quinta-feira, 4 de junho de 2026

O levante dos pobres

A capital da Bolívia está isolada por via terrestre há quatro semanas. Quase todas as vias de acesso estão bloqueadas e a feroz repressão oficial não tem conseguido dispersar multidões vindas de praticamente todo o país. La Paz enfrenta escassez de alimentos e combustíveis. Diante de uma renitente crise econômica, disparada nos preços e queda da qualidade de vida há motivos em penca para justificar a ira popular.

Há poucas semanas, um lote de combustível adulterado danificou mais de 10 mil veículos, enfurecendo seus proprietários. O ataque estadunidense ao Irã deflagrou uma inflação nos preços de combustíveis que ainda não chegou ao país andino. A exigência majoritária é a renúncia do presidente Rodrigo Paz Pereira, no poder desde novembro passado.

Os protestos fazem convergir trabalhadores assalariados, autônomos, precarizados, professores da rede pública, mineiros, pequenos agricultores e vários movimentos indígenas quéchuas e aimarás, agrupados em dezenas de entidades locais e nacionais, com destaque para a histórica Central Operária Boliviana (COB).

<><> Antirreforma agrária

O gatilho para a rebelião foi o sancionamento da Lei 1720, de 10 de abril último. Em um documento de uma página e cinco artigos, o governo praticamente anularia a reforma agrária conquistada pela Revolução de 1952: “O objetivo desta Lei é (…) converter a classificação de pequenas propriedades tituladas para médias propriedades”. Em duas linhas, sob o pretexto de abrir espaço para os camponeses hipotecarem suas terras em busca de créditos, acabaria o direito social de lotes oriundos da democratização fundiária, abrindo o setor para o mercado.

As reformas sociais de mais de sete décadas atrás marcaram a entrada da Bolívia na modernidade, estabelecendo, além da partição do solo, o direito ao sufrágio universal, incluindo a maioria indígena-camponesa e as mulheres na vida institucional, além do estabelecimento dos recursos naturais como propriedade do Estado.

A norma legal foi revogada antes mesmo de entrar em vigor, um mês depois de aprovada. Mas o clima de animosidade popular não arrefeceu. “Depositamos total confiança no governo nos últimos seis meses, e eles nos viraram as costas”, argumentou David Mamani, dirigente da Federação Camponesa Tupak Katari de La Paz, em vídeo no YouTube. Mas a insatisfação tem raízes profundas e se expressou nas urnas.

A marca maior das eleições presidenciais de 2025 foi escancarar a implosão do MAS (Movimento ao Socialismo), que governou a Bolívia por quase duas décadas, sob as presidências de Evo Morales e Luís Arce. Embora a economia tenha crescido em média 5,7% nos quatro primeiros anos da administração de Evo Morales (2006-2010), bem acima da média continental de pouco mais de 3%, não houve mágica. O boom das commodities trouxe breve prosperidade à largas extensões da periferia global.

<><> Esquerda em parafuso

O MAS, criado nos anos 1990, vive uma crise aparentemente terminal. Dividida em três alas, a agremiação foi praticamente riscada da vida institucional. Em 2006, nas eleições para a Assembleia Constituinte, a legenda alcançou 51% dos assentos e não teve dificuldades de se compor até com a direita para aprovar seus projetos. Vinte anos depois, elegeu apenas 1,5% do total de deputados. Os partidos de direita, apoiadores do governo, somam 91,5% na Câmara e 100% no Senado.

Ex-homem de confiança de Evo Morales, Luís Arce pilotou um mandato turbulento (2020-25). A pandemia da covid-19 abalou pesadamente a economia e o PIB chegou a cair 8,75% no primeiro ano de sua gestão. Encerrou o governo com uma inflação acumulada de 20,4% em 2025, problemas no abastecimento de combustíveis e uma recessão em curso. Diante da alta rejeição popular, abriu mão de tentar a reeleição.

A disputa pública com Evo Morales pelo controle do partido e pesadas acusações mútuas criaram uma espécie de tempestade perfeita contra a esquerda, que não passou do primeiro turno no ano passado, alcançando 9% nas urnas.

Rodrigo Paz era pouco mais que um azarão na corrida presidencial que o levou à vitória no segundo turno com 54,5% dos votos, em 19 de outubro. Quatro meses antes, o então candidato patinava em quinto lugar nas pesquisas, exibindo 7,5% das preferências. Venceu o primeiro turno, em 17 de agosto, com 32% dos sufrágios. Sua campanha foi inflada em grande medida por votos de setores populares, anteriormente fiéis ao MAS.

