segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Lula, Flávio e demais candidatos iniciam campanha eleitoral

A menos de dois meses para o 1º turno das eleições, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) já protagonizam uma das campanhas eleitorais mais acirradas na corrida ao Palácio do Planalto dos últimos anos.

No comparativo com os pleitos de 2018 e 2022, quando pelo menos um dos presidenciáveis chegava à reta final do ano eleitoral com ampla vantagem nas pesquisas, o cenário de 2026 se mostra mais equilibrado.

Ao longo do ano, Lula e Flávio chegaram a oscilar na liderança em diferentes levantamentos e apareceram tecnicamente empatados na maioria das pesquisas que testaram um eventual segundo turno.

Os resultados mais recentes, embora mantenham o petista numericamente à frente, mostram uma distância menor entre os dois do que a registrada por Lula contra Jair Bolsonaro (PL) no mesmo período de 2022.

<><> Disputa mais equilibrada

Levantamentos nacionais divulgados nas últimas semanas mostram Lula à frente de cerca de três a nove pontos percentuais.

Na pesquisa Quaest divulgada nessa sexta-feira (14/8), a mais recente a medir a disputa presidencial, Lula aparece com 43% das intenções de voto em eventual segundo turno contra Flávio Bolsonaro (PL), que registrou 40%. A diferença de três pontos está dentro da margem de erro, de dois pontos percentuais, o que configura empate técnico.

Em 2022, na pesquisa do mesmo instituto divulgada em 17 de agosto, Lula tinha 51% contra 38% de Bolsonaro, uma vantagem de 13 pontos percentuais.

O Datafolha divulgado em 24 de julho também apontou uma distância menor entre Lula e Flávio. O petista tinha 48%, contra 43% do senador, diferença de cinco pontos. No levantamento do instituto realizado em julho de 2022, Lula aparecia com 55%, ante 35% de Bolsonaro — uma vantagem de 20 pontos.

Na pesquisa CNT/MDA divulgada em 11 de agosto, Lula registrou 48%, contra 39,1% de Flávio, diferença de 8,9 pontos. No levantamento realizado pelo instituto em agosto de 2022, Lula tinha 50,1%, contra 38,8% de Bolsonaro, diferença de 11,3 pontos.

Os três institutos mostram uma distância menor entre os candidatos em 2026 do que nos levantamentos correspondentes de 2022. A diferença é de apenas três pontos na pesquisa mais recente, da Quaest, e chega a 8,9 pontos na CNT/MDA.

Apesar das vantagens maiores registradas nas pesquisas de 2022, a eleição daquele ano terminou como a mais acirrada da história do país. Lula venceu Bolsonaro por 50,9% a 49,1% dos votos válidos, uma diferença de 1,8 ponto percentual.

O resultado mostra que uma vantagem maior nas pesquisas durante a campanha não necessariamente se traduz em uma vitória folgada nas urnas. Em 2022, a distância entre Lula e Bolsonaro diminuiu significativamente até o segundo turno, quando o petista saiu vitorioso.

<><> Eleições de 2018

Em 2018, o cenário também apresentava diferenças mais acentuadas entre os principais candidatos, embora a configuração da disputa fosse diferente da atual. Lula, então preso após ser condenado na Operação Lava Jato, liderava as pesquisas de intenção de voto.

A candidatura do petista, contudo, foi barrada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e Fernando Haddad (PT) assumiu a chapa na reta final da campanha.

Em pesquisa Datafolha divulgada em 16 de julho de 2018, Jair Bolsonaro aparecia à frente de Haddad em um eventual segundo turno, com 38% contra 29%, uma vantagem de nove pontos percentuais.

O mesmo levantamento testou ainda um eventual segundo turno entre Lula e Bolsonaro. Nesse cenário, o petista aparecia com 52%, contra 32% do então candidato do PSL — diferença de 20 pontos percentuais.

