apenas um. No
momento, existe apenas um corredor, porque os iranianos fecharam o que segue a
costa de Omã, minando-o. Trump estará diante da proposta de que o Irã controle
Ormuz, embora a passagem de entrada possa ser administrada pelos omanis, sob o
controle final da Guarda Revolucionária Iraniana (IRGC). Todos os detalhes das
embarcações terão que ser repassados a ela, antes de serem autorizadas a entrar
nessa rota. Embora isso não faça parte das atribuições da equipe de negociação,
o Parlamento em Teerã parece estar afirmando que irá criar uma lei para
proibir, em qualquer momento futuro, a passagem de navios dos Estados Unidos ou
de Israel por Ormuz. Segundo meu entendimento, nada disso entrará em vigor até
que um acordo seja firmado, após uma declaração de cessar-fogo, o fim do
bloqueio americano e a suspensão das sanções à exportação de petróleo e
derivados do Irã. Somente então essas novas regulamentações entrarão em vigor
integralmente. Mas, pelo que sei, isso ainda não foi apresentado ao Líder
Supremo e aprovado pelo comitê de segurança. Ele não mencionou o Mar Vermelho
nem o Estreito de Estreito de Bab el-Mandeb, mas disse que os houthis podem ser
irrelevantes. Será o início de uma preparação para uma saída? É cedo demais
para dizer. Mas será que Trump, depois de toda a sua carreira e da orientação
de Roy Cohen, que o ensinou a nunca perder, conseguirá suportar isso? Ou
tentará outra ação militar, mesmo que, como você apontou, não pareça haver
muita vantagem, pois não mudaria nada em termos de postura ou determinação do
Irã em controlar o Estreito de Ormuz?O Irã simplesmente não acredita ser
possível chegar a um acordo completo com Trump e seu governo. O país desdenha
do Memorando de Entendimento. Percebe que os Estados Unidos estão apenas usando
esse padrão de ameaças e depois falando em acordo.
·
Gostaria de falar um pouco sobre o acordo, porque o
acordo original deveria ser implementado em fases. Acho que está bem claro que
o Irã não assinará algo parecido novamente. Esta foi uma guerra não provocada.
Foi uma guerra criminosa de agressão, de acordo com o direito internacional, e
foi verificada pelo chefe da ONU e outros. E o Irã quer reparações. Quer a
liberação de seus ativos congelados, cerca de US$ 100 bilhões. E esse é um lado
da questão. E, claro, também quer uma garantia de que não será atacado
novamente. Do outro lado, Trump está se preparando para as eleições de meio de
mandato. Seus índices de aprovação estão muito baixos. E acho que está claro
que a Casa Branca deseja desesperadamente, mesmo que seja um acordo provisório,
algum tipo de acordo que possa ser implementado precariamente pelos próximos
meses, até novembro. E gostaria de saber se você pode abordar essas duas
preocupações conflitantes.
O que
você descreveu é quase uma fase da guerra que ficou para trás, no sentido de
que esse Memorando de Entendimento agora é amplamente visto como uma farsa. Foi
uma farsa deliberada, pois seu propósito era simplesmente abrir Hormuz o mais
rápido possível, e por isso foi assinado sem qualquer intenção real de levá-lo
a cabo. Ou seja, não há nenhuma sensação real de que seja a base para um acordo
a ser respeitado por Trump. Na visão dois iranianos, foi uma farsa e, portanto,
estamos em uma fase diferente. Essa fase consiste em aumentar a pressão sobre
Trump, primeiramente nos mercados, já que o Mar Vermelho está fechado e os
houthis voltaram a atacar petroleiros sauditas que tentam entrar no porto de
Yambu, no Mar Vermelho, para carregar petróleo. O tráfego é muito baixo. Está
aberto para outros tipos de tráfego, mas não para petroleiros sauditas. Acho
que é a primeira vez que os sauditas não exportaram petróleo algum durante esse
período.
·
E só para interromper, acredito que os sauditas
exportavam cerca de seis milhões de barris por dia pelo Mar Vermelho, correto?
