segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Para onde for o Brasil, irá toda a América Latina

Um grande revés para os planos colonialistas do governo Donald Trump será a derrota de seus aliados nas duas maiores e mais estratégicas democracias da América Latina: Brasil e México. A geopolítica latino-americana mostra a importância central dos dois países para o equilíbrio político e econômico da região. E não é por acaso que ambos vêm sendo alvo de pressões e ataques que, de diferentes formas, atingem suas democracias.

O Brasil, hoje na 11ª posição entre as maiores economias do mundo, ocupa uma posição estratégica que vai muito além de suas fronteiras. Há mais de cinco décadas, essa importância já era reconhecida pelos Estados Unidos. Em 1971, o então presidente Richard Nixon resumiu essa percepção em uma frase que atravessaria a história:

“Para onde for o Brasil, irá toda a América Latina.”

A frase foi dita por Nixon durante um jantar de gala em homenagem ao general-presidente Emílio Garrastazu Médici, um dos mais duros ditadores que governaram o Brasil.

A declaração traduzia a importância estratégica que Washington atribuía ao Brasil no contexto da Guerra Fria e estava em sintonia com a visão de seu então secretário de Estado, Henry Kissinger, conhecido pelo domínio da realpolitik e por sua capacidade de análise estratégica.

Na década de 1960, após a vitória da Revolução Cubana e em meio à crescente disputa entre Estados Unidos e União Soviética, Washington passou a tratar a América Latina como uma região fundamental para conter a expansão da esquerda. O Brasil, que em 1964 teve sua democracia derrubada por um golpe militar, tornou-se um dos principais pontos de apoio da estratégia dos Estados Unidos no continente. O golpe brasileiro seria seguido, nos anos seguintes, por uma sucessão de rupturas institucionais e regimes militares em diferentes países da América do Sul e do Caribe.

<><> A velha estratégia, sem disfarces

Hoje, Marco Rubio, um secretário de Estado muito menos sofisticado do que Henry Kissinger, parece repetir a mesma estratégia, mas sem a preocupação de seus antecessores em preservar as aparências. A intervenção nos assuntos internos dos países que ele e seu chefe ainda consideram parte do “quintal” dos Estados Unidos já não precisa dos antigos disfarces diplomáticos.

Utilizam-se de chantagens e ameaças abertas contra governos democraticamente eleitos. Impõem sanções, tarifaços e até acenam com a possibilidade de intervenção militar, recorrendo ao pretexto do combate ao que classificam como a ameaça do “terrorismo dos cartéis do tráfico de drogas”.

Faltando menos de dois meses para o primeiro turno das eleições, marcado para 4 de outubro, o governo Lula, em resposta à pressão da administração Trump, anunciou que pretende utilizar a Lei da Reciprocidade Econômica contra o tarifaço imposto por Trump às exportações brasileiras.

Mais do que responder às medidas econômicas de Washington, o presidente Lula vem articulando o apoio de importantes países do cenário internacional em defesa da democracia brasileira. Conversou longamente com Xi Jinping e Vladimir Putin e, na última quinta-feira à noite, participou de uma videoconferência com a presidenta do México, Claudia Sheinbaum, aprofundando a parceria entre as duas maiores economias da América Latina.

A aproximação entre Brasil e México ganha, nesse contexto, uma dimensão que ultrapassa as relações comerciais e diplomáticas. Juntos, os dois países representam uma parcela decisiva do peso político e econômico da América Latina. E é justamente por isso que a disputa pelo futuro de suas democracias interessa não apenas a brasileiros e mexicanos, mas a todo os países da região.

O que está em jogo, portanto, é muito mais do que uma disputa eleitoral ou uma divergência entre governos. É a soberania dos povos latino-americanos, o direito de decidir sobre seu futuro político e econômico sem serem tutelados pelos Estados Unidos.

A América Latina já conheceu as consequências da interferência externa, dos golpes e das ditaduras. O século XXI não pode ser marcado pela tentativa de ressuscitar uma lógica colonial sob novos pretextos.

Brasil e México têm diante de si uma responsabilidade histórica: preservar suas democracias e afirmar que a América Latina não é quintal de nenhuma potência. O continente tem o direito de construir seu próprio destino, estabelecer suas alianças e defender sua soberania.

“Para onde for o Brasil, irá toda a América Latina. Por isso, a reeleição do presidente Lula nunca foi tão importante para o futuro de nossa nação e para a defesa da soberania latino-americana.”

