Despertar
a indignação contra a barbárie da direita
Pesquisas,
sobretudo em anos eleitorais, sempre tentam traçar o perfil ideológico do povo
brasileiro. Numa delas, realizada pelo Datafolha nos dias 17 e 18 de junho
deste ano, em 139 municípios, 44% dos 2.004 eleitores ouvidos declararam-se de
direita; 39% identificaram-se com a esquerda ou a centro-esquerda; e 17%
disseram-se de centro.
Sem
entrar no mérito de suas metodologias – se são rigorosas, direcionadas,
viciadas ou sérias – o cruzamento de seus resultados com o discurso cotidiano
dos eleitores revela certa confusão sobre os próprios conceitos de esquerda e
direita.
Na
autodefinição ideológica dos brasileiros cabe quase tudo. Há quem se declare de
direita por considerar-se “gente direita”; ou “Gente de direita é quem faz as
coisas direito”. Há também quem associe a esquerda ao que é errado, torto ou
mau: “Tem que ensinar a criança a escrever com a mão certa”; “Canhoto tem parte
com o demônio”; “Tem que começar com o pé direito!”
São
concepções que guardam enorme distância — não apenas temporal — daquele
setembro de 1789, na França quando, durante uma reunião da Assembleia
Constituinte, os deputados se dividiram fisicamente no salão, de acordo com
suas posições diante do poder do rei Luís XVI. Os defensores da monarquia e da
ordem tradicional ocuparam os lugares à direita do presidente da mesa; os
reformistas e radicais, que pretendiam limitar o poder real, sentaram-se à
esquerda.
A
partir daí, esquerda e direita passaram a designar posições políticas
distintas. À esquerda associaram-se, historicamente, a busca da igualdade
social, a justiça distributiva e a transformação das estruturas econômicas e
sociais. À direita, a defesa da liberdade de mercado, da propriedade privada,
da hierarquia social e da preservação de valores e instituições tradicionais.
Durante
muito tempo, no Brasil, poucos se assumiam publicamente como sendo de direita.
Hoje, a direita saiu do armário, assumiu-se.
E, em
meio a uma crise do capital, em que a financeirização, benfazeja aos
especuladores gera massas de humilhados (sem emprego, sem comida, sem saúde e
escolarização), há um processo paralelo de revitalização, pela direita
recém-assumida, do projeto de desmonte do Estado e de esvaziamento de suas
funções sociais.
Agora,
extremada, essa direita grosseira, sem compostura, emerge de maneira agressiva,
ostentando sua identidade política, enquanto mantém os pés sobre o pescoço do
povo que sustenta suas ‘aleivosias’, palavra perfeita para designar esse modo
de fazer política com atos de traição, perfídia e deslealdade, praticados sob
falsas demonstrações de amizade, diz o dicionário.
Abaixo
dos muito ricos, há uma espécie de força-tarefa, intermediária, encarregada de
difundir e legitimar seus golpes: setores do sistema de Justiça e da imprensa
corporativa, jornalistas e articulistas, certos pastores e padres, lobistas e
outros agentes que, quando não ocupam diretamente os governos, trabalham para
garantir a permanência dos interesses da elite no poder.
Há um
atuante aparato externo à política institucional para defender a
financeirização da economia, em detrimento da industrialização do País e da
construção de um Brasil soberano.
Essa
fatia de brasileiros, inundados por uma mentalidade colonial é
‘desindentificada’ da ideia de que o Brasil mestiço de pretos, pardos, brancos,
indígenas, de quilombolas, ribeirinhos deva ter acesso a políticas públicas e
ao crescimento como pessoas, mediante acessos à ciência e à tecnologia.
Neste
momento, que bom seria que os candidatos e candidatas progressistas também
saíssem do armário, não apenas para se defenderem e defenderem seus projetos,
mas para colocar os pingos nos iis e disputar, palavra por palavra, os
significados das políticas da direita.
Para
além da apresentação de programas de governo e projetos legislativos, já passa
da hora de revelar aos eleitores quem são, a quem servem e quais
interesses defendem os candidatos e candidatas da direita e da extrema direita.
