segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Despertar a indignação contra a barbárie da direita

Pesquisas, sobretudo em anos eleitorais, sempre tentam traçar o perfil ideológico do povo brasileiro. Numa delas, realizada pelo Datafolha nos dias 17 e 18 de junho deste ano, em 139 municípios, 44% dos 2.004 eleitores ouvidos declararam-se de direita; 39% identificaram-se com a esquerda ou a centro-esquerda; e 17% disseram-se de centro.

Sem entrar no mérito de suas metodologias – se são rigorosas, direcionadas, viciadas ou sérias – o cruzamento de seus resultados com o discurso cotidiano dos eleitores revela certa confusão sobre os próprios conceitos de esquerda e direita.

Na autodefinição ideológica dos brasileiros cabe quase tudo. Há quem se declare de direita por considerar-se “gente direita”; ou “Gente de direita é quem faz as coisas direito”. Há também quem associe a esquerda ao que é errado, torto ou mau: “Tem que ensinar a criança a escrever com a mão certa”; “Canhoto tem parte com o demônio”; “Tem que começar com o pé direito!”

São concepções que guardam enorme distância — não apenas temporal — daquele setembro de 1789, na França quando, durante uma reunião da Assembleia Constituinte, os deputados se dividiram fisicamente no salão, de acordo com suas posições diante do poder do rei Luís XVI. Os defensores da monarquia e da ordem tradicional ocuparam os lugares à direita do presidente da mesa; os reformistas e radicais, que pretendiam limitar o poder real, sentaram-se à esquerda.

A partir daí, esquerda e direita passaram a designar posições políticas distintas. À esquerda associaram-se, historicamente, a busca da igualdade social, a justiça distributiva e a transformação das estruturas econômicas e sociais. À direita, a defesa da liberdade de mercado, da propriedade privada, da hierarquia social e da preservação de valores e instituições tradicionais.

Durante muito tempo, no Brasil, poucos se assumiam publicamente como sendo de direita. Hoje, a direita saiu do armário, assumiu-se.   

E, em meio a uma crise do capital, em que a financeirização, benfazeja aos especuladores gera massas de humilhados (sem emprego, sem comida, sem saúde e escolarização), há um   processo paralelo de revitalização, pela direita recém-assumida, do projeto de desmonte do Estado e de esvaziamento de suas funções sociais. 

Agora, extremada, essa direita grosseira, sem compostura, emerge de maneira agressiva, ostentando sua identidade política, enquanto mantém os pés sobre o pescoço do povo que sustenta suas ‘aleivosias’, palavra perfeita para designar esse modo de fazer política com atos de traição, perfídia e deslealdade, praticados sob falsas demonstrações de amizade, diz o dicionário.

Abaixo dos muito ricos, há uma espécie de força-tarefa, intermediária, encarregada de difundir e legitimar seus golpes: setores do sistema de Justiça e da imprensa corporativa, jornalistas e articulistas, certos pastores e padres, lobistas e outros agentes que, quando não ocupam diretamente os governos, trabalham para garantir a permanência dos interesses da elite no poder.

Há um atuante aparato externo à política institucional para defender a financeirização da economia, em detrimento da industrialização do País e da construção de um Brasil soberano.

 Essa fatia de brasileiros, inundados por uma mentalidade colonial é ‘desindentificada’ da ideia de que o Brasil mestiço de pretos, pardos, brancos, indígenas, de quilombolas, ribeirinhos deva ter acesso a políticas públicas e ao crescimento como pessoas, mediante acessos à ciência e à tecnologia. 

Neste momento, que bom seria que os candidatos e candidatas progressistas também saíssem do armário, não apenas para se defenderem e defenderem seus projetos, mas para colocar os pingos nos iis e disputar, palavra por palavra, os significados das políticas da direita.

Para além da apresentação de programas de governo e projetos legislativos, já passa   da hora de revelar aos eleitores quem são, a quem servem e quais interesses defendem os candidatos e candidatas da direita e da extrema direita.