Os resultados mostram que, embora a eleição de 2018 tenha sido marcada pela polarização entre petismo e bolsonarismo, havia vantagens mais amplas entre os candidatos nos cenários testados pelas pesquisas.

Bolsonaro foi eleito no segundo turno, com 55,13% dos votos válidos, contra 44,87% de Haddad. A vitória encerrou um ciclo de quatro eleições presidenciais consecutivas vencidas pelo PT.

•        Genoino defende ‘exército de militantes’ e campanha de rua para reeleição de Lula

O ex-presidente do PT e ex-deputado federal José Genoino defendeu uma campanha eleitoral marcada por forte mobilização popular, presença permanente nas ruas e disputa política nas redes sociais para garantir a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em entrevista ao Bom Dia 247, Genoino afirmou que a militância terá papel central na disputa de 2026 e resumiu a estratégia que considera necessária: “Nós temos que ter um exército de militantes e militantes para fazer o corpo a corpo”.

A fala foi feita ao comentar o lançamento da campanha de Lula na Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, local historicamente associado às grandes greves dos metalúrgicos do ABC e à própria trajetória política do presidente. Para Genoino, retornar ao espaço onde Lula ganhou projeção nacional tem um significado que vai além da memória partidária. “Voltar à Vila Euclides significa onde tudo começou”, afirmou.

Segundo ele, o simbolismo do local deve servir como ponto de partida para uma campanha que recupere a capacidade de mobilização popular que marcou a origem do PT, mas adaptada aos desafios atuais. Genoino lembrou que frequentava as assembleias na Vila Euclides quando ainda era professor e militante e defendeu que a memória daquele período seja usada como referência para o futuro, e não como exercício de nostalgia.

“Eu gosto de trabalhar com a memória no seguinte sentido: não é para a gente olhar para ela no carro parado. É olhar para ela com o carro em movimento, tendo o para-brisa para onde a gente vai”, declarou.

Na avaliação de Genoino, a campanha de Lula terá de combinar a mobilização presencial com uma atuação organizada no ambiente digital. Ele disse que a esquerda precisa disputar as redes sociais sem cair no que classificou como armadilhas da extrema direita e, ao mesmo tempo, reconstruir o contato direto com a população em ruas, estações, locais de trabalho e espaços comunitários.

“Nós temos que fazer uma campanha que possa combinar ruas, que é o significado da Vila Euclides, com redes, fazer a disputa sem cair nas armadilhas da extrema direita”, disse.

Genoino contou que vem realizando plenárias com militantes em diferentes cidades sob a proposta de um “corpo a corpo de ideias”. Segundo ele, encontros desse tipo têm o objetivo de preparar grupos capazes de dialogar diretamente com a população durante a campanha. Nesta semana, relatou ter participado de uma plenária no Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba e afirmou que seguiria realizando atividades semelhantes em outras cidades.

Para ilustrar o ritmo que considera necessário até a eleição, o ex-presidente do PT apresentou um lema que tem repetido nos encontros com militantes: “Um dia vale uma semana, uma semana vale um mês e um mês vale um ano”.

A estratégia defendida por Genoino está associada a três grandes eixos que, segundo ele, devem orientar a campanha de Lula: soberania nacional, defesa da democracia e ampliação dos direitos sociais. Para o ex-deputado, esses temas precisam aparecer de forma articulada, relacionando os grandes debates sobre o futuro do país às preocupações concretas da população.

“A pauta do emprego, a pauta do salário mínimo, a pauta da saúde, da educação, do meio ambiente, da segurança”, enumerou.

Genoino afirmou que as reivindicações atuais são mais amplas do que aquelas que mobilizavam os trabalhadores no período de formação do PT. Se, no fim dos anos 1970 e início dos anos 1980, emprego e salário estavam no centro das mobilizações, hoje, segundo ele, a esquerda precisa incorporar à sua agenda os desafios enfrentados pela juventude, pelas mulheres, pela população negra, pela comunidade LGBT+, pelos povos originários e pelos trabalhadores submetidos a novas formas de contratação.