Assim,
parte significativa da campanha – esse momento privilegiado de disputa de
projetos – mostrará ao povo aquilo que historicamente se esconde por trás de
discursos sobre Deus, família, moral, pátria, bons costumes e combate à
corrupção.
Uma
ação enérgica, decidida, para evitar eleger, mais uma vez e talvez em
proporções ainda maiores, congressos nacional, câmaras estaduais e distrital
dominados por representantes de interesses antagônicos aos direitos da maioria
da população.
É
preciso fazer do art. 3º da nossa Constituição – que não foi ainda revogado –
um mantra, seja em discursos, panfletos ou camisetas, em bandeiras ou em
faixas.
Art.
3º- Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:
I –
construir uma sociedade livre, justa e solidária;
II –
garantir o desenvolvimento nacional;
III –
erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e
regionais;
IV –
promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e
quaisquer outras formas de discriminação.
É
preciso despertar a indignação geral. Não basta dizer, por exemplo, que
“é uma vergonha” o que o governo Ibaneis/Celina fez com a saúde pública da
capital do Brasil.
A
Psicologia diz que vergonha é uma emoção de autoconsciência associada ao medo
da rejeição social. Mas a direita não sente vergonha diante daquilo que faz
contra o povo, pelo contrário, faz propaganda de seus feitos. A vergonha cabe a
quem a tem, não necessariamente a quem a pratica.
Como já
observou Luís Fernando Veríssimo, no Brasil o fundo do poço parece ser apenas
mais uma etapa. A direita, quando se sente autorizada pelo poder, demonstra que
seus limites podem estar sempre mais abaixo.
Nesta
campanha eleitoral, é preciso dar a César o que é de César, já que a direita
brasileira construiu, ao longo de sua história, um vasto arsenal de
perversidades políticas que precisam ser desvendadas para o eleitorado, de
maneira pedagógica, persistente e permanente.
É a
desinformação que transforma o eleitor em suicida. É de se imaginar que, de
posse de informação correta – esse direito humano sempre negado à maioria – uma
enorme porcentagem de brasileiros se movimentaria no sentido contrário ao voto
na direita.
Por
mais que a esquerda tenha sido atacada ao longo da História, a comparação com a
direita lhe é favorável, se quisermos fazer esse debate.
Mobilização,
denúncia e informação, além de projetos. Mobilização é a vergonha indignada. A
vergonha passiva não move montanhas, nem dilui a ofensiva da
extrema-direita.
Pouca
gente talvez se declarasse de direita se conhecesse claramente seus projetos e
as consequências da destruição ambiental, da retirada de direitos dos
trabalhadores, da concentração de renda e patrimônio, da mercantilização e o
enfraquecimento da saúde e da educação públicas, da entrega de riquezas
nacionais ao capital estrangeiro e da submissão dos interesses do Brasil a
potências externas.
A
eleição a deputado federal de um indivíduo como o ex-ministro do meio ambiente
do governo Bolsonaro é o exemplo acabado e perfeito da desinformação.
É
preciso mostrar que militarização de escolas, armamentismo, racismo, xenofobia,
homofobia, misoginia e outras formas de intolerância tão características de
governos e parlamentos de direita não são abstrações, mas políticas que
produzem violência, exclusão e morte.
Inevitável
denunciar, por exemplo, que candidatos da extirpe de um Flávio Bolsonaro, uma
vez eleitos, não hesitarão em colocar o Brasil nas guerras imperialistas dos
EUA e de Israel, enviando para as frentes de combate, não seus filhos e filhas,
mas os nossos, para morrerem em batalhas que não são nossas.
É
preciso aproveitar a ocasião da campanha eleitoral para reafirmar o Brasil como
um país de paz!
Também
é preciso denunciar o desprezo pela cultura, pela ciência, pela arte, pela
História e pela memória. Quem impede um povo de conhecer sua história quer
impedi-lo de compreender o presente e transformar o futuro.
