A
ética do uso da inteligência artificial
A
“questão ética” tem se tornado atualmente um assunto de interesse crescente em
nossa sociedade. Ora, se a ética assume cada vez mais um papel fundamental na
sociedade contemporânea, é porque os problemas (sociais, econômicos,
ambientais, tecnológicos etc.) criados pelo sistema capitalista não podem ser
resolvidos apenas pela técnica, pela ciência ou pela lei.
Ciência
e técnica dizem o que podemos fazer, mas não o que devemos fazer. A lei
determina o que podemos (o que é permitido), o que não podemos (o que é
proibido) e o que devemos (nossas obrigações), mas não estabelece seus
fundamentos teóricos. Por isso, os marcos regulatórios do uso da Inteligência
artificial generativa que visam garantir a segurança, a privacidade, a proteção
dos dados, a justiça, a dignidade da pessoa humana, a inclusão, a
transparência, a responsabilidade, a sustentabilidade ambiental etc. dos
usuários são insuficientes.
A ética
discute o que é bom, justo, desejável ou correto a fazer não apenas para o
indivíduo, mas para a sociedade. É a ética que estabelece os fundamentos de
nosso agir.
Porém,
o capitalismo (guiado pelos princípios do liberalismo e do neoliberalismo
econômico e político) desloca o eixo da questão ética da estrutura da sociedade
(e de suas instituições) para a conduta individual. Ao individualizar os
problemas éticos, o capitalismo opera para que a estrutura social e econômica
não seja questionada e permaneça inalterada. É como se nos momentos de crise a
sociedade buscasse a solução de seus problemas na correção da conduta
individual sem a consequente transformação de sua estrutura econômica e
política.
A
pergunta: como devemos agir ou como devemos viver? foi desde a Antiguidade um
problema ético fundamental. A vida em sociedade implica uma ética que possa
determinar o que é bom e mau, justo e injusto, humano, desumano, certo e
errado, permitido e proibido. Do contrário, a vida humana se tornaria
impossível ou insustentável.
Enquanto
a filosofia busca fundamentar e justificar princípios, valores, critérios e
regras de ação, o senso comum permanece preso à superficialidade, à
incompreensão e à confusão conceitual. No discurso corporativo, na maioria das
vezes, a ética é usada como artifício de linguagem, a fim de poder persuadir o
trabalhador e o cliente acerca da necessidade da honestidade, da abnegação, da
pontualidade e da responsabilidade para com o trabalho e para com a empresa.
Porém, a filosofia nos ensina que a questão ética só pode ser equacionada
quando se colocar frente a frente o interesse social e o interesse individual,
ou seja, a sociedade e os indivíduos.
A
lógica mercantil que regre a sociedade capitalista subordina o trabalhador à
economia, o trabalho ao lucro. Ou seja, no interior do modelo capitalista de
produção e de consumo há um problema ético estrutural e insolúvel: a
subordinação do ser humano ao capital. Sem a superação do capitalismo é
impossível resolver os problemas criados pelo próprio sistema capitalista.
Diante
desse fato, cumpre perguntar: qual é a concepção de ética que orienta a vida
das organizações e instituições? Existe ética nos negócios? O lucro é ético? Ou
a busca do lucro é a negação da ética? Que princípios éticos devem orientar a
produção do conhecimento? Como é possível conciliar os interesses da sociedade
com os interesses do mercado?
Se, por
um lado, tais questões recolocam em discussão a necessidade que as empresas e
as instituições têm de relacionar de modo adequado a eficiência econômica (o
lucro) com a eficácia social (benefício à sociedade), por outro, o problema
ético sofre um esvaziamento conceitual; é reduzido a uma “ética de bolso” – de
conveniência.
A crise
estrutural (de reprodução) do capitalismo impõe uma reciclagem de termos e
conceitos. De tempos em tempos, inventa-se nova retórica, novo discurso, novos
termos, conceitos e expressões para legitimar a própria exploração, os quais
parecem sugerir a urgente necessidade de se introduzir na atividade
profissional, organizacional e institucional a questão ética. Contudo, o que se
vê, no mais das vezes, é a apropriação da palavra ética pelo discurso
empresarial como estratégia de marketing, enquanto o seu verdadeiro significado
(de questionamento radical e prática reflexiva) é banido ou suprimido das
organizações.
