“Trump
não vai cessar as agressões contra Lula e o Brasil”, diz José Dirceu
O
ex-ministro José Dirceu afirmou que a ofensiva do governo de Donald Trump
contra o Brasil deve continuar e avaliou que a atuação dos Estados Unidos terá
peso decisivo na eleição presidencial de 2026. Para ele, medidas econômicas e
diplomáticas adotadas por Washington não podem ser interpretadas isoladamente:
fariam parte, segundo sua análise, de uma estratégia política destinada a
interferir no cenário brasileiro e enfraquecer o governo do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva.
As
declarações foram dadas em entrevista à TV 247, na qual Dirceu conversou com
Leonardo Attuch e Dayane Santos sobre as eleições, a disputa geopolítica
internacional, soberania, reindustrialização, juventude, segurança pública,
reforma política e sua intenção de retornar à Câmara dos Deputados. Ao longo da
conversa, o ex-ministro sustentou que o pleito de 2026 colocará diante do
eleitor projetos distintos de país e terá a defesa da soberania como um de seus
temas centrais.
“Eu
falei que o principal problema dessa eleição ia ser a intervenção americana no
processo eleitoral e a política do Trump. Faz um ano que eu falei isso, porque
a escalada não vai parar”, afirmou Dirceu.
Na
avaliação do ex-ministro, iniciativas de Washington que atingem interesses
brasileiros devem ser lidas principalmente pela dimensão política. Dirceu citou
restrições diplomáticas, pressões sobre o setor de tecnologia e medidas
comerciais como exemplos de instrumentos que, em sua interpretação, poderiam
produzir efeitos sobre a economia e, consequentemente, sobre a disputa
eleitoral.
“O
tarifaço é para desorganizar nossa economia, criar inflação”, disse.
A
avaliação é de Dirceu e integra sua leitura política sobre as ações do governo
norte-americano. O cenário eleitoral citado durante a entrevista também foi
atualizado recentemente: pesquisa CNT/MDA divulgada em 11 de agosto mostra Lula
com 42,4% das intenções de voto no primeiro turno e Flávio Bolsonaro com 28,7%.
Em uma eventual disputa direta, Lula registra 48% contra 39,1% do senador. O
levantamento ouviu 2.002 eleitores entre 5 e 9 de agosto e tem margem de erro
de 2,2 pontos percentuais.
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Soberania no centro da eleição
Para
Dirceu, a pressão externa tende a transformar a soberania em uma das questões
centrais da campanha. Ele argumentou que o Brasil atravessa uma disputa que
ultrapassa a escolha entre candidaturas e envolve a definição de seu lugar no
sistema internacional, a capacidade de desenvolver tecnologia própria e o
fortalecimento de sua indústria.
“Essa
eleição é uma eleição histórica, porque o Brasil tem que fazer uma opção”,
afirmou.
O
ex-ministro relacionou esse debate à necessidade de construção de um projeto
nacional de longo prazo. Em sua avaliação, o Brasil possui vantagens
importantes, como mercado interno de grande escala, capacidade industrial,
produção de alimentos e recursos energéticos, mas ainda enfrenta dependência
tecnológica, financeira e, em determinadas áreas, militar.
Dirceu
recorreu à história brasileira para sustentar que grandes ciclos de
transformação econômica dependeram de coalizões políticas e sociais capazes de
defender objetivos nacionais. Citou os governos de Getúlio Vargas, Juscelino
Kubitschek e o período desenvolvimentista para argumentar que a
industrialização brasileira sempre exigiu participação ativa do Estado.
Na
visão dele, o desafio atual é construir uma nova articulação entre
trabalhadores, setores produtivos, forças políticas progressistas e parcelas do
empresariado em torno da reindustrialização, da inovação e da soberania.
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China, Brics e a reorganização mundial
A
ascensão da China também ocupou espaço importante na análise. Dirceu descreveu
a transformação chinesa como uma das mudanças fundamentais na ordem mundial das
últimas décadas e avaliou que a tentativa dos Estados Unidos de preservar sua
posição internacional ajuda a explicar a política externa de Trump.
Nesse
cenário, argumentou, o Brasil dispõe de maior margem de manobra graças às
relações com a China, os Brics, a União Europeia e outras economias relevantes.
