Ditadura
Nunca Mais: a influência do anticomunismo e dos Estados Unidos no golpe 64
Durante
a Guerra Fria, o capitalismo e a
contenção do “perigo vermelho” foram usados como justificativas ideológicas por
vários atores políticos, bancários, empresas multinacionais e os Estados Unidos
(EUA) para consolidar regimes autoritários na América Latina.
Esse
processo teve impactos profundos no Brasil, com o Golpe de 1964 e a ditadura
militar que se seguiu.
Aqui
vamos analisar essas conexões, entender como o perigo vermelho se tornou tão
perigoso para o capitalismo e debater os impactos no Brasil.
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A ascensão do comunismo no Brasil
Durante
a Guerra Fria, a América Latina virou um tabuleiro estratégico na disputa entre
capitalismo e comunismo, pelo menos segundo a lógica que predominava nos EUA e
seus aliados.
A Revolução Cubana e a crise dos
mísseis em 1962 aumentaram os temores em Washington quanto à difusão do
comunismo, mesmo em governos moderados e reformistas como o de João Goulart.
A
estratégia norte-americana era clara: qualquer governo que parecesse se
aproximar do comunismo representava uma ameaça ao continente.
Não só
isso provocou a classificação do Brasil como palco potencial de avanço
soviético, mas também trouxe consequências econômicas para o país.
Por
exemplo, nesse período houve uma alta no condicionamento de empréstimos e
financiamento político a grupos favoráveis ao alinhamento com os Estados
Unidos.
Como
Jango era visto como um presidente nacionalista e aliado a setores de esquerda,
os Estados Unidos interromperam empréstimos e bloquearam negociações com
o FMI (Fundo
Monetário Internacional), dificultando a estabilidade econômica e criando o
ambiente de “crise” que mais tarde justificaria o golpe.
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O Golpe de 64
No
Brasil, o golpe de 1964 e a subsequente ditadura militar foram apoiados
por setores empresariais, bancos, multinacionais e, claro, por aqueles que
tinham grande interesse em espantar o comunismo, os estadunidenses.
De um
lado, setores empresariais e bancos privados estavam com medo das reformas
propostas por João Goulart, especialmente a reforma agrária, a estatização de
setores estratégicos e a taxação de grandes fortunas.
De
outro, empresas multinacionais, muitas das quais já operavam no país com
isenções fiscais e liberdade irrestrita de envio de lucros ao exterior, viram
nas propostas do governo um risco à lógica do capitalismo internacional.
Inclusive,
é importante lembrar que o Golpe de 64 não foi um impulso.
Ele foi
construído passo a passo, ao longo de meses, com articulações entre militares,
empresários, setores da mídia, políticos conservadores e apoio direto dos
Estados Unidos.
Um dos
momentos-chave de mobilização social e simbólica para legitimar o golpe foi a
chamada Marcha da Família com Deus pela Liberdade — uma caminhada que reuniu
mais de 300 mil pessoas mobilizadas principalmente por setores da Igreja
Católica, empresários, donas de casa de classe média e organizações conservadoras, como o IPES e o
IBAD.
A
marcha, realizada em março de 64, era uma reação direta ao comício de João
Goulart na Central do Brasil (13 de março), onde o presidente reafirmou sua
disposição de implementar as Reformas de Base.
E um
dos últimos passos para o Golpe que viria alguns dias depois.
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O estopim do Golpe de 64
Na
madrugada de 31 de março para 1º de abril de 1964, tropas do general Olympio
Mourão Filho, de Juiz de Fora, marcharam em direção ao Rio de Janeiro, cidade
que era a capital brasileira.
Era o
estopim do golpe.
Outros
setores militares aderiram rapidamente ao movimento, e o então presidente João
Goulart decidiu não resistir com força militar, temendo uma guerra civil. Ele
se retirou para o Rio Grande do Sul e, depois, foi exilado no Uruguai.
O
estopim imediato do movimento golpista teve como pano de fundo a Revolta dos
Marinheiros, ocorrida poucos dias antes, entre 25 e 27 de março.
Cerca
de 2.000 marinheiros e fuzileiros navais, liderados por João Cândido Felisberto
(sim, o mesmo da Revolta da Chibata, décadas antes), protestaram exigindo
melhores condições de trabalho, anistia para marinheiros punidos por
insubordinação e direitos políticos.
João
Goulart se recusou a punir os manifestantes e, inclusive, concedeu anistia.
Isso
foi interpretado pelos altos comandos militares como uma quebra da hierarquia,
acirrando o clima de instabilidade. Para os setores conservadores, a leniência
do governo com os marinheiros foi a “gota d’água” e eles entenderam que o país
estava escorregando para o comunismo ou para uma “república sindicalista”.
