A
guerra dos proxies: como Washington reorganiza a América Latina ao redor do
Brasil
Não
se trata de uma nova cadeia de bases militares nem de uma aliança formal contra
Brasília. O movimento é mais sofisticado. Washington articula capacidades
nacionais distintas, como território, tropas, inteligência, logística,
infraestrutura e conhecimento operacional, em uma arquitetura hemisférica cada
vez mais integrada. A entrada da Colômbia é decisiva porque conecta a esse
sistema uma potência militar situada simultaneamente no Caribe, no Pacífico e
na Amazônia. Para o Brasil, o risco ultrapassa o velho cerco: é a formação de
uma ordem regional capaz de reorganizar seu entorno estratégico sem depender da
liderança, da intermediação ou do consentimento de Brasília.
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A mudança que o mapa não mostra
A
entrada da Colômbia de Abelardo de la Espriella na nova arquitetura de
segurança liderada por Washington não acrescenta apenas mais um governo
conservador à guinada política que atravessa parte da América Latina. Ela
altera a geometria do poder regional. Em março de 2026, quando os Estados
Unidos reuniram no SOUTHCOM governos dispostos a militarizar o combate aos
cartéis, Brasil, México e Colômbia estavam entre as ausências mais
significativas. Cinco meses depois, Bogotá mudou de posição. De la Espriella aderiu
à coalizão promovida por Donald Trump, e seu governo autorizou, segundo Pete
Hegseth, operações militares conjuntas contra organizações classificadas por
Washington como terroristas. O secretário norte-americano chegou a discutir
ataques conjuntos contra o ELN e dissidências das FARC. Uma autoridade dos EUA
afirmou à Reuters que a nova cooperação poderá superar o próprio Plano
Colômbia. O dado decisivo, porém, não está apenas na Colômbia. Está no sistema
ao qual ela retorna. Washington passou a exigir de seus parceiros algo
qualitativamente maior que alinhamento diplomático. Em fevereiro, diante de
chefes militares do hemisfério, Hegseth condensou a nova lógica em uma
sequência reveladora: exercícios, treinamento, operações, inteligência, acesso,
bases e sobrevoo. O objetivo declarado era aprofundar a atuação conjunta das
forças armadas da região sob uma concepção na qual a proteção do território
norte-americano começa muito além das fronteiras dos Estados Unidos.
É nesse
ponto que o mapa político convencional engana. Argentina, Paraguai, Equador,
Panamá, Peru, Guiana e agora Colômbia não precisam desempenhar a mesma função,
nem entregar formalmente sua soberania a Washington, para alterar a correlação
regional de forças. Território, portos, rios, espaço aéreo, inteligência,
logística, unidades militares, conhecimento de selva e infraestrutura podem
permanecer nacionais e, ainda assim, adquirir outro peso quando se tornam
progressivamente compatíveis com uma arquitetura externa de integração. A
mudança colombiana é particularmente sensível porque Bogotá não retorna a essa
estrutura de mãos vazias. Traz uma das maiores forças militares da América
Latina, décadas de experiência de combate e uma geografia que conecta Caribe,
Pacífico, Andes e Amazônia. O problema estratégico brasileiro, porém, está além
da Colômbia: já não é quantas bases norte-americanas existem ao redor do país,
mas quem adquire capacidade para combinar os meios militares, territoriais e
logísticos existentes em seu entorno. E se o movimento em curso não for
simplesmente a multiplicação de aliados de Washington, mas a transformação de
capacidades nacionais diferentes em partes de uma mesma arquitetura hemisférica
de poder?