Dirceu
defendeu que o país aproveite essa conjuntura para ampliar sua autonomia,
fortalecer cadeias produtivas estratégicas e reduzir a dependência externa em
setores como produtos químicos, medicamentos, fertilizantes, tecnologia
digital, semicondutores e equipamentos industriais.
Para
ele, soberania deixou de significar apenas controle territorial e passou a
envolver também dados, infraestrutura digital, ciência, energia, capacidade
industrial e domínio tecnológico.
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Frente ampla continuará necessária, diz Dirceu
Questionado
sobre a estratégia eleitoral da esquerda, Dirceu rejeitou a ideia de que a
campanha de Lula deva ser definida exclusivamente por um programa tradicional
do campo socialista. Segundo ele, a plataforma eleitoral precisa responder às
circunstâncias concretas de cada período histórico.
Nesse
sentido, defendeu a manutenção da frente ampla construída em 2022.
“O que
define a pauta de uma eleição não é o programa da esquerda socialista e do PT,
é a conjuntura histórica e o momento político que nós vivemos no Brasil”,
declarou.
Dirceu
afirmou que setores liberais das classes médias urbanas tiveram participação
importante na vitória de Lula em 2022 por rejeitarem o bolsonarismo, embora
mantenham divergências econômicas com o PT e a esquerda.
Na
avaliação do ex-ministro, essa composição continua necessária em 2026, mas
precisa ser combinada a uma agenda mais ambiciosa para um eventual quarto
mandato de Lula, incluindo reformas estruturais, política industrial,
investimentos em ciência e tecnologia, mudanças tributárias e fortalecimento do
Estado.
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Dirceu vê Lula como favorito, mas prevê eleição difícil
Apesar
de considerar a disputa acirrada, Dirceu disse acreditar que Lula chega à
campanha em posição mais favorável. Ele mencionou a unidade dos partidos de
esquerda e centro-esquerda e a aproximação de setores de legendas de centro
como fatores que ampliariam a sustentação política da candidatura presidencial.
“É mais
provável que o Lula seja reeleito”, afirmou.
Dirceu
argumentou ainda que Flávio Bolsonaro teria dificuldades maiores que as
enfrentadas pelo pai para transferir votos a candidatos ao Congresso e aos
governos estaduais.
“Ele
não transfere voto para deputado e senador como o pai”, disse.
Ao
mesmo tempo, o ex-ministro reconheceu que Lula não deverá obter automaticamente
uma maioria parlamentar. Por isso, defendeu que uma eventual vitória
presidencial seja acompanhada por mobilização social e por esforços para
ampliar as bancadas governistas na Câmara e no Senado.
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Reforma política entre as prioridades
A
reforma do sistema político aparece como uma das principais bandeiras
apresentadas por Dirceu para seu retorno ao Congresso. O ex-ministro afirmou
que decidiu concorrer novamente depois de ser chamado por Lula a retomar
participação mais ativa no PT e na Câmara.
“Eu
quero voltar a ser deputado para ajudar o Lula e ajudar o país com a minha
experiência”, afirmou.
Entre
as propostas defendidas estão mudanças no modelo de eleição de deputados,
adoção do voto em lista ou de um sistema distrital misto, fortalecimento da
fidelidade partidária e revisão das emendas parlamentares impositivas.
Dirceu
fez críticas especialmente duras ao peso crescente das emendas no orçamento
público. Na avaliação dele, o atual sistema transfere excessivo poder econômico
e político aos parlamentares e reduz a capacidade do Executivo de estabelecer
prioridades nacionais.
Também
criticou o curto período oficial das campanhas eleitorais e as limitações
impostas à atividade dos candidatos antes do início formal da disputa. Para o
ex-ministro, essas regras terminam favorecendo quem já dispõe de estrutura
política, econômica ou institucional.
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Reindustrialização e juros
Outro
eixo da entrevista foi a política econômica. Dirceu defendeu que o Brasil
coloque a reindustrialização no centro de seu projeto de desenvolvimento e
criticou o nível dos juros.
Para
ele, a dependência brasileira de produtos químicos, insumos farmacêuticos,
fertilizantes e tecnologias avançadas demonstra que o país precisa recuperar
capacidade produtiva própria.
