segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Fidel Castro e o Brasil: a história de uma relação que atravessou governos, ditaduras e gerações

Quando Fidel Castro chegou ao Brasil em 29 de abril de 1959, haviam se passado apenas quatro meses desde o triunfo revolucionário que ele liderou na ilha.

Essa visita, feita a convite do então presidente Juscelino Kubitschek, inaugurou uma relação política, diplomática, intelectual e humana com o gigante sul-americano que duraria décadas e se refletiria em uma dúzia de viagens a este país.

O ex-embaixador cubano no Brasil, Adolfo Curbelo, reconstruiu essa história em um artigo publicado em maio de 2024 pelo Brasil de Fato , no qual argumenta que essas visitas contribuíram decisivamente para o fortalecimento das relações bilaterais.

Durante sua primeira estadia, Fidel visitou São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro, defendendo a integração latino-americana, a unidade continental e o papel estratégico do Brasil, ao mesmo tempo em que antecipava a necessidade de um mercado comum regional para impulsionar o desenvolvimento econômico.

A IMPRESSÃO DA PRIMEIRA VISITA

Um dos momentos centrais da viagem ocorreu em Brasília, uma cidade que ainda estava em construção.

Lá, ele se encontrou com Kubitschek no Palácio da Alvorada e percorreu a futura capital acompanhado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, autor de muitos de seus edifícios emblemáticos.

Essa visita também marcou o início de uma estreita amizade com Niemeyer, baseada em afinidades políticas e admiração mútua, que perduraria ao longo do tempo.

Em 1999, o arquiteto acompanhou Fidel numa visita ao Museu de Arte Contemporânea de Niterói, onde o Comandante-em-Chefe cubano recebeu a Ordem do Mérito da Cidade, a mais alta distinção concedida pela prefeitura local.

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Além disso, no Rio de Janeiro, durante aquela visita inicial em 1959, Fidel apoiou a Operação Pan-Americana promovida por Kubitschek como uma proposta para impulsionar o desenvolvimento da América Latina e se reuniu com o então vice-presidente João Goulart, futuro líder brasileiro.

A nascente Revolução Cubana despertou enorme interesse na opinião pública brasileira.

Fidel concedeu inúmeras entrevistas e participou do popular programa de TV tupi Esta é sua vida, onde divulgou uma carta do escritor americano Ernest Hemingway em apoio ao processo revolucionário.

Antes de retornar a Havana, ele participou de um evento organizado pela União Nacional dos Estudantes (UNE), cujos membros o receberam com uma faixa gigantesca com a inscrição “Nós gostamos de Fidel”, que se tornou um símbolo do entusiasmo que a Revolução Cubana despertou em amplos setores da juventude do país.

DA REUNIÃO DEMOCRÁTICA AOS MOVIMENTOS SOCIAIS

O estabelecimento da ditadura militar em 1964 interrompeu as visitas de Fidel ao Brasil por mais de três décadas.

As relações diplomáticas entre os dois países foram restabelecidas em 1986, durante o governo do presidente José Sarney, e em 1990 o líder cubano retornou para participar da posse do presidente Fernando Collor de Mello.

Conforme recordou Curbelo, durante esse período ele realizou reuniões com cerca de cem líderes de nove partidos de esquerda e duas federações sindicais.

Entre eles estava Adão Pretto, então membro da liderança nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, organização que mantém até hoje uma ativa solidariedade com Cuba.

Sua proximidade com organizações populares e políticas é um dos principais legados deixados por Fidel no Brasil.

“A influência de Fidel na esquerda latino-americana, e particularmente na esquerda brasileira, foi muito forte”, afirmou Genoino.

Ele também lembrou a solidariedade demonstrada por Cuba durante a ditadura militar brasileira, quando acolheu numerosos exilados, e afirmou que a experiência da Revolução Cubana influenciou a formação política de várias gerações de militantes do PT.

O Comandante-em-Chefe também visitou a sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, onde conversou com religiosos e ativistas das Comunidades Eclesiais de Base, em um encontro liderado, entre outros, pelo teólogo Leonardo Boff e pelo frade dominicano Frei Betto.

Genoino lembrou que o próprio PT, que surgiu após a Revolução Cubana, foi fortemente influenciado pelo processo na ilha. “Os cursos, treinamentos e viagens de estudantes a Cuba ajudaram a fortalecer esses laços”, observou ele.

Outra visita muito significativa de Fidel Castro ao Brasil ocorreu em junho de 1992, para participar da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, também conhecida como Cúpula da Terra, que aconteceu na cidade do Rio de Janeiro.

Seu discurso nesse evento foi considerado visionário porque, quando as mudanças climáticas ainda não estavam no centro da agenda global, ele alertou que a humanidade estava colocando sua própria sobrevivência em risco devido à destruição do meio ambiente e relacionou essa deterioração aos padrões de consumo e à desigualdade entre países ricos e pobres.