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A nova doutrina: defender os Estados Unidos dentro da América Latina
A
transformação não está escondida em documentos secretos. Está escrita na missão
dos novos comandos militares norte-americanos. Ativado em dezembro de 2025, o
U.S. Army Western Hemisphere Command recebeu a tarefa oficial de conduzir uma
“defesa hemisférica em profundidade” para proteger os interesses dos Estados
Unidos e seu território nacional. Poucos meses depois, o general Francis
Donovan assumiu o SOUTHCOM e colocou no topo de seus quatro imperativos
“fortalecer o comando e controle hemisférico”. Os outros três completam a
lógica: impor fricção sistêmica a cartéis e organizações terroristas,
desenvolver forças modernas adaptadas às missões e negar posições estratégicas
e influência considerada indevida de adversários no hemisfério. A mudança é de
escala. A fronteira que Washington pretende defender deixa de coincidir,
estrategicamente, com a linha territorial dos Estados Unidos. A América Latina
passa a integrar a profundidade necessária à proteção do homeland.
Narcotráfico, migração, presença chinesa, portos, telecomunicações, espaço,
cibersegurança, infraestrutura crítica e acesso militar passam a ser
organizados dentro de uma mesma gramática de segurança hemisférica.
É nesse
desenho que a palavra parceiro muda de conteúdo. Donovan apresentou ao
Congresso as parcerias como instrumentos de burden sharing, enquanto o SOUTHCOM
define seu método como atuar “by, with, and through” aliados e parceiros,
combinando treinamento, exercícios e investimentos em capacidades nacionais. Em
julho, Elbridge Colby explicitou o salto seguinte ao definir operações
cinéticas conduzidas por parceiros como “multiplicadores de força”. A
arquitetura não exige comando formal dos Estados Unidos sobre exércitos
latino-americanos. Exige interoperabilidade suficiente para que capacidades
nacionais distintas possam operar conjuntamente. Aqui está a mutação essencial.
Washington não precisa concentrar todos os meios para concentrar poder. Precisa
ampliar sua capacidade de integrá-los. Um porto pode continuar equatoriano, uma
unidade de selva peruana, uma pista paraguaia, uma força fluvial colombiana.
Quando procedimentos, comunicações, inteligência e doutrina tornam essas
capacidades combináveis, o valor estratégico do conjunto passa a ser maior que
a soma das partes. O centro de gravidade desloca-se da propriedade dos meios
para a capacidade de articulá-los. É por isso que a fórmula mais precisa para
compreender a nova arquitetura não é simplesmente expansão militar
norte-americana. É centralização da integração com descentralização dos meios.
Washington constrói o tecido que conecta capacidades territorialmente
dispersas; os parceiros fornecem parcelas crescentes da materialidade
necessária para que esse tecido produza poder. A próxima pergunta, portanto, já
não é se existem aliados dos Estados Unidos ao redor do Brasil. É o que cada um
deles está sendo capaz de acrescentar ao sistema.
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A divisão assimétrica do trabalho militar
É
quando se abandona a ideia de um cerco homogêneo que o desenho ganha nitidez.
Washington não necessita que todos os governos aliados façam a mesma coisa. Ao
contrário, uma arquitetura distribuída torna-se mais eficiente quando cada
Estado acrescenta aquilo que sua geografia, suas forças armadas, sua
infraestrutura e suas escolhas políticas permitem oferecer. O próprio general
Francis Donovan declarou ao Senado que pretende ampliar o burden sharing e
transformar as parcerias de segurança em “multiplicadores de força para a
defesa hemisférica”. A expressão é reveladora: o poder norte-americano passa a
ser ampliado por capacidades que continuam materialmente pertencendo a outros
Estados.
O
Paraguai mostra como essa divisão pode começar pelo direito. A Lei 7.630,
promulgada em março, regulamentou a presença temporária de militares, civis e
contratistas do Departamento de Defesa norte-americano, permitindo circulação e
acesso a instalações acordadas e autorizando sistemas próprios de
telecomunicações e uso das frequências necessárias. Não é uma base permanente,
mas algo operacionalmente mais flexível: a redução das fricções jurídicas,
logísticas e comunicacionais para a atuação de forças dos EUA no coração
continental da América do Sul. No Peru, a especialização nasce da geografia. No
Southern Vanguard 2026, realizado pela primeira vez no país em parceria com o
U.S. Army Western Hemisphere Command, militares peruanos e norte-americanos
treinam forças da Argentina e do Chile para operações e sustentação em ambiente
de selva. O dado estratégico está na circulação horizontal da capacidade:
Washington não apenas conecta forças latino-americanas, mas ajuda a transferir
entre elas conhecimentos militares especializados. A mesma lógica organiza o
restante do tabuleiro. O Panamá oferece articulação interoceânica e logística;
a Guiana, um flanco amazônico e atlântico; a Argentina, profundidade austral e
presença no Atlântico Sul; o Equador, experiência recente de emprego conjunto
do poder militar. Não são peças equivalentes. É justamente a complementaridade
entre capacidades distintas que lhes confere valor sistêmico.