É isso
mesmo, e agora caiu para zero. Os Emirados Árabes Unidos também não exportaram
petróleo durante esse período. O principal ponto é que o Irã vê isso como uma
vantagem. Você mencionou os efeitos nos mercados de petróleo, mas o que é
realmente importante é o tipo de petróleo que está faltando. Isso é crucial
para a estratégia deles, porque o que o Irã e o Estreito de Ormuz forneciam
eram basicamente destilados médios de petróleo, não petróleo leve. Os Estados
Unidos têm petróleo leve proveniente dos campos de fraturamento hidráulico,
como o de Parmia, e a Venezuela tem o petróleo mais pesado, quase como
alcatrão, do outro lado. Mas os destilados médios são os que fornecem diesel e
querosene para aeronaves, e esses estão em drástica escassez. O preço pedido
nas refinarias para obter um barril de destilados médios hoje é muito maior do
que será no futuro. E essa é uma das razões pelas quais não tenho certeza se
veremos um grande ataque ao Irã. As aeronaves – os F-15 e F-35 –precisam de
muito combustível de aviação para realizar esse tipo de operação e exigem
reabastecimento a cada 400 quilômetros, aproximadamente. Nesta nova fase, o Irã
adotou uma postura mais proativa. Eles não vão apenas esperar que os Estados
Unidos ataquem para então considerar os alvos que atacarão em retaliação. Eles
mantêm um nível discreto de ataques proativos contra os Estados Unidos, contra
os estados do Golfo e, no momento, contra Israel (que não está envolvido), mas
mantêm um nível de força militar proativa. Em outras palavras, prolongam a
guerra, dificultando ao máximo que Trump diga que venceu. Evitam que a situação
se transforme em uma grande guerra, mas continuando a atacar embarcações. A
sensação crescente é de que Trump está sob pressão. O Irã sente que tem as
cartas na mão, para usar uma expressão de Trump; que está em uma posição melhor
e que tem o controle sobre Ormuz — o que é crucial porque pode financiar uma
guerra prolongada se tiver as taxas e os custos de passagem pelo estreito.
Estima-se que sejam cerca de cem bilhões de dólares por ano. A linha de
pensamento está mudando um pouco, com uma tendência a pressionar mais Trump e a
não buscar um acordo. Eles sempre acreditaram que uma guerra com os Estados
Unidos era inevitável, a única saída para o impasse em que se encontram presos
há 47 anos. Agora sentem-se preparados e em uma posição muito melhor do que
Trump em Washington, à medida que as pressões sobre o mercado de petróleo
aumentam e as limitações militares de Washington se tornam evidentes: a
incapacidade de disparar armas de longo alcance, a incapacidade de causar danos
reais às cidades com mísseis. O que ele atacaria em vez delas? A Montanha da Picareta? É uma montanha de
granito com instalações enterradas a mil metros de profundidade. As bombas
ricocheteariam. Um de seus abrigos de mísseis foi atingido 45 vezes por
bombardeios norte-americanos durante esse processo, e mesmo assim, a cada meia
hora, mísseis continuavam sendo disparados do mesmo local. Portanto, estamos em
um cenário diferente, em uma fase diferente para aumentar a pressão sobre os
Estados Unidos. O interesse por um acordo rápido não existe, e isso se reflete
claramente no Irã. Vimos isso durante o funeral do aiatolá Ali Khamenei, e em
outras ocasiões. O clima no Irã mudou bastante. Isso despertou algo muito
profundo, uma espécie de memória do país como grande potência civilizacional,
que exerceu influência dominante na região por milhares de anos, e que agora
está sendo tratado com desrespeito e descortesia, sendo chamado de escória. Isso
gerou uma mentalidade de muita revolta entre os jovens.
·
Gostaria de perguntar sobre os efeitos desta guerra na
região. Mas antes, gostaria que você abordasse as potenciais consequências de
um fechamento prolongado tanto do Estreito de Bab el-Mandeb quanto do Estreito
de Ormuz, não apenas para os mercados de petróleo, mas também para a economia
global.
