segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Sem golpes, a extrema direita normaliza a barbárie pelas urnas e pelas redes

Em novembro de 1975, foi formalmente colocado em marcha o tenebroso Plano Condor. Tratou-se de uma manobra do governo dos Estados Unidos, que impulsionou um sistema secreto de coordenação repressiva entre ditaduras militares do Cone Sul da América, operando entre 1975 e os anos 1980 do século passado, com o objetivo de perseguir e eliminar opositores políticos ligados às esquerdas, inclusive para além de suas próprias fronteiras.

Praticamente todos os países da América do Sul participaram da operação, com um saldo de 80 mil mortes e mais de 400 mil encarceramentos, enquanto na América Central as forças armadas — sempre tuteladas por Washington — também perseguiam sanguinariamente qualquer dissidência política.

No marco da Guerra Fria (fria, naturalmente, para as duas potências envolvidas: Estados Unidos e União Soviética, que não disparavam seus mísseis nucleares, mas abrasadora e em total ebulição para os povos latino-americanos, assim como os da África e do Oriente Médio).

Amparadas na Doutrina de Segurança Nacional e no combate ao inimigo interno, as direitas silenciaram toda manifestação de protesto, com mortes, torturas, cemitérios clandestinos e desaparecimento forçado de pessoas.

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Sobre as montanhas de cadáveres foram erguidos os planos neoliberais, ainda vigentes hoje, prostrando a classe trabalhadora e privatizando o Estado enquanto se entronizava a “mão invisível” do mercado.

O Plano Condor tinha por objetivo acabar com o “perigo comunista”. No entanto, hoje, mais de quatro décadas depois, parece que esse perigo não foi extinto: “São esses comunistas ateus (…) a ameaça mais séria à existência dos Estados Unidos e do Ocidente”, declarou o presidente Donald Trump. Nesse contexto, nesse clima de visceral anticomunismo, no último dia 16 de julho teve lugar em Washington a Reunião Ministerial sobre o Ressurgimento do Terrorismo Político, promovida pela Casa Branca e coordenada pelo Secretário de Estado e assessor de Segurança Nacional, Marco Rubio.

A agenda, que reuniu mais de 60 países alinhados com essas posições de extrema direita, é um chamado à mobilização contra esse suposto ataque civilizatório da “esquerda radical”, definida por um maremágnum de posições, onde entram marxistas, comunistas, socialistas, anarquistas, anticapitalistas, anti-imperialistas, antifascistas, democratas centristas, aqueles que reivindicam a igualdade de gênero, são favoráveis ao aborto, se opõem à homofobia e à transfobia, defendem o meio ambiente, saúdam todo tipo de diversidade, condenam o racismo e o supremacismo e têm uma visão progressista das sociedades.

Essa reunião mostra o estado atual do mundo: as extremas direitas estão conquistando espaço em ritmo aceleradíssimo, chegando inclusive ao poder formal dos Estados por meio do voto popular. As grandes maiorias, cada vez mais empobrecidas por um capitalismo neoliberal que não dá trégua, e distraídas até a exaustão pelas mais sofisticadas — e embrutecedoras — técnicas de comunicação social, acabam aceitando mansamente seus algozes. O epígrafe de Hitler passa a ser consentido e alegremente abençoado.

Estamos caminhando para um Plano Condor global? Não se pode afirmar que estejamos diante de um novo Yalta (nós, humildes mortais comuns, como quem escreve isto, não temos acesso a informações reservadas; portanto, isto é pura especulação: territórios do planeta já repartidos?). Mas é mais do que evidente que os Estados Unidos estão transformando a América Latina em seu território de caça, sua Doutrina Monroe corrigida e ampliada, levada ao seu ponto máximo. As outras grandes potências, China e Rússia, não se envolvem, olham para o outro lado. A Venezuela passou a ser um protetorado invadido e Cuba está sendo mortalmente asfixiada, de modo que parece ser inteiramente verdadeira esta frase de Trump quando afirma, exultante, que “este é o nosso hemisfério”.