Surge
daí uma divisão assimétrica do trabalho militar. Os Estados latino-americanos
aportam território, soldados, rios, portos, pistas, conhecimento operacional,
legitimidade jurídica doméstica e posição geográfica. Washington agrega
capacidades próprias e, sobretudo, inteligência, tecnologia, doutrina, padrões
operacionais, treinamento e mecanismos de integração. Não se trata de negar a
agência dos governos latino-americanos, que aderem a esses arranjos por
cálculos próprios de poder, segurança, financiamento ou sobrevivência política.
A assimetria está em outro lugar: quanto mais especializadas e interoperáveis
se tornam as partes, maior o valor estratégico de quem consegue articulá-las
como sistema.
A
lógica tem precedente. Durante a Guerra Fria, Washington já estruturou uma
divisão interamericana do trabalho militar, delegando às forças locais grande
parte da segurança interna e da luta anticomunista. A novidade de 2026 está na
forma: uma rede multidomínio em que capacidades nacionais especializadas se
tornam progressivamente compartilháveis, combináveis e interoperáveis. É nesse
ponto que a Colômbia altera a equação. Os demais países acrescentam funções
importantes à arquitetura. A Colômbia concentra várias delas dentro do mesmo
território. E, ao contrário dos outros nós, toca simultaneamente o Caribe, o
Pacífico e o coração amazônico da América do Sul. É por isso que a mudança
política em Bogotá vale muito mais, para Washington e para Brasília, do que
simplesmente mais uma bandeira incorporada à coalizão.
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Colômbia: a dobradiça que faltava
A
Colômbia não é apenas mais um país que mudou de orientação política. Ela ocupa
uma posição que nenhum outro parceiro de Washington reúne com a mesma
densidade: Caribe, Pacífico, Andes e Amazônia, somados a décadas de guerra
interna, inteligência, forças especiais, operações fluviais e cooperação
militar com os Estados Unidos. É essa concentração de capacidades que
transforma a posse de Abelardo de la Espriella em um acontecimento regional, e
não apenas colombiano.
A
mudança é política antes de ser material. O aparato militar colombiano já
existia. A geografia já existia. A experiência de combate já existia. O que
muda é a disponibilidade estratégica desse estoque de poder. De la Espriella
assumiu prometendo uma ofensiva contra grupos armados e rapidamente inseriu
Bogotá na coalizão de segurança promovida por Washington. Poucos dias depois,
Pete Hegseth afirmou que a Colômbia havia autorizado operações militares
conjuntas para destruir organizações classificadas pelos Estados Unidos como
terroristas e admitiu ter discutido ataques conjuntos contra o ELN e
dissidências das FARC. O novo ministro da Defesa colombiano foi ainda mais
explícito ao defender que essas organizações enfrentem as capacidades de “todo
o hemisfério, liderado pelos Estados Unidos”.
Mas a
importância colombiana aparece com mais clareza no sul do país. Em Leticia, na
fronteira com Brasil e Peru, está a 26ª Brigada de Selva, definida pelo próprio
Exército colombiano como estratégica para a defesa e segurança da Amazônia. Em
julho de 2026, as Marinhas dos três países realizaram a BRACOLPER, percorrendo
5.563 quilômetros pelos rios da região e treinando interoperabilidade, comando
e controle e comunicações táticas. A Colômbia, portanto, já está profundamente
inserida no ecossistema cooperativo de segurança amazônica compartilhado com o
Brasil. É aqui que o salto de 2026 se torna estratégico. Washington não precisa
inserir a Colômbia na Amazônia. A Colômbia já está lá. Tampouco precisa criar
do zero sua interoperabilidade regional. A mudança em Bogotá aproxima novamente
da arquitetura hemisférica norte-americana um Estado cujas tropas, conhecimento
territorial e relações militares já atravessam o espaço estratégico brasileiro.