Assim, parte significativa da campanha – esse momento privilegiado de disputa de projetos – mostrará ao povo aquilo que historicamente se esconde por trás de discursos sobre Deus, família, moral, pátria, bons costumes e combate à corrupção.

Uma ação enérgica, decidida, para evitar eleger, mais uma vez e talvez em proporções ainda maiores, congressos nacional, câmaras estaduais e distrital dominados por representantes de interesses antagônicos aos direitos da maioria da população. 

É preciso fazer do art. 3º da nossa Constituição – que não foi ainda revogado – um mantra, seja em discursos, panfletos ou camisetas, em bandeiras ou em faixas.

Art. 3º- Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:

I – construir uma sociedade livre, justa e solidária;

II – garantir o desenvolvimento nacional;

III – erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;

IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

É preciso despertar a indignação geral.  Não basta dizer, por exemplo, que “é uma vergonha” o que o governo Ibaneis/Celina fez com a saúde pública da capital do Brasil. 

A Psicologia diz que vergonha é uma emoção de autoconsciência associada ao medo da rejeição social. Mas a direita não sente vergonha diante daquilo que faz contra o povo, pelo contrário, faz propaganda de seus feitos. A vergonha cabe a quem a tem, não necessariamente a quem a pratica.

Como já observou Luís Fernando Veríssimo, no Brasil o fundo do poço parece ser apenas mais uma etapa. A direita, quando se sente autorizada pelo poder, demonstra que seus limites podem estar sempre mais abaixo.

Nesta campanha eleitoral, é preciso dar a César o que é de César, já que a direita brasileira construiu, ao longo de sua história, um vasto arsenal de perversidades políticas que precisam ser desvendadas para o eleitorado, de maneira pedagógica, persistente e permanente.

É a desinformação que transforma o eleitor em suicida. É de se imaginar que, de posse de informação correta – esse direito humano sempre negado à maioria – uma enorme porcentagem de brasileiros se movimentaria no sentido contrário ao voto na direita.

Por mais que a esquerda tenha sido atacada ao longo da História, a comparação com a direita lhe é favorável, se quisermos fazer esse debate. 

Mobilização, denúncia e informação, além de projetos. Mobilização é a vergonha indignada. A vergonha passiva não move montanhas, nem dilui a ofensiva da extrema-direita. 

Pouca gente talvez se declarasse de direita se conhecesse claramente seus projetos e as consequências da destruição ambiental, da retirada de direitos dos trabalhadores, da concentração de renda e patrimônio, da mercantilização e o enfraquecimento da saúde e da educação públicas, da entrega de riquezas nacionais ao capital estrangeiro e da submissão dos interesses do Brasil a potências externas.

A eleição a deputado federal de um indivíduo como o ex-ministro do meio ambiente do governo Bolsonaro é o exemplo acabado  e perfeito da desinformação.

É preciso mostrar que militarização de escolas, armamentismo, racismo, xenofobia, homofobia, misoginia e outras formas de intolerância tão características de governos e parlamentos de direita não são abstrações, mas políticas que produzem violência, exclusão e morte.

Inevitável denunciar, por exemplo, que candidatos da extirpe de um Flávio Bolsonaro, uma vez eleitos, não hesitarão em colocar o Brasil nas guerras imperialistas dos EUA e de Israel, enviando para as frentes de combate, não seus filhos e filhas, mas os nossos, para morrerem em batalhas que não são nossas.

É preciso aproveitar a ocasião da campanha eleitoral para reafirmar o Brasil como um país de paz! 

Também é preciso denunciar o desprezo pela cultura, pela ciência, pela arte, pela História e pela memória. Quem impede um povo de conhecer sua história quer impedi-lo de compreender o presente e transformar o futuro.

