Países bálticos viram "paraíso red
pill" para brasileiros induzidos por influenciadores digitais
"Tenho vários seguidores do Brasil que
têm dificuldades em arranjar mulheres, eu digo, na Lituânia você pode encontrar
uma mulher para casar". "Uma parada icônica da Estônia é a quantidade
de loiras por metro quadrado. Se você gosta da coisa, meu amigo, você vai se
alimentar muito bem". "Já imaginou morar em um lugar onde ser homem é
quase como ganhar na loteria? Na Letônia, isso acontece de verdade".
Essas são algumas das frases ditas por
influenciadores brasileiros que apresentam os países bálticos – Estônia,
Letônia e Lituânia – como lar de mulheres "tradicionais",
"femininas", "fáceis" e "desesperadas por homens".
Nas redes sociais, esses criadores de conteúdo usam a região como um suposto
contraponto ao Brasil.
Esses perfis fazem parte de um ecossistema
online que reúne comunidades misóginas, como os chamados "red pills",
MGTOW (Homens Seguindo Seu Próprio Caminho, em inglês) e incels – englobados no
que pesquisadores chamam de machosfera, uma rede virtual que espalha visões
hipermasculinas em plataformas diversas, com diferentes graus de radicalização.
Apesar de separados por mais de 10 mil
quilômetros de distância, os países bálticos se tornaram um "paraíso"
para brasileiros que consomem esse tipo de conteúdo. Essa propaganda
preconceituosa e estereotipada surpreende a população local.
"Obviamente não é uma coisa agradável.
Acho que pessoas de diferentes origens costumam ser sexualizadas de maneiras
diferentes. As mulheres eslavas e as mulheres loiras também carregam muitos
desses estereótipos. As pessoas falam sobre isso o tempo todo", afirma a
universitária lituana Viktorija Kazlauskaite.
"Existe essa ideia de que aqui as
mulheres seriam mais educadas, ou mais tradicionais, e que o feminismo ainda
não seria tão presente. Mas eu não acho que isso seja verdade, pelo menos não
no meu círculo social", conta a também estudante Migle Kundrotaite.
<><> Mito antigo
Para Luciane Belin, pesquisadora do
NetLab/UFRJ, esse tipo de conteúdo não se espalha apenas porque desperta
interesse do público, em especial de homens, mas também porque atende à lógica
das plataformas digitais.
"Esses conteúdos são produzidos para
atrair cliques. Os próprios influenciadores sabem que as plataformas tendem a
impulsionar conteúdos polêmicos, capazes de gerar mais engajamento e manter os
usuários conectados por mais tempo. Isso aumenta tanto a exibição de anúncios
quanto as oportunidades de vender seus próprios produtos e serviços",
acrescenta.
A imagem da mulher báltica como
"tradicional" antecede, porém, as redes sociais. Segundo
especialistas ouvidos pela DW, ela surgiu após o colapso da União Soviética e
hoje é reciclada pela machosfera para apresentar os países bálticos como um suposto
refúgio de valores tradicionais.
"A imagem promovida por alguns
influenciadores hoje me parece tão familiar. Ela recicla um estereótipo de
décadas atrás, em vez de refletir a sociedade lituana contemporânea. Embora
normas tradicionais de gênero ainda existam, a Lituânia de hoje é muito mais
complexa do que o apresentado por esses influenciadores", afirma Viktorija
Kolbešnikova, pesquisadora em estudos de gênero e especialista do Centro para a
Promoção da Igualdade da Lituânia.
Kolbešnikova ressalta que essa ideia não
passa de um mito, acrescentando que reduzir as mulheres a um único estereótipo
diz mais sobre as fantasias e expectativas de quem promove essa imagem do que
sobre elas próprias.
Os indicadores europeus também contrastam com
a ideia da "mulher submissa". As mulheres da região costumam ter
níveis de educação mais alto do que os homens. Segundo o Departamento de
Estatísticas da União Europeia (Eurostat), em 2023, último dado disponível, a
Letônia possui 197 mulheres com diploma universitário para cada 100 homens, a
Estônia 181 e a Lituânia 164.
