O
levante dos pobres
A
capital da Bolívia está isolada por via terrestre há quatro semanas. Quase
todas as vias de acesso estão bloqueadas e a feroz repressão oficial não tem
conseguido dispersar multidões vindas de praticamente todo o país. La Paz
enfrenta escassez de alimentos e combustíveis. Diante de uma renitente crise
econômica, disparada nos preços e queda da qualidade de vida há motivos em
penca para justificar a ira popular.
Há
poucas semanas, um lote de combustível adulterado danificou mais de 10 mil
veículos, enfurecendo seus proprietários. O ataque estadunidense ao Irã
deflagrou uma inflação nos preços de combustíveis que ainda não chegou ao país
andino. A exigência majoritária é a renúncia do presidente Rodrigo Paz Pereira,
no poder desde novembro passado.
Os
protestos fazem convergir trabalhadores assalariados, autônomos, precarizados,
professores da rede pública, mineiros, pequenos agricultores e vários
movimentos indígenas quéchuas e aimarás, agrupados em dezenas de entidades
locais e nacionais, com destaque para a histórica Central Operária Boliviana
(COB).
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Antirreforma agrária
O
gatilho para a rebelião foi o sancionamento da Lei 1720, de 10 de abril último.
Em um documento de uma página e cinco artigos, o governo praticamente anularia
a reforma agrária conquistada pela Revolução de 1952: “O objetivo desta Lei é
(…) converter a classificação de pequenas propriedades tituladas para médias
propriedades”. Em duas linhas, sob o pretexto de abrir espaço para os
camponeses hipotecarem suas terras em busca de créditos, acabaria o direito
social de lotes oriundos da democratização fundiária, abrindo o setor para o
mercado.
As
reformas sociais de mais de sete décadas atrás marcaram a entrada da Bolívia na
modernidade, estabelecendo, além da partição do solo, o direito ao sufrágio
universal, incluindo a maioria indígena-camponesa e as mulheres na vida
institucional, além do estabelecimento dos recursos naturais como propriedade
do Estado.
A norma
legal foi revogada antes mesmo de entrar em vigor, um mês depois de aprovada.
Mas o clima de animosidade popular não arrefeceu. “Depositamos total confiança
no governo nos últimos seis meses, e eles nos viraram as costas”, argumentou
David Mamani, dirigente da Federação Camponesa Tupak Katari de La Paz, em vídeo
no YouTube. Mas a insatisfação tem raízes profundas e se expressou nas urnas.
A marca
maior das eleições presidenciais de 2025 foi escancarar a implosão do MAS
(Movimento ao Socialismo), que governou a Bolívia por quase duas décadas, sob
as presidências de Evo Morales e Luís Arce. Embora a economia tenha crescido em
média 5,7% nos quatro primeiros anos da administração de Evo Morales
(2006-2010), bem acima da média continental de pouco mais de 3%, não houve
mágica. O boom das commodities trouxe breve prosperidade à largas extensões da
periferia global.
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Esquerda em parafuso
O MAS,
criado nos anos 1990, vive uma crise aparentemente terminal. Dividida em três
alas, a agremiação foi praticamente riscada da vida institucional. Em 2006, nas
eleições para a Assembleia Constituinte, a legenda alcançou 51% dos assentos e
não teve dificuldades de se compor até com a direita para aprovar seus
projetos. Vinte anos depois, elegeu apenas 1,5% do total de deputados. Os
partidos de direita, apoiadores do governo, somam 91,5% na Câmara e 100% no
Senado.
Ex-homem
de confiança de Evo Morales, Luís Arce pilotou um mandato turbulento (2020-25).
A pandemia da covid-19 abalou pesadamente a economia e o PIB chegou a cair
8,75% no primeiro ano de sua gestão. Encerrou o governo com uma inflação
acumulada de 20,4% em 2025, problemas no abastecimento de combustíveis e uma
recessão em curso. Diante da alta rejeição popular, abriu mão de tentar a
reeleição.
A
disputa pública com Evo Morales pelo controle do partido e pesadas acusações
mútuas criaram uma espécie de tempestade perfeita contra a esquerda, que não
passou do primeiro turno no ano passado, alcançando 9% nas urnas.
Rodrigo
Paz era pouco mais que um azarão na corrida presidencial que o levou à vitória
no segundo turno com 54,5% dos votos, em 19 de outubro. Quatro meses antes, o
então candidato patinava em quinto lugar nas pesquisas, exibindo 7,5% das
preferências. Venceu o primeiro turno, em 17 de agosto, com 32% dos sufrágios.