Nesse contexto, deu destaque à situação dos trabalhadores de aplicativos e de outros segmentos atingidos pela informalidade e pela precarização das relações de trabalho.

“Esse contingente que trabalha em aplicativos, que não tem direito nenhum, que está na informalidade, no trabalho intermitente, no PJ, acho que nós temos que, neste mandato do Lula 4, resolver essa questão do ponto de vista da classe trabalhadora, não das plataformas”, afirmou.

O ex-presidente do PT também defendeu que o fim da escala 6×1 seja incorporado à campanha como uma bandeira prioritária. Para ele, algumas propostas não deveriam ser adiadas em nome de cálculos políticos imediatos.

“O fim da jornada 6 por 1 é uma bandeira fundamental e nós devemos lutar por ela durante a campanha eleitoral”, declarou.

Genoino mencionou ainda a necessidade de uma política mais ambiciosa de valorização do salário mínimo e de novos avanços em áreas como saúde, educação, transporte, meio ambiente e segurança pública. Embora tenha reconhecido resultados positivos do governo Lula, como a expansão do emprego e da renda, sustentou que a população continua esperando mudanças mais profundas em seu cotidiano.

Ao longo da entrevista, Genoino fez repetidos alertas contra um clima de vitória antecipada no campo governista. Embora considere o cenário eleitoral favorável a Lula, afirmou que a disputa será difícil e que a direita e a extrema direita mantêm capacidade de mobilização política e de comunicação.

“Nós não podemos ter salto alto, nós não podemos achar que já ganhou, a gente não pode achar que vai ser fácil”, disse.

Ele também rejeitou a ideia de estruturar a campanha em torno de uma expectativa de vitória no primeiro turno. Para Genoino, essa estratégia poderia criar um efeito político negativo caso a disputa avançasse para uma segunda rodada.

“Não deve fazer esse discurso do primeiro turno. Tem que ganhar a eleição. Tem que ganhar a eleição”, afirmou.

Na sua avaliação, a eleição de 2026 será decisiva não apenas para a continuidade do governo Lula, mas também para os rumos políticos e institucionais do país.

“Essa eleição é uma tarefa histórica para o futuro do país. O que vai estar em disputa é o futuro do país, a soberania, os rumos da democracia e a pauta do povo”, declarou.

Genoino sustentou que a campanha deve ser tratada como um grande processo de politização da sociedade, e não apenas como uma disputa pela escolha de um candidato. Segundo ele, o voto não pode ser reduzido a um ato burocrático, mas precisa ser associado ao debate sobre prioridades nacionais e formas de participação popular.

Questionado sobre declarações do presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, a respeito da relação entre partidos do Centrão e Lula, Genoino avaliou que o dirigente partidário faz uma leitura pragmática da conjuntura e busca preservar sua influência independentemente de quem vença a eleição.

“Ele evidentemente fica navegando nessa corda bamba da ambiguidade que marca a classe dominante brasileira”, disse.

Para Genoino, Kassab procura manter o PSD e o próprio Centrão em posição relevante no Congresso, de modo a preservar poder de negociação com qualquer governo.

“Ele quer continuar sendo um dos líderes do Centrão para ter força no Congresso Nacional, seja Câmara e Senado, para se relacionar pressionando o governo Lula”, afirmou.

Outro tema abordado no Bom Dia 247 foi o sistema de emendas parlamentares. Genoino voltou a defender um plebiscito popular para discutir a revogação das emendas de execução obrigatória, entre elas as chamadas emendas Pix.

“Eu defendo um plebiscito popular para revogar as emendas impositivas com execução obrigatória”, declarou.

Segundo ele, seria difícil alcançar no Congresso os três quintos dos votos necessários para alterar dispositivos constitucionais relacionados ao tema. Como alternativa política, propôs que parlamentares de esquerda atuassem de forma coordenada, concentrando seus recursos em áreas prioritárias.