Estamos
falando de mostrar a cara hedionda de setores que como se não bastasse o horror
que já representam, querem que uma criança estuprada seja obrigada a ser mãe,
ao mesmo tempo em que defendem a redução da maioridade penal e a pena de morte,
políticas cujo peso recairá, sobretudo, sobre aqueles que já nasceram sem
proteção, sem oportunidades, sem escola, sem infância.
É
preciso que as campanhas eleitorais do campo progressista mostrem até onde a
extrema direita pode chegar, lembrando o nazismo, os golpes de Estado
produzidos mundo afora, o genocídio africano, as guerras imperialistas para
extorquir, espoliar e assassinar povos.
É
preciso falar da escravidão e de suas permanências; do genocídio da juventude
negra; do feminicídio e; da tragédia da pandemia de Covid-19, marcada pela
negação da gravidade da doença, pelo desprezo à ciência, pela desinformação e
por políticas que contribuíram para transformar uma emergência sanitária em uma
catástrofe humana.
Os
responsáveis por tais políticas têm nome, CPF e endereços conhecidos!
E, se
Deus não é jagunço nem cabo eleitoral, é preciso denunciar também o uso cínico
da religião para eleger políticos inimigos dos direitos da maioria.
Não por
acaso e coerente com o projeto de extirpar o Estado laico, o bilionário Edir
Macedo lançacampanha religiosa para levar evangélicos a elegerem bispos e
pastores, chamada “Desafio de Neemias”, visando a multiplicar os votos dos
candidatos apoiados pela instituição na eleição de outubro, sempre à direita,
sempre fascistas!
E não
há pacto possível com o fascismo. As tentativas de fazer isso não passam de
rendição e conivência! Não é possível, ética ou moralmente, propor capitulação
diante de igrejas que são verdadeiras lavanderias de dinheiro imundo.
A
Constituição federal garante liberdade de crença e culto dentro do Estado
laico, guardião da liberdade de crer e de descrer, mas o Estado brasileiro não
pode acobertar, proteger os crimes dos vendilhões e as vendilhonas do templo,
que sequestraram a fé e a religião para ajudar a governar contra o povo,
enquanto constroem riqueza incalculáveis.
Urge,
por fim, pelo menos começar a romper com o círculo perverso do privilégio que
financia a política; da política que protege o privilégio, enquanto o povo paga
a conta.
Mudar a
composição do parlamento tem que ser uma meta nessa campanha. Ninguém aguenta
mais a barbárie que se instalou nos parlamentos brasileiros. O Congresso
Nacional tem que, finalmente, representar a maioria dos brasileiros que vivem
do próprio trabalho.
Não é
incomum eleitores não se lembrarem em quem votaram para o Parlamento. Essa
amnésia política é também uma expressão da distância entre o cidadão e a
compreensão do próprio papel numa democracia.
É
preciso dizer a cada eleitor, com absoluta clareza: seu voto faz diferença. O
preço de um voto na direita não será pago apenas pelos que votarem nela. Será
pago por todos. Façamos, portanto, a nossa parte. Plantemos indignação com
essas informações!
E é
preciso mostrar ainda a quem servem os alguns políticos de índole escorregadia
que se dizem de centro, valendo-se da antiga e conveniente medida de que a
virtude estaria no meio, no centro!
Aí mora
a esperteza da autodenominação de políticos de direita do chamado Centrão, um
espaço em que se negociam interesses.
Como
candidatos, candidatas, militantes ou simples cidadãos comprometidos com o
futuro, precisamos trabalhar por um Brasil e por um mundo melhores.
Por um
Brasil soberano, posto que não somos colônia de ninguém! Um Brasil democrático.
E não há democracia com gente passando fome ou analfabeta.
Um
Brasil que preserve a escola pública, o SUS, a Ciência, a Cultura e os direitos
sociais, a cultura e os saberes populares.
Um
Brasil que não entregue suas riquezas nem sua soberania.
Um
Brasil que reconheça e respeite sua diversidade.
Um
Brasil pertencente a todos os seus filhos e filhas: múltiplos, diferentes,
imperfeitos e, justamente por isso, humanos e lindamente brasileiros.
Fonte:
Por Maria Lúcia de Moura Iwanow, em Brasil 247

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