Para
onde for o Brasil, irá toda a América Latina
Um
grande revés para os planos colonialistas do governo Donald Trump será a
derrota de seus aliados nas duas maiores e mais estratégicas democracias da
América Latina: Brasil e México. A geopolítica latino-americana mostra a
importância central dos dois países para o equilíbrio político e econômico da
região. E não é por acaso que ambos vêm sendo alvo de pressões e ataques que,
de diferentes formas, atingem suas democracias.
O
Brasil, hoje na 11ª posição entre as maiores economias do mundo, ocupa uma
posição estratégica que vai muito além de suas fronteiras. Há mais de cinco
décadas, essa importância já era reconhecida pelos Estados Unidos. Em 1971, o
então presidente Richard Nixon resumiu essa percepção em uma frase que
atravessaria a história:
“Para
onde for o Brasil, irá toda a América Latina.”
A frase
foi dita por Nixon durante um jantar de gala em homenagem ao general-presidente
Emílio Garrastazu Médici, um dos mais duros ditadores que governaram o Brasil.
A
declaração traduzia a importância estratégica que Washington atribuía ao Brasil
no contexto da Guerra Fria e estava em sintonia com a visão de seu então
secretário de Estado, Henry Kissinger, conhecido pelo domínio da realpolitik e
por sua capacidade de análise estratégica.
Na
década de 1960, após a vitória da Revolução Cubana e em meio à crescente
disputa entre Estados Unidos e União Soviética, Washington passou a tratar a
América Latina como uma região fundamental para conter a expansão da esquerda.
O Brasil, que em 1964 teve sua democracia derrubada por um golpe militar,
tornou-se um dos principais pontos de apoio da estratégia dos Estados Unidos no
continente. O golpe brasileiro seria seguido, nos anos seguintes, por uma
sucessão de rupturas institucionais e regimes militares em diferentes países da
América do Sul e do Caribe.
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A velha estratégia, sem disfarces
Hoje,
Marco Rubio, um secretário de Estado muito menos sofisticado do que Henry
Kissinger, parece repetir a mesma estratégia, mas sem a preocupação de seus
antecessores em preservar as aparências. A intervenção nos assuntos internos
dos países que ele e seu chefe ainda consideram parte do “quintal” dos Estados
Unidos já não precisa dos antigos disfarces diplomáticos.
Utilizam-se
de chantagens e ameaças abertas contra governos democraticamente eleitos.
Impõem sanções, tarifaços e até acenam com a possibilidade de intervenção
militar, recorrendo ao pretexto do combate ao que classificam como a ameaça do
“terrorismo dos cartéis do tráfico de drogas”.
Faltando
menos de dois meses para o primeiro turno das eleições, marcado para 4 de
outubro, o governo Lula, em resposta à pressão da administração Trump, anunciou
que pretende utilizar a Lei da Reciprocidade Econômica contra o tarifaço
imposto por Trump às exportações brasileiras.
Mais do
que responder às medidas econômicas de Washington, o presidente Lula vem
articulando o apoio de importantes países do cenário internacional em defesa da
democracia brasileira. Conversou longamente com Xi Jinping e Vladimir Putin e,
na última quinta-feira à noite, participou de uma videoconferência com a
presidenta do México, Claudia Sheinbaum, aprofundando a parceria entre as duas
maiores economias da América Latina.
A
aproximação entre Brasil e México ganha, nesse contexto, uma dimensão que
ultrapassa as relações comerciais e diplomáticas. Juntos, os dois países
representam uma parcela decisiva do peso político e econômico da América
Latina. E é justamente por isso que a disputa pelo futuro de suas democracias
interessa não apenas a brasileiros e mexicanos, mas a todo os países da região.
O que
está em jogo, portanto, é muito mais do que uma disputa eleitoral ou uma
divergência entre governos. É a soberania dos povos latino-americanos, o
direito de decidir sobre seu futuro político e econômico sem serem tutelados
pelos Estados Unidos.
A
América Latina já conheceu as consequências da interferência externa, dos
golpes e das ditaduras. O século XXI não pode ser marcado pela tentativa de
ressuscitar uma lógica colonial sob novos pretextos.
Brasil
e México têm diante de si uma responsabilidade histórica: preservar suas
democracias e afirmar que a América Latina não é quintal de nenhuma potência. O
continente tem o direito de construir seu próprio destino, estabelecer suas
alianças e defender sua soberania.
“Para
onde for o Brasil, irá toda a América Latina. Por isso, a reeleição do
presidente Lula nunca foi tão importante para o futuro de nossa nação e para a
defesa da soberania latino-americana.”
