Depressão
não está apenas na mente: ciência revela novas conexões
A
depressão tem sido cada vez mais compreendida não apenas como um transtorno
ligado ao cérebro, mas como uma condição que envolve também o sistema
imunológico e a genética. Estudos publicados recentemente reforçam essa mudança
de perspectiva e mostram que doenças mentais e físicas podem compartilhar
mecanismos biológicos em comum. Além disso, pesquisas mostram que a forma como
as pessoas pensam e como a sociedade observa o problema pode mudar os rumos da
doença.
Pesquisadores
da Escola de Medicina Icahn do Mount Sinai, em Nova York, descobriram que
pacientes com transtorno depressivo maior apresentam alterações imunológicas
semelhantes às encontradas em doenças inflamatórias da pele, especialmente a
dermatite atópica. O estudo identificou a participação da chamada via
imunológica Th2, relacionada ao receptor alfa da interleucina-4 (IL-4R),
importante no controle da inflamação.
A
descoberta chamou a atenção porque medicamentos capazes de bloquear essa via já
são utilizados com sucesso em doenças dermatológicas. Entre eles está o
dupilumabe, um anticorpo aprovado para tratar dermatite atópica moderada a
grave. Para os cientistas, o remédio pode abrir um novo caminho terapêutico
também para a depressão.
"Este
estudo é empolgante porque abre a possibilidade de uma forma completamente nova
de tratar a depressão, visando o sistema imunológico, em vez dos
antidepressivos mais tradicionais que atuam nos neurotransmissores do
cérebro", afirmou James Murrough, diretor do Centro de Descoberta de
Depressão e Ansiedade do Mount Sinai.
Os
pesquisadores compararam proteínas presentes no sangue de pacientes com
depressão, psoríase, dermatite atópica e indivíduos saudáveis. Os resultados
mostraram que pessoas com depressão compartilhavam alterações inflamatórias
semelhantes às observadas na dermatite atópica. Em seguida, a equipe utilizou
modelagem computacional para verificar se medicamentos usados na dermatologia
poderiam agir também sobre os mecanismos biológicos da condição mental.
Em
modelos animais, a neutralização do receptor IL-4R preveniu comportamentos
associados à depressão induzida por estresse crônico. Para Emma Guttman-Yassky,
chefe do Departamento de Dermatologia do Mount Sinai, os resultados fornecem
"uma base sólida e justificativa para estudos em humanos e ensaios
clínicos que abordem diretamente esse novo alvo terapêutico".
De
acordo com Gustavo Omena, psiquiatra e psicogeriatra, a depressão não acontece
apenas na mente, ela repercute no corpo inteiro. "Sabemos que há uma
comunicação constante entre cérebro, sistema imunológico, hormônios, intestino,
sono e metabolismo. Quando uma pessoa entra em um quadro depressivo, pode
ocorrer aumento de substâncias inflamatórias, alterações no cortisol, piora da
qualidade do sono, redução da disposição física e mudanças no funcionamento de
diversos órgãos", diz.
Omena
explica que o caminho inverso, também, acontece. "Doenças físicas
crônicas, dores persistentes, limitações funcionais e inflamações podem
aumentar significativamente o risco de depressão. Existem pesquisas que mostram
que pessoas com depressão podem sentir mais dores no corpo, assim como pessoas
com dores crônicas podem desenvolver depressão com mais facilidade. É uma
relação de mão dupla."
Outro
estudo, conduzido pela Universidade do Colorado em Boulder, nos Estados Unidos,
e publicado na revista Nature Communications, aponta para a forte conexão
genética entre transtornos psiquiátricos e doenças físicas.
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Fatores de risco
A
análise reuniu dados e informações médicas de quase 2 milhões de pessoas. Os
cientistas investigaram 73 doenças físicas e 13 transtornos psiquiátricos,
incluindo depressão, TDAH, esquizofrenia, entre outros. O resultado mostrou que
fatores de risco genéticos se sobrepõem em 42% dos casos.
"A
descoberta surpreendente aqui não é que os transtornos psiquiátricos e os
transtornos médicos estejam ligados, mas, sim, o quanto eles estão
ligados", disse Andrew Grotzinger, professor assistente de psicologia e
neurociência da Universidade do Colorado. "No nível genético, descobrimos
que há tanta sobreposição que, na verdade, não se tratam de duas classes
diferentes de doenças."
O
estudo revelou que a depressão e a ansiedade apresentam forte associação
genética com doenças cardiovasculares. Já a esquizofrenia mostrou relação com
problemas gastrointestinais, enquanto o transtorno bipolar apareceu ligado a
distúrbios geniturinários e problemas do sono.
Segundo
Salmo Raskin, geneticista, diretor científico da Sociedade Brasileira de
Genética Médica e Genômica, e CEO do Laboratório Genetika, em Curitiba, um dos
mecanismos genéticos que podem explicar a forte sobreposição entre transtornos
psiquiátricos e doenças físicas são as alterações epigenéticas. Ele explica: "Cada vez conhecemos mais e
melhor, demonstrando que, se o DNA de uma pessoa se altera pouco ou nada
durante a vida, a expressão dos genes, ou seja, a produção de proteínas, pode
ser bastante modificada de acordo com o meio ambiente".