Estamos falando de mostrar a cara hedionda de setores que como se não bastasse o horror que já representam, querem que uma criança estuprada seja obrigada a ser mãe, ao mesmo tempo em que defendem a redução da maioridade penal e a pena de morte, políticas cujo peso recairá, sobretudo, sobre aqueles que já nasceram sem proteção, sem oportunidades, sem escola, sem infância. 

É preciso que as campanhas eleitorais do campo progressista mostrem até onde a extrema direita pode chegar, lembrando o nazismo, os golpes de Estado produzidos mundo afora, o genocídio africano, as guerras imperialistas para extorquir, espoliar e assassinar povos. 

É preciso falar da escravidão e de suas permanências; do genocídio da juventude negra; do feminicídio e; da tragédia da pandemia de Covid-19, marcada pela negação da gravidade da doença, pelo desprezo à ciência, pela desinformação e por políticas que contribuíram para transformar uma emergência sanitária em uma catástrofe humana.

Os responsáveis por tais políticas têm nome, CPF e endereços conhecidos!

E, se Deus não é jagunço nem cabo eleitoral, é preciso denunciar também o uso cínico da religião para eleger políticos inimigos dos direitos da maioria.

Não por acaso e coerente com o projeto de extirpar o Estado laico, o bilionário Edir Macedo lançacampanha religiosa para levar evangélicos a elegerem bispos e pastores, chamada “Desafio de Neemias”, visando a multiplicar os votos dos candidatos apoiados pela instituição na eleição de outubro, sempre à direita, sempre fascistas!

E não há pacto possível com o fascismo. As tentativas de fazer isso não passam de rendição e conivência! Não é possível, ética ou moralmente, propor capitulação diante de igrejas que são verdadeiras lavanderias de dinheiro imundo.

A Constituição federal garante liberdade de crença e culto dentro do Estado laico, guardião da liberdade de crer e de descrer, mas o Estado brasileiro não pode acobertar, proteger os crimes dos vendilhões e as vendilhonas do templo, que sequestraram a fé e a religião para ajudar a governar contra o povo, enquanto constroem riqueza incalculáveis.

Urge, por fim, pelo menos começar a romper com o círculo perverso do privilégio que financia a política; da política que protege o privilégio, enquanto o povo paga a conta.

Mudar a composição do parlamento tem que ser uma meta nessa campanha. Ninguém aguenta mais a barbárie que se instalou nos parlamentos brasileiros. O Congresso Nacional tem que, finalmente, representar a maioria dos brasileiros que vivem do próprio trabalho.  

Não é incomum eleitores não se lembrarem em quem votaram para o Parlamento. Essa amnésia política é também uma expressão da distância entre o cidadão e a compreensão do próprio papel numa democracia.

É preciso dizer a cada eleitor, com absoluta clareza: seu voto faz diferença. O preço de um voto na direita não será pago apenas pelos que votarem nela. Será pago por todos. Façamos, portanto, a nossa parte. Plantemos indignação com essas informações!

E é preciso mostrar ainda a quem servem os alguns políticos de índole escorregadia que se dizem de centro, valendo-se da antiga e conveniente medida de que a virtude estaria no meio, no centro!  

Aí mora a esperteza da autodenominação de políticos de direita do chamado Centrão, um espaço em que se negociam interesses.  

Como candidatos, candidatas, militantes ou simples cidadãos comprometidos com o futuro, precisamos trabalhar por um Brasil e por um mundo melhores.

Por um Brasil soberano, posto que não somos colônia de ninguém! Um Brasil democrático. E não há democracia com gente passando fome ou analfabeta.

Um Brasil que preserve a escola pública, o SUS, a Ciência, a Cultura e os direitos sociais, a cultura e os saberes populares.

Um Brasil que não entregue suas riquezas nem sua soberania.

Um Brasil que reconheça e respeite sua diversidade.

Um Brasil pertencente a todos os seus filhos e filhas: múltiplos, diferentes, imperfeitos e, justamente por isso, humanos e lindamente brasileiros.

 

Fonte: Por Maria Lúcia de Moura Iwanow, em Brasil 247

 

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