UMA CONEXÃO COM LULA E UM LEGADO DURADOURO

Dentre os laços construídos por Fidel no Brasil, destaca-se o que ele manteve com o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva.

Após a morte do líder cubano em 25 de novembro de 2016, Lula afirmou que sentiu sua partida “como a perda de um irmão mais velho” e lembrou que eles mantiveram por décadas “uma relação afetuosa e intensa, baseada na busca de caminhos para a emancipação de nossos povos”.

O escritor e jornalista Fernando Morais disse à Prensa Latina que o segundo volume de sua biografia de Lula começa justamente com o retorno do presidente brasileiro à política, influenciado pelas palavras de Fidel.

“Lula havia perdido uma eleição e decidido abandonar a política. Fidel disse-lhe que nenhum trabalhador jamais havia obtido 1,2 milhão de votos e que ele não podia abandonar a política, que tinha de voltar”, recordou Morais.

O atual governante brasileiro seguiu esse conselho, retornou à política e culminou essa trajetória com sua eleição, em 2002, como o primeiro presidente operário do Brasil.

A última visita de Fidel Castro ao país ocorreu em janeiro de 2003, para participar da primeira posse do líder do PT.

A relação entre os dois também se refletiu no surgimento do Foro de São Paulo, um espaço de coordenação de partidos e movimentos de esquerda latino-americanos criado em 1990 naquela cidade brasileira.

Genoino fez parte de uma delegação do partido que visitou Cuba em 1989, num momento particularmente complexo para a ilha, marcado pelo colapso do bloco socialista europeu.

Durante uma semana, ele participou de reuniões com Fidel dedicadas a discutir o futuro do socialismo, a integração latino-americana e os desafios da esquerda.

“A imagem que guardo é a de um grande líder, um líder revolucionário e socialista que desempenhou um papel de destaque tanto para a esquerda global quanto para a latino-americana”, afirmou.

“Fiquei impressionado com o interesse dele, com a paixão genuína que demonstrava por conhecer o Brasil, por entender o que o PT representava, e com a solidariedade que sempre expressava em relação ao nosso partido”, recordou.

As visitas de Fidel também foram marcadas por intenso diálogo com a ciência e a cultura brasileiras. Ele se encontrou com figuras como Darcy Ribeiro, Chico Buarque e Antonio Callado, que em 1990 leram um manifesto de apoio assinado por 300 criadores, artistas e cientistas.

Quase sete décadas após sua primeira visita ao gigante sul-americano, a figura de Fidel permanece presente em marchas, atos de solidariedade com Cuba e mobilizações de organizações populares brasileiras.

Em março passado, mais de vinte movimentos sociais, partidos políticos, intelectuais e representantes diplomáticos inauguraram em Brasília as atividades do centenário de seu nascimento, em evento no qual reafirmaram a relevância de seu pensamento sobre soberania, justiça social e integração latino-americana.

Para Genoino, preservar esse legado também é um compromisso. “Costumo dizer que a liderança de Fidel e o legado de Cuba são uma herança da humanidade, que devemos defender e preservar como uma memória que influencia o presente e o futuro.”

“Acredito que hoje a solidariedade com Cuba é fundamental, e devemos resgatar a memória de Fidel para oferecer todo o nosso apoio e solidariedade a Cuba, ao povo cubano e ao que a Revolução Cubana representa para a esquerda e para a luta pela autodeterminação dos povos”, concluiu.

¨      Centenário de Fidel: “Como um cão, o imperialismo só persegue quem corre”: a lição do líder cubano que segue atual. Por Rafael Mendez

A mensagem do líder histórico da Revolução Cubana mantém plena vigência diante de um mundo em que a soberania dos povos volta a ser ameaçada pelas velhas práticas de dominação imperial. Com isso, aquela sentença atribuída a José Martí, “é a hora dos fornos e não se há de ver mais que a luz”, ganha novo sentido como um chamado a não fugir, não vacilar e enfrentar com dignidade os desafios do presente.

Fidel Castro, líder histórico da Revolução Cubana e referência mundial, construiu uma das narrativas anti-imperialistas mais contundentes do século 20, não apenas pela força de seus discursos, mas pela coerência entre a palavra e a conduta política de uma Revolução que decidiu resistir, mesmo quando tinha diante de si a maior potência militar, econômica e midiática do planeta.

Em seu discurso perante a Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1960, afirmou: “Não viemos pedir nada. Viemos exigir o direito dos povos de serem soberanos, de decidir seu próprio destino sem intervenções nem imposições externas”.

Essa visão ficou resumida em uma frase que conserva extraordinária força de orientação pedagógica: “O imperialismo é como o cachorro, que só persegue quem corre; se você para e o enfrenta, ele o fareja e vai embora”, com a qual se expressa uma ideia simples, mas profunda: diante da prepotência imperial, a fuga estimula a agressão, enquanto a firmeza obriga o adversário a calcular seus passos. “A Revolução não se defende com lágrimas, defende-se com a decisão firme de resistir e lutar até as últimas consequências”.

