O
bunker da Guerra Fria transformado em apartamentos de luxo para 'sobreviver ao
fim do mundo'
"Daqui
para qualquer parte" é o lema do parque empresarial de Debert. Mas a
sensação ao chegar lá é de estar no meio do nada.
Localizada
a apenas 113 km ao norte de Halifax, na Nova Escócia (costa leste do Canadá),
fica uma antiga base militar, onde milhares de soldados foram treinados durante
a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
Agora,
o local é uma mistura de construções antigas e estacionamentos vazios, rodeados
por um estreito bosque de coníferas. Mas uma grande elevação coberta de grama,
em um dos limites do parque, traz a promessa de um futuro de luxo e glamour.
O
magnata canadense das criptomoedas Jonathan Baha'i pretende transformar o
antigo refúgio antibombas nucleares de 6 mil metros quadrados em complexos
residenciais à prova de crises. Neles, bilionários poderão enfrentar todo tipo
de cataclismos.
O
projeto prevê 50 unidades e é gerenciado pela empresa Fallout Complex Inc., de
propriedade de Baha'i. O local oferecerá serviços como gastronomia de alta
qualidade com alimentos de produção própria, acesso biométrico, segurança 24
horas e serviços médicos no local.
Seus
inquilinos poderão aterrissar com aviões particulares no pequeno aeroporto de
Debert, que fica próximo das instalações.
Baha'i
adquiriu o terreno, conhecido comumente como Diefenbunker, em 2013, por 31,3
mil dólares canadenses (US$ 22 mil, cerca de R$ 112 mil, pelo câmbio atual).
Ele
optou inicialmente por outro modelo de negócio, que incluía jogos de laser tag,
visitas históricas guiadas e um pequeno centro de dados.
"Os
últimos dois anos trouxeram mais incertezas para o mundo do que os últimos
30", declarou outro proprietário, Paul Mansfield, em uma reunião com o
governo local, em setembro do ano passado.
"Isso
propiciou o ressurgimento do interesse por ter uma espécie de seguro, um
'bunker do fim do mundo'."
A
empresa irá trabalhar com a firma alemã Bespoke Home and Yacht Security.
Segundo Mansfield, ela fornece serviços de segurança para o vice-presidente dos
Estados Unidos, J.D. Vance, e para a estrela de TV Kim Kardashian. Mas sua
lista de clientes não está disponível ao público.
Foram
vendidas até o momento 11 unidades do projeto. As medidas recomendadas pela
Bespoke para o futuro complexo incluem o uso de drones para inspecionar o seu
perímetro, segundo Mansfield.
Os
planos de reforma também incluem um spa, sala de ioga e um salão para fumantes.
Modernas luzes OLED imitarão a luz natural e um bunker ao lado na superfície
será usado para cultivar alimentos.
Quando
os proprietários não estiverem presentes, as unidades serão alugadas como
quartos de hotel e os lucros serão compartilhados. Os preços de compra e de
aluguel são confidenciais.
"Se
alguém o alugar como quarto de hotel e ocorrer algo que exija o seu
desalojamento, essa pessoa será desalojada", informou Mansfield.
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Uma história de sete bunkers
O
ex-primeiro-ministro do Canadá John Diefenbaker (1895-1979) ordenou a
construção de sete bunkers espalhados pelo país, entre o final da década de
1950 e meados dos anos 1960. Eles seriam destinados a abrigar um pequeno grupo
de autoridades do governo, no caso de uma guerra nuclear.
O
bunker de Debert foi projetado para resistir ao impacto próximo de uma explosão
nuclear e abrigar 329 pessoas por pelo menos 30 dias.
Mas, ao
término da construção, os bunkers já eram obsoletos. A tecnologia de mísseis de
longo alcance havia avançado e as bombas nucleares se tornaram mais potentes.
No seu
lugar, o bunker de Debert foi transformado em um centro provincial de
emergência, até ser fechado em 1996 para reduzir despesas.
Baha'i
não gosta da expressão "bunker do fim do mundo".
Embora
tenha sido construído "para sobreviver a tudo", segundo ele,
"não se trata do fim do mundo, mas de uma preparação prática e inteligente
frente a tormentas de qualquer tipo".
Quando
o furacão Fiona atingiu a Nova Escócia, em 2022, Baha'i abriu o bunker para
seus colegas de trabalho e suas famílias.
"É
totalmente autossuficiente e não depende da rede elétrica", explica ele.
"Se
uma tormenta forte atingir nosso complexo, os proprietários sabem que dispõem
de um lugar quente e seguro, com eletricidade, alimentos e tudo o que
precisarem."
Baha'i
prefere se concentrar no que o bunker irá oferecer a Debert e sua economia
local: um destino turístico e um centro de dados de "classe mundial".
"É
como ter um Airbnb muito seguro e bonito", compara ele.
