O
conto Bukele: grade alta, inteligência baixa
Enquanto
a insegurança cotidiana alimenta o receio e o receio alimenta o voto, uma
mercadoria política volta a circular com força, sob a tarja “modelo Bukele”.
Apresentado como solução mágica, ele chega embalado em presídios monumentais,
estado de exceção e mão de ferro. O problema é que, por trás do marketing, o
que se vende ao eleitor brasileiro é a velha ilusão de que basta encarcerar em
massa para desmontar uma estrutura criminosa complexa.
Os
candidatos da direita oportunista e da extrema direita tentam vender nuances do
modelo Bukele em seus programas de governo. Flávio Bolsonaro (PL), Renan Santos
(Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) recorrem aos velhos
expedientes de quem procura empacotar mercadoria de quinta como artigo de
primeira para ludibriar o consumidor, no caso, o eleitor.
O
vale-tudo em torno de temas sensíveis, capaz de capturar o medo e angariar
votos, não tem limites. Nas promessas de segurança pública, o produto costuma
sair do mesmo guichê ao venderem o bukelismo como se fosse segurança pública.
Importa-se o estilo do presidente salvadorenho Nayib Bukele e transforma-se o
endurecimento penal em mote eleitoral, apresentando a suspensão de direitos
constitucionais, o uso frequente do estado de exceção, a militarização do
policiamento urbano, as prisões em massa sem mandado judicial, o isolamento e a
força bruta como sinônimos de segurança.
Flávio
Bolsonaro, por exemplo, foi explícito ao incorporar ideias do modelo
salvadorenho a sua proposta de segurança pública. Ao apresentar o plano “O
Brasil sem medo”, propôs cinco presídios federais de segurança máxima
inspirados no modelo de El Salvador, além de defender a redução da maioridade
penal, o endurecimento do cumprimento das penas, a ampliação do sistema
prisional e o enquadramento de facções como Primeiro Comando da Capital e
Comando Vermelho na categoria de organizações terroristas. O pacote,
apresentado como resposta ao avanço do crime organizado, recicla antigas
bandeiras da extrema direita brasileira e acrescenta a elas ingredientes do
modelo Bukele. Ao tratar o crime organizado como problema essencialmente penal
e prisional, deixa de lado o combate às bases econômicas, financeiras e
territoriais que sustentam as facções.
Renan
Santos também abraça, em certa medida, o estilo salvadorenho. Seu plano fala em
retomada territorial de áreas dominadas por facções, tratamento de grupos
armados como terroristas e aplicação do chamado Direito Penal do Inimigo,
concepção que estabelece um tratamento penal diferenciado para aqueles
considerados inimigos do Estado. Para viabilizar essas operações, prevê o uso
da Garantia da Lei e da Ordem (GLO) e de decretos de Estado de Defesa. O
próprio candidato já declarou admiração pela capacidade de ação e resolução do
Estado demonstrada por Bukele. Seu programa procura associar essa referência a
uma política de segurança baseada no endurecimento penal e na ampliação dos
instrumentos de coerção estatal. A proposta é inverossímil por tratar o Brasil
como El Salvador, ignorando sua escala, a complexidade do PCC e do CV e a
incapacidade estatal de sustentar retomada territorial só por coerção. O
Direito Penal do Inimigo e a inspiração em Bukele podem gerar repressão
chamativa no curto prazo, mas tendem a aprofundar a violência e eliminar
direitos sem desmontar as bases econômicas do crime organizado.
