Tarifa
dos EUA motivada por trabalho forçado é protecionismo que não combate o crime
O
GOVERNO TRUMP anunciou ontem uma tarifa de 12,5% a bens de 54 países que,
segundo ele, não têm mecanismos legais para impedir a importação em seus
territórios de mercadorias produzidas com trabalho forçado. Brasil, China e
Índia estão nesse grupo, assim como aliados próximos como Argentina, El
Salvador, Israel e Japão.
Outros
seis foram sobretaxados em 10% porque não teriam conseguido efetivar a
proibição prevista em regras internas, como Canadá, México e União Europeia.
Isso
ocorre após o anúncio do tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros em
retaliação ao Pix e às decisões do STF (Supremo Tribunal Federal) para que Big
Techs sigam as leis brasileiras ao operarem por aqui, entre outros motivos.
Mas, no caso do trabalho forçado, é um tarifaço coletivo que não mira apenas o
Brasil.
A nova
sobretaxa não visa a garantir a dignidade dos trabalhadores em todo o mundo,
como justificou o USTR (Escritório do Representante de Comércio dos Estados
Unido).
Se essa
fosse a preocupação, a Casa Branca começaria colocando na linha suas próprias
empresas que superexploram trabalhadores dentro (sim, há trabalho forçado em
fazendas dos Estados Unidos) e fora do país.
Trabalho
forçado é apenas a desculpa para implementar mais medidas protecionistas após a
Suprema Corte dos Estados Unidos ter derrubado, em fevereiro, o tarifaço
imposto por Trump.
Ao
forçar países a criar entraves à compra de produtos de forma generalizada, sem
um sistema que ajude a separar o joio do trigo nesse processo, Trump acaba
criando uma “taxa das blusinhas” global.
Mais do
que prejudicar especificamente um ou outro país, ele quer um escudo de
protecionismo que dificilmente será derrubado na Justiça.
Os EUA
têm leis que podem ser usadas para forçar exportadores a provarem que
mercadorias suspeitas não foram produzidas com mão de obra cativa. e que
autorizam a sua devolução caso seja constatado o uso desse crime.
O
sistema funciona? Como uma peneira de buracos grandes, deixando passar muita
coisa. Principalmente, o que interessa economicamente a eles.
Por
mais que tenham legislação centenária a respeito, os EUA são incapazes de
colocar em prática um sistema robusto que impeça a entrada de produtos com
problemas. E isso já foi mostrado por meio de uma série de investigações
jornalísticas, apontando como madeira, carne, peixe, eletrônicos, minerais,
entre outros produtos, entram livremente mesmo com seus problemas.
E não
são poucas as empresas norte-americanas que dependem do fornecimento de países
com baixa efetivação de legislação trabalhista, como as oficinas de costura em
Bangladesh.
Vale
destacar que a investigação aberta com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos
EUA e que levou à proposta da sobretaxa não avalia o que cada país faz para
combater o trabalho forçado, mas o que tem feito para barrar a entrada de
produtos com esse crime.
O
Brasil é reconhecido pelas Nações Unidas como um exemplo global a ser seguido
no combate a esse crime. Combatemos esse tipo de prática de uma forma muito
mais eficaz que os EUA, aliás. Claro que não só nós como o mundo todo está
longe de erradicar a prática que atinge mais de 50 milhões de pessoas, segundo
estimativa da Organização Internacional do Trabalho.
Os
documentos do USTR citam a incidência de trabalho escravo na produção de carne
bovina no Brasil. O que não é segredo para ninguém, uma vez que, desde 2003, o
país garante transparência a esses casos através da chamada “Lista Suja” do
trabalho escravo.
Quem
acompanha esta coluna já leu dezenas de histórias de resgates em fazendas de
gado sistematicamente responsabilizadas pelo Estado brasileiro por esse tipo de
exploração desde 1995.
Mas,
como já disse, isso não foi a razão da sobretaxa diretamente contra nós.
Poderia até ser uma razão de pressão indireta, pois outros países importam o
produto brasileiro, como a China, concorrendo com a carne dos EUA.
Mas eis
que os próprios EUA isentaram a carne do tarifaço imposto contra o Brasil
anteontem. Ou seja, façam o que eu mando, não façam o que eu faço. Por quê?
Porque a questão nunca foi o trabalho forçado, mas sim o protecionismo.
Posso
discorrer sobre isso com tranquilidade porque pesquiso escravidão contemporânea
há 27 anos, tendo trabalhado como expert das Nações Unidas exatamente nessa
área, defendido um doutorado sobre a inserção econômica desse crime e prestado
assessoria a uma série de países para implementar planos de combate à
escravidão – carteiradas que só estou dando para que saibam que não sou turista
no tema.
