segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Trump e Rubio: “Este hemisfério é nosso”

A Venezuela é nossa. Cuba é nossa. A América Latina é nossa. O Brasil é nosso. Este hemisfério é nosso. Donald Trump e Marco Rubio não pronunciaram literalmente essas frases. Não precisaram. O Departamento de Estado dos Estados Unidos encarregou-se de transmitir a mensagem.

Em um vídeo oficial que reconstrói mais de dois séculos da presença norte-americana no continente, recupera a Doutrina Monroe, celebra intervenções dos Estados Unidos e apresenta a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro como uma “manobra calculada” destinada a enviar um sinal ao hemisfério, Washington chega a uma conclusão que dispensa interpretação:

“This is OUR hemisphere.” (“Este hemisfério é NOSSO.”)

E vai além. A dominância dos Estados Unidos sobre o Hemisfério Ocidental, proclama o vídeo oficial, “nunca mais será questionada”.  É difícil imaginar uma formulação mais explícita. A questão deixou de ser saber se Donald Trump pretende ressuscitar a Doutrina Monroe. Ela já foi ressuscitada. A pergunta agora é outra: Até onde os Estados Unidos estão dispostos a ir para transformá-la em realidade?

<><> O homem ao lado de Trump

Ao analisar o vídeo do Departamento de Estado, o historiador e comentarista internacional Leonardo Trevisan chamou atenção para uma dimensão pouco observada da peça. Para ele, o vídeo não seria destinado prioritariamente à América Latina. “O vídeo não é para nós. O vídeo é o lançamento de uma candidatura. A de Marco Rubio a presidente dos Estados Unidos.”

Rubio estaria tentando apresentar-se aos norte-americanos como uma espécie de John Quincy Adams do século XXI — o homem capaz de formular uma nova política para assegurar a supremacia dos Estados Unidos nas Américas. É uma interpretação, não um fato. Mas merece atenção. Principalmente porque o adversário também está claramente identificado.

<><> Agora o adversário é a China

Em 1823, a Doutrina Monroe dirigia-se às potências europeias. A mensagem era simples: “não tentem recolonizar as Américas.” Dois séculos depois, o centro da disputa deslocou-se. Agora o adversário estratégico é a China. 

Não se trata de capitalismo contra socialismo, esquerda contra direita ou democracia contra autoritarismo. Trata-se de poder. Recursos naturais. Petróleo. Lítio. Terras raras. Água. Alimentos. Energia. Tecnologia. Portos. Rotas comerciais. Influência política.

 A China transformou-se no principal parceiro comercial de vários países latino-americanos e ocupa posição central no comércio exterior brasileiro. Para Washington, o avanço chinês em uma região historicamente considerada sua área de influência deixou de ser apenas um problema econômico.

Passou a ser tratado como questão de segurança nacional.  A América Latina voltou ao centro do tabuleiro.  E o que até recentemente poderia parecer apenas retórica começou a ganhar estrutura militar.

<><> A Doutrina Donroe 

Na madrugada desta sexta-feira, 14 de agosto, Jamil Chade revelou que os Estados Unidos estão avançando na criação de uma arquitetura militar e de inteligência para o continente. Representantes militares de 18 países reuniram-se no Panamá no âmbito do Escudo das Américas, iniciativa apresentada como uma aliança contra terrorismo, narcotráfico e cartéis. O Brasil não participa.

Um dos projetos em discussão é a criação de uma central regional de inteligência sob comando norte-americano. Os países participantes seriam chamados a fornecer informações sobre pessoas e organizações consideradas ameaças. 

A pergunta é quem poderá ser classificado amanhã como ameaça aos interesses dos Estados Unidos. Recursos naturais e concorrência chinesa já aparecem no horizonte dessas preocupações. O Comando Sul ativou a Força-Tarefa Conjunta do Hemisfério Ocidental, criada, segundo o Pentágono, para coordenar operações militares norte-americanas com aliados e parceiros e responder rapidamente a crises em toda a região.

Ao mesmo tempo, o governo Trump anuncia a preparação de ações militares terrestres contra organizações classificadas como narcoterroristas na América Latina. No Equador, operações norte-americanas já ocorrem. A Colômbia autorizou a adoção do novo modelo em seu território. O discurso começa a adquirir músculos. A Doutrina Monroe foi uma declaração política. Está se transformando numa arquitetura diplomática, econômica, militar e de inteligência. E existe um precedente recente demais para ser ignorado.

