segunda-feira, 17 de agosto de 2026

O bolsonarismo lambe-botas e a ameaça de Trump às eleições brasileiras

Não é mais uma questão de “se” nem de “quando”, mas como será a intervenção de Washington nas eleições presidenciais brasileiras.

Os ataques do governo norte-americano contra o brasileiro se intensificaram nos últimos meses, culminando com o plano de enviar dois funcionários do alto escalão da Casa Branca ao Brasil para atacar as urnas eletrônicas antes das eleições de outubro, como apurou o jornal “The Washington Post”.

Soma-se a isso os encontros que o consulado dos EUA tem promovido com influenciadores bolsonaristas às vésperas da campanha eleitoral.

É esse o nível de intimidação que nossas eleições já estão sofrendo da maior potência bélica e econômica do mundo.

Nesta semana, o tamanho do apetite imperialista ficou ainda mais claro. O Departamento de Estado dos EUA, chefiado por Marco Rubio, divulgou um vídeo em que afirma que o domínio norte-americano sobre as Américas “nunca mais será questionado”, em uma referência à Doutrina Monroe.

A intervenção militar na Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro mostram que Trump está disposto a todo tipo de agressão à soberania de qualquer país do continente. As armas já foram colocadas sobre a mesa.

<><> Prioridade

Impedir a reeleição do presidente de esquerda do maior país da América do Sul é crucial para a releitura da Doutrina Monroe. Certamente está entre as prioridades de Rubio para este ano.

Com as facções criminosas brasileiras classificadas como grupos narcoterroristas, o caminho para uma intervenção militar no Brasil já foi pavimentado. É quase o mesmo roteiro usado para justificar o sequestro do ex-presidente venezuelano, que foi acusado sem provas de liderar um cartel de drogas.

Mas o Brasil não é Venezuela e Lula não é Maduro. O custo de uma operação similar aqui seria maior — o que não significa que Trump não esteja disposto a pagá-lo.

Nós temos uma economia robusta e diversificada, nossas instituições democráticas são consolidadas e resilientes, e nosso presidente não é considerado um ditador pela comunidade internacional. Uma intervenção mais dura por aqui pode se tornar um desgaste grande para o presidente norte-americano.

Ocorre que Trump é imprevisível, não opera no campo da razão e já demonstrou não ter o menor pudor em violar qualquer direito internacional. Nossa soberania está sob a ameaça de um chimpanzé bêbado com uma metralhadora na mão.

<><> Vassalagem bolsonarista

A campanha eleitoral começa oficialmente amanhã, mas o bolsonarismo já está preparando o terreno para a contestação do resultado eleitoral. No mês passado, Flávio Bolsonaro reuniu diplomatas e representantes de quase 50 países para dizer que as urnas eletrônicas brasileiras são fabricadas pela mesma empresa que, segundo um relatório da CIA, ajudou a fraudar as eleições da Venezuela  em 2012.

Trata-se de informação absolutamente falsa, uma mentira velha que já foi desmentida várias vezes e agora está sendo revivida pelo golpismo para essa eleição. O projeto da urna eletrônica e do sistema eletrônico de votação brasileira foi concebido e é gerido pela Justiça Eleitoral brasileira.

O governo brasileiro já entendeu que a escalada de hostilidades dos últimos meses foi provocada artificialmente pelos EUA e tem como objetivo final interferir nas eleições.

Após o cancelamento do visto da embaixadora do Brasil em Washington, a Presidência da República afirmou em nota que é “óbvio” que existe “interesse descabido de interferir na próxima eleição para presidente”.

Aqui os EUA contam com o apoio da vassalagem bolsonarista, que talvez seja a fração da extrema direita mundial mais capacha e subserviente aos interesses do imperialismo.

Os patriotas, que batem continência à bandeira dos EUA e prometem entregar a Amazônia aos yankees, trabalham ativamente como agentes facilitadores da Doutrina Monroe no Brasil.

Não restam dúvidas de que a campanha de Flávio Bolsonaro atuará como extensão do Departamento de Estado de Marco Rubio. Aos olhos do bolsonarismo, o destino do Brasil é ser um puxadinho dos EUA.

Mais que isso: uma intervenção americana, que impeça a eleição de Lula, pode ser o único caminho para tirar a família Bolsonaro do caminho da cadeia. Essa é a verdadeira preocupação dos nossos patriotas.

<><> Golpismo batendo à porta

Semear a dúvida sobre o sistema eleitoral brasileiro faz parte da guerra híbrida que está sendo desenhada para desestabilizar a democracia brasileira. Um Brasil soberano, articulador do Sul Global, que dialoga com o Brics e defende a multipolaridade é um obstáculo para a nova Doutrina Monroe.

Um dos motivos pelo qual a tentativa de golpe de Jair Bolsonaro não vingou foi justamente a falta de apoio de Washington, que sinalizou aos militares brasileiros que não participaria de uma aventura golpista. Agora o cenário é outro.