O
Brasil conta com propostas no Congresso Nacional para proibir a importação de
bens com mão de obra escrava, e eu mesmo venho alertando para a importância de
aprovar esse tipo de medida nos últimos 15 anos.
Mas a
questão não é só aprovar, o que nos levaria do grupo de sobretaxa de 12,5% para
10%, e sim efetivar a lei.
Impedir
a entrada de produtos que não comprovem lisura trabalhista é pouco provável sem
um sistema global, dada a baixa transparência das cadeias produtivas em certas
áreas. O mundo não tem uma “Lista Suja” do trabalho escravo, como nós.
Sempre
defendi que a imposição de barreiras comerciais não é a saída para combater a
escravidão contemporânea porque nivela bons e maus produtores e é mais usada
como um instrumento protecionista do que como algo útil para melhorar a vida
dos trabalhadores.
Faz
muito mais sentido uma análise caso a caso, empresa a empresa, fazenda a
fazenda. E uma melhora estrutural de setores econômicos do ponto de vista
social e trabalhista.
Para
isso, seria mais produtivo se os EUA aceitassem a discussão de um tratado
global com princípios vinculantes de empresas e direitos humanos, com
obrigações e punições a serem impostas pelos países, como aquele que vem sendo
discutido nas Nações Unidas.
Mas
alguém aqui acha que a Casa Branca aprovaria isso? Logo ela, que vai à guerra
em outros países em nome dos interesses de suas empresas?
E
enquanto Washington usa o trabalho forçado como moeda de barganha geopolítica,
trabalhadores reais (inclusive nos próprios Estados Unidos) continuam presos em
cadeias produtivas que nenhuma tarifa foi desenhada para romper.
O
protecionismo se veste de humanitarismo, mas seus beneficiários são os mesmos
de sempre: as empresas que financiam campanhas, os setores que precisam de
vantagem competitiva, os interesses que definem, na prática, o que entra e o
que sai pelos portos americanos.
Combater
a escravidão contemporânea exige o oposto dessa lógica: transparência,
rastreabilidade, cooperação multilateral e responsabilização individual de quem
lucra com o crime, independentemente de onde esteja sediado.
Enquanto
isso não acontecer, tarifas como essa serão apenas mais um instrumento de
pressão econômica com boa embalagem moral. E o trabalhador, ironicamente, nem
na embalagem aparece.O governo Trump anunciou ontem uma tarifa de 12,5% a bens
de 54 países que, segundo ele, não têm mecanismos legais para impedir a
importação em seus territórios de mercadorias produzidas com trabalho forçado.
Brasil, China e Índia estão nesse grupo, assim como aliados próximos como
Argentina, El Salvador, Israel e Japão.
Outros
seis foram sobretaxados em 10% porque não teriam conseguido efetivar a
proibição prevista em regras internas, como Canadá, México e União Europeia.
Isso
ocorre após o anúncio do tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros em
retaliação ao Pix e às decisões do STF (Supremo Tribunal Federal) para que Big
Techs sigam as leis brasileiras ao operarem por aqui, entre outros motivos.
Mas, no caso do trabalho forçado, é um tarifaço coletivo que não mira apenas o
Brasil.
A nova
sobretaxa não visa a garantir a dignidade dos trabalhadores em todo o mundo,
como justificou o USTR (Escritório do Representante de Comércio dos Estados
Unido).
Se essa
fosse a preocupação, a Casa Branca começaria colocando na linha suas próprias
empresas que superexploram trabalhadores dentro (sim, há trabalho forçado em
fazendas dos Estados Unidos) e fora do país.
Trabalho
forçado é apenas a desculpa para implementar mais medidas protecionistas após a
Suprema Corte dos Estados Unidos ter derrubado, em fevereiro, o tarifaço
imposto por Trump.
Ao
forçar países a criar entraves à compra de produtos de forma generalizada, sem
um sistema que ajude a separar o joio do trigo nesse processo, Trump acaba
criando uma “taxa das blusinhas” global.
Mais do
que prejudicar especificamente um ou outro país, ele quer um escudo de
protecionismo que dificilmente será derrubado na Justiça.
Os EUA
têm leis que podem ser usadas para forçar exportadores a provarem que
mercadorias suspeitas não foram produzidas com mão de obra cativa. e que
autorizam a sua devolução caso seja constatado o uso desse crime.
O
sistema funciona? Como uma peneira de buracos grandes, deixando passar muita
coisa. Principalmente, o que interessa economicamente a eles.
Por
mais que tenham legislação centenária a respeito, os EUA são incapazes de
colocar em prática um sistema robusto que impeça a entrada de produtos com
problemas.