É
difícil dar uma resposta quantitativa direta, porque há muitas incógnitas. Em
meio a tudo, os Estados Unidos estão tentando lidar com uma grande crise no
Japão, com a queda vertiginosa do iene japonês. Para tentar sustentá-lo, os
Estados Unidos recorrem a uma vasta venda de euros. O Japão é importante porque
possui 1,2 trilhão de dólares em títulos do Tesouro americano, mas também por
causa de sua situação peculiar. Em
outras partes do mundo, poderíamos dizer que estão falidas. 14% da economia
japonesa está tentando desesperadamente manter essa situação. Os EUA estão
tentando fazendo manobras complexas, como tomar empréstimos do tesouro japonês
com pagamento futuro, liberarando agora o dinheiro para que os japoneses possam
comprar mais ienes e tentar sustentar a economia. O que estou dizendo é que o
mercado de títulos está em crise e, portanto, os mercados em geral também
estão. E, de certa forma, Netanyahu deixou escapar o segredo quando voltou de
Washington há duas semanas. Ele disse: “Foi a melhor reunião de todos os
tempos, tudo foi maravilhoso”. Netanyahu está em campanha eleitoral, mas
acrescentou: “Trump está tentando evitar um colapso econômico.” Ele acertou em
cheio ao dizer que o foco agora é preservar a economia, a hegemonia do dólar, o
petrodólar, toda essa estrutura de crédito e financiamento que sustenta a
presença militar dos EUA ao redor do mundo, as guerras e armas usadas nesses
combates. O Irã está ameaçando justamente esse processo. O petrodólar é um
elemento do mundo financeirizado de Wall Street, instalado nos Estados do
Golfo, bem ao lado do Irã. É exatamente o tipo de ameaça que Teerã gostaria de
eliminar.
·
Os aliados não foram consultados sobre o início da
guerra, mas pagaram um preço altíssimo, em grande parte devido aos ataques de
precisão que o Irã conseguiu realizar, presumivelmente com a ajuda de satélites
e inteligência russos e chineses. Antes de entrarmos no ar, você descreveu a
região como frágil. Fale um pouco sobre os efeitos nos países do Golfo.
Bem, em
primeiro lugar eu diria que o principal elemento de incerteza é a recorrência
da guerra entre os Houthis e a Arábia Saudita. Esta é agora uma guerra
declarada. Nos últimos dias, os Houthis dispararam mísseis contra as forças e
os mercenários reunidos pelo governo do sul do Iêmen nas províncias de Mindanao
e Hadrastat, para atacá-los. Há imagens que mostram os mercenários fugindo em
massa. Eles foram completamente destruídos pelos mísseis disparados pelos
Houthis.
<><>
Alistair, permita-me interromper. Esses mercenários são armados e financiados
pela Arábia Saudita, correto?
Sim.
São forças que agem por procuração da Arábia Saudita. Acredita-se que os
Houthis destruíram a grande refinaria da Aramco ao lado do porto saudita de
Janbu, no Mar Vermelho. Não era uma refinaria qualquer. Estamos acostumados a
ouvir falar de refinarias atingidas na Rússia e em outros lugares, reparadas
rapidamente. Especificamente, esta era a refinaria mais moderna do mundo, a
mais completa em termos de tecnologia. Foi destruída, assim como o terminal do
oleoduto que liga o leste ao oeste, no Mar Vermelho. As instalações da Aramco,
a unidade de bombeamento no lado leste, no lado de Ormuz, também foram
destruídas. O oleoduto que transporta o petróleo saudita de seus principais
campos até o Mar Vermelho foi completamente destruído. Os sauditas disseram que
os responsáveis não foram os Houthis, mas sim a resistência iraquiana, o Hashad
al-Sha’ibi. O Hashad al-Sha’ibi negou completamente. E é provável que não
tenham sido, pois se trata de um período de celebração, um período solene de 40
dias que marca o aniversário da morte do Imam Hussein na Cabala. Mas os
sauditas e os Estados Unidos atacaram a resistência iraquiana, matando muitos,
incluindo alguns membros das forças iranianas da Guarda Revolucionária Islâmica
(IRGC). E então o Iraque começou uma tentativa de expurgar parte da
resistência, mas há sinais de que a resistência está se deslocando para as
fronteiras. O Iraque é composto por cerca de 60% de xiitas; os outros 40% são
divididos entre sunitas e curdos. Portanto, os sunitas representam uma
proporção bastante pequena, e os xiitas, a maior parte. E o Hashad é sempre
mencionado na mídia ocidental como se fossem apenas representantes do Irã. Como
se pressionar o Hashad fosse pressionar o Irã na disputa de Ormuz. Eles não são
isso. Eu os conheço, me encontrei com os membros do grupo. Sim, são xiitas e o
