segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Países bálticos viram "paraíso red pill" para brasileiros induzidos por influenciadores digitais

"Tenho vários seguidores do Brasil que têm dificuldades em arranjar mulheres, eu digo, na Lituânia você pode encontrar uma mulher para casar". "Uma parada icônica da Estônia é a quantidade de loiras por metro quadrado. Se você gosta da coisa, meu amigo, você vai se alimentar muito bem". "Já imaginou morar em um lugar onde ser homem é quase como ganhar na loteria? Na Letônia, isso acontece de verdade".

Essas são algumas das frases ditas por influenciadores brasileiros que apresentam os países bálticos – Estônia, Letônia e Lituânia – como lar de mulheres "tradicionais", "femininas", "fáceis" e "desesperadas por homens". Nas redes sociais, esses criadores de conteúdo usam a região como um suposto contraponto ao Brasil.

Esses perfis fazem parte de um ecossistema online que reúne comunidades misóginas, como os chamados "red pills", MGTOW (Homens Seguindo Seu Próprio Caminho, em inglês) e incels – englobados no que pesquisadores chamam de machosfera, uma rede virtual que espalha visões hipermasculinas em plataformas diversas, com diferentes graus de radicalização.

Apesar de separados por mais de 10 mil quilômetros de distância, os países bálticos se tornaram um "paraíso" para brasileiros que consomem esse tipo de conteúdo. Essa propaganda preconceituosa e estereotipada surpreende a população local.

"Obviamente não é uma coisa agradável. Acho que pessoas de diferentes origens costumam ser sexualizadas de maneiras diferentes. As mulheres eslavas e as mulheres loiras também carregam muitos desses estereótipos. As pessoas falam sobre isso o tempo todo", afirma a universitária lituana Viktorija Kazlauskaite.

"Existe essa ideia de que aqui as mulheres seriam mais educadas, ou mais tradicionais, e que o feminismo ainda não seria tão presente. Mas eu não acho que isso seja verdade, pelo menos não no meu círculo social", conta a também estudante Migle Kundrotaite.

<><> Mito antigo

Para Luciane Belin, pesquisadora do NetLab/UFRJ, esse tipo de conteúdo não se espalha apenas porque desperta interesse do público, em especial de homens, mas também porque atende à lógica das plataformas digitais.

"Esses conteúdos são produzidos para atrair cliques. Os próprios influenciadores sabem que as plataformas tendem a impulsionar conteúdos polêmicos, capazes de gerar mais engajamento e manter os usuários conectados por mais tempo. Isso aumenta tanto a exibição de anúncios quanto as oportunidades de vender seus próprios produtos e serviços", acrescenta.

A imagem da mulher báltica como "tradicional" antecede, porém, as redes sociais. Segundo especialistas ouvidos pela DW, ela surgiu após o colapso da União Soviética e hoje é reciclada pela machosfera para apresentar os países bálticos como um suposto refúgio de valores tradicionais.

"A imagem promovida por alguns influenciadores hoje me parece tão familiar. Ela recicla um estereótipo de décadas atrás, em vez de refletir a sociedade lituana contemporânea. Embora normas tradicionais de gênero ainda existam, a Lituânia de hoje é muito mais complexa do que o apresentado por esses influenciadores", afirma Viktorija Kolbešnikova, pesquisadora em estudos de gênero e especialista do Centro para a Promoção da Igualdade da Lituânia.

Kolbešnikova ressalta que essa ideia não passa de um mito, acrescentando que reduzir as mulheres a um único estereótipo diz mais sobre as fantasias e expectativas de quem promove essa imagem do que sobre elas próprias.

Os indicadores europeus também contrastam com a ideia da "mulher submissa". As mulheres da região costumam ter níveis de educação mais alto do que os homens. Segundo o Departamento de Estatísticas da União Europeia (Eurostat), em 2023, último dado disponível, a Letônia possui 197 mulheres com diploma universitário para cada 100 homens, a Estônia 181 e a Lituânia 164.

Além disso, os índices de igualdade de gênero no mercado de trabalho e salarial nos três países ficaram acima da média da União Europeia no ano passado.

<><> Longa história

A igualdade de direitos entre homens e mulheres tem ainda uma longa história na região. Segundo Sanita Osipova, professora da Faculdade de Direito da Universidade da Letônia e especialista em direitos humanos, a igualdade de gênero passou a ser defendida por forças de esquerda, como social-democratas e comunistas, ainda no início do século 20.

Na Letônia, os direitos políticos foram garantidos às mulheres em 1918 e a igualdade civil foi estabelecida em 1940, durante a era soviética, décadas antes de direitos equivalentes serem plenamente reconhecidos em grande parte da Europa Ocidental.

"Portanto, o feminismo existe nos países bálticos há mais de cem anos, e pelo menos as três últimas gerações de mulheres cresceram acostumadas a uma condição de igualdade em relação aos homens", ressalta.

Osipova suspeita que Moscou possa estar por trás dessas narrativas preconceituosas disseminadas nas redes sociais. "A Rússia ataca constantemente os países bálticos, difamando-nos e criando falsos estereótipos sobre nós. Por isso, é difícil para mim dizer quem realmente está por trás das informações consumidas pelos leitores brasileiros: se algum influenciador dos países bálticos ou um dos propagandistas pagos pela Rússia."