Ronaldo
Caiado, embora procure se apresentar como alternativa ao bolsonarismo, também
aposta no discurso da mão pesada. E, em seu plano de segurança amplia ainda
mais esse receituário. Propõe a criação de uma lei de “terrorismo doméstico”
para enquadrar organizações criminosas e milícias, penas de até 45 anos, uma
rede de novos presídios federais de segurança máxima e o emprego das Forças
Armadas no combate às facções. É uma curiosa combinação, mão de ferro para o
crime organizado, mas mão bastante generosa quando se trata da organização
criminosa que atentou contra a democracia brasileira. Contraditoriamente,
Caiado promete de forma categórica conceder anistia aos condenados pelos atos
golpistas de 8 de janeiro de 2023, a Jair Bolsonaro e aos demais integrantes da
organização criminosa liderada pelo ex-presidente. Em seu plano, o candidato
também defende a criação de uma força policial conjunta com países vizinhos
para enfrentar organizações criminosas transnacionais, numa tentativa de
transformar o combate às facções em uma operação de alcance continental.
Trata-se, contudo, de uma proposta bastante ilusória e de difícil
concretização.
Romeu
Zema, por sua vez, não faz questão de esconder a inspiração. Depois de visitar
El Salvador e conhecer de perto o modelo de Nayib Bukele, incorporou a fórmula
a sua plataforma eleitoral. Promete construir um “superpresídio” de segurança
máxima em uma região remota da Amazônia para manter lideranças criminosas
isoladas por pelo menos 25 anos, além de defender o enquadramento das
organizações criminosas como terroristas. A proposta parece partir da
conveniente e perigosa premissa de que basta erguer uma gigantesca construção
carcerária e nela lançar os criminosos para que o crime organizado deixe de
existir. Como se facções não fossem estruturas financeiras, econômicas e
territoriais que exigem inteligência, investigação, combate à lavagem de
dinheiro e asfixia de seus recursos. No plano de Zema, porém, a complexidade do
crime organizado parece caber confortavelmente dentro das paredes de um
presídio.
Disfarçadas
de inovação, as propostas desses candidatos para a segurança nada mais são do
que velhas receitas de lei e ordem reembaladas para a eleição, agora turbinadas
pelo efeito Bukele. O problema é que segurança pública não cabe em um slogan,
numa megaprisão ou numa coleção de penas mais severas. A propaganda vendida
pelo governo salvadorenho ostenta a queda dos homicídios, mas omite a barbárie
de seu modelo de (in)segurança jurídica e social por ter a transformado o país
em uma prisão a céu aberto, sustentada pelo terror institucional, prisões
arbitrárias e o total desmantelamento das garantias individuais.
No
Brasil, onde o crime organizado movimenta somas vultosas de dinheiro, controla
territórios, infiltra-se em atividades econômicas e mantém redes dentro e fora
dos presídios, a hashtag “mão de ferro” esquece a inteligência policial, a
investigação financeira, o combate à lavagem de dinheiro, o fortalecimento das
polícias, a prevenção e as políticas capazes de impedir que o crime continue
recrutando mão de obra. Eles vendem o autoritarismo de exceção de Bukele por
segurança pública porque esse marketing pode render votos, sobretudo, para as
populações das grandes cidades esgotadas e afetadas diariamente pela presença
do crime.
Já a
proposta de segurança pública do único candidato progressista de esquerda,
presidente Lula, segue uma direção completamente distinta ao tratar o crime
pelo que é, e não pelo que possa render em votos. Em vez de surfar na onda do
espetáculo da “mão de ferro”, propõe reorganizar e integrar o sistema nacional
de segurança, ampliando a cooperação entre União, estados e municípios, o
compartilhamento de informações e o uso de inteligência contra o crime
organizado. A estratégia combina repressão qualificada, investigação financeira
e confisco de recursos das facções com controle de armas, fortalecimento das
forças integradas, modernização do sistema prisional e retomada de territórios
dominados pelo crime. O programa também visa a prevenção, urbanização de áreas
vulneráveis, policiamento de proximidade, câmeras corporais e qualificação dos
profissionais de segurança, sem abandonar a proteção dos direitos civis. A
proposta é respaldada por medidas já adotadas pelo governo, como o Programa
Brasil contra o Crime Organizado e o novo marco legal de combate às
organizações criminosas. Na Amazônia e nas fronteiras, a estratégia prevê
integração entre inteligência policial, tecnologia, monitoramento territorial e
cooperação com os países amazônicos.