A
previsão é que o projeto esteja pronto no início de 2027. O bunker despertou
interesse principalmente entre as pessoas da costa leste, mas também chamou a
atenção de todo o mundo.
Serão
necessários mais de 40 funcionários de hotelaria e pessoas com o conhecimento
necessário para gerenciar o centro de dados ampliado. Idealmente, serão
contratados moradores locais.
O
centro de dados será ampliado para atingir uma superfície ainda modesta de 1,4
mil metros quadrados, usando tecnologia de ponta para reduzir o consumo de
energia e oferecer alto nível de segurança para seus clientes, segundo Baha'i.
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O auge dos bunkers
O
destino de outros bunkers no Canadá demonstra que existem poucos locais
alternativos para que Baha'i transforme seus planos em realidade.
O
antigo bunker nuclear de Borden, na província de Ontario, está trancado e outro
em Shilo (Manitoba) está enterrado no subsolo.
Depois
de passar anos abandonado, atraindo exploradores urbanos, o bunker de Nanaimo,
na Colúmbia Britânica, foi deliberadamente inundado. E, em Penhold (Alberta),
um bunker foi demolido para evitar que um grupo de motociclistas o comprasse
para transformá-lo em sua sede.
Não
existem números oficiais sobre o custo de construção do bunker de Debert. Mas o
refúgio de Nanaimo tem dimensões similares e custou, na época, 2 a 3 milhões de
dólares canadenses. Este valor equivaleria hoje a cerca de Can$ 30 milhões
(cerca de US$ 21 milhões, ou R$ 107 milhões).
Já a
manutenção do Diefenbunker custa atualmente cerca de 60 mil dólares canadenses
(US$ 42,7 mil, cerca de R$ 217 mil) por ano.
O
Instituto Tecnológico de Wessex, no Reino Unido, defende o patrimônio dos
bunkers britânicos da Guerra Fria (1947-1991). O organismo afirmou que suas
opções de uso costumam se limitar ao turismo, instalações de alta segurança e
centros de dados.
Já os
refúgios para vítimas de desastres, atualmente, são um negócio muito lucrativo.
Nos
Estados Unidos, houve um aumento da construção de bunkers. Eles fazem parte de
uma indústria maior de preparação para desastres.
Projeções
indicam que este mercado já atinge um valor de pelo menos US$ 500 milhões
(cerca de R$ 2,5 bilhões).
As
estimativas variam, mas entre 20 e mais de 70 milhões de americanos estão
atualmente se preparando para um desastre. Existem construtores que erguem
moradias com bunkers previamente instalados.
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Rejeição dos moradores locais
Paralelamente,
a infraestrutura militar existente nos Estados Unidos está sendo cada vez mais
transformada para uso particular.
Nas
Colinas Negras da Virgínia, uma antiga base da Força Aérea Americana foi
transformada no complexo de condomínios Vivos, uma "comunidade fechada
para sobrevivência". E, no Estado de Kansas, o condomínio de sobrevivência
Atlas foi construído em um silo de mísseis do Exército dos Estados Unidos que
foi reformulado.
Existem
argumentos comerciais a favor desta utilização. Mas alguns moradores de Debert
têm suas reservas. Uma delas é a secretária do Museu Militar local, Annette
Sharpe.
"Como
museu, me dói muito dizer 'desculpe, este pedaço da história, agora, é
propriedade particular e está sendo remodelada não sei para o quê'",
lamentou ela, em referência aos visitantes do museu que gostariam de observar o
bunker de perto.
Em uma
das salas do museu, Sharpe mostra o antigo equipamento de comunicações do
Diefenbunker. Em outra, ela ilumina o sistema de alerta, projetado para avisar
aos operadores que o mundo estaria próximo do Armagedon.
Após o
fechamento da base, a população de Debert despencou de mais de 60 mil
habitantes, incluindo os soldados, para os atuais 1,4 mil moradores.
A
vereadora local Marie Benoit expressa sua preocupação com as tarifas de
superluxo do hotel boutique. Calcula-se que elas venham a ser superiores à
maioria dos hotéis de Halifax.
"Considerando
os salários das pessoas, não sei se elas poderão ter acesso", lamenta ela.
Mas a
prefeita de Debert, Christine Blair, afirmou que é "uma novidade
única" ter um dos poucos bunkers ainda conservados da época de Diefenbaker
no seu município. E garante que os cidadãos não se opõem ao projeto dos
condomínios.
"Que
eu saiba, eles não têm nenhum problema com isso", segundo ela.
"Ninguém veio nos dizer 'não o queremos aqui'."
O
proprietário da pizzaria local Angelina's, Fady Farah, espera que o projeto
traga mais negócios para a região, como ocorreu quando o bunker abrigava as
partidas de laser tag.
"E,
se a situação se descontrolar, vocês me verão ali, batendo à porta. Alguém
precisa cozinhar para eles, enquanto estiverem ali dentro."
Fonte:
BBC News

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