No dia
2 de abril, o Congresso Nacional declarou vaga a presidência da República,
mesmo sem renúncia formal de Goulart.
No dia
seguinte, os militares tomaram o poder oficialmente, e o general Castello
Branco foi nomeado presidente por eleição indireta, inaugurando o que se
tornaram 21 anos de ditadura militar no Brasil.
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O “perigo vermelho” e o “milagre econômico”
O
discurso do “perigo vermelho”, termo que refletia uma suposta ameaça comunista
iminente, foi o alicerce simbólico da ditadura militar no Brasil. Ele não
apenas legitimou o golpe, como também sustentou políticas autoritárias ao longo
das duas décadas seguintes.
Ao
construir um inimigo interno rotulado como “subversivo”, “terrorista” ou
“infiltrado”, o regime justificou a perseguição sistemática a opositores
políticos — prendendo, torturando e assassinando milhares de pessoas.
Toda
forma de pensamento crítico passou a ser tratada como ameaça à segurança
nacional. Assim, o anticomunismo operava como uma ferramenta de controle social
e político, silenciando o que era diferente e restringindo liberdades civis.
Além da
repressão direta, o regime interveio
nas universidades públicas, cassando docentes e reitores, censurando livros, peças,
filmes e músicas e até desarticulando movimentos sociais e sindicatos de base.
Foi por
trás dessa fachada moral de combate ao comunismo, se implementou um projeto
econômico alinhado ao capitalismo internacional, com estímulo à entrada de
empresas multinacionais que atuavam com isenções fiscais, flexibilidade
trabalhista e livre remessa de lucros ao exterior.
O
chamado “milagre econômico” aprofundou a concentração de renda e agravou as
desigualdades sociais. O “perigo vermelho”, portanto, foi uma narrativa
construída para justificar a violência do Estado, preservar os interesses das
elites e garantir a abertura econômica em favor do capital estrangeiro.
Também
foi a narrativa criada para afastar os ideais de outros países de esquerda da
realidade brasileira. Foi nesse período pré-Golpe de 64 que uma das frases que
mais ouvimos hoje em dia nasceu, as pessoas morriam de medo do Brasil “virar
Cuba”.
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Os Estados Unidos e o Golpe Militar
A
atuação dos Estados Unidos durante a
ditadura militar brasileira não se limitou ao apoio inicial ao golpe de 1964 —
ela se estendeu por toda a duração do regime, moldando decisões estratégicas,
econômicas e até ajudando o governo a se tornar cada vez mais repressivo.
Logo
após o golpe, os EUA foi o primeiro país a reconhecer o novo governo,
sinalizando ao mundo que aquele era um regime legítimo.
Documentos
da Comissão da Verdade mostram que oficiais brasileiros
receberam treinamento na
Escola das Américas, no Panamá, onde aprenderam métodos de interrogatório,
contrainsurgência e controle populacional — conhecimentos posteriormente
aplicados em prisões e centros de tortura no Brasil.
No
campo econômico, os EUA apoiaram o regime com empréstimos e investimentos que
favoreceram a entrada de empresas multinacionais e a implementação de políticas
alinhadas ao neoliberalismo, mesmo que isso significasse o aprofundamento da
pobreza e da desigualdade.
E a
verdade sobre o resultado dessa estratégia é que essa colaboração consolidou o
Brasil como uma peça subordinada no tabuleiro geopolítico americano, onde a
manutenção da ordem capitalista valia mais do que a democracia ou os direitos
humanos.
Hoje, é
verdadeiro afirmar que a ditadura militar no Brasil não se sustentou só na
força dos quartéis.
Ela foi
alimentada por uma ideologia muito bem construída, centrada no medo do
comunismo. Sobre isso, o historiador
Rodrigo Patto Sá Motta explica que o anticomunismo não era só um discurso
político mas, sim, uma ferramenta real de controle, usada para justificar
censura, repressão, perseguição a opositores, intervenção nas universidades e o
sufocamento de qualquer ideia diferente.
No
livro Em guarda contra o perigo vermelho (2002), ele mostra como esse medo
costurado com propaganda e paranoia uniu militares, empresários, religiosos
conservadores e a grande mídia.
Esse
medo ajudou a abrir caminho para um projeto autoritário, violento e
completamente alinhado aos interesses dos Estados Unidos e elites econômicas,
que viram no golpe uma oportunidade de manter seus privilégios e afastar
qualquer ameaça de justiça social.
O tal
“perigo vermelho” virou desculpa para calar vozes, desmontar direitos e
entregar o país aos interesses do capital estrangeiro. E entender esse passado
é urgente.
