segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Os primeiros gestos da nova contracultura

Em um ensaio anterior publicado neste mesmo espaço, argumentei que a expansão da inteligência artificial começa a produzir os primeiros sinais de uma nova contracultura. A hipótese central era simples: toda transformação tecnológica suficientemente profunda modifica não apenas os instrumentos disponíveis, mas também as formas de consciência necessárias para habitá-los.

Permanece, contudo, uma questão adicional. Como essa transformação começa a aparecer na experiência cotidiana? Grandes mudanças culturais raramente surgem primeiro como teorias ou movimentos organizados. Antes disso, manifestam-se por pequenas alterações de sensibilidade: novas formas de ocupar o tempo, de relacionar-se com os objetos, de proteger a atenção e de recuperar experiências que pareciam secundárias. Isoladamente, esses gestos pouco significam. Considerados em conjunto, podem revelar o nascimento de uma nova configuração cultural.

Este ensaio não pretende defender um estilo de vida mais lento nem formular uma crítica romântica da tecnologia. Seu objetivo é descrever fenomenologicamente esses primeiros gestos e investigar se eles representam uma reorganização da experiência humana diante da civilização algorítmica.

<><> 1. O Tempo Recuperado

Durante mais de dois séculos, a aceleração foi tratada como um dos principais indicadores do progresso. Máquinas mais rápidas, transportes mais eficientes, comunicações instantâneas e fluxos crescentes de informação tornaram-se símbolos de desenvolvimento. A modernidade construiu uma estreita associação entre velocidade e civilização. Quanto mais rapidamente pessoas, mercadorias e conhecimentos circulavam, mais avançada parecia ser uma sociedade.

Essa associação continua profundamente presente na civilização algorítmica. A inteligência artificial amplia ainda mais essa lógica ao reduzir o tempo necessário para escrever textos, produzir imagens, interpretar dados, programar computadores ou responder perguntas. A aceleração deixa de atingir apenas o trabalho físico e busca alcançar a própria atividade cognitiva.

Entretanto, paralelamente a esse movimento, começam a surgir pequenos gestos que apontam em outra direção.

Multiplicam-se pessoas que reservam períodos do dia para permanecer longe das redes digitais. Livrarias voltam a tornar-se espaços de permanência, e não apenas de compra. Clubes de leitura reaparecem em diversas cidades. Caminhadas deixam de ser apenas atividade física para recuperar a experiência de percorrer lentamente um lugar. Cafés passam a ser frequentados como ambientes de convivência e contemplação. Cresce o interesse por jardinagem, cerâmica, panificação artesanal, fotografia analógica e escrita manual.

Nenhuma dessas práticas constitui uma ruptura com a sociedade tecnológica. Seus participantes utilizam smartphones, plataformas digitais e inteligência artificial como qualquer outro cidadão contemporâneo. O aspecto interessante não reside na rejeição da tecnologia, mas na recuperação deliberada de experiências que ela tende a tornar secundárias.

Vista isoladamente, cada uma dessas escolhas pode parecer apenas uma preferência pessoal. Consideradas em conjunto, porém, elas revelam algo mais significativo. Em uma cultura que valoriza a rapidez, passa a adquirir prestígio aquilo que exige demora. Em uma economia organizada pela disponibilidade permanente, cresce o interesse por atividades que pressupõem atenção contínua. Em uma civilização orientada pela otimização, reaparecem práticas cujo principal valor consiste precisamente em não serem eficientes.

Talvez o que esteja sendo recuperado não seja simplesmente um ritmo de vida mais lento. O que parece emergir é uma nova relação com o tempo. Durante a modernidade, o tempo foi progressivamente convertido em recurso econômico, unidade de produtividade e medida de eficiência. Os fenômenos aqui descritos sugerem uma transformação diferente. O tempo volta a ser percebido como condição da experiência.

Essa mudança pode parecer discreta. No entanto, ela possui importância filosófica. Antes de formular novas ideias sobre a tecnologia, a nova contracultura parece modificar silenciosamente a maneira como seus participantes habitam o tempo.

<><> 2. O Regresso da Presença

Uma transformação igualmente discreta parece ocorrer na maneira como as pessoas voltam a valorizar a presença. Não se trata simplesmente de estar fisicamente próximo de outras pessoas, mas de recuperar formas de atenção que exigem envolvimento direto com aquilo que está diante de nós.

Durante décadas, a expansão das tecnologias digitais foi acompanhada pela promessa de superar limitações impostas pela distância. A comunicação instantânea tornou possível trabalhar, estudar, conversar e compartilhar experiências independentemente da localização física. A conectividade permanente representou uma das maiores conquistas da sociedade contemporânea.