“O
Brasil é uma potência”, afirmou, ao argumentar que o tamanho do mercado
consumidor, a infraestrutura existente, os recursos naturais e a capacidade
empresarial permitiriam ao país crescer mais rapidamente.
Dirceu
também contestou a interpretação segundo a qual os principais obstáculos
econômicos brasileiros estariam concentrados nos gastos públicos e nos direitos
trabalhistas. Na sua leitura, o custo do crédito, a concentração financeira, a
insuficiência dos investimentos e a dependência tecnológica merecem atenção
muito maior.
A
solução defendida por ele passa pela ampliação dos investimentos públicos e
privados em infraestrutura, indústria, ciência, inovação, inteligência
artificial, robótica, biotecnologia e semicondutores.
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Juventude, trabalho e escala 6×1
A
situação dos jovens foi outro tema destacado. Dirceu reconheceu que parcelas da
juventude foram atraídas pela direita nos últimos anos, mas rejeitou a tese de
que exista uma hegemonia conservadora nessa faixa da população.
Para
ele, a principal questão é material: milhões de jovens enfrentam trabalho
precário, baixos salários, jornadas extensas, dificuldade de acesso à moradia e
incerteza sobre o futuro.
“A
juventude está, em grande parte, vivendo em péssimas condições de trabalho e de
vida. É uma luta diária duríssima”, afirmou.
Dirceu
apontou o debate sobre o fim da escala 6×1 e a tributação dos mais ricos como
agendas capazes de aproximar o campo progressista das novas gerações. Também
defendeu políticas específicas para trabalhadores de aplicativos, incluindo
melhores condições de trabalho, proteção social e mecanismos previdenciários
adaptados às novas relações laborais.
Segundo
ele, a esquerda precisa compreender que reivindicações feitas por entregadores
e motoristas de aplicativos — como remuneração mínima, descanso, saúde e
previdência — representam novas formas de uma antiga disputa por direitos
trabalhistas.
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PT precisa acelerar renovação
Dirceu
também defendeu uma transição geracional dentro do Partido dos Trabalhadores.
Segundo ele, a legenda já apresenta renovação importante entre vereadores,
deputados e lideranças regionais, mas precisa acelerar a abertura de espaço
para quadros mais jovens.
“O PT
precisa fazer a transição geracional e nós estamos forçando isso”, declarou.
O
ex-ministro lembrou que sua própria geração chega aos 80 anos enquanto uma
camada de dirigentes na faixa dos 35 aos 45 anos ganha protagonismo. Para ele,
essa renovação precisa ocorrer também na representação feminina e na formação
das chapas eleitorais.
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Segurança pública e combate ao dinheiro do crime
Dirceu
incluiu a segurança pública entre suas prioridades para um eventual novo
mandato parlamentar. Defendeu a criação de um Ministério da Segurança Pública e
uma estratégia federal que concentre esforços no financiamento das organizações
criminosas, circulação de armas, controle das fronteiras e recuperação de
territórios sob influência do crime organizado.
Na
avaliação dele, políticas centradas apenas em operações policiais ostensivas
são insuficientes.
O
ex-ministro defendeu o confisco de patrimônio das organizações criminosas e
investigações capazes de alcançar a estrutura financeira que sustenta facções e
esquemas de lavagem de dinheiro.
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Saúde e tratamento contra linfoma
Logo no
início da entrevista, Dirceu falou também sobre sua saúde. Aos 80 anos, contou
que descobriu em maio um linfoma de aproximadamente dez centímetros no duodeno,
classificado por ele como agressivo, porém curável.
O
ex-ministro disse estar na quinta sessão de quimioterapia e afirmou que seus
médicos demonstram otimismo com o tratamento. Segundo relatou, a etapa final do
protocolo está prevista para o começo de setembro, seguida de exames para
avaliar a resposta do organismo.
“Estou
bem, estou bem, mas estou 90 dias de campanha sem candidato. Não é fácil”,
brincou.
Dirceu
afirmou ter reduzido drasticamente sua circulação durante o tratamento,
limitando as saídas de casa principalmente às sessões hospitalares e a poucos
compromissos considerados indispensáveis.
Apesar
da doença, garantiu que pretende permanecer ativo politicamente.
“Estou
firme na luta e no combate, como sempre”, declarou ao se despedir.
Fonte:
Brasil 247

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