Além disso, os índices de igualdade de gênero
no mercado de trabalho e salarial nos três países ficaram acima da média da
União Europeia no ano passado.
<><> Longa história
A igualdade de direitos entre homens e
mulheres tem ainda uma longa história na região. Segundo Sanita Osipova,
professora da Faculdade de Direito da Universidade da Letônia e especialista em
direitos humanos, a igualdade de gênero passou a ser defendida por forças de
esquerda, como social-democratas e comunistas, ainda no início do século 20.
Na Letônia, os direitos políticos foram
garantidos às mulheres em 1918 e a igualdade civil foi estabelecida em 1940,
durante a era soviética, décadas antes de direitos equivalentes serem
plenamente reconhecidos em grande parte da Europa Ocidental.
"Portanto, o feminismo existe nos países
bálticos há mais de cem anos, e pelo menos as três últimas gerações de mulheres
cresceram acostumadas a uma condição de igualdade em relação aos homens",
ressalta.
Osipova suspeita que Moscou possa estar por
trás dessas narrativas preconceituosas disseminadas nas redes sociais. "A
Rússia ataca constantemente os países bálticos, difamando-nos e criando falsos
estereótipos sobre nós. Por isso, é difícil para mim dizer quem realmente está
por trás das informações consumidas pelos leitores brasileiros: se algum
influenciador dos países bálticos ou um dos propagandistas pagos pela
Rússia."
<><> Aumento do turismo
Embora não haja evidências de que esse tipo
de conteúdo esteja influenciando diretamente o turismo, os três países bálticos
vêm registrando um aumento no número de visitantes brasileiros.
Na Estônia, 4.924 brasileiros visitaram o
país em 2025, alta de 44% em relação ao ano anterior. Nos cinco primeiros meses
de 2026, o crescimento continuou: foram 1.944 visitantes, 20% a mais do que no
mesmo período de 2025. Na Lituânia, o número de brasileiros chegou ao recorde
de 3.303 turistas em 2025, um aumento de 26% em relação ao período pré-pandemia
e de 40% na comparação com 2024, segundo dados oficiais das agências nacionais
de turismo.
Para Viktorija Kolbešnikova, no entanto, a
questão mais importante não é saber se essas narrativas atraem visitantes, mas
o que elas revelam sobre estereótipos persistentes.
"Embora discussões sobre as ‘mulheres
tradicionais do Leste Europeu' apareçam periodicamente na internet, elas não se
tornaram um tema importante do debate público na Lituânia. A questão dos
influenciadores brasileiros chama a atenção justamente porque parece algo
incomum e um tanto desconectado da forma como os lituanos normalmente discutem
relações de gênero", destaca.
Para Belin, essa busca de brasileiros, que
consomem esse tipo de conteúdo, por mulheres em outros países funciona como uma
reação às transformações sociais ocorridas no Brasil.
"Como muitos desses homens já não
encontram esse perfil nas brasileiras, que hoje frequentemente são chefes de
família, financeiramente independentes e não ocupam uma posição de
subserviência, eles passam a enxergar países onde as mulheres supostamente
ainda não teriam sido ‘corrompidas' como uma solução", avalia.
• O
que é incel, o submundo misógino que chegou ao Brasil
A série "Adolescência" corre o
mundo desde o seu lançamento em março ao trazer à superfície o submundo virtual
dos incels, abreviação para os autoproclamados "celibatários
involuntários" (involuntary celibates, em inglês). Este ecossistema
masculino, onde imperam misoginia e ressentimento, pode pegar espectadores
desavisados de surpresa, mas, na verdade, é um fenômeno longevo, cujos
primeiros sinais datam da virada do século. E também está presente no Brasil,
falando frequentemente a jovens e adolescentes.
Estudiosos definem o universo incel como
comunidades em fóruns virtuais de homens heterossexuais que se percebem como
incapazes de atrair o interesse romântico e sexual das mulheres. Quase sempre,
membros atribuem a falta de apelo à sua aparência física e a uma suposta
inferioridade biológica — ou, ainda, ao fato de não serem ricos ou sociáveis o
bastante.