Irã é uma espécie de berço do xiismo. Mas são nacionalistas iraquianos
convictos, que aceitavam e seguiam o Líder Supremo, assassinado em 29 de
fevereiro, como sua fonte de emulação, seu guia espiritual. Estão profundamente
revoltados com sua morte. Ele era o líder religioso deles também, não apenas do
Irã. Por isso disseram que haverá retaliação. Deram ao governo iraquiano um
pouco de margem de manobra, mas pelo que vejo, há movimentos em ambos os lados
da fronteira, e talvez a situação seja contida, mas o país é um Estado muito
frágil. Membros da segurança iraquiana disseram que não foi o Hashad, a
resistência iraquiana, que atacou as instalações petrolíferas sauditas, e sim
grupos ucranianos. Não acho que devamos dar muita importância a isso, mas
acontece num momento em que um navio iraniano foi atingido por mísseis
ucranianos no Mar Cáspio. A tensão entre a Arábia Saudita e o Iraque, assim
como entre os Estados Unidos e o Iraque, está aumentando consideravelmente. O
Hashad está se mobilizando, mas ainda não tomou uma decisão. Ao mesmo tempo, no
Iraque, os iranianos invadiram Erbil, a região curda do país, o Curdistão, e
atacaram as forças curdas, assassinando alguns de seus líderes e atacando suas
linhas de suprimento, combustível e munição. Há relatos de que os Estados
Unidos estavam tentando reviver um plano já fracassado de invasão curda ao Irã,
para estabelecer uma espécie de mini-Estado. Vimos algo semelhante na Rússia,
na região de Kursk. Os iraquianos estão tomando medidas preventivas contra
isso. Também vimos um navio-tanque de gás ser atacado por drones em um porto no
Egito nos últimos dias. Não está claro quem foi o responsável. Mas a guerra
entre a Arábia Saudita e o Iêmen está se tornando muito mais intensa, e penso
que os sauditas culparam o Hashad pelos ataques às instalações da Aramco porque
não queriam agravar a guerra com os Houthis.
Os
houthis são uma força de combate formidável. No passado, infligiram uma enorme
derrota ao exército egípcio, matando, creio eu, 20 mil soldados. Isso aconteceu
há muito tempo, não é o presente. Mas a Arábia Saudita não está ansiosa para
entrar nessa guerra, embora, ao mesmo tempo, esteja sem dinheiro. Não está
arrecadando nenhuma receita. Já estava com dificuldades financeiras. Os estados
do Golfo também estão com falta de dinheiro. Então, a situação está se tornando
cada vez mais tensa. Eu nem mencionei o Líbano nesse processo. Com as ameaças,
Washington tem tentado encorajar a Sharia da Síria a participar do desarmamento
do Hezbollah ou a atacar as aldeias xiitas que ficam na fronteira entre o
Líbano e a Síria. E a Turquia, que tem considerável influência, digamos assim,
sobre as forças em Damasco, diz que não se opõe à participação da Síria no
Líbano. Mas assim que isso aconteceu, tivemos mais reações do Iraque, da
resistência iraquiana, que disse à Sharia: “Vocês se aproximam do Líbano e nós
entramos na Síria”. A situação está ficando cada vez mais complexa. Temos
fantasmas à espreita e precisamos levar isso a sério. A extrema-direita em
Israel – eu detesto o termo extrema-direita, mas a direita messiânica, mais
precisamente os ministros Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich estão dizendo que
gostariam de ver uma grande crise na Cisjordânia, talvez no Monte do Templo,
talvez uma guerra. Eles querem uma crise que provoque um êxodo de palestinos da
Cisjordânia e que os ajude a vencer as eleições. Trata-se das eleições, mas
também de um duplo objetivo: provocar outra situação semelhante à de 1948, com
os palestinos obrigados a fugir da Cisjordânia para salvar suas vidas. Os
ministros estão se preparando e não fazem segredo algum. A eleição parlamentar
será existencial. Está prevista para outubro. Não está claro o que acontecerá,
nem que não terminará em violência.Os dois lados estão realmente em desacordo
no momento e o futuro de Netanyahu não é de nenhuma forma certo. Mas incendiar
a Cisjordânia é um objetivo antigo. Lembro-me de Smotrich falando sobre isso
alguns anos atrás, em um discurso no Parlamento, quando disse: “Este é o nosso
plano e os árabes vão embora”. E acrescentou: “Mas o que realmente precisamos
para implementar este plano é uma grande crise ou uma grande guerra. Durante
essa guerra, o plano finalmente entrará em operação”. Essas são algumas das
possibilidades. Tudo isso torna a situação muito instável..