Por isso, a Colômbia é mais que uma plataforma. Ela funciona como dobradiça
entre duas arquiteturas: a segurança hemisférica que Washington procura
integrar e o sistema amazônico de cooperação no qual o Brasil está diretamente
inserido. De la Espriella não criou essa dobradiça. Mudou a orientação política
da peça que a sustenta.
É isso
que distingue a Colômbia dos demais proxies. Enquanto outros acrescentam
capacidades específicas, Bogotá concentra várias delas e ainda compartilha com
o Brasil uma fronteira estratégica no coração amazônico. Sua entrada reduz uma
lacuna geográfica e operacional entre a arquitetura hemisférica de Washington e
o principal espaço terrestre estratégico brasileiro. Isso não transforma a
Colômbia em inimiga de Brasília. A própria BRACOLPER demonstra que a cooperação
bilateral permanece. A mudança é mais profunda: o mesmo Estado que coopera
militarmente com o Brasil na Amazônia passa a se alinhar politicamente a uma
arquitetura externa que pretende integrar capacidades em escala hemisférica. A
mudança colombiana deixa, assim, de ser bilateral e se torna sistêmica.
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O verdadeiro alvo estratégico: a autonomia brasileira
A
arquitetura ganha significado político quando se observa o que existe no centro
desse rearranjo. O Brasil reúne território, economia, recursos, base
industrial, capacidade diplomática e escala suficientes para disputar a própria
definição da ordem sul-americana. Sob Lula, esse poder material voltou a
sustentar uma política de autonomia estratégica, integração regional,
fortalecimento dos BRICS e aprofundamento das relações com a China sem aceitar
o veto de Washington. É aí que a China entra no tabuleiro. Para os Estados
Unidos, sua presença na América Latina envolve portos, telecomunicações,
infraestrutura, minerais críticos, energia e tecnologia, mas o problema
estrutural é maior: Pequim oferece alternativas materiais capazes de reduzir
dependências históricas de Washington. No Brasil, essa relação se combina com
uma potência regional que reivindica margem própria de decisão. Um Brasil
alinhado pode ser incorporado à arquitetura hemisférica. Um Brasil autônomo
disputa os termos segundo os quais ela será construída. Lula importa, portanto,
menos como indivíduo que como fiador conjuntural dessa orientação. O conflito
estratégico não se reduz a um presidente ou partido. O que está em jogo é a
capacidade brasileira de estabelecer relações multipolares, organizar seu entorno
e, quando seus interesses exigirem, dizer não.
A
Argentina acrescenta outra dimensão ao sistema. Sob Javier Milei, forças
especiais norte-americanas foram autorizadas a operar em Puerto Belgrano,
Córdoba e Moreno no exercício Daga Atlántica; a Marinha argentina treinou com o
grupo de ataque do USS Nimitz; e os dois países avançaram em cooperação
logística e interoperabilidade. Não é apenas alinhamento político. Buenos Aires
oferece profundidade austral, capacidade militar convencional e acesso
estratégico ao Atlântico Sul. Com a Argentina, o desenho deixa ainda mais claro
que a pressão estratégica não se concentra numa única fronteira brasileira. Do
Caribe à Amazônia e desta ao Atlântico Sul, diferentes parceiros acrescentam
capacidades nos espaços em que o Brasil projeta poder e possui interesses vitais.
Isso
não prova a existência de um plano operacional norte-americano para atacar o
Brasil. Prova algo mais relevante para o cálculo estratégico: a capacidade de
Washington de acessar, conectar e tornar interoperáveis meios existentes no
entorno brasileiro aumenta justamente quando Brasília sustenta posições que
colidem com objetivos centrais da política hemisférica dos Estados Unidos.
