Movimento antivacina: política,
desinformação e desafios à saúde pública
As
narrativas mobilizadas para justificar a não vacinação são diversas e a queda
das coberturas vacinais tem gerado preocupação entre gestores públicos,
profissionais da saúde e a sociedade em geral. Quais são os fatores que
contribuem para o fortalecimento do movimento antivacina, considerando sua
trajetória histórica, suas formas contemporâneas de disseminação e seus
impactos sobre a percepção pública acerca da vacinação?
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Introdução
Segundo
a pesquisa realizada pelo Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e
Políticas Públicas (DesinfoPop/FGV, 2025), o Brasil concentra 40% de todo o
conteúdo antivacina circulado na América Latina e no Caribe. O dado é
particularmente relevante diante da redução observada nas coberturas vacinais
nos últimos anos e suscita reflexões sobre os fatores que têm contribuído para
o aumento da hesitação vacinal e da disseminação de desinformação relacionada
às vacinas. De acordo com o levantamento, o país foi responsável, na última
década, pela circulação de mais de 580 mil conteúdos antivacina em comunidades
online.
As
narrativas mobilizadas para justificar a não vacinação são diversas. O estudo
identificou alegações que associam as vacinas a supostos riscos como “morte
súbita”, “envenenamento”, “autismo” e até mesmo alterações no DNA humano. Em
geral, esses conteúdos baseiam-se em informações retiradas de contexto,
interpretações equivocadas de eventos adversos raros ou afirmações sem respaldo
científico. Apesar disso, alcançam um público expressivo e contribuem para a
construção de percepções negativas sobre a imunização. O mapeamento realizado
pelos pesquisadores analisou mais de 81 milhões de mensagens publicadas entre
2016 e 2025 em 1.785 comunidades digitais distribuídas por dezenas de países.
Embora
a resistência às vacinas não seja um fenômeno novo, a expansão das redes
sociais digitais e a crescente circulação de conteúdos desinformativos
conferiram nova dimensão ao problema. No Brasil, esse processo ganhou
contornos particulares durante e após a pandemia de Covid-19, quando debates
científicos passaram a ser fortemente atravessados por disputas políticas e
ideológicas.
Nesse contexto, compreender a ascensão do movimento antivacina e seus impactos
sobre a cobertura vacinal torna-se fundamental para a formulação de estratégias
de comunicação em saúde e para o fortalecimento das políticas públicas de
imunização.
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Contexto internacional: origem e reconfiguração dos movimentos antivacina
Desde a
Antiguidade, diferentes técnicas foram desenvolvidas para combater enfermidades
e reduzir seus impactos sobre as populações. A imunização por meio da
inoculação vacinal, entretanto, é uma prática relativamente recente na história
da humanidade. Em linhas gerais, a vacinação consiste na introdução de um
antígeno no organismo com o objetivo de estimular o sistema imunológico a
produzir defesas contra um agente infeccioso específico. No caso da varíola,
uma das doenças mais letais e contagiosas já registradas, observava-se que
indivíduos que sobreviviam à infecção adquiriam proteção contra novas
contaminações. A partir dessa constatação, surgiram práticas que buscavam
induzir artificialmente essa imunidade.
Uma das
experiências mais antigas de imunização foi a variolação, desenvolvida na China
por volta do século X. O método consistia na utilização de material retirado
das lesões de pessoas infectadas, geralmente reduzido a pó, para provocar uma
forma mais branda da enfermidade e, consequentemente, gerar proteção futura.
Embora arriscada pelos padrões atuais, a técnica representou um importante
avanço no combate à doença.
Oito
séculos mais tarde, os estudos do médico britânico Edward Jenner possibilitaram
o desenvolvimento das primeiras vacinas modernas. Ao observar que trabalhadores
rurais que haviam contraído cowpox (varíola bovina) pareciam
estar protegidos contra a varíola humana, Jenner formulou a hipótese de que a
exposição à doença bovina poderia conferir imunidade. Para testá-la, em 1796,
inoculou em um menino de oito anos material proveniente de lesões de cowpox.
O garoto desenvolveu apenas sintomas leves e, após sua recuperação, foi exposto
ao vírus da varíola humana. Como não apresentou a doença, Jenner concluiu que a
infecção prévia pela varíola bovina havia conferido proteção contra a forma
mais grave da enfermidade, estabelecendo as bases da vacinação moderna. É
importante destacar que esse experimento ocorreu em um contexto histórico no
qual ainda não existiam os protocolos éticos e científicos que atualmente
orientam pesquisas envolvendo seres humanos. Hoje, o desenvolvimento de vacinas
é submetido a rigorosas etapas de pesquisa pré-clínica e clínica, além da
avaliação de comitês de ética e agências reguladoras, antes de qualquer
aplicação na população.
Um
estudo publicado em 2024 apontou que, desde 1974, a vacinação evitou
aproximadamente 154 milhões de mortes em todo o mundo,
incluindo 146 milhões de mortes entre crianças
menores de cinco anos, das quais 101 milhões eram bebês com menos de
um ano de idade.
Ainda assim, observa-se o crescimento de grupos resistentes à vacinação, cujas
motivações envolvem fatores religiosos, culturais, políticos e sanitários.
Embora a desconfiança em relação às vacinas não seja um fenômeno recente, um
marco importante do antivacinismo contemporâneo ocorreu em 1998, quando o
médico britânico Andrew Wakefield publicou um estudo na revista
científica The Lancet sugerindo uma associação entre a vacina tríplice viral
(sarampo, caxumba e rubéola) e o desenvolvimento do autismo em crianças.
Posteriormente,
investigações demonstraram que os resultados haviam sido manipulados e que não
existiam evidências científicas que sustentassem tal relação. Em decorrência
disso, o artigo foi retratado pela revista e
Wakefield perdeu seu registro profissional. Apesar da ampla refutação científica
do estudo, sua repercussão contribuiu para fortalecer discursos antivacina em
diferentes países, alimentando dúvidas sobre a segurança dos imunizantes e
favorecendo a disseminação de informações falsas que continuam circulando,
especialmente em ambientes digitais.
Embora
tenha ganhado maior visibilidade nas últimas décadas em razão da globalização e
da ampliação dos meios de comunicação, o movimento antivacina – também
conhecido como antivax – possui origens muito anteriores ao
contexto contemporâneo. As primeiras manifestações organizadas de oposição à
vacinação surgiram ainda no século XIX, em resposta às políticas de imunização
obrigatória implementadas por alguns governos.
Na
Inglaterra, a vacinação contra a varíola tornou-se obrigatória pela primeira
vez em 1853, por meio da Lei da Vacinação (Vaccination Act), que exigia
a imunização de crianças nos primeiros meses de vida. Entretanto, a
implementação da medida enfrentou forte resistência de parcelas da população,
que questionavam tanto a eficácia e a segurança das vacinas quanto a
legitimidade da intervenção estatal sobre decisões individuais. As dificuldades
de execução da política contribuíram para sucessivas flexibilizações da
legislação, culminando na criação da cláusula de “objeção de consciência” em
1898 e na ampliação das possibilidades de isenção em 1907. Nesse contexto,
surgiram organizações dedicadas à contestação da vacinação obrigatória. Entre
elas, destaca-se a Sociedade de Londres para a Abolição da Vacinação
Obrigatória, fundada em 1880 e posteriormente renomeada como Liga Nacional
Antivacinação (National Anti-Vaccination League). A entidade chegou a
reunir mais de 100 filiais e cerca de 10 mil membros, tornando-se uma das
primeiras organizações formalmente estruturadas em oposição às políticas de
imunização.
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Breve histórico da vacinação e resistência vacinal no Brasil
Apesar
do tema estar em alta atualmente, a resistência vacinal é um assunto já
conhecido de muitas décadas por pesquisadores e profissionais da saúde – e
nosso primeiro desafio, foi a varíola. Em 1804, uma figura do Brasil
Imperial surge como protagonista na entrada de vacinas em território nacional:
Marquês de Barbacena.
Militar, diplomata e político, o marquês de Barbacena (1772-1842) articulou
junto à monarquia o transporte de escravizados já imunizados – outrora chamado
por “transporte de braço” –, cuja imunização se dava por meio de uma cadeia de
transmissão: era realizada a aplicação proposital do vírus animal em uma
pessoa, que depois era extraído e utilizado em outra pessoa saudável. Inicialmente, a
imunização era focalizada apenas na Corte Real. Somente em 1837, o imunizante
passa a ser obrigatório para crianças e, em 1846, para adultos.
No
entanto, tal obrigatoriedade não teve resultados efetivos, e é dentro deste
cenário que surge a Revolta da Vacina, em 1904, em reação ao
posicionamento do sanitarista Oswaldo Cruz, que foi reforçado
por meio do texto de lei de 31 de outubro de 1904, pelo Congresso Nacional,
atribuindo à polícia o poder de forçar a entrada de agentes sanitários nas
residências para que fosse realizada a aplicação do imunizante. Apesar da
preocupação das autoridades em combater a epidemia da varíola, a população não
reagiu positivamente com as medidas estabelecidas e, em 13 de novembro do mesmo
ano, ergueu-se uma forte rebelião popular.
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A cobertura vacinal no Brasil em queda: o problema contemporâneo
Na
década de 1970, é institucionalizado o Programa Nacional de Imunização (PNI),
política pública que foi crucial na amplificação de todo o sistema vacinal.
Nesse mesmo período, foram realizadas campanhas de vacinação contra o sarampo e
a meningite meningocócica. Dos anos 70, até o início dos anos 2000, a cobertura
vacinal teve seu “período de ouro”. Segundo dados do Sistema de
Informação de Avaliação do Programa Nacional de Imunizações (SIAPI), a campanha
contra a Poliomielite obteve na 1ª fase 100.7% de cobertura vacinal no ano de
2002. Influenza sazonal em idosos, 99,9% de cobertura.
No
entanto, a partir de 2016, inicia-se um processo de queda acentuada da
cobertura, especialmente na imunização infantil: a taxa de cobertura da tríplice
viral, por exemplo, que alcançava 96% das crianças em 2015, baixou para 84% em
2017,
abrindo assim uma brecha para novas janelas infecciosas no país.
O que
antes era passado só “de boca em boca”, entre células
resistentes à vacina, encontrou na era das redes digitais um “espaço para
chamar de seu”. Mais do que ampliar seu alcance, extremistas puderam alcançar
novos horizontes e “argumentações” – ainda que terrivelmente descabidas,
como a já citada associação entre vacina X autismo – para justificarem
seus atos. Trazendo para o contexto da pandemia, entre 2020 e 2023, o Brasil
vivenciou uma revolta novamente, tendo novas e muito mais amplas redes de disseminação
de ideias, mas agora, contando também com apoio dos próprios agentes do alto
escalão executivo – a começar pelo próprio presidente da época, Jair Messias Bolsonaro, que passou a ser
visto como o “cabeça” do movimento desde então: “Por que
obrigar ‘criança’ a tomar vacina? Qual a chance de uma criança, por exemplo,
contrair o vírus e ir a óbito? […] Parece, não quero afirmar, que é o lobby da
vacina. […] Os interesses das indústrias farmacêuticas que estão faturando
bilhões com a vacina. Será? Não tem cabimento. Segundo vejo em estudos, eu
estou falando isso aqui, estudos que quem já contraiu o vírus e se curou,
obviamente. [Para essas pessoas] de nada vale a vacina, mas continua a pressão”
– Trecho retirado de entrevista coletiva, em 14 de outubro de 2021
Em
outro episódio, em 17 de dezembro de 2020, o ex-presidente ironiza: “Se você
virar um jacaré, problema de ‘você’. Se você virar super-homem, se nascer barba
em alguma mulher aí ou algum homem começar a falar fino, eles não vão ter nada
a ver com isso. O que é pior: mexer no sistema imunológico das pessoas. Como é
que você pode obrigar alguém a tomar uma vacina que não se completou a 3ª fase
ainda, que está na experimental?”
Mais do
que nunca, o processo de vacinação no Brasil passa a assumir tom político. A
República Federativa do Brasil deixa de ser um Federalismo de
Cooperação, e passa a ser um Federalismo de Confrontação, em que a
compra de vacinas – que é uma competência intrinsecamente federal, é
fragmentada de tal modo que entes federativos se unem em consórcios para
viabilizar e negociar compras por si próprios. Resultado? Em 2022, o Instituto Oswaldo Cruz publicou um
artigo apontando dados sobre os índices de cobertura nacional: “De acordo com
dados do Ministério da Saúde, a cobertura vacinal da população vem despencando,
chegando em 2021 com menos de 59% dos cidadãos imunizados. Em 2020, o índice
era de 67% e em 2019, de 73%. O patamar preconizado pelo Ministério da Saúde é
de 95%.”
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O movimento antivacina no Brasil: importação ou reconfiguração local?