·
Os egípcios e os jordanianos deslocaram suas tropas para
o norte – os egípcios para o Sinai, os jordanianos para a fronteira com a
Cisjordânia – para evitar o tipo de limpeza étnica que Smotrich e outros
defenderam abertamente. Chamam isso de transferência voluntária ou algo assim.
Se eles tentarem expulsar os palestinos da Cisjordânia, ou se finalmente
decidirem fazer isso em Gaza, onde cerca de dois milhões de palestinos estão
amontoados em cidades fétidas, superlotadas e tensas, como isso se desenrolará?
Quer dizer, isso não criará um confronto militar entre Israel e a Jordânia ou o
Egito?
Poderia
eclodir de muitas maneiras diferentes. A situação é muito inflamável. Toda a
região pode ser afetada por um fato fortuito qualquer. Mais um assassinato no
Líbano, um massacre em algum outro lugar. Tudo pode acontecer agora. É uma
situação muito volátil, em que pode uma grande crise pode ser facilmente
desencadeada. Particularmente, a questão palestina pode ter desdobramentos
capazes de levar o Irã de volta ao conflito direto com Israel, atacando-o
diretamente nos territórios do norte, ou seja, os territórios do sul do Líbano
até a Galileia. Tudo isso é possível. Um conflito pode ser facilmente
desencadeado, e os iranianos estão preparados para a guerra — não apenas contra
os Estados Unidos. Acredito que eles esperam que, em algum momento, Israel
também entre em conflito. Estão preparados para isso, e eu o enfatizo porque
muitas vezes as pessoas interpretam mal e dizem: “Você sabe, Israel é tão
forte, não é?”. Tomemos a infraestrutura, que eles dizem querer atacar no Irã.
Os israelenses têm duas refinarias, e são um país pequeno: as usinas de energia
estão concentradas. Já o Irã é um país grande. Suas estruturas de poder e toda
a infraestrutura estão dispersas há 20 anos, precisamente em antecipação a uma
futura guerra contra os Estados Unidos. Israel quer uma guerra com o Irã? Não:
quer que Trump declare guerra e destrua o Irã, destrua sua infraestrutura, para
que o Estado não possa mais fornecer serviços aos cidadãos. É algo monstruoso,
esperar que o Estado seja destruído a ponto de ficar incapaz de fornecer
qualquer serviço à sua população. Equivale a um ataque nuclear tático lento, em
vez de um ataque de grande escala. Significa deixar a população sem água, sem
eletricidade, sem combustível. Seria impossível sobreviver. Se isso acontecer,
os iranianos retaliarão contra as estações de tratamento de água da Arábia
Saudita e dos países do Golfo, que são muito vulneráveis nesse aspecto. O Irã é
menos vulnerável no tratamento de água. Apenas 3% da sua água vem de estações
de tratamento.
·
Vale mencionar que 70% da água fornecida na Arábia
Saudita provém das usinas de dessalinização. Talvez o percentual seja superior
a 80% nos Emirados Árabes Unidos. Se o Irã destruísse essas usinas de
dessalinização, isso criaria por certo uma crise humanitária em toda a região.
Acho que toda a área em torno de Riad, por exemplo, depende da dessalinização.
Certamente.
Mas será que isso está nos cálculos em Washington? Quanto disso é compreendido
no governo dos EUA, ou é levado em consideração por Trump quando ele está em
condições de ouvir, entender a situação e não simplesmente dizer: “Ah, o Irã
está derrotado, está em frangalhos, nós vencemos a guerra”? Essa é a parte
incerta. Uma decisão equivocada pode desencadear uma crise em toda a região,
porque todas essas relações estão interligadas e de alguma forma se conectarão.
O Hezbollah não ficará parado se os palestinos forem expulsos de Gaza ou da
Cisjordânia. O que acontece na Síria? O que acontece com o Hashad? O Hashad
pode entrar na Síria. E tudo isso só serve para tornar a situação dez vezes
mais complicada, dez vezes mais difícil de resolver. Não existe uma solução
mágica e simples.
Fonte: Alastair
Crooke, entrevistado por Chris Hedges | Tradução: Antonio Martins, em Outras
Palavras

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