Nas últimas duas décadas, eles encontraram na
internet um terreno fértil e se alimentam de uma gama de histórias tão
conspiratórias quanto distorcidas. O que começa como frustração e falta de
autoestima se converte em ódio contra as mulheres, sujeitas a todo tipo de
acusação. Elas são descritas como ardilosas, incapazes de sentir empatia ou
amor e interessadas apenas por homens fisicamente atraentes.
Há anos, especialistas alertam ainda para o
poder da comunidade incel de incitar violência — seja autoinfligida, contra
mulheres ou por ataques massivos — e espalhar ultrarradicalismo, inclusive com
contornos supremacistas. Os incels são frequentemente descritos como um dos
subgrupos mais perigosos da chamada "machosfera", uma rede virtual
que espalha visões hipermasculinas em plataformas diversas, com diferentes
graus de radicalização.
"Estes são grupos organizados, que
entendem que a mulher é o grande problema da sociedade. Na medida que os
direitos das mulheres avançam, o movimento sente a masculinidade fragilizada e
busca resgatá-la como ela era tempos atrás", explica a cientista política
Bruna Camilo, que monitorou interações entre usuários incel do Brasil no
Telegram entre 2021 e 2022 para uma pesquisa na Pontifícia Universidade
Católica de Minas Gerais (PUC-MG).
<><> Brasileiros inspirados nos
EUA
Em 2022, o Serviço Secreto dos Estados Unidos
descreveu o extremismo misógino dos incels como ameaça nacional. Eles servem de
inspiração para pares brasileiros, que mantém um vocabulário adaptado ao
contexto nacional e são ideologicamente conectados à extrema direita.
Um relatório produzido por especialistas para
o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania em 2023 classificou os grupos
masculinistas, dos quais os incels são um expoente, como uma das principais
fontes de discurso de ódio e extremismo na internet.
Os incels no Brasil já migraram de fóruns
especializados para grandes plataformas, como TikTok, Instagram, Youtube e
Discord, este último popular entre adolescentes e adultos que jogam online. Os
seus membros não costumam se identificar publicamente com a nomenclatura incel,
mantida nas esferas de interação privada, mas reproduzem as mesmas ideias e
terminologia.
Segundo Bruna, dentre os termos mais
característicos dos incels brasileiros estão expressões chulas específicas para
se referir tanto a mulheres feministas quanto conservadoras. Nem aquelas que
clamam para si um lugar subserviente estão poupadas da misoginia.
A pesquisadora também encontrou recorrentes
expressões de apoio a Olavo de Carvalho, guru da extrema direita brasileira
falecido em 2022, e a rememoração do caso Eloá Cristina Pimentel — adolescente
de 15 anos sequestrada e assassinada pelo seu ex-namorado em 2008 —, retratado
como exemplo do que fazer quando uma mulher ignora um homem.
"Os incels são majoritariamente meninos
ou jovens que têm dificuldade de socialização. Às vezes, é o menino
desajeitado, que não sabe se comportar naquela época de namoro e de se afirmar
enquanto menino", afirma a cientista política. "Isso é muito comum na
adolescência, porque é uma fase de transformação. Então, ele vai procurar na
internet alguma forma de aceitação e pertencimento."
<><> Origem com uma jovem
canadense
Foi nos anos 1990 que uma jovem canadense
inadvertidamente cunhou o termo incel. Ela criou um site chamado O Projeto de
Celibato Involuntário da Alana, no qual relatava a sua dificuldade em
experimentar uma vida sexual e amorosa.
O seu objetivo era se conectar com outros
internautas solitários. Mas, nos anos consecutivos, a ideia acabaria apropriada
por homens frustrados na internet e se tornaria o embrião de um movimento incel
internacional.