Assim,
por exemplo, quando uma organização empresarial exige de seus profissionais
determinados requisitos, como, flexibilidade funcional, capacidade de trabalhar
em equipe (soft skills – habilidades de comunicação e relacionamento),
inteligência emocional, autocontrole etc., transforma a ética numa etiqueta
(pequena ética), isto é, num conjunto de regras e normas de bom comportamento,
de boa conduta ou de boa convivência, mas não traduz o problema ético
fundamental.
O
“padrão ético” que torna o funcionário obediente, dócil, subordinado e
disciplinado diante do trabalho explorado não atende às exigências de uma ética
em sentido filosófico. Entendida assim, a ética é convertida num código de
conduta (Códigos de ética profissional) – a uma cartilha do que é possível
fazer (permitido e proibido) nas relações profissionais. Porém, a ética exige
questionamento, problematização, crítica, discussão, reflexão e denúncia.
Implica quase sempre, senso de indignação, conflitos de interesse, tomada de
posição e senso de justiça.
Vê-se,
deste modo, que o uso filosófico do termo ética não coincide com o uso não
filosófico. A confusão ou a imprecisão conceitual dos termos é, desde sempre,
uma questão para a filosofia. Via de regra, os filósofos inventam ou redefinem
conceitos para tornar possível a compreensão de um problema. A análise
filosófica exige rigor e precisão conceitual, de modo a tornar compreensível e
defensável uma ideia ou uma tese.
A
aplicação da ética à Inteligência artificial generativa visa expor o problema
fundamental, o que implica indagar acerca da natureza, dos meios e dos fins
desta tecnologia. Ou seja, a Inteligência artificial generativa está a serviço
do desenvolvimento e do bem estar da sociedade ou do lucro (da exploração
econômica)? É uma tecnologia que promove a emancipação ou a dominação (opressão
e manipulação) dos indivíduos?
Portanto,
a recusa em pensar a ética a partir da filosofia resulta, invariavelmente, na
recusa da própria ética ou na impossibilidade de se chegar à compreensão do
problema ético fundamental.
A
emergência, o rápido avanço e a vasta aplicação das tecnologias digitais,
especialmente da Inteligência artificial generativa tem suscitado, do ponto de
vista filosófico, político e jurídico inúmeras questões acerca de seus riscos
(a possibilidade de manipulação e vigilância) e desafios (a necessidade de
responsabilização) destes “sistemas autônomos” – o que evidencia a urgente
necessidade de regulamentação ou de normatização da invenção e do uso destas
novas tecnologias.
Neste
sentido, a opacidade (a intransparência) dos algoritmos de Inteligência
artificial generativa é uma questão ética, porque impede que os usuários saibam
de antemão quais são os princípios ou os critérios éticos que orientam as
operações dos sistemas de Inteligência artificial generativa. Por isso, a
confiabilidade dos sistemas de Inteligência artificial generativa é
questionada. O viés algorítmico pode reproduzir injustiças (preconceitos,
discriminação e exclusão social).
Note-se
que, pela primeira vez na história da humanidade uma invenção tecnológica é
capaz de reproduzir e de simular determinadas funções cognitivas mediante
algoritmos de Inteligência artificial generativa. Assistentes e agentes de
Inteligência artificial generativa reproduzem a fala e a escrita com alto grau
de eficiência técnica que nos induzem a crer que são capazes de pensar. De
fato, são capazes de gerar textos, imagens, áudios, vídeos que desafiam nossa
capacidade de discernir entre o original e a cópia (o plágio).
Entretanto,
a eficiência técnica dos dispositivos de Inteligência artificial generativa tem
ameaçado ou desafiado princípios e valores éticos, como, por exemplo, a autoria
(autenticidade), a originalidade, a autonomia, a privacidade de seus usuários,
a responsabilidade, a justiça e a transparência.
Como se
pode depreender, o uso das ferramentas da Inteligência artificial generativa
engendra novas questões éticas, assim como ressuscitaram velhos problemas
éticos enfrentados e formulados pela tradição filosófica. Em face disso, muitas
organizações empresariais (corporações) e instituições no afã de responder aos
novos problemas e desafios lançados pela Inteligência artificial generativa
estabeleceram e implementaram “diretrizes éticas”, a fim de resguardar a
credibilidade de seus serviços e produtos, assim como a competência de seus
profissionais.
No
âmbito empresarial, o uso das ferramentas de Inteligência artificial generativa
tem sido saudado como um salto tecnológico, porque tornou mais ágil e eficiente
processos e procedimentos organizacionais. A automatização de tarefas
(confecção e análise de documentos e relatórios, controle de estoque,
protocolos de compliance, auditorias algorítmicas etc.) consideradas
excessivamente repetitivas e mecânicas trouxe maior precisão ou eficiência para
as organizações.
