segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Fidel: o homem que se negou a erguer sua própria estátua

Mais do que os efeitos do bloqueio dos Estados Unidos contra Cuba, não há uma única rua – nem mesmo um pequeno beco – em todo o arquipélago cubano que ostente o nome “Fidel Castro”. Isso, embora possa não parecer, era um desejo expresso do próprio líder revolucionário, decretado pela Lei 123 de 27 de dezembro de 2016, intitulada “Sobre o Uso do Nome e da Figura do Comandante-em-Chefe Fidel Castro Ruz”, um projeto legislativo aprovado pela Assembleia Nacional do Poder Popular da ilha que proibia o uso de seu nome em instituições públicas ou a construção de monumentos em sua memória.

Naquela época, eu conversava com Ofelia Medina, uma aposentada cubana que hoje tem 88 anos e que, na ocasião, questionou, um tanto irritada: “por que Che Guevara tem uma estátua em Santa Clara – Camilo também tem uma – e Fidel não?”.

A conversa com Medina me fez recordar de outro momento. Alguns anos após a morte do histórico comandante da Revolução Cubana, eu estava com alguns colegas na casa de Katiuska Blanco, jornalista e ensaísta cubana, e sem dúvida uma das pessoas que mais entrevistou Fidel e que escreveu diversos livros sobre sua vida. Ela relatou um dos momentos mais íntimos do líder antes de sua morte. Blanco disse que “tiveram que convencê-lo a ter um lugar onde o povo pudesse lhe prestar homenagem”. Ele queria algo diferente: ser cremado e ter suas cinzas espalhadas na Serra Maestra, um lugar que simboliza a luta armada que Fidel iniciou em 1953 para derrubar a ditadura imposta por Fulgencio Batista (1952-1958).

Nos últimos anos de sua vida, ele concordou que, após sua morte, seus restos mortais seriam colocados no Cemitério de Santa Ifigenia, em Santiago de Cuba, sobre uma lápide simples com apenas seu nome. E por que tudo isso?

Fidel queria evitar que o projeto revolucionário em Cuba fosse reduzido a uma figura personalista. Nos últimos anos de sua vida, ele insistiu que os revolucionários modernos precisam travar “a batalha das ideias”. Estátuas são derrubadas.

Ao longo do século 20, e Fidel Castro é claramente um de seus maiores símbolos, testemunhamos genocídios, ditaduras, duas guerras mundiais e até mesmo uma revolução socialista na Europa que nasceu e morreu no mesmo século. Daqueles anos revolucionários, a obsessão faraônica de alguns líderes dos chamados socialismos reais em se engrandecerem, cativados pelo culto à personalidade, permanece gravada na memória mundial.

O realismo socialista foi uma expressão artística florescente no cinema, literatura e artes visuais, destacando a imagem robusta da classe trabalhadora, do campesinato e dos intelectuais. Porém, sua beleza era por vezes ofuscada pela representação frequentemente grosseira usada para projetar a grandeza de seus líderes. Daí as enormes estátuas de Stalin, Lenin, as imagens cor de cobre dos Kims na Coreia do Norte e muitas outras. No caso de Fidel, ocorreu o oposto. Ele próprio solicitou a proibição da construção de estátuas em sua homenagem. Talvez com a clara compreensão de que estátuas podem ser derrubadas, mas as ideias sobrevivem quando transcendem indivíduos e permanecem relevantes ao longo do tempo.

<><> Fidel e a cultura

A Opera Mundi, o premiado escritor chileno David Hevia, ex-presidente da Sociedade de Escritores do Chile e autor do livro Fidel, uma Revolução Carregada de Futuro, propõe ler o comandante cubano não apenas como um governante, mas também como um intelectual.

Hevia recorda que uma das ideias centrais de seu livro é a declaração de Fidel: “não dizemos ao povo ‘acreditem!’. Dizemos a eles que leiam”. De fato, o líder cubano, além de ser um leitor apaixonado, via a educação como uma das forças motrizes por trás da defesa da revolução.