• ‘Bramex’: aliança entre Lula, do Brasil,
e Sheinbaum, do México, em tempos de Trump e Milei. Por Marcia Carmo
A
videoconferência realizada entre os presidentes Lula e Claudia Sheinbaum, na
noite de quinta-feira, foi definida por ela, em suas redes sociais, como “muito
boa”. Como a própria presidenta comentou, os dois conversaram sobre a
colaboração entre a Petrobras e a Pemex, a petroleira estatal mexicana, a
principal do México, sobre o andar das duas economias, com geração de postos de
trabalho e inclusão social. Para Lula, os dois países podem construir uma
“América Latina mais forte e unida”.
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Extrema-direita
O
diálogo entre Lula e Sheinbaum correu poucos dias depois do encontro entre o
chanceler mexicano Roberto Velasco e o presidente brasileiro em Brasília, no
âmbito da chamada VI Reunião da Comissão Binacional Brasil-México. E,
principalmente, num momento em que presidentes eleitos da extrema-direita na
região intensificam os laços políticos e militares com o governo Trump, dos
Estados Unidos. De acordo com agências internacionais de notícias, o secretário
de Defesa e Guerra, Pete Hegseth, planeja atacar “em terra” traficantes de
drogas na América Latina, como já fez em águas internacionais em frente a dois
países vizinhos do Brasil, a Venezuela e a Colômbia. Recentemente, 19 governos
da América Latina, incluindo a Argentina, governada por Milei, fecharam acordo
político-ideológico-estratégico com o governo Trump.
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Bramex e o destino
Com a
eleição presidencial no Brasil, em outubro, e com a eleição legislativa nos
Estados Unidos, em novembro, o destino das Américas (e a geopolítica mundial)
vive um ano decisivo. O pêndulo regional e global pode ser definido nestas
eleições. O termo ‘Bramex’, que nasceu no âmbito acadêmico e hoje é citado
também em reuniões políticas e empresariais, parece ganhar mais combustível e
importância agora e com a sintonia entre os presidentes Lula e Sheinbaum.
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Popularidade e desafios da líder mexicana
A
presidenta mexicana mantém a popularidade altíssima, que chega a cerca de 80%,
dependendo da pesquisa de opinião, e ela costuma dizer que é preciso “cabeça
fria” na hora de tomar decisões – ainda mais em tempos de Trump. Os Estados
Unidos, vizinho do México, são o principal destino das exportações mexicanas. E
ela mantém ‘cabeça fria’, mas, como contaram analistas mexicanos ao Brasil 247,
as acusações dos EUA contra políticos do partido Morena, de Sheinbaum, passaram
a ser um desafio maior em relação à sua paciência estratégica. Ela, porém,
mantém, nas suas entrevistas diárias (‘las Mañaneras’) sua serenidade, seja
quando condena o embargo contra Cuba, seja quando defende a soberania dos
povos, o combate ao crime e ressalta a igualdade social. Agora, talvez mais que
nunca, a presidenta olha ainda mais para o Brasil, governado por Lula.
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ONU
Os dois
governos, do chamado ‘Bramex’, têm atuado juntos na defesa da democracia
latino-americana e na candidatura da ex-presidenta chilena Michelle Bachelet ao
posto de secretária-geral das Nações Unidas (ONU), após o mandato do português
António Guterres. Juntos, Lula e Scheinbaum entendem que Bachelet, como
primeira mulher no posto, seria fundamental para a América Latina e em termos
globais. Este é um dos vários tópicos que unem as preocupações e atenções dos
dois líderes, especialmente em tempos de Trump e do crescimento da
extrema-direita na nossa região.
• Lula avisa que não aceitará
interferência dos EUA: “Quem vier dar palpite na eleição deste país vai perder”
Em uma
longa e abrangente entrevista concedida ao podcast cearense As Cunhãs, com a
participação especial da comunicadora Déia Freitas, o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva mandou um recado direto e contundente a Washington. Ao abordar as
recentes tensões diplomáticas e a postura de setores conservadores dos Estados
Unidos em relação à política interna brasileira, Lula afirmou categoricamente
que o Brasil não aceitará qualquer tipo de tutela ou intervenção em seus
processos democráticos.
“Quem
vier dar palpite na eleição aqui desse país vai perder, porque esse país não
abre mão [da sua soberania], apesar dos negacionistas e dos traidores da
pátria”, declarou o presidente.
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“Vou vencer os Estados Unidos pela narrativa e pela verdade”
Questionado
sobre as pressões geopolíticas e as movimentações de parlamentares e
autoridades norte-americanas alinhadas à extrema direita, Lula frisou que o
Brasil conduz suas relações exteriores pautado pelo princípio da reciprocidade
e pelo respeito mútuo, sem se curvar a intimidações.