Contudo,
inúmeros riscos, problemas, conflitos ou dilemas éticos surgiram com o uso
indiscriminado da Inteligência artificial generativa, uma vez que é possível
fraudar ou plagiar imagens, documentos, contratos, resultados financeiros – que
à primeira vista são de difícil contestação ou questionamento.
Já no
âmbito das instituições educacionais problemas semelhantes surgiram, como a
fraude ou o plágio em trabalhos acadêmicos, artigos científicos, monografias,
dissertações e teses – o que tornou ainda mais difícil e exigente o trabalho do
orientador, porque passou a exercer também a função de fiscal. A relação de
confiança entre orientador e orientando, autor e avaliador é um princípio ético
e um pressuposto da produção científica, mas, encontra-se agora, ameaçado pela
Inteligência artificial generativa. Ou melhor, a honestidade intelectual que é
uma exigência ética da produção do conhecimento vê-se ameaçada pelo uso
inconsequente ou irresponsável dos recursos da tecnologia digital.
Contudo,
a tentativa de regulamentar ou de orientar o uso das ferramentas de
Inteligência artificial generativa mediante “diretrizes éticas” revela-se, do
ponto de vista filosófico problemática ou contraditória. Ou seja, definir
princípios ou regras de uso sem discutir conceitos, princípios e valores éticos
é submeter a ética à técnica, o que torna impossível a compreensão do complexo
problema ético que cerca a invenção e o uso de ferramentas de Inteligência
artificial generativa.
Note-se
que as “diretrizes éticas”, via de regra, não questionam os princípios, os
valores e os interesses, isto é, os pressupostos que orientam a concepção e o
desenvolvimento do projeto de Inteligência artificial generativa. Ao que
parece, empresas de tecnologia, engenheiros, programadores e desenvolvedores
das ferramentas de Inteligência artificial generativa não são objeto de
responsabilização ética nos termos das “diretrizes éticas” – o que parece supor
que a tecnologia digital é neutra e desinteressada.
Nenhuma
tecnologia é neutra. Transfere-se, portanto, para os usuários toda a
responsabilidade sobre as consequências da utilização destas ferramentas de
Inteligência artificial generativa. Porém, a concepção, o desenho, a
arquitetura e o desenvolvimento de projetos de Inteligência artificial
generativa, assim como a programação e o treinamento do algoritmo da
Inteligência artificial generativa como dados é sempre fruto da escolha e da
decisão humana.
Direta
ou indiretamente, explícita ou implicitamente está presente a supervisão
humana. No contexto do capitalismo contemporâneo tais procedimentos não ocorrem
sem a intervenção de interesses econômicos, políticos e ideológicos. Neste
sentido, grandes empresas de tecnologia (Big techs) resistem à regulamentação
externa (dos Estados nacionais), porque pode limitar seus interesses ou impedir
usos que transgridam princípios e valores éticos considerados válidos
(legítimos) e socialmente aceitos.
Do
ponto de vista filosófico, a expressão “diretrizes éticas” encerra em si mesma
uma contradição lógica, porque estabelece externamente princípios, valores e
regras de conduta, contrariando, deste modo, o pressuposto fundamental da
ética, que é a princípio da autonomia e da justiça. As “diretrizes éticas”
confundem ou reduzem a ética à moral, confiscando da própria ética sua
capacidade teórica, analítica e crítica.
Entretanto,
cabe à filosofia denunciar este erro conceitual, a fim de impedir que a ética
se torne uma palavra vazia ou um discurso retórico, uma peça de marketing
corporativa ou institucional. Não se pode aprisionar ou reduzir a ética a um
código de conduta (a um conjunto de normas ou de diretrizes), porque a ética é
a filosofia moral (a investigação filosófica sobre o fenômeno moral). A
moralidade é um fenômeno humano e um dos fundamentos da sociedade.
Neste
sentido, a ética cumpre três tarefas: (a) esclarecer ou explicar os conceitos
morais de bom e mau, justo e injusto, humano e desumano, certo e errado,
aceitável e inaceitável; (b) fundamentar a moral, ou seja, apresentar razões
que justificam a necessidade de princípios, valores e regras morais; (c)
criticar, avaliar ou julgar a moralidade vigente, seus princípios, regras e
valores, a fim de impedir que a moral se torne um instrumento de exploração, de
opressão (dominação) e de exclusão social. Por que a ética é um instrumento de
emancipação e de humanização do ser humano, ela é o fundamento da dignidade, da
autonomia e da liberdade.