Desde o triunfo da Revolução Cubana, em 1959, Fidel defendeu a convicção de que a soberania não se mendiga, não se negocia sob ameaça nem se preserva com discursos vazios, mas com consciência nacional, unidade popular e vontade política de resistir, porque, para ele, a fraqueza diante do imperialismo não era prudência, mas um convite aberto a novas formas de chantagem, pressão e dominação. Ao imperialismo, “se enfrenta com firmeza porque ceder às suas demandas apenas alimenta sua voracidade”.

<><> A dignidade como política de Estado

A experiência cubana demonstrou que um país pequeno, bloqueado e submetido durante décadas a pressões de todo tipo podia sustentar sua independência se conseguisse transformar a dignidade em política de Estado, com o que Cuba passou de uma ilha vista como vulnerável a se tornar símbolo mundial de resistência, especialmente para os povos do Sul que sofreram colonialismo, neocolonialismo, saque de recursos e imposições externas.

A autodeterminação foi um dos princípios mais defendidos por Fidel, porque entendia que nenhum povo pode se considerar livre se outros decidem por ele seu modelo político, seu destino econômico ou suas alianças internacionais.

Daí que seu pensamento não se limitasse ao caso cubano, mas se projetasse para a América Latina, a África, a Ásia e todos os povos submetidos à lógica da dependência.

Nessa compreensão do poder imperial, a comparação com o cachorro não é uma simples ocorrência retórica, mas um alerta político: quem corre desperta o instinto de perseguição, quem se ajoelha alimenta a arrogância do dominador e quem se mantém firme, com dignidade, obriga o agressor a reconhecer que não está diante de uma presa fácil, mas de um povo disposto a pagar o preço de sua independência.

<><> Uma bússola para os povos que resistem

Esse princípio se expressou em momentos decisivos como a invasão da Baía dos Porcos, a Crise de Outubro e as sucessivas ofensivas econômicas, políticas e diplomáticas contra Cuba, episódios nos quais a firmeza não eliminou os riscos, mas impediu que o país fosse reduzido à condição de protetorado, colônia disfarçada ou peça subordinada no tabuleiro geopolítico de Washington.

A lição de Fidel mantém sua vigência em um mundo em que as formas de dominação mudaram de rosto, mas não de essência, porque agora as pressões podem vir acompanhadas de sanções, campanhas midiáticas, bloqueios financeiros, guerras judiciais, isolamento diplomático ou ameaças militares, com o que se pretende obrigar os povos a correr antes que o cachorro morda.

Por isso, mais do que um lema do passado, a frase, os ensinamentos e as advertências de Fidel funcionam como uma bússola para o presente, já que lembram que a soberania não sobrevive em povos assustados nem em governos que confundem prudência com capitulação, mas em sociedades capazes de compreender que a dignidade nacional exige serenidade, firmeza e consciência histórica diante de cada tentativa de submissão.

O legado de Fidel Castro, visto dessa perspectiva, não é um convite romântico ao sacrifício, mas um ensinamento político de enorme valor: os povos que correm acabam perseguidos, os povos que se ajoelham acabam humilhados, mas os povos que se mantêm firmes, com unidade, consciência e determinação, podem demonstrar que, mesmo nos cenários mais adversos, a dignidade continua sendo uma força capaz de mudar o curso da história.

<><> Uma bússola para os povos que resistem

Esse princípio se expressou em momentos decisivos como a invasão da Baía dos Porcos, a Crise de Outubro e as sucessivas ofensivas econômicas, políticas e diplomáticas contra Cuba, episódios nos quais a firmeza não eliminou os riscos, mas impediu que o país fosse reduzido à condição de protetorado, colônia disfarçada ou peça subordinada no tabuleiro geopolítico de Washington.

A lição de Fidel mantém sua vigência em um mundo em que as formas de dominação mudaram de rosto, mas não de essência, porque agora as pressões podem vir acompanhadas de sanções, campanhas midiáticas, bloqueios financeiros, guerras judiciais, isolamento diplomático ou ameaças militares, com o que se pretende obrigar os povos a correr antes que o cachorro morda.

Por isso, mais do que um lema do passado, a frase, os ensinamentos e as advertências de Fidel funcionam como uma bússola para o presente, já que lembram que a soberania não sobrevive em povos assustados nem em governos que confundem prudência com capitulação, mas em sociedades capazes de compreender que a dignidade nacional exige serenidade, firmeza e consciência histórica diante de cada tentativa de submissão.

O legado de Fidel Castro, visto dessa perspectiva, não é um convite romântico ao sacrifício, mas um ensinamento político de enorme valor: os povos que correm acabam perseguidos, os povos que se ajoelham acabam humilhados, mas os povos que se mantêm firmes, com unidade, consciência e determinação, podem demonstrar que, mesmo nos cenários mais adversos, a dignidade continua sendo uma força capaz de mudar o curso da história.

 

Fonte: Por Martha Andrés Román, na Prensa Latina/Cuba em Resumen

 

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