<><> Aumento do turismo

Embora não haja evidências de que esse tipo de conteúdo esteja influenciando diretamente o turismo, os três países bálticos vêm registrando um aumento no número de visitantes brasileiros.

Na Estônia, 4.924 brasileiros visitaram o país em 2025, alta de 44% em relação ao ano anterior. Nos cinco primeiros meses de 2026, o crescimento continuou: foram 1.944 visitantes, 20% a mais do que no mesmo período de 2025. Na Lituânia, o número de brasileiros chegou ao recorde de 3.303 turistas em 2025, um aumento de 26% em relação ao período pré-pandemia e de 40% na comparação com 2024, segundo dados oficiais das agências nacionais de turismo.

Para Viktorija Kolbešnikova, no entanto, a questão mais importante não é saber se essas narrativas atraem visitantes, mas o que elas revelam sobre estereótipos persistentes.

"Embora discussões sobre as ‘mulheres tradicionais do Leste Europeu' apareçam periodicamente na internet, elas não se tornaram um tema importante do debate público na Lituânia. A questão dos influenciadores brasileiros chama a atenção justamente porque parece algo incomum e um tanto desconectado da forma como os lituanos normalmente discutem relações de gênero", destaca.

Para Belin, essa busca de brasileiros, que consomem esse tipo de conteúdo, por mulheres em outros países funciona como uma reação às transformações sociais ocorridas no Brasil.

"Como muitos desses homens já não encontram esse perfil nas brasileiras, que hoje frequentemente são chefes de família, financeiramente independentes e não ocupam uma posição de subserviência, eles passam a enxergar países onde as mulheres supostamente ainda não teriam sido ‘corrompidas' como uma solução", avalia.

•        O que é incel, o submundo misógino que chegou ao Brasil

A série "Adolescência" corre o mundo desde o seu lançamento em março ao trazer à superfície o submundo virtual dos incels, abreviação para os autoproclamados "celibatários involuntários" (involuntary celibates, em inglês). Este ecossistema masculino, onde imperam misoginia e ressentimento, pode pegar espectadores desavisados de surpresa, mas, na verdade, é um fenômeno longevo, cujos primeiros sinais datam da virada do século. E também está presente no Brasil, falando frequentemente a jovens e adolescentes.

Estudiosos definem o universo incel como comunidades em fóruns virtuais de homens heterossexuais que se percebem como incapazes de atrair o interesse romântico e sexual das mulheres. Quase sempre, membros atribuem a falta de apelo à sua aparência física e a uma suposta inferioridade biológica — ou, ainda, ao fato de não serem ricos ou sociáveis o bastante.

Nas últimas duas décadas, eles encontraram na internet um terreno fértil e se alimentam de uma gama de histórias tão conspiratórias quanto distorcidas. O que começa como frustração e falta de autoestima se converte em ódio contra as mulheres, sujeitas a todo tipo de acusação. Elas são descritas como ardilosas, incapazes de sentir empatia ou amor e interessadas apenas por homens fisicamente atraentes.

Há anos, especialistas alertam ainda para o poder da comunidade incel de incitar violência — seja autoinfligida, contra mulheres ou por ataques massivos — e espalhar ultrarradicalismo, inclusive com contornos supremacistas. Os incels são frequentemente descritos como um dos subgrupos mais perigosos da chamada "machosfera", uma rede virtual que espalha visões hipermasculinas em plataformas diversas, com diferentes graus de radicalização.

"Estes são grupos organizados, que entendem que a mulher é o grande problema da sociedade. Na medida que os direitos das mulheres avançam, o movimento sente a masculinidade fragilizada e busca resgatá-la como ela era tempos atrás", explica a cientista política Bruna Camilo, que monitorou interações entre usuários incel do Brasil no Telegram entre 2021 e 2022 para uma pesquisa na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG).

<><> Brasileiros inspirados nos EUA

Em 2022, o Serviço Secreto dos Estados Unidos descreveu o extremismo misógino dos incels como ameaça nacional. Eles servem de inspiração para pares brasileiros, que mantém um vocabulário adaptado ao contexto nacional e são ideologicamente conectados à extrema direita.

Um relatório produzido por especialistas para o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania em 2023 classificou os grupos masculinistas, dos quais os incels são um expoente, como uma das principais fontes de discurso de ódio e extremismo na internet.

Os incels no Brasil já migraram de fóruns especializados para grandes plataformas, como TikTok, Instagram, Youtube e Discord, este último popular entre adolescentes e adultos que jogam online. Os seus membros não costumam se identificar publicamente com a nomenclatura incel, mantida nas esferas de interação privada, mas reproduzem as mesmas ideias e terminologia.

Segundo Bruna, dentre os termos mais característicos dos incels brasileiros estão expressões chulas específicas para se referir tanto a mulheres feministas quanto conservadoras. Nem aquelas que clamam para si um lugar subserviente estão poupadas da misoginia.