As direitas crescem, o supremacismo, o racismo, a xenofobia, a misoginia e os valores da Guerra Fria, com um visceral anticomunismo, crescem, os povos estamos paralisados, estupefatos, nós, das esquerdas, não reagimos….

<><> O que fazer diante desse avanço?

Os tempos atuais não são favoráveis à mudança social. Pelo contrário, são épocas de conservadorismo extremo. Os ideais socialistas de solidariedade e confraternização, por enquanto, foram retirados de cena. Mais precisamente ainda: os tempos atuais são épocas de um ódio fomentado e manipulado, de muito ódio contra a ideia de mudança, contra qualquer coisa que se apresente como nova e alternativa.

juventudes foram levadas a ficar mais atentas — querendo imitar — aos influenciadores do que às propostas de mudança social (o auge monumental das drogas terá algo a ver com isso? Tudo isso permite que um jovem argentino, perguntado sobre por que votou em Milei, diga sem constrangimento: “Porque é legal ser fascista, cara”). As únicas mudanças possíveis são aquelas que o sistema permite e consegue absorver sem que suas raízes sejam questionadas. Em outros termos: gatopardismo.

Sem retirar o menor valor de qualquer luta, sabemos que a fragmentação do protesto social em pequenas parcelas (luta contra o patriarcado de um lado, contra a discriminação étnica de outro, pela diversidade sexual ali, pelo ecologismo aqui, todas separadas e sem perspectiva classista — “O ecologismo sem luta de classes é jardinagem”, disse Chico Mendes) serve ao poder, à manutenção do sistema.

A tendência atual é, no máximo, permitir pequenas válvulas de escape, em muitos casos incentivadas e financiadas pelos grandes poderes, dando a sensação de mudança, mas impedindo, de fato, qualquer modificação profunda (grandes fundações filantrópicas — Soros, Gates, Ford, Rockefeller, Susan Buffet — pagando pelos progressismos…: no mínimo, soa suspeito). Hoje, com esse avanço fenomenal da direita religiosa e fundamentalista, até isso é questionado. O feminismo e o antirracismo são perigosos ataques comunistas!

Hoje vivemos um momento de obscurantismo, de repressão ideológico-cultural maior do que durante a Guerra Fria. Em vez de marcharmos em direção ao comunismo científico e a uma sociedade sem classes sociais, voltamos às trevas medievais, às fogueiras da Inquisição e em direção à escravidão primitiva.

Os chicotes agora são eletrônicos, regidos pela inteligência artificial e difundidos — e alegremente aceitos — pelas redes sociais. Vários autores (Cédric Durand, Shoshana Zuboff, Yanis Varoufakis) estudaram pormenorizadamente as novas formas do capitalismo, chegando-se, em alguns casos, a falar em “tecnofeudalismo”, uma modalidade que remete às estruturas feudais da Europa medieval, na qual as big tech (as megaempresas de tecnologia digital do Vale do Silício) desempenhariam o papel de senhores feudais, com um poder de domínio onímodo sobre os usuários — os servos da gleba —, totalmente dependentes das plataformas digitais, oferecendo gratuitamente quantidades astronômicas de seus dados pessoais, que servem para continuar promovendo o consumo (e para o controle populacional com ares de inteligência militar).

Não parece que o mundo, tal como as coisas estão caminhando, esteja marchando rumo ao comunismo, mas sim ¡rumo ao feudalismo! A jornada de trabalho de oito horas — conquistada com lutas heroicas — vai sendo perdida e agora se pede — ¡exige-se! — a “milha extra”.

Esse discurso da extrema direita não tem piedade; pelo contrário, mostra abertamente para que está aqui: para continuar beneficiando uma minúscula elite e evitar qualquer tentativa de mudança por parte das grandes maiorias. O patético é que isso penetrou tanto nas pessoas que muitas delas — sem outra propriedade além de sua força de trabalho — foram tão habilmente manipuladas que aplaudem alegremente esse deslocamento em direção ao neofascismo, sem saber bem o que estão apoiando. Pense-se, por exemplo, no jovem argentino em questão. Dirá Miguel Mazzeo:

“Diferentemente da linguagem da direita tradicional, a linguagem da extrema direita não busca construir uma retórica que não se apresente como tal. Não quer dissimular nada aberrante, nada escabroso, nada absurdo. A linguagem da extrema direita manifesta sua perversa aspiração ao ‘mal comum’ e à dissolução comunitária, enquanto celebra abertamente a ganância, a injustiça e a crueldade em todas as suas formas.” (Mazzeo: 2024).