Entretanto, quanto mais a comunicação se expandiu, mais evidente se tornou uma distinção que durante muito tempo permaneceu quase invisível: comunicar-se não é o mesmo que estar presente.

Observa-se um interesse crescente por encontros presenciais, clubes de leitura, pequenos concertos, caminhadas coletivas, oficinas artesanais, grupos de jardinagem e inúmeras outras atividades cuja principal característica não é a eficiência, mas a experiência compartilhada. O valor dessas práticas dificilmente pode ser explicado por sua utilidade imediata. Seu significado parece residir precisamente na qualidade da atenção que tornam possível.

Essa transformação manifesta-se também na relação com os objetos. Livros impressos continuam sendo escolhidos quando versões digitais estariam imediatamente disponíveis. Cadernos substituem ocasionalmente aplicativos de anotação. Discos de vinil, filmes fotográficos e instrumentos analógicos reaparecem não por oferecerem desempenho superior, mas porque estabelecem uma relação diferente entre o sujeito e a experiência.

Em todos esses casos, a presença deixa de ser apenas uma circunstância física para tornar-se uma forma específica de envolvimento com o mundo. O que se valoriza não é apenas o resultado da ação, mas o próprio modo como ela é vivida.

Esse pode ser o aspecto mais significativo da nova sensibilidade emergente. Durante muito tempo, a técnica procurou reduzir a necessidade da presença por meio de formas cada vez mais eficientes de mediação. A nova contracultura não rejeita essas mediações. Ela apenas recorda que determinadas experiências continuam dependendo da participação direta do sujeito.

É nesse ponto que a reflexão de Martin Heidegger adquire renovada atualidade. Ao discutir a técnica, Heidegger não afirmava que as máquinas empobrecem inevitavelmente a existência humana. Sua preocupação era outra. Quanto mais se acessa a realidade através de dispositivos técnicos, maior se torna o risco de esquecermos outras formas de abertura ao mundo. A presença, nesse contexto, deixa de ser apenas uma categoria espacial. Ela torna-se uma maneira de habitar a experiência.

O valor crescente atribuído à presença representa menos uma reação contra as tecnologias digitais do que uma tentativa silenciosa de preservar uma dimensão da experiência que nenhuma tecnologia consegue substituir integralmente. A presença deixa de ser apenas uma circunstância e volta a tornar-se uma forma de conhecimento.

<><> 3. A Redescoberta da Imperfeição

Outro aspecto curioso da sensibilidade contemporânea manifesta-se na maneira como certos objetos voltam a ser apreciados precisamente por aquilo que, durante muito tempo, foi considerado uma deficiência: sua imperfeição.

Ao longo da modernidade industrial, qualidade passou a significar padronização. Objetos tecnicamente superiores eram aqueles produzidos com máxima precisão, mínima variação e desempenho previsível. A produção em série transformou a uniformidade em um dos principais critérios de excelência.

A civilização algorítmica amplia ainda mais essa tendência. Sistemas inteligentes corrigem automaticamente textos, eliminam ruídos em imagens, aperfeiçoam fotografias, sugerem respostas, antecipam escolhas e reduzem progressivamente a margem do erro. A eficiência aproxima-se da automatização da própria decisão.

Entretanto, paralelamente a esse processo, cresce o interesse por objetos e atividades cuja principal característica consiste justamente na impossibilidade de eliminar completamente a singularidade. Cerâmicas moldadas manualmente conservam pequenas irregularidades. Pães artesanais jamais são idênticos entre si. Cadernos preenchidos à mão revelam hesitações, rasuras e mudanças de direção. Fotografias analógicas registram granulações imprevisíveis. Instrumentos musicais exigem gestos que nenhuma automação consegue reproduzir integralmente.

Esses objetos não são valorizados apesar de suas imperfeições. Em muitos casos, são valorizados exatamente por causa delas.

Pode-se supor que  a imperfeição tenha adquirido um novo significado cultural, deixando de representar a simples deficiência técnica e passando a funcionar como um indício da presença humana. A pequena assimetria de uma peça de cerâmica, a variação do traço manuscrito ou a textura irregular de um tecido artesanal testemunham que ali existiu um gesto irrepetível.

Essa mudança revela uma inversão silenciosa de valores. Durante muito tempo, procurou-se aproximar a produção humana da perfeição das máquinas. Hoje, quando sistemas automatizados alcançam níveis inéditos de precisão, começa a crescer o interesse por aquilo que continua escapando à padronização.