Liderança de direita tida como moderada e oriundo de uma tradicional família de políticos – seu pai, Jorge Paz Zamora fora presidente entre 1989-93 – o então candidato adotou pautas progressistas diante do ultraliberal Jorge “Tuto” Quiroga, que ocupara a cadeira presidencial entre 2001-02. O eleitorado, diferentemente do Brasil em 2018 e da Argentina em 2023, rechaçou o caminho da extrema direita, ao mesmo tempo em que se afastou da esquerda.

<><> Estelionato eleitoral

Eleito no bojo de grave crise econômica, Rodrigo Paz agiu como qualquer neoliberal sem programa claro optou pelo choque. Em 17 de dezembro, quarenta dias após a posse, apresentou o Decreto Supremo 5503, alentado arrazoado de 20 páginas e 121 artigos repleto de lugares-comuns mercadistas.

Depois de eliminar o imposto sobre grandes fortunas, herança do MAS, o documento propunha cortar gastos no orçamento público, retirar subsídios dos combustíveis, congelar salários do funcionalismo público, ao mesmo tempo em que apresentava compensações sociais, como o reajuste do salário mínimo pela inflação do ano anterior. No entanto, a percepção geral foi de quebra de compromissos de campanha. Intensos protestos levaram à revogação da medida menos de um mês após sua aprovação.

Rodrigo Paz conduz um governo errático, baseado em denúncias de corrupção contra o MAS, medidas neoliberais e uma crescente aproximação com o governo de Donald Trump. No início de março, o mandatário voou para Miami com o propósito de se integrar ao Escudo das Américas, iniciativa da extrema direita continental voltada para o combate ao chamado narcoterrorismo e composta por uma dúzia de países. Não à toa, oito deles apressaram-se em lançar um comunicado conjunto de apoio ao governo boliviano, há duas semanas, acusando os movimentos populares de pretenderem “desestabilizar a ordem democrática”.

Faziam eco a documentos semelhantes emitidos pelos governos dos Estados Unidos e de Israel. “Os Estados Unidos apoiam firmemente o legítimo governo constitucional da Bolívia”, declarou Marco Rubio, secretário de Estado, em 20 de maio. “Não permitiremos que criminosos e traficantes de drogas derrubem líderes democraticamente eleitos em nosso hemisfério”.

Em sentido contrário, Gustavo Petro, presidente da Colômbia, se manifestou em 17 de maio: “A Bolívia vive uma insurreição popular. É a resposta à soberba geopolítica. (…) Meu governo está disposto, se for convidado, a buscar fórmulas pacíficas de saída à crise política boliviana”. A resposta de La Paz foi dura, expulsando a embaixadora colombiana do país, motivando igual iniciativa por parte de Bogotá. Lula decidiu se entender com Rodrigo Paz e enviar ajuda humanitária ao país. O acirramento da disputa global Leste/ Oeste e o avanço da extrema direita tende a articular cada embate local ao tabuleiro planetário.

Apesar da exuberância dos protestos, os movimentos sociais perderam a organicidade e a representação política outrora sintetizada pelo no MAS. Exibem a um só tempo ações espetaculares e fragilidades grandes. São capazes de obter vitórias significativas diante do governo, mas não se percebe ainda uma capacidade de transformá-las em mudanças políticas efetivas, como as obtidas no processo constituinte.

Se Rodrigo Paz não apresenta um programa com começo, meio e fim, as manifestações das maiorias empobrecidas tampouco lograram construir unidade sólida ou revelar lideranças políticas que sintetizem a ascensão popular. Embora Evo Morales tenha voltado à cena política e apoie resolutamente a onda de reivindicações, sua expressão pública se reduziu após o golpe de 2019. Sua campanha pelo voto nulo ano passado não teve características agregadoras, num cenário de fragmentação e baixa confiança coletiva.

Em outras palavras, ao contrário do que ocorreu na primeira década do século, quando o MAS se tornou um polo unificador das demandas dos de baixo, não existe ainda uma alternativa organizada e com legitimidade na esquerda para vertebrar uma alternativa viável, apesar do visível enfraquecimento do governo.

 

Fonte: Por Gilberto Maringoni, em Outras Palavras

 

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