A chegada de Donald Trump à presidência do país capitalista mais poderoso do mundo alimenta de maneira muito grosseira essa tendência ultraconservadora que já vem sendo gestada há anos, assim como a atitude transgressora que faz apologia à impunidade. De fato, o mandatário é, tecnicamente, um réu condenado, julgado e sentenciado por mais de 20 delitos, incluindo dois crimes federais muito graves: tentativa de golpe de Estado em 2021 e manejo ilegal de documentos oficiais secretos de segurança nacional.

Além disso, o que não é pouca coisa, existem denúncias de pedofilia a partir de seus vínculos com o “suicidado” Epstein. De todo modo, atropelando as leis e em uma demonstração absoluta de desprezo pela “democracia” que diz defender, assumiu a primeira magistratura em janeiro de 2025. Agnès Callamard, secretária-geral da Anistia Internacional, manifestou os terríveis perigos do “efeito Trump” ao apresentar o Relatório “A situação dos direitos humanos no mundo: abril de 2025”, dessa organização:

“Passados 100 dias de seu segundo mandato, o presidente Trump demonstrou apenas um total desprezo pelos direitos humanos universais. Seu governo atacou com rapidez e intencionalidade iniciativas e instituições essenciais dos Estados Unidos e internacionais que foram criadas para tornar nosso mundo um lugar mais seguro e mais justo.

Seu ataque sem trégua aos próprios conceitos de multilateralismo, asilo, justiça racial e de gênero, saúde global e ação climática necessária para salvar vidas está agravando o dano considerável que esses princípios e instituições já sofreram, e incentivando ainda mais outros líderes e movimentos contrários ao reconhecimento de direitos a se juntarem à sua ofensiva” (Callamard: 2025).

Hoje, toda a parafernália midiática do sistema não entroniza o “bom” da história, mas, ao contrário, fomenta a esperteza, a saída mais rápida que dê dinheiro, fama e poder, o “vale tudo”. Em outros termos: a impunidade. Vale esta glosa marginal: nos países socialistas, sim, há corrupção… mas não há impunidade!

Na China, fuzilam sem atenuantes os dirigentes corruptos, e lembremos o tratamento dado por Cuba a um traidor da pátria como o general Ochoa: ele foi condenado à morte por seus vínculos com o narcotráfico e procedeu-se de acordo com a sentença. No capitalismo, e ainda mais com esse retorno ao neofascismo que hoje padecemos, a impunidade é aplaudida e entronizada. Como é possível que um criminoso sexual possa governar um país sem que ninguém o incomode?

Essa ideologia — aí estão os milhões de memes e vídeos curtos que inundam o espaço digital, os “entretenimentos estúpidos”, como pedem os ideólogos da direita para manter a “ralé” tranquila (e aí está o futebol profissional) — vai moldando de maneira crescente a opinião pública, de modo que se pensa — ou nos fazem pensar, mais corretamente — mais no ilusório “sucesso” individual a qualquer custo do que na saída solidária e comunitária. A frase: “A sociedade não existe, existem apenas homens e mulheres e existem famílias”, da ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, parece se corporificar de forma avassaladora.

Como forças que buscamos a igualdade, como esquerdas, como campo popular, como seres humanos que continuamos acreditando que ninguém vale mais do que ninguém, devemos resistir a essa avalanche e denunciar a infame injustiça em jogo. Mas não apenas resistir denunciando: devemos combater por todos os meios essa avalanche. Hoje existe uma terrível guerra ideológica em curso, que pode se transformar — ou já está se transformando — em um novo Plano Condor de caráter global. É preciso, então, travá-la.