O eixo
central, portanto, não é simplesmente colocar mais gente atrás das grades, mas
atingir a estrutura que sustenta as organizações criminosas, o dinheiro, as
armas, a logística, o território, a comunicação e as redes de apoio. Só o
combate aos integrantes da base do crime organizado de nada adianta. É preciso
asfixiar financeiramente essas organizações, comandadas por líderes
economicamente poderosos que circulam livremente pela Faria Lima como figuras
empreendedoras de prestígio, algumas das quais, como já vimos, fazem parte da
própria Faria Lima. Operações da Polícia Federal e da Receita Federal (como a
Carbono Oculto) já investigaram executivos e gestores do mercado financeiro
suspeitos de lavar dinheiro de facções por meio de fundos e fintechs. No Judiciário,
embora não exista lista consolidada de magistrados a serviço desses esquemas,
casos no Rio de Janeiro, citam desembargadores que proferiram decisões
suspeitas de favorecimento ao crime organizado.
Vale
lembrar que essa proposta em grande medida não nasceu agora, às vésperas da
eleição. A PEC da Segurança Pública, enviada pelo governo Lula ao Congresso em
abril de 2025, propõe reorganizar o sistema nacional de segurança, ampliar a
integração entre União, estados e municípios, fortalecer o compartilhamento de
informações e utilizar a inteligência de forma coordenada no enfrentamento ao
crime organizado. Depois de quase um ano de tramitação, foi aprovada pela
Câmara em março deste ano e permanece parada no Senado, em meio à resistência
de setores da oposição, majoritariamente identificados com a direita
oportunista e a extrema direita. Mais de um ano depois de sua apresentação, o
país ainda aguarda a conclusão de uma proposta que poderia dar maior coordenação
nacional ao combate à criminalidade. É importante observar que a segurança
pública está entre os temas de maior apelo eleitoral e, por isso, tornou-se
também campo de disputa política. Enquanto candidatos da direita e extrema
direita correm para incorporar às suas campanhas versões próprias da “mão dura”
e do modelo Bukele, uma proposta estruturante, já em tramitação há mais de um
ano, permanece à espera de votação. Cabe ressaltar que quando uma iniciativa
pode render dividendos políticos ao adversário, o cálculo eleitoral parece se
sobrepor ao interesse público. Nesse jogo de poder, porém, quem permanece à
espera e é visceralmente prejudicada é a população, que continua sem uma
política nacional de segurança capaz de integrar forças, compartilhar inteligência
e enfrentar o crime organizado para além do palanque.
Ao
anunciar nesta semana os programas de segurança dos candidatos à presidência, a
mídia tradicional, por sua vez, preferiu encenar seu habitual surto de amnésia
conveniente, quanto à proposta progressista de esquerda. Ao criticar o plano de
segurança pública do candidato Lula, um dos veículos da mídia corporativa caiu
em contradição em sua costumeira crítica, quando um de seus comentaristas
sugeriu, com ares de quem havia feito uma inédita descoberta, que um bom plano
poderia se resumir a uma única frase: asfixiar financeiramente as facções. Um
ato falho vexatório, pois no afã de criticar, o jornalista descreveu, sem
querer, exatamente o modus operandi que a Polícia Federal já vem executando sob
a atual gestão progressista. Desde 2023, a Polícia Federal vem ampliando
operações contra facções, tráfico de drogas e armas, lavagem de dinheiro,
corrupção, crimes financeiros e ambientais, garimpo ilegal e organizações que
atuam nas fronteiras, muitas delas em parceria com polícias estaduais, Receita
Federal, Ministério Público e outros órgãos. As Forças Integradas de Combate ao
Crime Organizado (FICCOs) foram fortalecidas, assim como a investigação
patrimonial e a descapitalização das organizações criminosas, atingindo não
apenas seus integrantes, mas o dinheiro e as estruturas que financiam suas
atividades.