O atual presidente norte-americano é o homem que liderou a invasão do Capitólio — o 8 de Janeiro dos EUA.

Uma nova tentativa de golpe de estado já está desenhada. Se Lula vencer as eleições, o governo de Trump  acusará fraude e fará o que for necessário para empossar sua vassalagem. Haverá pouco ou quase nada a se fazer. Nosso ministro da Defesa já até avisou que vai “ter que abrir o portão”.

Parece absurdo imaginar que, poucos anos após ter colocado os líderes golpistas na cadeia, a democracia brasileira esteja sob séria ameaça de uma potência estrangeira. Mas, na era dos absurdos, a possibilidade é real e o golpismo já está batendo à porta.

•        Defesa nacional em risco: o alerta de Paulo Nogueira Batista Júnior

O Brasil encontra-se diante de uma encruzilhada histórica em que a soberania e a integridade de seus recursos estratégicos deixaram de ser abstrações diplomáticas para se tornarem um imperativo existencial. Em análise contundente durante a edição deste sábado (15) do programa Forças do Brasil, transmitido pela TV 247 e conduzido pelo jornalista Mário Vitor Santos, o economista e ex-diretor executivo no FMI e vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), Paulo Nogueira Batista Jr., traçou um diagnóstico alarmante sobre a vulnerabilidade militar e geopolítica brasileira frente às movimentações recentes dos Estados Unidos na América Latina.

Segundo Nogueira Batista, o endurecimento das posturas de Washington reflete um momento singular da história contemporânea: o inconformismo de uma superpotência com seu próprio declínio relativo. Incapazes de sustentar a hegemonia global pela via da pura competição econômica e comercial — terreno no qual a China avança com vigor em todo o Sul Global —, os Estados Unidos passam a recorrer a instrumentos coercitivos, diplomacia de força e pressões explícitas sobre o Hemisfério Ocidental.

<><> A Lição Regional e a Cobiça Estratégica

Ao examinar o cenário sul-americano, o economista enfatizou que a perda de respeito pela soberania dos países da região atingiu níveis alarmantes. Para ele, o recente cerco à Venezuela e o controle sobre seus fluxos de petróleo representam um precedente perigoso de tutela e desestabilização direta que não pode ser ignorado por Brasília.

“O Brasil é um manancial de recursos estratégicos naturais: minerais críticos, terras raras, urânio, petróleo, minério de ferro, água, biodiversidade e matriz energética. Em um mundo onde esses recursos se tornam crescentemente escassos, a cobiça sobre o território brasileiro será inevitável. Quem não se prepara para a defesa não vive em paz.”

O problema, alertou o economista, não se restringe a conjunturas imediatas ou personalismos em Washington, mas reflete uma dinâmica estrutural para as próximas décadas. Sem capacidade de impor custos a eventuais agressores, o país fica exposto a chantagens que visam subordinar suas decisões de desenvolvimento, comércio e infraestrutura às diretrizes de potências externas.

<><> O Imperativo da Dissuasão e a Guerra Moderna

Para Paulo Nogueira Batista Jr., o Brasil precisa superar a falsa sensação de segurança herdada de um longo período sem conflitos interestaduais em suas fronteiras. A arquitetura de segurança moderna exige a construção urgente de um poder de dissuasão realista e autônomo.

•        Foco em tecnologia assimétrica: Aprender com conflitos recentes, nos quais potências médias e forças defensivas conseguem neutralizar ativos militares de altíssimo custo por meio de drones, mísseis e sistemas autônomos de baixo custo relativo.

•        Produção em solo nacional: Superar a dependência externa na cadeia de suprimentos bélicos, viabilizando capacidade fabril nacional de vetores de defesa e propulsão.

•        Reformulação doutrinária: Romper com a mimetização de conceitos e estratégias formuladas pelas potências do Norte, formando quadros orientados estritamente à defesa dos interesses e das fronteiras nacionais.

•        Parcerias diversificadas e pragmáticas: Estabelecer cooperação tecnológica com múltiplos atores globais — incluindo nações do Sul Global e potências alternativas —, sem aceitar vetos externos sobre com quem o Brasil deve cooperar.

<><> A Soberania no Centro da Disputa Política

Nogueira Batista ressaltou que a agenda da defesa nacional está intrinsecamente ligada ao projeto de desenvolvimento e às opções eleitorais do país. Uma postura diplomática e de defesa subserviente, disposta a alinhar automaticamente o Brasil aos interesses estratégicos norte-americanos, equivale a abrir mão da soberania sobre as riquezas naturais e a autonomia industrial.

O economista concluiu que preservar a capacidade soberana de decidir sobre investimentos, infraestrutura e parcerias comerciais — negociando em pé de igualdade com China, Estados Unidos, Europa e o Sul Global — depende, em última instância, de o Brasil se reconhecer como nação de grande porte e assumir a responsabilidade de sua própria segurança militar e territorial.

 

Fonte: Por João Filho, em The Intercept/Brasil 247

 

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