O campo ideológico-cultural é uma das frentes possíveis. Os meios de comunicação de massa — com um mundo digital que não para de crescer e inundar tudo — contribuem mais do que generosamente para essa avalanche. Não há dúvidas de que hoje, já adentrado o século XXI e envolvidos em um ambiente comunicacional do qual não podemos prescindir (no qual a internet desempenha um papel preponderante), o campo popular e as esquerdas temos muito a trabalhar nesse espaço.

Não se pode deixar de mencionar que, na capital da República Bolivariana da Venezuela, Caracas, entre os dias 10 e 11 de setembro de 2024, foi realizado o “Congresso Mundial contra o Fascismo, Neofascismo e Expressões Similares” — antípoda do recente encontro dirigido por Marco Rubio —, reunindo cerca de 1.000 representantes de 95 países. A partir desse encontro foi criada uma “Internacional Antifascista”, com sede naquele país, com o propósito de “travar as batalhas presentes e futuras por um mundo diferente e fazer frente à violência que a extrema direita está gerando na nação sul-americana e em muitos outros países do mundo”.

Talvez isso não seja suficiente para frear a avalanche neofascista em que vivemos — a invasão de 3 de janeiro e a posterior ocupação após os terremotos o evidenciam —, mas constitui uma instância a ser considerada, mais um grão de areia nessa longa e interminável confrontação, nessa já não apenas luta, mas “guerra” de classes, como afirmou o magnata Warren Buffett. Como campo popular, como esquerdas, embora hoje estejamos um pouco desorientados, devemos aguçar toda a inteligência que nos for possível para continuar travando esse combate. A história, certamente, não terminou. Criar uma Internacional Antifascista não neutraliza automaticamente o fascismo, mas serve para começar a criar antídotos.

Diante dessa visão ultrarradicalmente individualista e avassaladora do outro, é necessário erguer um novo ideário, outro sistema de valores que volte a colocar no centro da cena o ser humano, suas glórias e suas desditas. Não há ninguém melhor do que outro: todas e todos somos mortais igualmente importantes. As estrofes da Marcha Internacional Comunista são eloquentes a esse respeito: ninguém vale mais do que ninguém. Seguindo Jesús Javier Urueña, podemos afirmar que:

“Diante da desvalorização do humanismo e da destruição da Terra, diante da exaltação do ódio e do niilismo moral, podemos voltar ao Iluminismo. Podemos propor que somente um socialismo democrático, feminista e sinceramente ecologista é a base para espantar os demônios do passado.” (Jaén Urueña: 2023).

Em qualquer de suas variantes (a supostamente democrática, ou esta que vivemos agora: neofascismos no marco de eleições democráticas), o sistema capitalista continua sendo sempre a mesma coisa: impiedoso. Prefere a guerra, que sempre vê como uma saída para suas crises, a compartilhar equitativamente os benefícios do desenvolvimento com as maiorias.

O capitalismo não oferece soluções à humanidade; apenas as oferece, a contragosto, a um pequeno grupo privilegiado, digamos, 15% da população mundial que consome sem maiores problemas — camadas médias e trabalhadores do Norte — e a um grupo pequeníssimo que constitui a elite dominante. O restante (os 85% que sobram) é sofrimento, penas e uma sobrevivência escassa. Sem dúvida, hoje, com esse auge da extrema direita supremacista, parece que não há caminhos para a mudança. Mas será preciso continuar procurando-os. Novas rotas deverão ser inventadas, a esquerda deverá se reinventar, porque, seguindo Rosa Luxemburgo:

“Friedrich Engels disse certa vez: ‘A sociedade capitalista encontra-se diante de um dilema: avanço rumo ao socialismo ou regressão à barbárie.’ … Lemos e citamos essas palavras com leviandade, sem poder conceber seu terrível significado. … Assim nos encontramos hoje, tal como Engels profetizou há uma geração, diante da terrível escolha: ou triunfa o imperialismo e provoca a destruição de toda a cultura (…) ou triunfa o socialismo, isto é, a luta consciente do proletariado internacional contra o imperialismo, seus métodos, suas guerras”.

Não há dúvidas: “¡Socialismo ou barbárie!”

 

Fonte: Por Marcelo Colussi, na Prensa Comunitaria - Tradução: Isabelle Paiva, para Diálogos do Sul Global

 

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