<><> Foi assim que começou na Venezuela

Antes da invasão da Venezuela, Washington também falava em narcotráfico. Falava em cartéis. Falava em terrorismo. Falava em segurança dos Estados Unidos. Nicolás Maduro foi acusado de ligação com o narcotráfico. A pressão militar cresceu. Vieram as operações no Caribe. Depois veio a força. Em 3 de janeiro de 2026, forças norte-americanas entraram na Venezuela, sequestraram o presidente Nicolás Maduro e sua mulher Cilia Flores, arrancados de dentro do Palácio Miraflores, em Caracas, e os transportaram para os Estados Unidos. Continuam presos em alguma prisão de Nova York há sete meses. 

O presidente de um país latino-americano foi retirado de seu território por militares estrangeiros. E o próprio vídeo do Departamento de Estado divulgado na terça-feira, 4 de agosto, transforma a operação em exemplo histórico da nova política hemisférica, apresentando-a como sinal destinado aos demais países da região.

Não significa que o mesmo roteiro será automaticamente aplicado a outros países. Mas significa que o precedente existe. E que foi produzido há apenas sete meses. Por isso, quando Washington anuncia agora que pretende realizar operações militares terrestres contra “narcoterroristas” em outros países latino-americanos, é impossível não lembrar como começou a escalada venezuelana. A Venezuela mostrou até onde a nova doutrina pode chegar pela força. Cuba mostra outra face do mesmo poder.

<><> Cuba, a Gaza do hemisfério de Trump

Uma pequena ilha do Caribe atravessa uma das mais graves crises de sua história recente.

Falta combustível, medicamentos, alimentos. Falta tudo. Apagões chegam a vinte horas. Hospitais lutam para manter equipamentos funcionando. A falta de energia compromete o bombeamento de água, o transporte e a conservação dos alimentos. 

É diante desse quadro que surge uma pergunta desconcertante: Por que uma pequena ilha empobrecida continua sendo tratada como ameaça pela maior potência militar do planeta?

A situação tornou-se ainda mais grave depois da intervenção norte-americana na Venezuela. Durante anos, Caracas foi um dos principais fornecedores de petróleo de Cuba. Depois do sequestro de Maduro pelas forças armadas de Trump esse fluxo foi interrompido.

Sem petróleo suficiente, não falta apenas gasolina. Falta eletricidade. E, quando falta eletricidade, param bombas de água, refrigeração, transportes e equipamentos hospitalares. Cuba espera combustível. Mas os navios não podem chegam. Os Estados Unidos da América do Norte não permitem.  

Se a Venezuela foi a demonstração do poder militar norte-americano, Cuba tornou-se a demonstração do poder econômico. Uma mostra o que acontece quando Washington decide usar a força. A outra mostra o que pode acontecer quando se decide fechar o cerco. A mensagem é a mesma: “Este hemisfério é nosso.” Dizem e reptem Trump, Rubio, o Departamento de Estado dos Estados Unidos da América do Norte.

<><> E o Brasil?

É aqui que a história deixa de ser apenas latino-americana e chega diretamente às eleições brasileiras. O Brasil não é Venezuela. Não é Cuba. Não é Panamá. É a maior economia da América Latina.

O maior território da região. Um dos maiores produtores de alimentos do planeta. Possui água, petróleo, minerais críticos, terras raras, biodiversidade e uma base industrial que, embora enfraquecida, continua sendo incomparável na América do Sul. É membro fundador dos BRICS. Mantém relações estratégicas com a China. E pretende preservar uma política externa independente. Não por acaso, Brasília acompanha com preocupação a formação de um bloco regional militar articulado pelos Estados Unidos.

Jamil Chade já havia revelado, em janeiro, que a prioridade número um da política externa brasileira em 2026 seria evitar ingerências estrangeiras na eleição presidencial e impedir o isolamento regional do país. Segundo sua apuração, o governo brasileiro interpretava a nova estratégia norte-americana como tentativa de retomar o controle do hemisfério por meio de força, pressão econômica e acesso aos recursos naturais. Agora já não se trata apenas de uma previsão. A estrutura está montada.

Sempre houve pressão econômica. Inteligência. Operações políticas. Campanhas de influência. Sanções. Guerra informacional. A diferença de 2026 talvez esteja menos na existência da ingerência do que em sua visibilidade. Washington já não parece preocupado em escondê-la.