Não se trata de celebrar o erro nem de rejeitar a excelência técnica. O que parece estar mudando é o próprio significado atribuído à perfeição. Em uma civilização capaz de produzir resultados praticamente impecáveis, a marca do humano deixa de ser a ausência de falhas e passa a residir na singularidade da experiência que nenhum procedimento automático consegue reproduzir completamente.

Neste contexto, a imperfeição deixa de ser apenas um limite da ação humana. Ela torna-se um modo de conferir visibilidade a própria presença do sujeito naquilo que faz. A imperfeição deixa de representar deficiência e passa a testemunhar a presença do humano.

<><> 4. A Experiência sem Mediação

Grande parte da experiência contemporânea é hoje organizada por sistemas de mediação que atuam de forma quase invisível. Aplicativos sugerem trajetos, plataformas selecionam filmes, algoritmos recomendam músicas, sistemas inteligentes organizam informações e antecipam preferências. A mediação tecnológica deixou de ser um instrumento ocasional para tornar-se uma condição permanente da vida cotidiana.

Essa transformação produziu benefícios inegáveis. Nunca foi tão fácil acessar conhecimentos, deslocar-se por cidades desconhecidas, encontrar informações especializadas ou estabelecer comunicação com pessoas situadas em qualquer parte do mundo. A mediação tecnológica ampliou extraordinariamente as possibilidades da experiência humana.

Entretanto, essa expansão suscita uma questão diferente. À medida que algoritmos passam a organizar um número crescente de decisões cotidianas, modifica-se também a maneira como os indivíduos entram em contato com o mundo.

Encontrar um restaurante deixa de ser resultado da exploração espontânea de uma cidade e passa a depender de recomendações digitais. Descobrir uma nova música torna-se consequência de sistemas de sugestão personalizados. A escolha de livros, filmes, destinos de viagem e até mesmo percursos urbanos é frequentemente precedida por filtros algorítmicos que reduzem a incerteza e aumentam a eficiência.

Nada disso representa, por si só, um empobrecimento da experiência. O aspecto filosoficamente relevante reside em outro ponto. Quanto mais numerosas se tornam as mediações, mais rara é a experiência direta do inesperado.

Talvez seja exatamente por essa razão que cresce o interesse por atividades nas quais o encontro com o mundo permanece relativamente aberto. Caminhar sem destino previamente definido. Percorrer uma livraria sem buscar um título específico. Viajar deixando espaço para o acaso. Conversar longamente sem a mediação constante de telas. Cozinhar sem transformar cada gesto em conteúdo digital. Essas práticas compartilham uma característica comum: preservam uma margem de indeterminação que nenhuma otimização procura eliminar.

A experiência humana sempre dependeu de mediações culturais. Linguagem, escrita, instrumentos e instituições constituem formas indispensáveis de interpretar o mundo. A questão contemporânea não consiste, portanto, em eliminar as mediações, mas em compreender como determinadas formas de automatização tendem a reduzir a participação ativa do sujeito na construção da própria experiência.

É nesse contexto que a reflexão de Martin Heidegger recupera sua atualidade. O problema da técnica não reside simplesmente na existência de instrumentos, mas na possibilidade de que uma única forma de relação com o mundo passe a organizar silenciosamente todas as outras. Quando isso ocorre, deixa-se gradualmente de perceber que existem diferentes maneiras de habitar a realidade.

Os fenômenos descritos ao longo deste ensaio sugerem precisamente o movimento inverso. A nova contracultura não procura abandonar a tecnologia, mas preservar espaços nos quais a experiência continue dependendo da atenção, da presença, da interpretação e da abertura ao inesperado.

A experiência direta recupera valor precisamente porque já não pode ser pressuposta.

<><> 5. A Compensação Fenomenológica

Os fenômenos descritos nas seções anteriores parecem, à primeira vista, independentes entre si. A valorização do tempo desacelerado, o regresso da presença, a apreciação da imperfeição e a busca por experiências menos mediadas pertencem a esferas distintas da vida cotidiana. Entretanto, observados em conjunto, sugerem uma lógica comum.

Todos procuram recuperar dimensões da experiência que se tornam relativamente escassas precisamente porque a civilização contemporânea desenvolveu formas extremamente eficientes de aceleração, automatização e mediação.

Sob essa perspectiva, a nova contracultura não representa uma rejeição da tecnologia. Ela constitui uma resposta cultural às transformações produzidas pela própria tecnologia. O que emerge não é um movimento de retorno ao passado, mas uma tentativa de preservar condições da experiência humana que continuam sendo necessárias mesmo em uma civilização profundamente algorítmica.