"Isso
tem servido para dar uma base genética, levando em conta o impacto do meio
ambiente, para muitas doenças psiquiátricas e do neurodesenvolvimento. E isso
pode acontecer também em relação a doenças físicas, um fenômeno que antigamente
chamávamos de somatização, a pessoa acaba refletindo no seu próprio corpo
consequências de doenças psiquiátricas ou transtornos do desenvolvimento",
completou o especialista.
Os
pesquisadores concluem que a relação entre doenças mentais e físicas ocorre em
diferentes níveis. A depressão pode favorecer hábitos prejudiciais, como
sedentarismo e alimentação inadequada, aumentando o risco de doenças cardíacas
e metabólicas. Ao mesmo tempo, doenças físicas graves também podem desencadear
transtornos mentais. Em outros casos, um mesmo fragmento de DNA pode aumentar
simultaneamente o risco para ambas as condições.
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Alegria cercada de medo
Você
pode se divertir, estar rodeado de amigos e ainda pensar que essa sensação boa
irá sumir, diminuindo sua alegria
naquele momento. Um artigo publicado recentemente na revista Clinical
Psychological Science examinou esse fenômeno, chamado de amortecimento, e como
ele se relaciona com os sintomas da depressão.
Segundo
Liesbeth Bogaert, líder da pesquisa e cientista da Katholieke Universiteit
Leuven, na Bélgica, o amortecimento pode ser definido como a minimização de
emoções positivas. Para o trabalho, os cientistas utilizaram análises de redes
e aprendizado de máquina para avaliar conjuntos de dados de 13 estudos
anteriores conduzidos pelo laboratório de Bogaert.
A
equipe de Bogaert analisou como frases como "eu não mereço isso" e
"isso não vai durar" e descobriram que essas sentenças tinham um alto
nível de utilidade preditiva para sintomas de depressão, incluindo emoções
negativas, pessimismo e autoimagem ruim. "Uma coisa que não esperávamos
era a robustez e a consistência com que descobrimos que esses pensamentos
negativos, focados no futuro, destacavam-se em relação aos sintomas
depressivos", disse Bogaert.
Os
pesquisadores também observaram que a supressão emocional pode parecer
inofensiva, mas pode prejudicar o bem-estar ao longo do tempo. "Realmente
precisamos desses sentimentos positivos para lidar com as dificuldades da vida,
para nos recuperarmos mais facilmente de eventos estressantes", disse
Bogaert.
Segundo
a psicóloga Kênia Ramos, do Hospital Mantevida, no Distrito Federal,
pensamentos como esses fazem parte de padrões cognitivos disfuncionais, muito
presentes em quadros depressivos. "A forma como a pessoa interpreta a
realidade influencia diretamente suas emoções e comportamentos. Quando alguém
interpreta experiências positivas com descrença ou desvaloriza o próprio
merecimento, existe um enfraquecimento da capacidade de internalizar
experiências de prazer, segurança e reconhecimento. Isso fortalece crenças
centrais negativas, como inadequação, desvalor e desamparo. Além disso, esse
padrão mantém o indivíduo em estado constante de antecipação de perda ou
frustração, reforçando sofrimento emocional."
"Um
fenômeno muito comum na depressão é a dificuldade em sustentar emoções
positivas, chamado de anedonia, que é a redução da capacidade de sentir prazer
ou satisfação. Mesmo diante de acontecimentos positivos, muitas pessoas
deprimidas têm dificuldade em se conectar emocionalmente com essas experiências
ou tendem a invalidá-las rapidamente. Isso faz com que momentos de felicidade
sejam breves, fragilizados ou até acompanhados de culpa", finalizou a
especialista.
As
causas do amortecimento ainda não são totalmente compreendidas. A cultura é um
fator importante a ser considerado, mas não contribui diretamente para o
problema. No entanto, alguns valores culturais, como a humildade, são
relevantes para o estudo do amortecimento. Bogaert explicou que minimizar
significa desmerecer notícias ou conquistas positivas porque se acredita, por
exemplo, que elas não são merecidas, e não ser humilde por estar de acordo com
normas sociais ou culturais.
Segundo
a autora, aproveitar os sentimentos positivos tem mais a ver com prestar
atenção neles, tentando intensificá-los e prolongá-los, mas de uma forma
equilibrada e gentil. "Trata-se, na verdade, de compartilhar boas notícias
com um amigo ou relembrar momentos felizes."
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Esforço constante
Pessoas
com depressão se esforçam diariamente para lidar com a condição, no entanto,
nem sempre essa força é percebida. Estudos anteriores mostraram que, em vez
disso, elas frequentemente se deparam com uma narrativa contrária na sociedade,
segundo a qual são retratadas como fracas. Tais preconceitos têm um efeito
negativo sobre os pacientes. Agora, um novo estudo liderado pela psicóloga
Christina Bauer, da Universidade de Viena, na Áustria, mostra como é importante
que a dedicação dessas pessoas seja enfatizada. Segundo o trabalho, publicado
recentemente na revista Personality and Social Psychology Bulletin, focar na
força dessas pessoas aumenta a autoconfiança e as ajuda a alcançar seus
objetivos pessoais com mais facilidade.
Fonte:
Correio Braziliense

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