E isso
já foi mostrado por meio de uma série de investigações jornalísticas, apontando
como madeira, carne, peixe, eletrônicos, minerais, entre outros produtos,
entram livremente mesmo com seus problemas.
E não
são poucas as empresas norte-americanas que dependem do fornecimento de países
com baixa efetivação de legislação trabalhista, como as oficinas de costura em
Bangladesh.
Vale
destacar que a investigação aberta com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos
EUA e que levou à proposta da sobretaxa não avalia o que cada país faz para
combater o trabalho forçado, mas o que tem feito para barrar a entrada de
produtos com esse crime.
O
Brasil é reconhecido pelas Nações Unidas como um exemplo global a ser seguido
no combate a esse crime. Combatemos esse tipo de prática de uma forma muito
mais eficaz que os EUA, aliás. Claro que não só nós como o mundo todo está
longe de erradicar a prática que atinge mais de 50 milhões de pessoas, segundo
estimativa da Organização Internacional do Trabalho.
Os
documentos do USTR citam a incidência de trabalho escravo na produção de carne
bovina no Brasil. O que não é segredo para ninguém, uma vez que, desde 2003, o
país garante transparência a esses casos através da chamada “Lista Suja” do
trabalho escravo.
Quem
acompanha esta coluna já leu dezenas de histórias de resgates em fazendas de
gado sistematicamente responsabilizadas pelo Estado brasileiro por esse tipo de
exploração desde 1995.
Mas,
como já disse, isso não foi a razão da sobretaxa diretamente contra nós.
Poderia até ser uma razão de pressão indireta, pois outros países importam o
produto brasileiro, como a China, concorrendo com a carne dos EUA.
Mas eis
que os próprios EUA isentaram a carne do tarifaço imposto contra o Brasil
anteontem. Ou seja, façam o que eu mando, não façam o que eu faço. Por quê?
Porque a questão nunca foi o trabalho forçado, mas sim o protecionismo.
Posso
discorrer sobre isso com tranquilidade porque pesquiso escravidão contemporânea
há 27 anos, tendo trabalhado como expert das Nações Unidas exatamente nessa
área, defendido um doutorado sobre a inserção econômica desse crime e prestado
assessoria a uma série de países para implementar planos de combate à
escravidão – carteiradas que só estou dando para que saibam que não sou turista
no tema.
O
Brasil conta com propostas no Congresso Nacional para proibir a importação de
bens com mão de obra escrava, e eu mesmo venho alertando para a importância de
aprovar esse tipo de medida nos últimos 15 anos.
Mas a
questão não é só aprovar, o que nos levaria do grupo de sobretaxa de 12,5% para
10%, e sim efetivar a lei.
Impedir
a entrada de produtos que não comprovem lisura trabalhista é pouco provável sem
um sistema global, dada a baixa transparência das cadeias produtivas em certas
áreas. O mundo não tem uma “Lista Suja” do trabalho escravo, como nós.
Sempre
defendi que a imposição de barreiras comerciais não é a saída para combater a
escravidão contemporânea porque nivela bons e maus produtores e é mais usada
como um instrumento protecionista do que como algo útil para melhorar a vida
dos trabalhadores.
Faz
muito mais sentido uma análise caso a caso, empresa a empresa, fazenda a
fazenda. E uma melhora estrutural de setores econômicos do ponto de vista
social e trabalhista.
Para
isso, seria mais produtivo se os EUA aceitassem a discussão de um tratado
global com princípios vinculantes de empresas e direitos humanos, com
obrigações e punições a serem impostas pelos países, como aquele que vem sendo
discutido nas Nações Unidas.
Mas
alguém aqui acha que a Casa Branca aprovaria isso? Logo ela, que vai à guerra
em outros países em nome dos interesses de suas empresas?
E
enquanto Washington usa o trabalho forçado como moeda de barganha geopolítica,
trabalhadores reais (inclusive nos próprios Estados Unidos) continuam presos em
cadeias produtivas que nenhuma tarifa foi desenhada para romper.
O
protecionismo se veste de humanitarismo, mas seus beneficiários são os mesmos
de sempre: as empresas que financiam campanhas, os setores que precisam de
vantagem competitiva, os interesses que definem, na prática, o que entra e o
que sai pelos portos americanos.
Combater
a escravidão contemporânea exige o oposto dessa lógica: transparência,
rastreabilidade, cooperação multilateral e responsabilização individual de quem
lucra com o crime, independentemente de onde esteja sediado.
Enquanto
isso não acontecer, tarifas como essa serão apenas mais um instrumento de
pressão econômica com boa embalagem moral. E o trabalhador, ironicamente, nem
na embalagem aparece.
Fonte:
Repórter Brasil

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