Essa interpretação aproxima-se, em parte, da preocupação de Martin Heidegger ao afirmar que a técnica moderna tende a se tornar predominante como a única forma de desvelamento do mundo. O problema não consiste na existência dos instrumentos, mas na possibilidade de que outras maneiras de habitar a realidade se tornem progressivamente invisíveis. A recuperação da presença, da atenção e da experiência direta pode ser compreendida como uma resposta prática a essa tendência.

Em outra perspectiva, Hartmut Rosa observou que a aceleração social modifica profundamente a relação dos indivíduos com o tempo e com o mundo. Sua proposta de “ressonância” procura precisamente descrever formas de relação nas quais o sujeito permanece efetivamente afetado pela experiência, em vez de apenas administrar fluxos crescentes de informação. Muitos dos fenômenos analisados neste ensaio parecem apontar nessa direção.

Byung-Chul Han, por sua vez, chamou atenção para o esgotamento produzido pelo excesso de estímulos, transparência e desempenho. A crescente valorização do silêncio, da leitura prolongada, da contemplação e da presença pode ser interpretada como uma tentativa de reconstruir espaços de atenção que escapem à lógica da disponibilidade permanente.

A hipótese aqui proposta pode, portanto, ser formulada de maneira mais geral: toda transformação tecnológica suficientemente profunda reorganiza a experiência humana. Quando isso ocorre, surgem espontaneamente práticas culturais destinadas a recuperar precisamente aquilo que a nova configuração técnica tornou relativamente escasso.

Quem sabe essa regularidade venha acompanhando toda a história da modernidade. A industrialização favoreceu o surgimento de movimentos voltados para a natureza e para a preservação da paisagem. A urbanização estimulou novas formas de convivência comunitária. A civilização algorítmica parece inaugurar um movimento semelhante: a recuperação da experiência direta, da presença, da singularidade e do tempo vivido.

Se essa hipótese estiver correta, as contraculturas do século XXI talvez não sejam reconhecidas por grandes manifestos políticos ou estéticos. Elas poderão ser identificadas pelos novos modos de habitar o mundo que começam silenciosamente a emergir no interior da própria civilização tecnológica.

<><> Conclusão

As práticas examinadas ao longo deste ensaio dificilmente podem ser compreendidas como simples tendências de consumo ou modismos culturais. A escrita manual, a leitura prolongada, a valorização do artesanato, a busca por experiências menos mediadas e a recuperação do tempo vivido parecem pertencer a um mesmo horizonte de transformação.

Nenhuma delas representa uma recusa da civilização algorítmica. Seus participantes continuam utilizando tecnologias digitais, plataformas de comunicação e sistemas de inteligência artificial. O que começa a modificar-se não é a aceitação da técnica, mas a maneira de habitar um mundo profundamente transformado por ela.

Essa seria a principal característica das contraculturas emergentes do século XXI. Diferentemente de muitos movimentos do passado, elas não se organizam inicialmente em torno de programas políticos, manifestos ou grandes narrativas. Manifestam-se, antes de tudo, por pequenas mudanças na experiência cotidiana. Alteram ritmos de vida, formas de atenção, relações com os objetos e modos de presença.

A nova contracultura não procura restaurar um passado perdido. Ela procura preservar condições da experiência humana que permanecem indispensáveis em uma civilização cada vez mais automatizada. O tempo vivido, a presença, a singularidade e a abertura ao inesperado deixam de constituir hábitos espontâneos e passam a exigir escolhas conscientes.

Talvez esse seja um dos paradoxos mais significativos da civilização algorítmica. Quanto mais sofisticadas se tornam as tecnologias de mediação, maior parece ser o valor atribuído às experiências que dependem da participação direta do sujeito.

Assim que a história da inteligência artificial não será escrita apenas pela evolução dos algoritmos. Ela também será escrita pelas formas de vida que surgirem em resposta a essa evolução.

O futuro da experiência humana dependerá não apenas daquilo que as tecnologias serão capazes de realizar, mas também daquilo que os seres humanos decidirão preservar como irredutivelmente humano.

O próximo passo dessa investigação consiste, portanto, em compreender quais recursos do entendimento poderão orientar essa nova experiência. Porque recuperar o tempo, a presença e a experiência direta constituem apenas o início de uma tarefa maior: desenvolver formas de compreensão capazes de habitar responsavelmente a civilização algorítmica.

 

Fonte: Por Heitor Matallo Junior, em A Terra é Redonda

 

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