O
canalha profissional
Cafajeste
ou canalha? No mundo profissional, a diferença aparece quando os interesses
mudam. Durante muito tempo, usei “cafajeste” e “canalha” quase como sinônimos.
Hoje, não uso mais. Porque a minha experiência pessoal, profissional e
empresarial me ensinou que existe uma diferença importante entre esses dois.
O
cafajeste costuma ser mais previsível. Ele quer levar vantagem, promete mais do
que consegue cumprir, exagera suas capacidades, foge de responsabilidades e,
muitas vezes, desaparece quando a conta chega. No amor, pode colecionar
conquistas. Nos negócios, pode vender aquilo que não consegue entregar. No
trabalho, pode apropriar-se de uma ideia alheia ou aparecer apenas na hora de
receber os méritos.
É
desagradável? Sim. Pode causar prejuízo? Evidentemente. Mas existe algo quase
rudimentar em seu comportamento: ele quer a vantagem imediata.
O
canalha é diferente. A canalhice exige mais elaboração. O canalha precisa
compreender pessoas. Precisa observar comportamentos, identificar necessidades,
reconhecer vulnerabilidades, mapear interesses e construir relações suficientes
para conseguir aquilo de que precisa. E talvez seja justamente por isso que as
relações construídas por canalhas sejam tão rasas. Não necessariamente porque
duram pouco. Algumas duram anos. São rasas porque não existe profundidade onde
as pessoas são tratadas como instrumentos.
No
ambiente profissional, isso pode ser particularmente difícil de perceber. São
meses de reuniões. Horas de conversas. Cafés. Almoços. WhatsApps. Projetos
construídos conjuntamente. Problemas resolvidos. Telefonemas fora do horário.
Apresentações preparadas às pressas. Informações compartilhadas. Conhecimento
transferido. Confidências profissionais. Estratégias discutidas. Decisões
tomadas em conjunto.
A
sensação é de que, ao longo do tempo, uma relação profissional foi construída.
Mas nem sempre foi. Às vezes, enquanto uma pessoa estava construindo confiança,
a outra estava construindo acesso. Acesso ao conhecimento. Acesso aos clientes.
Acesso às informações. Acesso aos processos. Acesso aos contatos. Acesso à
reputação. Acesso àquilo que, naquele momento, precisava para avançar.
Essa
talvez seja uma das formas mais sofisticadas da canalhice profissional: simular
profundidade para obter utilidade. Porque o canalha profissional sabe que
algumas portas não são abertas por contratos. São abertas por confiança. E
confiança leva tempo.
Por
isso ele participa das reuniões, concorda, demonstra interesse, pergunta,
aproxima-se, cria familiaridade, faz elogios, reconhece competências,
estabelece pequenas alianças e permite que o outro acredite que existe
reciprocidade naquela relação.
Até o
momento em que os interesses mudam ou alcançam seus objetivos. É aí que tudo
fica claro! Aquela relação que parecia construída durante meses pode
desaparecer em horas em uma reunião. O profissional que era “fundamental” deixa
de ser mencionado. A pessoa cuja opinião era solicitada constantemente deixa de
ser consultada. A ideia construída conjuntamente passa a ter um único autor. O
conhecimento recebido vira competência própria. Os contatos apresentados
tornam-se contatos diretos. O trabalho realizado desaparece da narrativa.
E, em
alguns casos, o canalha faz algo ainda mais sofisticado: reescreve a história.
Porque não basta utilizar pessoas. É necessário também contar a história como
lhe convém. Por isso, subitamente, aquilo que foi importante “nem era tão
importante assim”. A contribuição que foi solicitada durante meses “não fez
tanta diferença”.
A
pessoa que participou de dezenas de reuniões “praticamente não participou”. O
acordo que todos conheciam “nunca foi exatamente um acordo”. E aquilo que foi
combinado passa a depender de uma interpretação conveniente. É nesse momento
que aparece o canalha.