O escritor colombiano e ganhador do Prêmio Nobel, Gabriel García Márquez, relatou no documentário Fidel (2001), de Estela Bravo, que antes de publicar um livro, costumava entregar seus manuscritos ao líder cubano. “Ele é como um editor; essa é a palavra exata: um editor de livros. Ele aponta contradições, anacronismos e inconsistências que os profissionais não percebem porque ele é um leitor muito meticuloso”. Mais do que uma simples anedota, o episódio nos ajuda a entender por que Fidel Castro considerava a leitura e a educação pilares do projeto revolucionário.

<><> Ideias mais do que monumentos

O pintor e escultor cubano Miguel Ángel Batista, que atualmente vive em Havana, disse a Opera Mundi que, para criar uma obra sobre Fidel Castro, teria que fazer uma composição cujo elemento principal seriam os livros.

Batista vivenciou os golpes do bloqueio econômico e do implacável embargo de petróleo que o governo Trump impôs a Cuba em janeiro de 2026. Mas o artista visual cubano, confrontado com constantes ameaças de invasão, afirma categoricamente que estaria preparado para defender seu país porque: “todo homem digno de sua terra deve, em caso de agressão armada direta, pegar em armas e defender sua Pátria”.

Para este pintor e escultor, Fidel foi um líder que priorizou quatro questões fundamentais: esporte, saúde, educação e cultura, sendo as duas últimas intrinsecamente ligadas, “devido ao seu interesse em educar o povo”. Em outras palavras, antes de perpetuar a imagem ou o nome de um líder, era necessário cultivar cidadãos críticos.

Em contraste, as artistas visuais Carmen Barrueco, que vive no México, e Clara Fonseca, arquiteta com mestrado em planejamento urbano, que reside atualmente em Cuba, vivenciaram diferentes períodos da Revolução Cubana e suas visões sobre Fidel Castro são opostas. Para Fonseca, o líder revolucionário elevou a dignidade nacional, fortaleceu a soberania e projetou valores como o internacionalismo, princípios que, segundo ela, continuam a influenciar gerações que não vivenciaram os primeiros anos da Revolução.

Por outro lado, Barrueco sustenta que a figura de Fidel acabou marcada por contradições entre discurso e prática. Embora reconheça os avanços em relação à universalização da educação e da saúde, para ela, essas conquistas coexistiram com a concentração de poder, a restrição das liberdades e – afirma ela – o fato de que os jovens cubanos de hoje estão mais preocupados com a emigração e a falta de oportunidades do que com os debates ideológicos tradicionais.

<><> Do Sul Global ao maior desafio de seu legado

Fidel jamais idealizou a Revolução apenas para Cuba. Ele defendeu a unidade latino-americana, o internacionalismo e a cooperação entre os povos do chamado Terceiro Mundo muito antes do conceito de Sul Global começar a ser utilizado com frequência. Como argumenta o escritor chileno David Hevia, a ideia de Fidel Castro de uma “Grande Pátria” significava que a soberania cubana só poderia ser consolidada juntamente com a emancipação do continente. Em seus últimos anos, ele resumiu essa visão em um slogan: a grande batalha do século 21 seria a batalha das ideias.

Esse legado chega ao seu centenário no momento mais complexo para Cuba desde o Período Especial. Apagões, escassez de combustível e o endurecimento das sanções norte-americanas ao setor energético aprofundaram uma crise que impacta a economia, o turismo e o sistema de saúde.

Para muitos cubanos, este é também o maior desafio que o projeto político iniciado em 1959 enfrentou. Mas talvez seja precisamente em meio a essa adversidade que a decisão que intrigou até mesmo seus admiradores mais fervorosos – renunciar ao mármore e depositar sua confiança nas ideias – recupere o sentido.

Fidel apostou que nenhum monumento seria tão duradouro quanto um povo educado, um médico capacitado para servir os mais pobres ou uma geração capaz de defender suas convicções. Estátuas podem desmoronar. Ideias, quando conseguem criar raízes, continuam caminhando com aqueles que as adotam.

¨      Morto há dez anos, Fidel ainda é um problema para quem tentou derrotar Cuba. Por Luis Hernández Navarro

A comemoração dos 100 anos do nascimento do organizador do Assalto ao Quartel Moncada também se transformou em um momento para ratificar os novos alinhamentos internacionais. Em mais um episódio da diplomacia das missivas, os chefes de Estado do urso russo e do dragão asiático enviaram, separadamente, a Raúl Castro e a Miguel Díaz-Canel mensagens de apoio à ilha e à sua revolução.