"É como ser a cientista que descobriu a
fissão nuclear e depois descobre que ela está sendo usada como uma arma de
guerra", disse Alana, que manteve o sobrenome anônimo, numa entrevista ao
The Guardian em 2018.
Em 2021, a nacionalidade mais comum no maior
fórum incel anglófono era a Alemanha, segundo relatório produzido para a União
Europeia (UE). Os incels alemães demonstravam sentimentos de inferioridade em
relação a homens brancos e loiros.
Por sua vez, homens brancos na Suécia se
sentiam menos atraentes. Já na França, os usuários se ressentiam dos direitos
conquistados pelas mulheres, acreditando que o país se tornara hiperfeminista e
destruíra os direitos dos homens.
"À medida que esses espaços cresceram,
os incels desenvolveram sua própria ideologia e valores, canonizaram seus
heróis e identificaram seus vilões", afirmou o documento.
<><> Chad, Stacy e Pílulas Pretas
Nas entranhas do submundo incel anglófono,
moram arquétipos derrogatórios para mulheres e homens sexualmente ativos. Elas
são chamadas de Stacy, representando um suposto tipo de mulher superficial,
promíscua e inatingível. Já eles são chamados de Chad e seriam populares e
musculosos.
A imaginação incel orbita ainda ao redor da
chamada "regra 80/20", segundo a qual 80% das mulheres se atraem por
20% dos homens. A ela se atribui o insucesso romântico dos incels — uma Stacy
só se interessaria sexualmente por um Chad, ou sempre estaria pronta para
deixar um homem supostamente inferior por ele.
Ao se dar conta dessa realidade, um homem
"engoliria a pílula vermelha" (redpill, em inglês), ou seja,
despertaria para os preceitos centrais do movimento incel. O termo faz
referência ao filme Matrix e, na última década, se desdobrou na "pílula
preta" (blackpill), hoje também em crescimento no Brasil.
"Blackpill é uma versão mais
radicalizada de redpill. Eu diria que temos que tomar muito cuidado com esse
movimento, que de fato discursa sobre morte às mulheres", explica Bruna.
<><> Extremismo e saúde mental
Uma pesquisa encomendada pelo governo
britânico apontou que uma minoria de incels declara abertamente apoio à
violência, enquanto os últimos anos tiveram um número pequeno, porém crescente,
de ataques associado ao movimento.
Já o relatório da UE dividiu as plataformas
onde os incels interagiam, pelo menos até 2021, como de alto ou baixo risco,
com as mais populares, tais como Youtube e X, sendo menos propensas à violência
do que fóruns e websites endógenos.
Ao invés de abordagens contra violência e
terrorismo, especialistas argumentam que a melhor resposta ao fenômeno incel
passa pela saúde mental. Estudos conduzidos por pesquisadores da Universidade
de Swansea, no Reino Unido, revelaram que incels tendem a sofrer de depressão
severa, ansiedade, pensamentos suicidas e solidão, além de acumularem
diagnósticos ou sinais de autismo em maior frequência.
“Nossas descobertas destacam a importância do
apoio personalizado à saúde mental dos incels, pois eles parecem ter erros de
pensamento específicos sobre os relacionamentos sexuais que podem afetar seus
relacionamentos interpessoais", disse o co-autor Andrew Thomas, ao
comentar uma pesquisa com 151 incels. Para o professor, terapias especializadas
podem "interromper o viés de confirmação que alimenta crenças
tóxicas" dos incels.
Por sua vez, os autores do relatório para a
UE recomendam o desenho de programas que possam alcançar os incels na internet
e a criação de espaços alternativos voltados ao público masculino.
"De muitas maneiras, a comunidade incel
funciona como um grupo de apoio emocional online", explica o relatório.
"Faltam espaços alternativos online para que homens e meninos se envolvam
em discussões sobre relacionamentos sexuais, namoro, rejeição e vergonha."
Questionado sobre iniciativas para reagir ao
fenômeno incel no Brasil e outras formas de extremismo, o Ministério dos
Direitos Humanos e da Cidadania não respondeu até o fechamento da reportagem.
Fonte: DW Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário