Exercícios
rápidos e intensos podem reduzir riscos à saúde, dizem estudos
Atividades simples e de rápida execução
reduzem o risco de mortalidade e podem fazer mais para a saúde do que horas de
exercício físico, sugerem dois estudos publicados nesta semana. Um deles,
divulgado nesta quinta (13/08), na revista Cell Reports, mostrou que apenas
três minutos de corrida em alta velocidade provocam mais alterações
fisiológicas benéficas do que 90 minutos de ciclismo moderado. Outra pesquisa,
que saiu no American Journal of Cardiovascular Drugs, associou subidas
frequentes de escadas a uma probabilidade 60% menor de óbitos por todas as
causas.
“É
sabido que diferentes intensidades de exercício estimulam adaptações distintas
em todo o corpo”, diz Luke Olsen, pós-doutorando na Universidade de Rockfeller,
nos Estados Unidos, que conduziu o estudo sobre o tiro ou sprint — deslocamento
executado em esforço e intensidade altíssimos, por um período curto. Segundo
Oslen, porém, ainda se sabe pouco sobre os mecanismos moleculares associados a
um treino rápido, porém vigoroso.
Para
entender melhor a resposta fisiológica aos sprints, os pesquisadores compararam
diferentes intensidades de exercício e descobriram que seis tiros de 30
segundos na esteira, totalizando três minutos, alteram quase um quarto das
proteínas medidas imediatamente depois. Já o ciclismo moderado e contínuo por
uma hora e meia modificou menos de 25% das substâncias medidas. A corrida
moderada teve desempenho melhor, mas inferior ao do treino curto e vigoroso.
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Metabólicos
Segundo
Oslen, a corrida de velocidade desencadeou alterações em mais de 200
metabólitos. Também causou um aumento imediato de proteínas envolvidas no
crescimento de vasos sanguíneos, na remodelação de tecidos e na sinalização
hormonal. “Algumas dessas substâncias parecem entrar na corrente sanguínea por
meio de um processo acelerado de sinalização celular conhecido como liberação
do ectodomínio — em vez de serem sintetizadas e secretadas, porções de
proteínas já presentes na superfície celular foram clivadas e liberadas
rapidamente na circulação”, explica.
Uma das
constatações dos pesquisadores foi a de que as células armazenadoras de gordura
— adipócitos — presentes no sangue coletado após a corrida de velocidade
passaram por alterações significativas na atividade gênica. Os sprints
modificaram, de forma benéfica, o processamento de combustível celular, a
resposta aos hormônios e a percepção da disponibilidade de nutrientes.
Isso,
contudo, não aconteceu no exercício moderado, que produziu uma resposta mais
modesta. Somente três horas após a conclusão da atividade na bicicleta, os
pesquisadores detectaram na corrente sanguínea uma onda significativa de ácidos
graxos e proteínas derivadas do fígado, que normalmente aparecem após as
demandas do exercício de resistência. As células adiposas também exibiram menos
alterações na atividade dos genes.
Posteriormente,
os autores do estudo compararam as proteínas produzidas em resposta à atividade
física com indicadores de saúde de mais de 53 mil pessoas, disponíveis em um
banco de dados do Reino Unido. Eles descobriram que muitas dessas substâncias
estavam associadas a um menor risco de doenças cardiovasculares e metabólicas.
“Nosso
trabalho sugere que as exercinas – proteínas e metabólitos liberados na
corrente sanguínea após o exercício – são altamente sensíveis à intensidade do
exercício e podem ser os principais mediadores dos efeitos benéficos à saúde de
breves períodos de exercício vigoroso”, diz Cohen. “O que é empolgante aqui é
que apenas alguns minutos de exercício intenso podem desencadear uma resposta
significativa.
Autor
do livro Desinflamar para viver melhor (editora Actual), o médico clínico e
intensivista William Rutzen, pós-graduado em nutrologia, lembra, porém, que não
são apenas os treinos intensos que beneficiam o organismo. “Os músculos não
servem apenas para gerar movimento, eles funcionam como órgãos metabólicos
extremamente ativos. A melhor atividade física é aquela em que a pessoa
consegue manter ao longo do tempo”, acredita. “Caminhar regularmente já produz
efeitos importantes na redução da inflamação e na melhora da saúde metabólica”,
ressalta.
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Degraus
No
Reino Unido, pesquisadores da Universidade de East Anglia e do Hospital
Universitário de Norfolk e Norwich também defendem que não é preciso muito
tempo de atividade física para reduzir o risco de mortalidade por doenças
cardiovasculares. Eles descobriram que pessoas que trocam o elevador pelos
degraus regularmente têm 39% menos chance de óbito por problemas do coração e
por acidente vascular cerebral (AVC), em comparação àquelas que evitam esse
esforço.
Além
disso, a probabilidade de morrer precocemente — antes dos 70 anos — por
qualquer causa foi 24% menor. Subir escadas também reduziu o risco de
desenvolvimento de doenças cardiovasculares graves, incluindo infarto e
insuficiência cardíaca. “As doenças cardiovasculares são a principal causa de
morte em todo o mundo, mas podem ser evitadas por um estilo de vida saudável.
Subir escadas é uma forma prática e, muitas vezes, negligenciada de incorporar
atividade física à vida diária”, comentou, em nota, o principal autor do
estudo, Vassilios Vassiliou.
Segundo
o professor de East Anglia e Norfolk/Norwich, o objetivo do estudo foi
compreender como uma atividade cotidiana como subir escadas poderia salvar
vidas. A equipe fez uma revisão de 1,9 mil estudos, contendo dados de 480 mil
pessoas, acompanhadas, em média, por 14 anos. Os participantes eram saudáveis
ou tinham histórico de problemas cardiovasculares, com idade variando entre 35
e 84 anos.
Ajuste
Após o
ajuste de fatores que poderiam influenciar o resultado, os pesquisadores
observaram um risco menor de mortalidade por doenças cardiovasculares e por
todas outras causas 60% menor entre os que subiam escadas com frequência. “É
uma boa opção para pessoas que não têm muito tempo ou fácil acesso a
exercícios”, observa Vassiliou.
“Subir escadas exige mais do sistema
cardiovascular do que caminhar em superfície plana. Isso promove um aumento do
condicionamento físico e contribui para o fortalecimento do coração,
principalmente quando feito de forma regular”, explica o cardiologista Marcelo
Bergamo, de São Paulo. O médico lembra, contudo, que é preciso respeitar os
limites do corpo: pessoas com histórico de doenças cardiovasculares,
sedentarismo avançado ou sintomas como falta de ar e dor no peito devem buscar
avaliação médica antes de adotar o hábito.
>>> Três perguntas para Vanger Vinícius Ferreira,
cardiologista do Hospital Mantevida
• Quais mecanismos podem explicar os
benefícios de subir escadas com frequência?
Subir
escadas é uma atividade de intensidade relativamente alta, mesmo quando
realizada por poucos minutos. Ela aumenta a frequência cardíaca, melhora a
circulação e faz com que o coração e os músculos trabalhem de forma mais
eficiente. Com a prática regular, podemos ter melhora do condicionamento
físico, da pressão arterial, da capacidade dos vasos sanguíneos e do controle
da glicose e da resistência à insulina. Além disso, subir escadas fortalece
principalmente a musculatura das pernas.
• Os autores sugerem que até seis lances
de escada por dia, cerca de 60 degraus, poderiam trazer o maior benefício
observado. É suficiente para os sedentários?
Para
uma pessoa sedentária, 60 degraus por dia já representam um ótimo começo. O
mais importante, principalmente para quem está parado, é sair da inatividade
física. Pequenas mudanças na rotina podem fazer diferença. Mas não devemos
interpretar isso como se 60 degraus fossem suficientes para substituir a
atividade física regular. O ideal é começar com o que a pessoa consegue fazer
e, aos poucos, aumentar a quantidade e a intensidade. Caminhada, corrida,
bicicleta, musculação ou outras atividades também devem fazer parte de uma
rotina saudável. O exercício não precisa começar como um treino intenso; ele
pode começar simplesmente pela decisão de usar mais as escadas no dia a dia.
• Quem tem hipertensão, doença cardíaca,
falta de ar ou está muito sedentário deve tomar algum cuidado antes de começar
a subir escadas?
Sim.
Quem está muito sedentário deve começar devagar e aumentar o esforço progressivamente. Subir escadas pode exigir
bastante do sistema cardiovascular,principalmente quando a pessoa tenta fazer
isso rapidamente. Para quem tem hipertensão, o ideal é que a pressão esteja
controlada. Pessoas com doença cardíaca conhecida ou que apresentam falta de
ar, dor no peito, tontura, palpitações ou desmaio durante o esforço devem
conversar com o médico antes de iniciar uma atividade mais intensa. Não existe
uma quantidade de exercício que seja boa para todo mundo da mesma maneira. O
maior erro é achar que, se não podemos fazer uma hora de academia, então não
vale a pena fazer nada. Vale, sim. Cada oportunidade de se movimentar conta — e
a escada pode ser um ótimo começo.
Fonte:
Correio Braziliense

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