•        ‘Bramex’: aliança entre Lula, do Brasil, e Sheinbaum, do México, em tempos de Trump e Milei. Por Marcia Carmo

A videoconferência realizada entre os presidentes Lula e Claudia Sheinbaum, na noite de quinta-feira, foi definida por ela, em suas redes sociais, como “muito boa”. Como a própria presidenta comentou, os dois conversaram sobre a colaboração entre a Petrobras e a Pemex, a petroleira estatal mexicana, a principal do México, sobre o andar das duas economias, com geração de postos de trabalho e inclusão social. Para Lula, os dois países podem construir uma “América Latina mais forte e unida”.

<><> Extrema-direita

O diálogo entre Lula e Sheinbaum correu poucos dias depois do encontro entre o chanceler mexicano Roberto Velasco e o presidente brasileiro em Brasília, no âmbito da chamada VI Reunião da Comissão Binacional Brasil-México. E, principalmente, num momento em que presidentes eleitos da extrema-direita na região intensificam os laços políticos e militares com o governo Trump, dos Estados Unidos. De acordo com agências internacionais de notícias, o secretário de Defesa e Guerra, Pete Hegseth, planeja atacar “em terra” traficantes de drogas na América Latina, como já fez em águas internacionais em frente a dois países vizinhos do Brasil, a Venezuela e a Colômbia. Recentemente, 19 governos da América Latina, incluindo a Argentina, governada por Milei, fecharam acordo político-ideológico-estratégico com o governo Trump.

<><> Bramex e o destino

Com a eleição presidencial no Brasil, em outubro, e com a eleição legislativa nos Estados Unidos, em novembro, o destino das Américas (e a geopolítica mundial) vive um ano decisivo. O pêndulo regional e global pode ser definido nestas eleições. O termo ‘Bramex’, que nasceu no âmbito acadêmico e hoje é citado também em reuniões políticas e empresariais, parece ganhar mais combustível e importância agora e com a sintonia entre os presidentes Lula e Sheinbaum.

<><> Popularidade e desafios da líder mexicana

A presidenta mexicana mantém a popularidade altíssima, que chega a cerca de 80%, dependendo da pesquisa de opinião, e ela costuma dizer que é preciso “cabeça fria” na hora de tomar decisões – ainda mais em tempos de Trump. Os Estados Unidos, vizinho do México, são o principal destino das exportações mexicanas. E ela mantém ‘cabeça fria’, mas, como contaram analistas mexicanos ao Brasil 247, as acusações dos EUA contra políticos do partido Morena, de Sheinbaum, passaram a ser um desafio maior em relação à sua paciência estratégica. Ela, porém, mantém, nas suas entrevistas diárias (‘las Mañaneras’) sua serenidade, seja quando condena o embargo contra Cuba, seja quando defende a soberania dos povos, o combate ao crime e ressalta a igualdade social. Agora, talvez mais que nunca, a presidenta olha ainda mais para o Brasil, governado por Lula.

<><> ONU

Os dois governos, do chamado ‘Bramex’, têm atuado juntos na defesa da democracia latino-americana e na candidatura da ex-presidenta chilena Michelle Bachelet ao posto de secretária-geral das Nações Unidas (ONU), após o mandato do português António Guterres. Juntos, Lula e Scheinbaum entendem que Bachelet, como primeira mulher no posto, seria fundamental para a América Latina e em termos globais. Este é um dos vários tópicos que unem as preocupações e atenções dos dois líderes, especialmente em tempos de Trump e do crescimento da extrema-direita na nossa região.

•        Lula avisa que não aceitará interferência dos EUA: “Quem vier dar palpite na eleição deste país vai perder”

Em uma longa e abrangente entrevista concedida ao podcast cearense As Cunhãs, com a participação especial da comunicadora Déia Freitas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mandou um recado direto e contundente a Washington. Ao abordar as recentes tensões diplomáticas e a postura de setores conservadores dos Estados Unidos em relação à política interna brasileira, Lula afirmou categoricamente que o Brasil não aceitará qualquer tipo de tutela ou intervenção em seus processos democráticos.

“Quem vier dar palpite na eleição aqui desse país vai perder, porque esse país não abre mão [da sua soberania], apesar dos negacionistas e dos traidores da pátria”, declarou o presidente.

<><> “Vou vencer os Estados Unidos pela narrativa e pela verdade”

Questionado sobre as pressões geopolíticas e as movimentações de parlamentares e autoridades norte-americanas alinhadas à extrema direita, Lula frisou que o Brasil conduz suas relações exteriores pautado pelo princípio da reciprocidade e pelo respeito mútuo, sem se curvar a intimidações.