¨ O fio de prata da
Ditadura: Vorcaro, os Bolsonaro e os “Bandidos de Farda”
Há algo
de profundamente pedagógico e, ao mesmo tempo, assombroso na maneira como o
passado insiste em não passar no Brasil. Quando observamos o escândalo
envolvendo o Banco Master, Daniel Vorcaro e o senador Flávio Bolsonaro, não
estamos diante de um fato isolado da crônica policial-política contemporânea.
Estamos, na verdade, contemplando o espectro insepulto de uma estrutura de
poder que remonta diretamente ao golpe de 1964. A história, como sabemos, não
se repete, mas frequentemente rima com um cinismo atroz.
O áudio
revelado pelo The Intercept Brasil, no qual o filho “01” do ex-presidente cobra
milhões de reais do banqueiro Vorcaro – sob o pretexto de financiar um filme
sobre Jair Bolsonaro –, é apenas a ponta de um iceberg que afunda suas raízes
nas águas turvas da ditadura empresarial-civil-militar. Para compreendermos
essa engenharia autoritária, precisamos retroceder no tempo e entender que o
golpe de 64 nunca foi exclusivamente militar. Ele foi financiado, desde o seu
nascedouro, pelo caixa dois de grandes empresários, publishers e banqueiros que
forneceram desde carros blindados até infraestrutura logística para sufocar a
democracia.
O
propalado “milagre econômico” que se seguiu não foi senão a financeirização da
vida nacional, um projeto que concentrou renda nas mãos de poucos, entregou o
país ao capital estrangeiro e deixou como herança maldita uma dívida externa
que saltou de três bilhões para mais de cem bilhões de dólares. A ditadura
forjou um mercado de capitais à sua imagem e semelhança: opaco, concentrador e
profundamente avesso a qualquer regulação democrática. É nesse húmus histórico
que germinam figuras e banqueiros golpistas de lá para cá. E Daniel Vorcaro e
instituições como o Banco Master fazem parte disso. O bolsonarismo, ao atuar
como braço político desse “banco da máfia”, não inova, apenas atualiza o velho
consórcio entre a farda e o capital predatório.
E aqui
chegamos ao ponto fundamental que conecta as duas pontas dessa história,
magistralmente exposto pelo documentário “Bandidos de Farda”, do ICL. O arquivo secreto do coronel Cyro
Etchegoyen, guardado a sete chaves por cinco décadas, não revela apenas os
horrores inomináveis da tortura, do estupro e do assassinato. Ele desnuda a
mentira fundadora das Forças Armadas na Nova República. Os militares mentiram
para a Comissão Nacional da Verdade, mentiram para a presidenta Dilma Rousseff
e continuam mentindo para a nação. A colaboração com a inteligência britânica
para aprimorar técnicas de tortura na famigerada “Casa da Morte” prova que o terrorismo
de Estado foi institucional, científico e internacionalizado.
Jair
Bolsonaro, um subproduto ressentido desses porões, passou sua carreira inteira
negando esses crimes e celebrando os torturadores. O seu governo foi a
tentativa de retomada desse projeto interrompido. Quando Bolsonaro tentou dar
um golpe em 8 de janeiro, ele não estava rompendo com a sua tradição. Ele
estava sendo fiel à sua essência. E Flávio Bolsonaro, repaginado como
presidenciável, supostamente mais polido e afeito aos ritos de Brasília, é o
herdeiro direto desse legado de destruição. O “01”, que começou financiando
prédios de milícia no Rio de Janeiro com o dinheiro das rachadinhas, agora
opera nas altas esferas das finanças ilícitas, cobrando faturas de banqueiros
enrolados com a Polícia Federal.
A
impunidade é o método político que une o coronel Cyro Etchegoyen a Daniel
Vorcaro, e a ditadura ao bolsonarismo. A transição democrática brasileira,
tutelada pelos mesmos generais que promoveram a barbárie, permitiu que as
estruturas financeiras e repressivas do regime permanecessem intactas. A
anistia foi o pacto de silêncio que garantiu a sobrevivência desses “bandidos
de farda” e de seus financiadores de terno e gravata.
Enquanto
não enfrentarmos essa continuidade histórica, continuaremos reféns desse teatro
do absurdo. O escândalo do Banco Master é sim sobre corrupção, mas é
principalmente sobre como o capital financeiro “desregulado” financia a
extrema-direita para manter seus privilégios, da mesma forma que os empresários
paulistas financiaram a “Operação Bandeirante” nos anos de chumbo. A história
nos cobra a fatura, e o preço da nossa amnésia coletiva é ver os herdeiros do
terror da ditadura, munidos de dinheiro sujo e blindagem jurídica, posando de
salvadores da pátria. Que o jornalismo investigativo e a memória histórica,
armas que o ICL empunha com bravura, sejam o nosso antídoto contra essa
pantomima macabra.
Fonte:
ICL Notícias

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