É
indiscutível que a ética diga respeito a todos os indivíduos humanos, mas é
discutível se todos os indivíduos possuem razoável compreensão dos fundamentos
filosóficos dos problemas éticos que encontramos nas obras dos filósofos
consagrados pela tradição como fundadores da ética. Por isso, a constituição de
comissões ou de comitês de ética para discutir e definir princípios, valores e
limites éticos do uso da Inteligência artificial generativa sem a participação
e a supervisão de profissionais com formação em filosofia ou de estudiosos e
pesquisadores de filosofia revelar-se-á infrutífera ou um engodo.
Cumpre
dizer que a discussão sobre a fundamentação filosófica dos princípios, valores
e das diretrizes acerca da invenção e do uso das ferramentas de Inteligência
artificial generativa encontra respaldo teórico em toda a história da
filosofia. O problema ético tem a idade da filosofia. Por isso, se quisermos
discutir e propor diretrizes de uso da Inteligência artificial generativa será
preciso recorrer aos textos fundacionais da ética.
A
discussão ética pressupõe a compreensão das teorias éticas dos grandes mestres
do pensamento filosófico. Neste sentido, diferentes correntes de pensamento
filosófico, como a ética das virtudes de Aristóteles, a ética do dever de Kant,
o utilitarismo de Bentham e de Stuart Mill, a ética da responsabilidade de
Jonas, a ética do discurso de Habermas, dentre outras são referências
incontornáveis.
Como se
vê, ética é, sobretudo, fruto da elaboração teórica de filósofos, mas que para
ser aplicada a problemas e a situações específicas necessita de diálogo, de
análise conceitual, de reflexão e discussão com todos os concernidos – o que
significa construir coletivamente princípios, valores e códigos de conduta.
Neste sentido, a passagem da teoria (da ética) à prática (à moral) ou ao código
de conduta requer a participação de profissionais ou de especialistas de todas
as áreas do conhecimento.
Somente
o debate transdisciplinar, contínuo e a reflexão permanente podem evitar que a
ética se transforme ou seja reduzida a um manual de regras ou de procedimento.
Por sua vez, a regulamenta jurídica do uso da Inteligência artificial
generativa deve ser uma derivação de discussões de natureza filosófica e
científica.
Não
cabe, portanto, ao setor de compliance (conformidade legal) das empresas e das
instituições, o papel exclusivo de decidir o que é certo ou errado no âmbito da
ética ou no uso ético da IA generativa. Por isso, a imposição externa de regras
de conduta sem a participação ou sem o consentimento racional dos envolvidos,
é, via de regra, uma iniciativa retórica ou burocrática.
Se a
ética da Inteligência artificial é impossível sem reflexão filosófica, é porque
toda normatização ou regulamentação sem fundamentação teórica resulta
superficial e ilusória. O pragmatismo raso das “diretrizes éticas” não
contribui para a transformação da sociedade. O exercício da ética implica uma
reflexão crítica acerca da lógica de funcionamento do capitalismo digital.
A
extração massiva de dados, a concentração de poder tecnológico e a
plataformização da vida social traduzem e exemplificam a nova forma de
exploração, vigilância, controle e dominação capitalista. A instrumentalização
da ética é a forma mais perversa de negar a crítica e a possibilidade de
transformação da sociedade. Concebida e utilizada como um instrumento de
redução ou de gestão de riscos e de melhora da imagem das corporações e das
instituições, a ética deixa de ser o fundamento do agir humano para ser um
instrumento de reprodução da desigualdade e da injustiça.
Resulta
necessário, portanto, discutir a natureza da IA generativa, o colonialismo
digital, os problemas éticos que decorrem da relação entre o ser humano e a
Inteligência artificial generativa, assim como o impacto e as consequências do
uso da Inteligência artificial generativa na sociedade.
Ética
sem filosofia não é verdadeira ética; é técnica disfarçada de ética. Porém,
fazer bem algo (que é uma questão de eficiência técnica) não é o mesmo que
fazer o bem. Se o progresso técnico deve ter limites, estes limites, devem ser,
antes de mais nada, limites éticos.
Fonte:
Por Claudinei Luiz Chitolina, em A Terra é Redonda

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