Megaeventos
da Universal receberam R$ 2,2 milhões em emendas de irmã de Edir Macedo
A
deputada estadual por São Paulo Edna Macedo, do Republicanos, destinou R$ 2,2
milhões em emendas parlamentares para megaeventos da Igreja Universal, liderada
pelo seu irmão, o bispo Edir Macedo, um dos homens mais ricos do Brasil. Ela
concorre à reeleição na Assembleia Legislativa de São Paulo.
Emendas
parlamentares são a ferramenta que deputados e senadores usam para enviar uma
parte do dinheiro público para financiar obras, projetos e instituições,
geralmente nas suas próprias cidades e estados.
A
primeira indicação de Edna para eventos da igreja do irmão foi de R$ 1,2 milhão
no ano passado para a The Love Walk – Caminhada do Amor – um misto de palestra
e atrações musicais com orientações sobre relacionamentos amorosos – criado
pelo casal Renato e Cristiane Cardoso, conhecidos pelo programa de TV “The Love
School: Escola do Amor”. Ela é filha de Edir Macedo.
Já
neste ano, a deputada Edna Macedo indicou R$ 1 milhão para o Família ao Pé da
Cruz, uma série de cultos religiosos em estádios e ginásios que aconteceu em
diversos países na última Sexta-Feira Santa.
Toda
essa verba pública para eventos da Igreja Universal é destinada inicialmente
para o Instituto Paulo Kobayashi, conhecido como IPK, que realiza vários
eventos religiosos da congregação de Edir Macedo. O caso foi revelado
inicialmente em reportagem do colunista Artur Rodrigues, do portal UOL.
Entre
2023 e 2026, o IPK recebeu R$ 37,7 milhões de dinheiro público indicado por
parlamentares, na maior parte do Republicanos e do PL. Desse total, pelo menos
R$ 16,8 milhões foram destinados a eventos da Universal. Ou seja, quase metade
da quantia recebida pela entidade foi para atividades promovidas pela igreja de Edir Macedo.
Acontece
que nem sempre a motivação desse recurso é esclarecida nos dados do Portal da
Transparência do governo de São Paulo. As duas emendas da Edna Macedo para
eventos da Universal, por exemplo, são descritas apenas como “apoio a evento
cultural e criativo”. É preciso analisar o interior dos termos de fomento, uma
espécie de contrato entre governos e ONGs, para identificar a real destinação
daquele dinheiro.
Os
outros parlamentares que destinaram verba para eventos da Universal, através do
IPK, são Altair Moraes, Danilo Campetti, Gilmaci Santos, Rui Alves, Sebastião
Santos e Tenente Nascimento. Todos são filiados ao Republicanos, braço político
da Igreja Universal, com exceção do Tenente Nascimento, que deixou a legenda e
migrou para o PL.
Além do
Caminhada do Amor e do Família ao Pé da Cruz, também foram bancados com verba
de emenda os festivais da Universal chamados Mega Dance, Mega Help e Canta
Gospel. Parte desses eventos são promovidos pela Força Jovem Universal, a FJU,
grupo da igreja de Edir Macedo voltado para a juventude.
Por sua
vez, o Instituto Paulo Kobayashi é uma organização da sociedade civil de
interesse público, ou OSCIP, criada e comandada por familiares do professor de
geografia e ex-presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo Paulo Seiti
Kobayashi, morto em 2005 quando era deputado federal pelo PSDB.
A
organização, que foi criada em 2005, teve um salto na quantidade de recursos
públicos do governo de São Paulo recebidos durante a gestão de Tarcísio de
Freitas, do Republicanos. Em 2023, primeiro ano do governo, foram pagos R$ 4,3
milhões em emendas para o IPK. Em 2024, subiu para R$ 10,3 milhões. Já no ano
passado esse valor chegou a R$ 11,7 milhões. E já passa de R$ 11 milhões até
agosto de 2026.
Os
tipos de eventos promovidos pelo IPK com recursos públicos são bastante
variados: festas religiosas, eventos gastronômicos, festivais culturais,
projetos esportivos e até um encontro para capacitar pessoas para o apoio e
atendimento de vítimas de tragédias.
Em
dezembro de 2024, Edna Macedo publicou uma foto na sua conta do Instagram ao
lado do presidente do IPK, Victor Kobayashi, e do fundador do ID Mais Vida,
organização que trabalha com o IPK, Mauricio Miyazaki. A foto mostra uma visita
dos dois ao seu gabinete. “Pessoas boas atraem pessoas boas! (…). Tivemos uma
boa conversa sobre o terceiro setor”, escreveu a deputada do Republicanos.
A
deputada Edna Macedo também foi pessoalmente à edição do evento Família ao Pé
da Cruz que ocorreu na Neo Química Arena, e posou para fotos ao lado do
prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, do MDB.
O
doutor em Administração Pública e professor de estratégia e gestão pública do
Insper Marcelo Marchesini explica que não há previsão legal que proíba o uso de
emenda parlamentar para financiar um evento de uma igreja ligada a um familiar
do autor da emenda, já que ele não é o beneficiário direto do recurso.