Diante
desse cenário, faz sentido questionar se a pauta de hesitação vacinal acaba
sendo um fenômeno próprio do contexto brasileiro ou se uma mera reprodução
daquilo que é visto país afora. O que o estudo do Laboratório de Estudos sobre
Desordem Informacional e Políticas Públicas mostra é que esse movimento,
apesar de ter ganhado força com ela, não foi exclusivo da pandemia do
coronavírus. Na verdade, trata-se de um novo contexto em que o conteúdo dito e
comprovado pela ciência precisa competir com narrativas emocionais e religiosas
pela percepção da realidade.
Diante
disso, a desinformação antivacina na América Latina e no Caribe contribui para
a formação de um sistema narrativo, emocional e econômico amparado por
diferentes atores que têm suas falas e interpretações retroalimentadas, uma vez
que
“[as
pessoas] encontram ecos nas palavras e se cria um núcleo de pessoas que sabem
pouco sobre nada e reafirmam as suas crenças e teorias estapafúrdia, uns nos
outros” - Cláudio Paixão, doutor em psicologia social e professor da Escola de
Ciência da Informação da UFMG, em entrevista para o Viva Bem Uol).
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Considerações finais
Antes
de qualquer coisa, é de suma importância mencionar que todas as vacinas
distribuídas pelo SUS possuem sua eficácia e segurança comprovadas e
validadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), além de
seguirem as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS), assim como as diretrizes do
Ministério da Saúde. Segundo o órgão, em notícia publicada em outubro de 2025:
“Os imunizantes só são incorporados ao Sistema Único de Saúde (SUS) após
análise rigorosa que considera, entre outros critérios, segurança, eficácia e
custo-efetividade, à luz das necessidades de saúde pública. Todos os produtos
utilizados no país são submetidos a controle de qualidade pelo Instituto
Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS/Fiocruz).
Além
disso, a segurança das vacinas e demais imunobiológicos é acompanhada de forma
contínua e sistemática por meio da farmacovigilância pós-comercialização,
realizada de maneira articulada entre os laboratórios produtores, o Programa
Nacional de Imunizações (PNI), a Anvisa, o INCQS, as Secretarias de Saúde e os
serviços e profissionais de saúde. Essa coordenação garante a proteção e a
confiança da população brasileira nas ações de imunização.”
O
Brasil também foi impactado pela disseminação de discursos antivacina
promovidos por diferentes atores, tanto institucionais quanto não
institucionais, muitos deles influenciados por narrativas e movimentos
internacionais. Frequentemente, esses discursos buscaram respaldo na “liberdade
de expressão” para questionar evidências científicas e políticas públicas de
imunização, contribuindo para o aumento da hesitação vacinal no país. Apesar
disso, os indicadores mais recentes apontam uma recuperação gradual das
coberturas vacinais. As vacinas BCG e contra a Hepatite B, por exemplo, voltaram a ultrapassar a cobertura de
95% de recém-nascidos em 2025.
Em um
mundo tão digital, surge a necessidade de se “saber jogar o jogo”,
identificando oportunidades para além dos canais habituais de comunicação
institucional, até porque, convenhamos: as chances de visibilidade são
muito maiores se uma propaganda é feita em uma rede social, do que em um site
propriamente dito. Em 2022, foi criada uma aba no site do Governo Federal,
para uma matéria chamada Fato ou Fake? , para
confirmar ou desmentir algumas afirmações sobre temas como agro e combate à
crimes ambientais. Se essa linha editorial-institucional se expandisse para
além do site e fossem integradas às políticas de vacinação, como uma forma de
propaganda – ao mesmo tempo em que informa com embasamento científico –,
reforçando a necessidade das vacinações em todas as fases da vida, poderia
acarretar em uma melhora aos índices e uma expansão de público. Inclusive, o
Ministério da Saúde conta com um elemento que poderia ser muito bem
aproveitado, ainda mais nas propagandas sobre vacinação infantil: o Zé Gotinha!
Figura criada justamente para alcançar este público-alvo, mas que pouco tem
aparecido nos últimos tempos em campanhas de vacinação.
É um
caminho longo a ser trilhado, e de muitas desinformações a serem
combatidas. Mas é em tijolo por tijolo, política por política, que se chega
mais próximo da retomada dos índices ideais de cobertura vacinal, de uma
população imunizada, protegida e informada.
Fonte:
Por Isabella Tardelli Maio e Giovanna Vitor, no Le Monde

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