“Eu aprendi uma coisa de berço que norteia a minha vida: respeito é bom, eu gosto de dar e gosto de receber. Eu não trato ninguém com desdém, não sou melhor do que ninguém, mas também não sou pior. Eu não tenho os aviões de guerra dos Estados Unidos, não tenho porta-aviões, não tenho bomba atômica. O que é que eu tenho? A verdade, a minha consciência e a verdade do meu povo. Com mentiras, ninguém ganha do Brasil. Eu vou vencer os Estados Unidos pela narrativa”, enfatizou.

O presidente denunciou as justificativas fabricadas para impor barreiras e sobretaxas comerciais aos produtos brasileiros, desmontando o argumento de supostos desequilíbrios na balança:

“Eles taxaram o Brasil com base em mentiras. Disseram que taxariam o Brasil por causa de déficit comercial: é mentira, mentiram para você. Nos últimos 15 anos, os americanos tiveram um superávit comercial de 415 bilhões de dólares conosco. Inventam acusações sobre desmatamento quando fomos ao Inpe mostrar que tivemos o menor desmatamento da história recente do país nesses dois anos e meio.”

<><> Relação com Trump: “Olho no olho” e limites claros

Lula revelou que está articulando um contato direto com o presidente dos EUA, Donald Trump, para delimitar com firmeza a linha que separa a diplomacia de Estado de qualquer tentativa de ingerência eleitoral.

“O Trump tem me tratado de forma muito respeitosa, e eu o trato com muito respeito. Quando me encontrei com o Trump, eu disse: ‘Nós somos dois chefes de Estado, governamos as duas maiores democracias do nosso hemisfério. A gente tem que passar a ideia de seriedade, olho no olho’. Mas eu quero uma conversa tete-a-tete para dizer com clareza: não se meta nos negócios do Brasil e sobretudo na questão da eleição”, afirmou Lula.

O presidente criticou ainda manobras protelatórias e tentativas de pressão diplomática por parte do Departamento de Estado americano, ressaltando que o Brasil barrou a entrada de agentes que pretendiam atuar sem autorização no território nacional e não aceitará imposições de calendário para acordos ou indicações embaixatoriais na véspera do pleito.

<><> Soberania sobre terras raras e riquezas estratégicas

Para Lula, a defesa da soberania nacional ultrapassa o campo político-eleitoral e abrange o controle e a industrialização dos recursos naturais estratégicos do país, essenciais para a transição energética e tecnológica global.

“A questão da soberania e da defesa nacional tem que estar no topo. O mundo está tenso, e o Brasil detém minerais críticos, terras raras, a maior reserva florestal do planeta, 12% da água doce do mundo e 216 milhões de hectares de áreas preservadas. Nós temos 8.800 quilômetros de fronteira marítima e 16.800 quilômetros de fronteira seca. É tudo nosso. Nós não queremos apenas extrair terras raras para exportar matéria-prima bruta: queremos transformar aqui, agregar valor dentro do Brasil e gerar riqueza para o nosso povo”, sustentou.

<><> Educação, combate à fome e segurança pública

Ao longo de quase duas horas de conversa, o presidente também detalhou as prioridades estruturais do governo e os fundamentos para um projeto de continuidade e desenvolvimento a partir de 2026:

•        Educação e Ciência: Defendeu a universalização do ensino em tempo integral como pilar definitivo contra a desigualdade e anunciou a meta de reeditar programas de intercâmbio de ponta com foco estratégico em inteligência artificial, engenharia e matemática.

•        Segurança e Crime Organizado: Explicou que a PEC da Segurança Pública, em tramitação no Congresso Nacional, é fundamental para estabelecer o papel constitucional da União na coordenação do combate às facções financeiras (“o crime do andar de cima”) e abrir caminho para o Ministério da Segurança Pública.

•        Proteção às Mulheres: Destacou o pacote de leis e ações do Pacto Contra o Feminicídio e reafirmou seu posicionamento contra agressores: “Homem que bate em mulher não precisa votar em mim”.

•        Defesa Popular contra as Bets: Manifestou forte contrariedade à proliferação desenfreada dos sites de apostas que dilapidam a renda das famílias trabalhadoras, defendendo um cerco rigoroso e restrições severas ao setor.

Ao encerrar, Lula reforçou que o objetivo central de sua trajetória e de sua liderança permanece o mesmo: garantir que as classes populares tenham pleno acesso à cidadania, à dignidade e à renda em um país soberano e altivo.

 

Fonte: Por Florestan Fernandes Jr, em Brasil 247

 

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