Intenções mudam; capacidades acumuladas permanecem. O conflito profundo está
entre duas geografias sobrepostas. Washington pensa a região como Hemisfério
Ocidental, espaço de defesa avançada dos Estados Unidos e contenção de
competidores estratégicos. Um Brasil autônomo precisa pensá-la como América do
Sul, espaço cuja ordem não pode ser definida por uma potência externa. Quanto
mais Washington integra diretamente os Estados do entorno brasileiro, menos
necessita passar por Brasília para organizar a segurança regional. Esse
processo tem um nome: desintermediação estratégica do Brasil.
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O cerco mudou de forma
O maior
risco para o Brasil seria interpretar essa reorganização como fenômeno
passageiro, dependente de Trump, Milei, De la Espriella ou Lula. Governos
passam. Capacidades permanecem. Acordos de acesso, cadeias logísticas,
doutrinas compartilhadas, sistemas interoperáveis, redes de inteligência e
gerações de oficiais treinados conjuntamente acumulam poder muito além dos
ciclos eleitorais. Em estratégia, a ameaça não começa quando existe uma ordem
de emprego da força. Começa quando se constroem as condições materiais que
tornam esse emprego possível. É por isso que o cerco mudou de forma. Não se
trata apenas de instalar bases ou deslocar tropas norte-americanas para as
fronteiras brasileiras. Washington pode ampliar seu poder regional tornando
forças, territórios e infraestruturas de outros Estados progressivamente
disponíveis a uma arquitetura que ele possui capacidade privilegiada de
integrar. A soberania formal permanece nacional, enquanto a correlação material
de forças se transforma. O mapa político continua aparentemente o mesmo; o mapa
estratégico, não.
Para
Brasília, a resposta não pode ser isolamento nem alinhamento automático.
Precisa ser poder. Isso significa reconstruir capacidade de organização da
América do Sul, aprofundar a integração regional, fortalecer a cooperação
amazônica, preservar o Atlântico Sul como espaço estratégico, recuperar
capacidade industrial e tecnológica de defesa, desenvolver inteligência
soberana e criar infraestrutura física e digital que conecte o continente a
partir de seus próprios interesses. Significa também diversificar relações
internacionais. Soberania não é autarquia. É possuir alternativas suficientes
para cooperar sem subordinar-se e poder suficiente para dizer não sem ser
estrangulado. Há, portanto, uma disputa anterior à própria guerra. Washington
pensa a região como Hemisfério Ocidental e profundidade estratégica de sua
segurança nacional. O Brasil precisa ser capaz de pensá-la como América do Sul,
espaço político dotado de interesses próprios. Se perder essa capacidade,
poderá continuar sendo o maior país do continente, possuir a maior economia e
conservar enormes recursos naturais, mas verá diminuir algo menos visível e
igualmente decisivo: seu poder de organizar o espaço no qual seu próprio poder
existe.
Esse é
o alerta que o novo tabuleiro exige. O problema não é afirmar que Argentina,
Paraguai, Peru, Equador, Guiana ou Colômbia estejam preparando uma guerra
contra o Brasil. Não estão. O problema é compreender que capacidades
construídas hoje para determinados objetivos podem amanhã servir a outros, e
que a crescente integração militar do entorno brasileiro sob liderança de uma
potência externa altera objetivamente as opções disponíveis numa crise futura.
Intenções pertencem aos governos. Capacidades pertencem à história. Por isso, a
disputa que se abre diante do Brasil não será decidida apenas por tanques,
navios, caças ou soldados. Será decidida também por quem define ameaças,
estabelece padrões, controla fluxos de inteligência, conecta infraestruturas,
forma oficiais, articula governos e transforma geografias nacionais em
capacidade coletiva de poder. A disputa decisiva não é apenas pelo território.
É pelo poder de organizar o território dos outros em um sistema. E soberania,
para o Brasil, será continuar sendo sujeito de sua própria geografia.
Fonte:
Por Reynaldo José Aragon, em Brasil 247

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