“Juntar todos os deputados de esquerda e fazer todos eles juntos uma emendona para o SUS ou para a educação ou para a segurança”, sugeriu.

Genoino também defendeu uma reforma política mais ampla, que inclua mudanças no sistema eleitoral e partidário, maior transparência dos poderes e mecanismos de participação popular.

Ao responder a uma pergunta sobre a possibilidade de novas tentativas de ruptura institucional, o ex-presidente do PT afirmou que o risco não deve ser desprezado.

“É claro que corremos”, respondeu.

Para Genoino, a história republicana brasileira mostra que o país ainda não consolidou uma tradição democrática suficientemente forte. Ele defendeu reformas capazes de ampliar a participação da sociedade, melhorar a representação política e tornar o sistema de Justiça mais transparente e submetido ao controle público.

“Nós não temos uma tradição radicalmente democrática. Eu acho que são necessárias reformas democráticas radicais”, afirmou.

Na visão do ex-deputado, a defesa da democracia precisa estar diretamente relacionada à melhoria das condições de vida da população. Ele argumentou que a sociedade tende a valorizar mais as instituições democráticas quando percebe que elas são capazes de garantir direitos concretos.

“Essa consciência democrática significa relacionar as bandeiras democráticas com os direitos do povo, para que o povo perceba a democracia que melhor garante moradia, segurança, direitos, salário mínimo, emprego de qualidade”, declarou.

Genoino também criticou o que considera um processo de despolitização do debate público e acusou setores da mídia e da extrema direita de produzir um ambiente de descrença, medo e permanente conflito. As críticas foram apresentadas como sua avaliação política.

Para ele, a campanha precisa responder a esse cenário com uma combinação de esclarecimento, mobilização e perspectiva de futuro. “A verdade é revolucionária porque ela convence, ela explica, ela mostra o que há por trás da aparência”, afirmou.

O ex-presidente do PT acrescentou que a esquerda deveria recuperar uma linguagem capaz de mobilizar expectativas e apresentar um horizonte de transformação social.

“Nós temos que recuperar o direito de sonhar, o direito de se revoltar, o direito de ter posturas de defesa da utopia, o direito de lutar por um outro mundo”, disse.

Nesse sentido, Genoino contrapôs o discurso que atribui à extrema direita ao que chamou de “política da alegria”.

“Eu trabalho na política da alegria, da exuberância, do otimismo, da utopia, do sonho”, declarou.

Para ele, uma campanha baseada apenas em críticas aos adversários seria insuficiente. O campo progressista, argumentou, precisa apresentar propostas capazes de dialogar com as dificuldades concretas da população e, ao mesmo tempo, recuperar a confiança na ação política como instrumento de transformação.

No fim da entrevista, Genoino também comentou a aproximação entre Brasil e México e avaliou que uma relação mais estreita entre os dois países pode ampliar o peso político da América Latina em um cenário internacional de crescente disputa geopolítica.

Ao citar o diálogo entre Lula e a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, afirmou que a cooperação entre as duas maiores economias da região pode fortalecer uma agenda baseada em autonomia e soberania.

“O peso que o Brasil tem, que o México tem, isso vai influenciar muito essa nova geopolítica com base nos valores da democracia, da autodeterminação e da soberania”, disse.

Genoino encerrou sua participação convocando apoiadores para o ato na Vila Euclides e voltou a insistir que a disputa eleitoral dependerá da capacidade de transformar simpatizantes em militantes ativos.

“Nós temos que ter um exército de militantes e militantes para fazer o corpo a corpo e, evidentemente, fazer o debate das ideias”, reiterou.

Na leitura do ex-presidente do PT, a volta de Lula à Vila Euclides representa justamente essa tentativa de conectar a memória das mobilizações que deram origem ao partido aos novos desafios de uma campanha marcada pelas redes sociais, pelas mudanças no mundo do trabalho e por uma polarização política que, em sua avaliação, torna indispensável a presença organizada da militância nas ruas.

 

Fonte: Metrópoles/Brasil 247

 

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