A pesquisadora também encontrou recorrentes expressões de apoio a Olavo de Carvalho, guru da extrema direita brasileira falecido em 2022, e a rememoração do caso Eloá Cristina Pimentel — adolescente de 15 anos sequestrada e assassinada pelo seu ex-namorado em 2008 —, retratado como exemplo do que fazer quando uma mulher ignora um homem.

"Os incels são majoritariamente meninos ou jovens que têm dificuldade de socialização. Às vezes, é o menino desajeitado, que não sabe se comportar naquela época de namoro e de se afirmar enquanto menino", afirma a cientista política. "Isso é muito comum na adolescência, porque é uma fase de transformação. Então, ele vai procurar na internet alguma forma de aceitação e pertencimento."

<><> Origem com uma jovem canadense

Foi nos anos 1990 que uma jovem canadense inadvertidamente cunhou o termo incel. Ela criou um site chamado O Projeto de Celibato Involuntário da Alana, no qual relatava a sua dificuldade em experimentar uma vida sexual e amorosa.

O seu objetivo era se conectar com outros internautas solitários. Mas, nos anos consecutivos, a ideia acabaria apropriada por homens frustrados na internet e se tornaria o embrião de um movimento incel internacional.

"É como ser a cientista que descobriu a fissão nuclear e depois descobre que ela está sendo usada como uma arma de guerra", disse Alana, que manteve o sobrenome anônimo, numa entrevista ao The Guardian em 2018.

Em 2021, a nacionalidade mais comum no maior fórum incel anglófono era a Alemanha, segundo relatório produzido para a União Europeia (UE). Os incels alemães demonstravam sentimentos de inferioridade em relação a homens brancos e loiros.

Por sua vez, homens brancos na Suécia se sentiam menos atraentes. Já na França, os usuários se ressentiam dos direitos conquistados pelas mulheres, acreditando que o país se tornara hiperfeminista e destruíra os direitos dos homens.

"À medida que esses espaços cresceram, os incels desenvolveram sua própria ideologia e valores, canonizaram seus heróis e identificaram seus vilões", afirmou o documento.

<><> Chad, Stacy e Pílulas Pretas

Nas entranhas do submundo incel anglófono, moram arquétipos derrogatórios para mulheres e homens sexualmente ativos. Elas são chamadas de Stacy, representando um suposto tipo de mulher superficial, promíscua e inatingível. Já eles são chamados de Chad e seriam populares e musculosos.

A imaginação incel orbita ainda ao redor da chamada "regra 80/20", segundo a qual 80% das mulheres se atraem por 20% dos homens. A ela se atribui o insucesso romântico dos incels — uma Stacy só se interessaria sexualmente por um Chad, ou sempre estaria pronta para deixar um homem supostamente inferior por ele.

Ao se dar conta dessa realidade, um homem "engoliria a pílula vermelha" (redpill, em inglês), ou seja, despertaria para os preceitos centrais do movimento incel. O termo faz referência ao filme Matrix e, na última década, se desdobrou na "pílula preta" (blackpill), hoje também em crescimento no Brasil.

"Blackpill é uma versão mais radicalizada de redpill. Eu diria que temos que tomar muito cuidado com esse movimento, que de fato discursa sobre morte às mulheres", explica Bruna.

<><> Extremismo e saúde mental

Uma pesquisa encomendada pelo governo britânico apontou que uma minoria de incels declara abertamente apoio à violência, enquanto os últimos anos tiveram um número pequeno, porém crescente, de ataques associado ao movimento.

Já o relatório da UE dividiu as plataformas onde os incels interagiam, pelo menos até 2021, como de alto ou baixo risco, com as mais populares, tais como Youtube e X, sendo menos propensas à violência do que fóruns e websites endógenos.

Ao invés de abordagens contra violência e terrorismo, especialistas argumentam que a melhor resposta ao fenômeno incel passa pela saúde mental. Estudos conduzidos por pesquisadores da Universidade de Swansea, no Reino Unido, revelaram que incels tendem a sofrer de depressão severa, ansiedade, pensamentos suicidas e solidão, além de acumularem diagnósticos ou sinais de autismo em maior frequência.

“Nossas descobertas destacam a importância do apoio personalizado à saúde mental dos incels, pois eles parecem ter erros de pensamento específicos sobre os relacionamentos sexuais que podem afetar seus relacionamentos interpessoais", disse o co-autor Andrew Thomas, ao comentar uma pesquisa com 151 incels. Para o professor, terapias especializadas podem "interromper o viés de confirmação que alimenta crenças tóxicas" dos incels.

Por sua vez, os autores do relatório para a UE recomendam o desenho de programas que possam alcançar os incels na internet e a criação de espaços alternativos voltados ao público masculino.

"De muitas maneiras, a comunidade incel funciona como um grupo de apoio emocional online", explica o relatório. "Faltam espaços alternativos online para que homens e meninos se envolvam em discussões sobre relacionamentos sexuais, namoro, rejeição e vergonha."

Questionado sobre iniciativas para reagir ao fenômeno incel no Brasil e outras formas de extremismo, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania não respondeu até o fechamento da reportagem.

 

Fonte: DW Brasil

 

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