 O Departamento de Estado produz um vídeo. Recupera a Doutrina Monroe. Mostra a Venezuela e Cuba. Exalta a supremacia norte-americana. E conclui: “Este hemisfério é nosso.”

<><> Dois projetos diante das urnas

Neste sábado, 15 de agosto, começa oficialmente a propaganda eleitoral no Brasil. O primeiro turno será realizado em 4 de outubro. O segundo na terça-feira, 25 de outubro.  Dois projetos profundamente antagônicos chegam à disputa.

De um lado, Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição, defendendo soberania nacional, integração regional, multilateralismo, BRICS e a manutenção de relações com diferentes centros de poder mundial. 

Do outro, Flávio Bolsonaro, candidato do PL e representante de uma extrema direita brasileira profundamente identificada com a ultradireita internacional que hoje tem em Donald Trump e Marco Rubio suas principais referências. A campanha brasileira começa, portanto, em um momento extraordinário.

A Venezuela foi invadida. Cuba está sob asfixia. Os Estados Unidos montam uma estrutura militar e de inteligência para a América Latina. Washington proclama que sua dominância regional não será novamente questionada. 

<><> E o Brasil vai às urnas

A eleição presidencial de 2026 já não pode ser compreendida apenas como uma disputa doméstica entre dois candidatos ou dois campos políticos. Ela ocorre dentro de uma disputa muito maior sobre quem definirá o futuro deste continente.

Durante meses, perguntamos se o Brasil seria a joia da coroa. O país que ainda faltava para os Estados Unidos de Trump e Rubio completarem o cerco total à América do Sul. A pergunta está ultrapassada. O presidente dos Estados Unidos já decidiu que não há joia alguma a disputar. Para ele, todo o hemisfério ocidental já tem dono.

“A Venezuela é nossa. Cuba é nossa. A América Latina é nossa. O Brasil é nosso. Este hemisfério é nosso.” 

É o que dizem Trump e Rubio no vídeo preparado pelo Departamento de Estado para que eles reafirmassem o que pensam.

Em 4 de outubro, é chegada a hora e o exato momento de os eleitores brasileiros responderem nas urnas à pergunta que Washington resolveu fazer para nós:  O Brasil é de quem?

•        Flávio: A Missão. Por Ricardo Mezavila

O presidente do PSD, Gilberto Kassab, disse em uma reunião com políticos, que o Centrão está com Lula e que Flávio Bolsonaro já estaria derrotado pelo Presidente. O fato de nenhum Partido formar com a chapa do PL, contrariando a candidatura de seu pai Jair em 2022, traz uma mensagem muito clara de que Flávio Bolsonaro vai ter muita dificuldade durante a campanha.

Algo muito explosivo assombra os bastidores da candidatura de Flávio, que já seria do conhecimento de seus aliados e, que por conta disso, preferiram o afastamento para não prejudicar suas imagens em seus redutos eleitorais.

Não bastassem os áudios com Vorcaro, a possível lavagem de dinheiro no caso do filme Dark Horse, fotos com corruptos investigados, o próprio candidato do PL disse que teria um vídeo comprometedor que o levou a pedir desculpas públicas antecipadas à sua esposa.

Tem muito caroço debaixo desse angu, muitos cadáveres escondidos dentro dos armários de Flávio, e todo dia aparece algo para ser anotado em sua agenda negativa, como a informação falsa de que teria cursado Pós-graduação em Ciência Política na UFRJ.

Para tentar desviar de tantos problemas, Flávio usa a mentira como defesa. Mente o dia inteiro pelas redes sociais e, quando convidado, mente nos programas de entrevistas. Outra ‘arma’ que utiliza são as indefectíveis perguntas: E o Lula? E o Lulinha? E o PT?

Determinado a construir um factoide brilhante, como a facada do Adélio, Flávio tenta criar um clima de que estaria sendo perseguido pelo ‘sistema’. O fato da filiação ao Partido Missão, pode ter sido mais uma estratégia para reforçar essa ‘perseguição’. 

Pouco a pouco, sem saída, sem vislumbrar êxito em outubro, ele tem como bengala da esperança, a intervenção de Donald Trump nas eleições do Brasil, ou até uma possível ação extrema por parte dos EUA, que não podemos tratar como impossível.

 

Fonte: Por Gustavo Tapioca, em Brasil 247

 

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