O secretário-geral do Partido Comunista da China e presidente da República Popular, Xi Jinping, enviou-lhes uma carta na qual lembrou que o comandante dedicou sua vida à defesa da soberania nacional e à construção do socialismo, com valiosas contribuições para a causa do comunismo mundial.

Nela, afirmou que ambas as nações se tornaram uma referência de cooperação entre países socialistas e entre nações do Sul Global. Manifestou oposição a qualquer ingerência externa. O legado de Fidel — concluiu — ficará para a história.

E o presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, transmitiu a Raúl uma missiva na qual reconheceu que a vida do dirigente da revolução cubana foi dedicada ao “serviço abnegado à pátria”. Ressaltou que “na Rússia, a memória de Fidel Castro é honrada como sagrada”.

Em sua mensagem a Díaz-Canel, Putin destacou a “solidariedade invariável” de seu país com o povo cubano e associou o nome de Fidel aos “acontecimentos mais importantes da história de Cuba” e aos “grandiosos avanços no plano econômico-social” alcançados sob sua condução.

Não são apenas palavras. O último navio com petróleo bruto (com 730 mil barris) que chegou à ilha em 30 de março de 2026 foi um petroleiro russo. Por sua vez, a China doou à Antilha 60 mil toneladas de arroz e milhares de sistemas fotovoltaicos.

<><> Resiliência

Desde que os Estados Unidos decretaram o embargo de combustíveis contra Havana, o país passou por uma significativa transformação pelas mãos do Colosso asiático. A vida noturna não acabou, mas diminuiu drasticamente. Os apagões mergulharam a população na incerteza. Não se sabe muito bem quando a energia elétrica vai acabar e quando vai voltar, nem quanto tempo vai durar o corte. Assim, quando há luz, é preciso aproveitá-la.

Onde, há alguns meses, as avenidas estavam vazias, agora circula um número considerável de motocicletas e triciclos elétricos, que fazem as vezes de transporte coletivo.

Percorrem as ruas da cidade em alta velocidade, como se fossem nuvens de mosquitos. Buzinam para se fazer respeitar diante dos veículos motorizados que ainda circulam e dos pedestres distraídos que parecem não perceber sua presença.

Nas áreas em que os apagões transformam a vida cotidiana em uma filial do inferno no Caribe, podem ser vistas casas e apartamentos iluminados por baterias, em muitos casos carregadas com painéis solares. Alguns ainda contam com pequenas plantas geradoras de eletricidade.

No coração de Havana, nas ruas 23 e 10, no bairro de Vedado, será construída uma nova loja chinesa. O estabelecimento é uma empresa mista de comercialização, construída pelos dois países, especializada em “ferragens, eletrodomésticos e soluções de vanguarda vinculadas às energias renováveis”.

A expansão dos novos negócios também acompanha a liberalização da economia em curso. Um assunto que é intensamente discutido em todos os lugares.

Segundo o presidente Díaz-Canel, as 176 medidas aprovadas para a Transformação Econômica e Social são reflexo da opinião colhida em milhares de assembleias populares.

Mas ele garante que as transformações não são para promover mais capitalismo, e sim para defender e avançar na construção socialista; um socialismo que coloca o ser humano no centro de sua obra.

Enquanto isso, os Estados Unidos fazem seu grande negócio às custas do empobrecimento da ilha. Segundo informações do US Cuba-Trade and Economic Council, no primeiro semestre deste ano, exportaram para a ilha cerca de US$ 96 milhões em combustíveis (basicamente diesel e gasolina). Somente a metade dessas importações foi realizada durante junho.

O combustível é enviado em contêineres a bordo de navios com tanques ISO. Seus compradores são empresas privadas, embaixadas ou pessoas físicas. Washington proíbe vendê-los ao governo ou a empresas estatais. O litro da gasolina oscila em torno de US$ 5.