Sua campanha foi inflada em grande medida por votos de setores populares,
anteriormente fiéis ao MAS.
Liderança
de direita tida como moderada e oriundo de uma tradicional família de políticos
– seu pai, Jorge Paz Zamora fora presidente entre 1989-93 – o então candidato
adotou pautas progressistas diante do ultraliberal Jorge “Tuto” Quiroga, que
ocupara a cadeira presidencial entre 2001-02. O eleitorado, diferentemente do
Brasil em 2018 e da Argentina em 2023, rechaçou o caminho da extrema direita,
ao mesmo tempo em que se afastou da esquerda.
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Estelionato eleitoral
Eleito
no bojo de grave crise econômica, Rodrigo Paz agiu como qualquer neoliberal sem
programa claro optou pelo choque. Em 17 de dezembro, quarenta dias após a
posse, apresentou o Decreto Supremo 5503, alentado arrazoado de 20 páginas e
121 artigos repleto de lugares-comuns mercadistas.
Depois
de eliminar o imposto sobre grandes fortunas, herança do MAS, o documento
propunha cortar gastos no orçamento público, retirar subsídios dos
combustíveis, congelar salários do funcionalismo público, ao mesmo tempo em que
apresentava compensações sociais, como o reajuste do salário mínimo pela
inflação do ano anterior. No entanto, a percepção geral foi de quebra de
compromissos de campanha. Intensos protestos levaram à revogação da medida
menos de um mês após sua aprovação.
Rodrigo
Paz conduz um governo errático, baseado em denúncias de corrupção contra o MAS,
medidas neoliberais e uma crescente aproximação com o governo de Donald Trump.
No início de março, o mandatário voou para Miami com o propósito de se integrar
ao Escudo das Américas, iniciativa da extrema direita continental voltada para
o combate ao chamado narcoterrorismo e composta por uma dúzia de países. Não à
toa, oito deles apressaram-se em lançar um comunicado conjunto de apoio ao
governo boliviano, há duas semanas, acusando os movimentos populares de
pretenderem “desestabilizar a ordem democrática”.
Faziam
eco a documentos semelhantes emitidos pelos governos dos Estados Unidos e de
Israel. “Os Estados Unidos apoiam firmemente o legítimo governo constitucional
da Bolívia”, declarou Marco Rubio, secretário de Estado, em 20 de maio. “Não
permitiremos que criminosos e traficantes de drogas derrubem líderes
democraticamente eleitos em nosso hemisfério”.
Em
sentido contrário, Gustavo Petro, presidente da Colômbia, se manifestou em 17
de maio: “A Bolívia vive uma insurreição popular. É a resposta à soberba
geopolítica. (…) Meu governo está disposto, se for convidado, a buscar fórmulas
pacíficas de saída à crise política boliviana”. A resposta de La Paz foi dura,
expulsando a embaixadora colombiana do país, motivando igual iniciativa por
parte de Bogotá. Lula decidiu se entender com Rodrigo Paz e enviar ajuda
humanitária ao país. O acirramento da disputa global Leste/ Oeste e o avanço da
extrema direita tende a articular cada embate local ao tabuleiro planetário.
Apesar
da exuberância dos protestos, os movimentos sociais perderam a organicidade e a
representação política outrora sintetizada pelo no MAS. Exibem a um só tempo
ações espetaculares e fragilidades grandes. São capazes de obter vitórias
significativas diante do governo, mas não se percebe ainda uma capacidade de
transformá-las em mudanças políticas efetivas, como as obtidas no processo
constituinte.
Se
Rodrigo Paz não apresenta um programa com começo, meio e fim, as manifestações
das maiorias empobrecidas tampouco lograram construir unidade sólida ou revelar
lideranças políticas que sintetizem a ascensão popular. Embora Evo Morales
tenha voltado à cena política e apoie resolutamente a onda de reivindicações,
sua expressão pública se reduziu após o golpe de 2019. Sua campanha pelo voto
nulo ano passado não teve características agregadoras, num cenário de
fragmentação e baixa confiança coletiva.
Em
outras palavras, ao contrário do que ocorreu na primeira década do século,
quando o MAS se tornou um polo unificador das demandas dos de baixo, não existe
ainda uma alternativa organizada e com legitimidade na esquerda para vertebrar
uma alternativa viável, apesar do visível enfraquecimento do governo.
Fonte:
Por Gilberto Maringoni, em Outras Palavras

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