Porque
competência pode ensinar alguém a negociar. Experiência pode ensinar alguém a
identificar oportunidades. Inteligência pode ensinar alguém a compreender
pessoas. Mas caráter determina o que alguém faz com tudo isso.
O
canalha profissional pode ser brilhante. Pode ser extremamente competente. Pode
ter excelente currículo. Pode dominar a linguagem corporativa. Pode falar sobre
ética, liderança, propósito, pessoas, parceria, confiança e valores. Pode
inclusive ser admirado. Porque canalhice não é necessariamente ausência de
habilidade social. Muitas vezes, depende dela. O problema não está na
incapacidade de compreender relações humanas. Está em compreendê-las
suficientemente bem para utilizá-las.
E é por
isso que existe uma diferença enorme entre networking e instrumentalização de
pessoas. Networking pressupõe reciprocidade. Instrumentalização pressupõe
utilidade. Na primeira relação, eu reconheço que existe alguém do outro lado.
Na segunda, existe apenas aquilo que essa pessoa pode me oferecer. Enquanto ela
oferece, há proximidade. Quando deixa de oferecer, há distância.
E
talvez seja essa a maior evidência da superficialidade emocional de um canalha:
ele não constrói vínculos. Constrói utilidades. Por isso suas relações podem
parecer intensas sem jamais serem profundas. Há presença, mas não compromisso.
Há proximidade, mas não lealdade. Há discurso, mas não reciprocidade. Há
interesse, próprio!. Há meses de convivência, mas nenhum verdadeiro vínculo.
Porque
profundidade exige algo que o canalha evita: responsabilidade pelo impacto que
causa no outro. E isso vale para relações amorosas, comerciais e profissionais.
Quando alguém é apenas um recurso, torna-se perfeitamente possível utilizá-lo e
depois descartá-lo sem conflito moral.
Talvez
por isso algumas pessoas consigam atravessar anos deixando atrás de si
ex-sócios, ex-funcionários, ex-parceiros, fornecedores, clientes, amigos e
relacionamentos contando histórias surpreendentemente parecidas e se
acostumando com a perda.
Mudam
os personagens. Mudam os ambientes. Muda o contexto. Mas o método permanece.
Aproximação. Confiança. Utilidade. Apropriação. Distanciamento.
E,
finalmente, uma nova narrativa na qual o canalha quase sempre aparece como
vítima, como inocente ou simplesmente como alguém que “tomou uma decisão
profissional”.
Mas
decisões profissionais também revelam caráter. Principalmente quando ninguém
está olhando. Principalmente quando não existe contrato obrigando.
Principalmente quando seria possível tirar vantagem. Caráter aparece exatamente
no espaço entre aquilo que eu posso fazer e aquilo que eu escolho não fazer
porque seria desleal com alguém.
No
ambiente profissional, aprendi que competência técnica é importante, currículo
é importante, experiência é importante. Mas existe algo que nenhuma
certificação consegue substituir: caráter. Porque a incompetência pode ser
corrigida com treinamento. A inexperiência pode ser corrigida com tempo. Um
erro pode ser corrigido com aprendizado.
Mas
canalhice não é falta de conhecimento. É escolha. E talvez essa seja a
diferença essencial entre cafajestes e canalhas. O cafajeste olha primeiro para
aquilo que pode ganhar. O canalha olha para você, entende exatamente o que você
pode perder e, ainda assim, segue em frente se a sua perda favorecer o
interesse dele.
Por
isso, seja no amor, numa amizade, numa empresa ou numa mesa de negociação,
aprendi a observar menos o discurso e muito mais o comportamento quando os
interesses entram em conflito. Porque é justamente nesse momento que as pessoas
deixam de mostrar aquilo que gostariam que pensássemos sobre elas. E começam a
mostrar quem realmente são.
Fonte:
Por Fabiana Serra, em A Terra é Redonda

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