O
diferencial que emerge da comparação das propostas dos candidatos de oposição e
que a mídia corporativa omite, é que a proposta de Lula procura tratar o crime
organizado como uma estrutura, e não apenas como um conjunto de indivíduos a
serem encarcerados. O Programa Brasil contra o Crime Organizado, por exemplo,
foi criado oficialmente em maio de 2026 e inclui inteligência, investigação,
cooperação entre instituições, combate ao tráfico de armas, munições e
explosivos, investigação de homicídios e ações sobre o sistema penitenciário.
Outro ponto importante é o Marco Legal do Combate ao Crime Organizado,
sancionado em março de 2026, ampliou instrumentos contra organizações
criminosas ultraviolentas, milícias e grupos que exercem domínio territorial,
incluindo mecanismos relacionados a patrimônio, inteligência, cooperação
internacional e confisco de bens.
Os
contrastes das concepções são evidentes. Enquanto os candidatos da direita e da
extrema direita transformam a segurança pública em uma vitrine de presídios de
segurança máxima, penas mais longas, encarceramento e referências ao modelo
Bukele, a proposta de segurança pública do candidato progressista de esquerda
procura atingir o crime organizado onde ele efetivamente se estrutura, ou seja,
no dinheiro, nas armas, na logística, na ocupação territorial e nas redes que
alimentam suas atividades. Em vez de importar o modelo salvadorenho marcado
pelo encarceramento em massa e pelo estado de exceção, aposta na integração
entre as forças de segurança, inteligência, investigação financeira,
tecnologia, cooperação federativa, prevenção e presença do Estado. Não se trata
de ser leniente com o crime, mas de enfrentá-lo em sua complexidade e não
vender ao eleitor a velha ilusão de que uma cela maior significa,
automaticamente, uma sociedade mais segura.
No fim
das contas, o eleitor precisa escolher entre duas lógicas. De um lado, a
vitrine eleitoral da direita oportunista e da extrema direita, que pretende
importar o autoritarismo de exceção de Bukele, erguer superprestígios,
suspender garantias e vender isso como “segurança”. A proposta de Flávio,
Renan, Caiado e Zema promete tão somente uma cela para cada problema. Do outro,
a proposta que já está em curso e que trata o crime organizado pelo que ele
realmente é: uma máquina de dinheiro, armas, território e logística. A proposta
de Lula é a mais eficiente porque ataca a estrutura, não apenas a ilusão do
encarceramento. Quem cair no conto Bukele estará trocando política pública por
propaganda de medo. E o medo, como se sabe, nunca foi bom conselheiro de voto.
Por
último, é preciso destacar que o risco não se limita ao modelo de segurança
pública defendido pelos candidatos da direita oportunista e da extrema direita,
caso sejam eleitos. Na última terça-feira (11/08), o governo Trump, ao resgatar
a Doutrina Monroe como eixo de sua estratégia de segurança nacional, declarou
que a “dominância” sobre as Américas “nunca mais será questionada”. A pressão
externa dos Estados Unidos sobre os países latino-americanos deixa de ser
velada e passa a ser explícita. Nesse cenário, Flávio Bolsonaro é o candidato
que melhor se alinha a essa lógica de aquiescência e submissão. Optar pelo
campo progressista de esquerda nas eleições de outubro, portanto, não significa
apenas escolher um modelo de segurança que enfrente a estrutura do crime
organizado com inteligência e eficácia. Significa, também, recusar que o Brasil
se transforme em área de influência direta dos Estados Unidos e evite uma
sucessão de interferências em sua segurança pública, com ruptura da autonomia
no tratamento de seus assuntos internos, risco que se agrava com o endosso à
classificação do PCC e do CV como organizações terroristas.
Fonte:
Por Elisabeth Lopes, em Brasil 247

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