“As
emendas impositivas têm essa possibilidade de serem alocadas sem a necessidade
de justificar a escolha do beneficiário. Os requisitos são muito mais frouxos
do que os do próprio poder Executivo para firmar esse tipo de parceria ou
contratação”, avalia.
Marchesini
defende que os critérios de contratação sejam, no mínimo, os mesmos exigidos
pelo Executivo. Ele também ressalta que as emendas parlamentares estaduais
recebem menos atenção do que as federais por terem menor presença no debate
público.
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Outro lado
A
deputada Edna Macedo enviou uma nota na qual diz que as emendas parlamentares
para os eventos da Universal foram indicadas de maneira legal e divulgadas para
consulta de qualquer cidadão. Ela afirmou ainda que não foi quem definiu a
descrição dessas atividades na área de emendas do Portal da Transparência. A
parlamentar também destacou que os eventos mencionados na reportagem são
abertos à participação do público em geral, promovendo ações de interesse
público, como a mobilização comunitária.
“Não
há, em nenhuma indicação, qualquer conflito de interesse. (…). A atuação da
deputada pauta-se pela impessoalidade e pela finalidade pública, não se
confundindo o apoio a atividades abertas à população com benefício de natureza
pessoal ou privada”, escreveu na nota.
Por
fim, Edna Macedo explicou que as reuniões que acontecem em seu gabinete são de
caráter institucional, voltadas para formalização de apoio e acompanhamento de
iniciativas de interesse da população.
O
presidente do Instituto Paulo Kobayashi, Victor Kobayashi, defendeu, em nota,
que não define o objeto e destino de emendas parlamentares, e que executa
projetos indicados por parlamentares de diferentes partidos. O gestor ressaltou
que realiza diferentes tipos de eventos, incluindo festas religiosas católicas,
como a Festa de Frei Galvão.
Sobre a
reunião no gabinete da deputada Edna Macedo, Kobayashi garantiu que esse tipo
de encontro é rotineiro e não delibera sobre repasses financeiros.
Já em
relação à Igreja Universal, disse que atua com termo de parceria, mas que não
presta serviço à Universal e não é afiliada à congregação.
“O
histórico de normalidade e projetos bem executados e com prestação de contas
aprovadas explica a procura de parlamentares de diferentes partidos pelo IPK”,
escreveu Victor Kobayashi, na nota.
Aceito
receber e-mails e concordo com a Política de Privacidade e os Termos de Uso.
A
Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas enviou um e-mail para a
reportagem informando que é obrigada por lei a executar as indicações aprovadas
na Assembleia Legislativa de São Paulo.
“O
aumento dos repasses ao Instituto Paulo Kobayashi decorre exclusivamente do
maior volume de emendas aprovadas pelos deputados no orçamento”, diz trecho do
e-mail.
Em
relação à fiscalização, o órgão estadual afirma que a execução desses recursos
passa por uma série de procedimentos, como aprovação de plano de trabalho,
acompanhamento técnico, comissão de monitoramento e prestação de contas de cada
projeto.
O
Intercept Brasil entrou em contato com a Igreja Universal e os outros
parlamentares mencionados na matéria, mas não houve retorno até a publicação da
reportagem. O espaço segue aberto.
LEIA NA
ÍNTEGRA A RESPOSTA A QUESTIONÁRIO DO INTERCEPT BRASIL
1 -
Como o IPK justifica o fato de que, dos R$ 37,7 milhões recebidos em emendas
estaduais de 2023 a 2026, quase metade (R$ 16,8 milhões) tenha sido canalizada
especificamente para eventos vinculados à Igreja Universal?
=>
IPK: O Instituto Paulo Kobayashi - IPK há 21 anos mantém o legado do professor
Paulo Kobayashi, que teve uma vida pública relevante como vereador e presidente
da Câmara Municipal de São Paulo, Deputado Estadual e presidente da Assembleia
Legislativa de São Paulo e Deputado Federal e coordenador da Bancada paulista
no Congresso Nacional. Faleceu em abril de 2005, no exercício do mandato pelo
PSDB. O Instituto foi criado em 2005 como de Interesse Público e posteriormente
reconhecido como Organização Social - OSCIP, com competência para a realização
de parcerias e projetos nas áreas de cultura, esporte, educação e vida
associativa. A OSCIP IPK não define o objeto e destino de emenda parlamentar,
pois são atribuições que cabem ao titular propositor durante a elaboração da
Lei Orçamentária Anual - LOA. Sua execução depende de análise técnica da
Secretaria de Estado competente, da comprovação de regularidade da entidade e
da celebração de termo de fomento, nos termos da Lei nº 13.019/2014.