<><> Um Fidel que vive na montanha

Os povos do sul do rio Bravo conquistaram sua independência da Espanha no primeiro terço do século 19. No entanto, a maior das Antilhas alcançou sua soberania, ainda que parcialmente, somente em 1934, quando a Emenda Platt foi revogada. E a obteve plenamente a partir do triunfo da revolução, em 1959. Isto é, padeceu de pelo menos um século a mais de escravidão que o restante da Hispano-América.

Borges escreveu: “qualquer destino, por longo e complicado que seja, na realidade consiste em um único momento: o momento em que o homem sabe para sempre quem é”. O mesmo acontece com os povos e as nações. Cuba e seu povo souberam quem eram a partir do triunfo de sua revolução, liderada pelo comandante Castro.

Fidel, como se depreende do mar de vozes que se ouvem no Colóquio, integrou Cuba, a dignificou. Acabou com o cinismo de seus tempos de colônia ianque. Deu sentido ao seu projeto nacional. Combateu a amnésia. Propiciou uma nova ordem, que deixou para trás o que era caduco. Desenvolveu uma teoria para impulsionar a ação revolucionária.

O filósofo argentino Néstor Kohan afirmou, em sua intervenção no painel “Marxismo, socialismo e política na ação revolucionária de Fidel Castro”, que a oralidade do pensamento do comandante levou uma parte da esquerda marxista a não valorizar adequadamente suas contribuições para a teoria revolucionária.

Ao formular sua visão da realidade e da luta em uma linguagem acessível aos setores populares e renunciar ao uso de jargão acadêmico e à citação de fontes, essa intelectualidade não valorizou adequadamente as enormes e genuínas contribuições do revolucionário cubano ao materialismo histórico.

Para ele, no campo dos discursos, destaca-se a Segunda Declaração de Havana, pronunciada diante de um milhão e meio de pessoas na Praça da Revolução, em 4 de fevereiro de 1962. Trata-se, afirma, de um dos documentos teórico-políticos mais importantes de toda a história do marxismo latino-americano, que Che Guevara caracterizou como “um Manifesto Comunista deste continente e desta época”. Cumpre um papel precursor no campo das ciências sociais.

“Fenômeno nem sempre reconhecido nas histórias acadêmicas das teorias econômicas e sociológicas.”

O vice-ministro das Relações Exteriores, Carlos Fernández de Cossio, falou no Fórum “Fidel e a política externa” sobre o magistério do comandante na diplomacia, desenvolvido no calor da luta cotidiana à frente de um país em revolução.

Referiu-se ao papel desempenhado na crise dos mísseis, que colocou o mundo à beira de uma conflagração nuclear. Naquele momento — explicou Cossio —, estabeleceu-se a pedra angular da política externa de Cuba (uma lição para compreender o que acontece hoje): “a defesa de nossos direitos soberanos sem espaço para a mínima confusão ou a menor perda, mesmo diante de perigos extraordinários”. Como disse, naquela época, Che Guevara: “Poucas vezes um estadista brilhou mais alto do que naqueles dias”.

O vice-ministro reconstruiu o papel de Fidel na luta pela independência de Porto Rico. Em troca da libertação de quatro presos estadunidenses condenados em Cuba — lembrou —, foram libertados quatro independentistas porto-riquenhos, sem pedir nada para a ilha.

Com detalhes, explicou o papel de Havana nas lutas pela descolonização na África e o apoio à revolução sandinista na Nicarágua. “Não existe — afirmou o vice-presidente de Cuba, Carlos Rodríguez, em 1984 — obrigação que tenhamos assumido com qualquer país, grupo ou governo que não tenhamos sido capazes de honrar”.

Cossio lembrou como, sob a condução de Fidel, a política externa da Antilha manteve um perfil elevado e comprometido no combate em favor de uma ordem internacional mais justa e equitativa. E deu como exemplo a solidariedade com o Vietnã e a criação do Contingente Internacional Henry Reeve e sua contribuição decisiva para a saúde em diferentes latitudes.

Concluiu convocando à divulgação dos ensinamentos do comandante sobre questões internacionais.

Como o Cid Campeador, Fidel continua vencendo batalhas depois de morto.

 

Fonte: Por Mauricio Leandro Osorio, em Opera Mundi/Diálogos do Sul Global

 

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