“Eu
aprendi uma coisa de berço que norteia a minha vida: respeito é bom, eu gosto
de dar e gosto de receber. Eu não trato ninguém com desdém, não sou melhor do
que ninguém, mas também não sou pior. Eu não tenho os aviões de guerra dos
Estados Unidos, não tenho porta-aviões, não tenho bomba atômica. O que é que eu
tenho? A verdade, a minha consciência e a verdade do meu povo. Com mentiras,
ninguém ganha do Brasil. Eu vou vencer os Estados Unidos pela narrativa”,
enfatizou.
O
presidente denunciou as justificativas fabricadas para impor barreiras e
sobretaxas comerciais aos produtos brasileiros, desmontando o argumento de
supostos desequilíbrios na balança:
“Eles
taxaram o Brasil com base em mentiras. Disseram que taxariam o Brasil por causa
de déficit comercial: é mentira, mentiram para você. Nos últimos 15 anos, os
americanos tiveram um superávit comercial de 415 bilhões de dólares conosco.
Inventam acusações sobre desmatamento quando fomos ao Inpe mostrar que tivemos
o menor desmatamento da história recente do país nesses dois anos e meio.”
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Relação com Trump: “Olho no olho” e limites claros
Lula
revelou que está articulando um contato direto com o presidente dos EUA, Donald
Trump, para delimitar com firmeza a linha que separa a diplomacia de Estado de
qualquer tentativa de ingerência eleitoral.
“O
Trump tem me tratado de forma muito respeitosa, e eu o trato com muito
respeito. Quando me encontrei com o Trump, eu disse: ‘Nós somos dois chefes de
Estado, governamos as duas maiores democracias do nosso hemisfério. A gente tem
que passar a ideia de seriedade, olho no olho’. Mas eu quero uma conversa
tete-a-tete para dizer com clareza: não se meta nos negócios do Brasil e
sobretudo na questão da eleição”, afirmou Lula.
O
presidente criticou ainda manobras protelatórias e tentativas de pressão
diplomática por parte do Departamento de Estado americano, ressaltando que o
Brasil barrou a entrada de agentes que pretendiam atuar sem autorização no
território nacional e não aceitará imposições de calendário para acordos ou
indicações embaixatoriais na véspera do pleito.
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Soberania sobre terras raras e riquezas estratégicas
Para
Lula, a defesa da soberania nacional ultrapassa o campo político-eleitoral e
abrange o controle e a industrialização dos recursos naturais estratégicos do
país, essenciais para a transição energética e tecnológica global.
“A
questão da soberania e da defesa nacional tem que estar no topo. O mundo está
tenso, e o Brasil detém minerais críticos, terras raras, a maior reserva
florestal do planeta, 12% da água doce do mundo e 216 milhões de hectares de
áreas preservadas. Nós temos 8.800 quilômetros de fronteira marítima e 16.800
quilômetros de fronteira seca. É tudo nosso. Nós não queremos apenas extrair
terras raras para exportar matéria-prima bruta: queremos transformar aqui,
agregar valor dentro do Brasil e gerar riqueza para o nosso povo”, sustentou.
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Educação, combate à fome e segurança pública
Ao
longo de quase duas horas de conversa, o presidente também detalhou as
prioridades estruturais do governo e os fundamentos para um projeto de
continuidade e desenvolvimento a partir de 2026:
• Educação e Ciência: Defendeu a
universalização do ensino em tempo integral como pilar definitivo contra a
desigualdade e anunciou a meta de reeditar programas de intercâmbio de ponta
com foco estratégico em inteligência artificial, engenharia e matemática.
• Segurança e Crime Organizado: Explicou
que a PEC da Segurança Pública, em tramitação no Congresso Nacional, é
fundamental para estabelecer o papel constitucional da União na coordenação do
combate às facções financeiras (“o crime do andar de cima”) e abrir caminho
para o Ministério da Segurança Pública.
• Proteção às Mulheres: Destacou o pacote
de leis e ações do Pacto Contra o Feminicídio e reafirmou seu posicionamento
contra agressores: “Homem que bate em mulher não precisa votar em mim”.
• Defesa Popular contra as Bets:
Manifestou forte contrariedade à proliferação desenfreada dos sites de apostas
que dilapidam a renda das famílias trabalhadoras, defendendo um cerco rigoroso
e restrições severas ao setor.
Ao
encerrar, Lula reforçou que o objetivo central de sua trajetória e de sua
liderança permanece o mesmo: garantir que as classes populares tenham pleno
acesso à cidadania, à dignidade e à renda em um país soberano e altivo.
Fonte:
Por Florestan Fernandes Jr, em Brasil 247

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