Os
valores mencionados correspondem a projetos explicitados nas emendas e
executados entre 2023 e 2026, todos com objeto cultural, com públicos distintos
e acessos gratuitos. Quando aprovados pelos órgãos técnicos do Estado são
realizados e passam por prestação de contas com rigores das secretarias e
órgãos de controles, com a transparência determinada. Necessário ressaltar que
nos mesmos exercícios, o IPK executou dezenas de outros projetos indicados por
parlamentares de diferentes partidos - do PL ao PT - e realizou eventos sem
qualquer recorte religioso, ideológico ou de costumes. É prerrogativa do IPK
recusar a execução se a proposta for considerada fora de padrões e sem
interesse social e público.
2 -
Qual critério técnico a organização adota para intermediar eventos de caráter
estritamente religioso da Universal?
=>
IPK: Ressaltamos que o Instituto Paulo Kobayashi não é intermediador de
emendas, mas sim executor dos projetos demandados pelos parlamentares e por
eles acompanhados. Como critério técnico a realização dos eventos atendem a
legislação vigente. A seleção de qualquer projeto - esclarecemos melhor - são:
aderência ao objeto cultural definido no plano de trabalho; viabilidade
orçamentária; capacidade técnica e operacional do IPK para executar; acesso
público ao evento e conformidade plena. Recepcionamos as emendas com objetos
culturais, sociais, educativos, esportivos e das colônias orientais. Vale
ressaltar que também com recursos de emenda parlamentar realizamos a
tradicional “Festa de Frei Galvão”, de matiz católica romana. Acresça-se que
por emenda parlamentar o IPK realiza o projeto “FortaleSer”, com a Secretaria
de Justiça; também realizou, por meio de Leis de Incentivo e patrocínios
privados eventos “Undokais” da colônia japonesa, “ Festa do Dragão”, da colônia
chinesa, “Campeonato de Beisebol” do Comitê Olímpico Internacional,
“Aniversário de Buda” da Associação Budista, “Recepção ao Imperador do Japão” e
outros, ou seja, ao se apresentar apolítico, apartidário e com viés
leigo-ecumênico, o IPK atende o seu pressuposto finalístico: integrar a
sociedade, empresas, entidades e governos para consecução de parcerias que
objetivem o bem estar dos cidadãos.
3 -
Qual foi a pauta da reunião no gabinete da deputada Edna Macedo em dezembro de
2024 com Vitor Kobayashi (IPK) e Mauricio Miyazaki (ID Mais Vida)?
=>
IPK: Representação institucional dos projetos das entidades, entre eles os de
cultura geral e associativos. São reuniões rotineiras para o relacionamento
entre organizações da sociedade civil e parlamentares e não deliberam sobre
repasses ou quantitativos, que dependem de trâmite formal na Secretaria
competente.
4 -
Desde quando o IPK trabalha para a Universal?
=>
IPK: Não prestamos serviços à Igreja Universal e muito menos somos a ela
afiliados. Desde 2023, quando destinada a primeira emenda parlamentar, atuamos
sob tutela de “termo de parceria” para a realização do evento destinado ao
público de cultura gospel, com interlocução parlamentar. A partir daí passamos
a ser escolhidos por outros parlamentares, também apoiados pela Universal.
Realizar os objetos das suas emendas é decisão unilateral dos mesmos. Dado a
grandeza temática de “Festival Gospel” vários parlamentares unificaram o
evento, com emendas pessoais. O IPK sentiu-se honrado em executar o projeto.
Vale esclarecer, entretanto, que as prestações de contas foram distintas para
cada emenda parlamentar e submetidas aos crivos dos órgãos de controle.
5 -
Quais os motivos para o aumento de emendas impositivas indicadas para o IPK
durante a gestão Tarcísio?
=>
IPK: As emendas parlamentares impositivas no orçamento do Estado de São Paulo
tiveram início no ano de 2018 na gestão Alckmin/Márcio França, com regramentos
aperfeiçoados ou alterados nos anos seguintes. Na atual gestão houve evolução
nos procedimentos. As emendas parlamentares, repetimos, inseridas na LOA e
instrumentadas por órgãos da administração estadual, formaliza “termos de
fomentos” com as OSCIPs, como exige a Lei 13.019/14.
O
histórico da normalidade e projetos bem executados e com prestações de contas
aprovadas explica a procura de parlamentares de diferentes partidos pelo IPK. À
guisa de complemento informamos que o IPK é OSCIP sem finalidade lucrativa, não
remunera seus dirigentes, não distribui lucros, possui Conselho de
Administração e os projetos são conduzidos pelos familiares, amigos e
simpatizantes do homenageado. Não tem quadro de empregados e se vale de rotinas
com prestadores de serviços e parceiros congêneres e especializados. Está,
desde a sua fundação, instalado em sala de prédio comercial de propriedade da
família. Permanecemos sempre disponíveis para esclarecimentos, sobretudo sob a
ótica da melhor transparência e ética na condução de recursos oriundos das parcerias
públicas e privadas.
São
Paulo, 14 de agosto de 2026. VICTOR KOBAYASHI Gestor Legal do IPK
Fonte:Por
Thalys Alcântara, em The Intercept

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