Ramsés
Albertoni: A imprensa e o paradoxo da polarização
Há uma
contradição que atravessa sistematicamente o discurso editorial da grande
imprensa e que raramente se torna objeto de análise explícita, uma vez que os
mesmos veículos que diagnosticam, com frequência, os efeitos corrosivos da
polarização política sobre o espaço público democrático são, em larga medida,
agentes constitutivos do fenômeno que denunciam. Essa contradição não configura
uma anomalia episódica, tampouco resulta de inconsistência editorial facilmente
corrigível, trata-se, antes, de uma tensão estrutural enraizada nas próprias
convenções narrativas do jornalismo moderno e nas condições materiais de
produção e circulação da notícia na contemporaneidade. Compreendê-la exige,
preliminarmente, qualificar com precisão o estatuto causal que se atribui à
imprensa nesse processo, pois a afirmação de que o jornalismo produz
polarização, tomada sem mediações, incorre igualmente nos mesmos problemas de
simplificação que pretende denunciar.
A
pesquisa sobre “polarização afetiva” nas últimas duas décadas demonstra que a
intensidade do antagonismo político está menos associada ao consumo de mídia
tradicional do que a outros fatores, tais como, a identidade partidária
operando como marcador de identidade social, a fragmentação das práticas de
consumo informacional e a arquitetura algorítmica das plataformas digitais.
Os
trabalhos de Lilliana Mason em Uncivil Agreement (2018) e de Yanna Krupnikov e
John Barry Ryan em The Other Divide (2022) indicam que a polarização afetiva, a
saber, a hostilidade emocional em relação ao adversário político, precede, em
larga medida, o consumo de conteúdo midiático específico e está ancorada em
processos identitários mais profundos. Isso não exonera o jornalismo de
responsabilidade, mas exige que essa responsabilidade seja descrita com maior
precisão analítica do que a narrativa da causalidade direta permite. A imprensa
não fabrica a polarização a partir do nada, ela opera sobre disposições
identitárias preexistentes, amplificando-as, conferindo-lhes linguagem e
tornando-as politicamente mobilizáveis. A distinção não é trivial, dela dependem
tanto o diagnóstico quanto as possibilidades de intervenção.
A
produção de notícias se organiza, historicamente, em torno de estruturas
conflitivas. A oposição binária – direita versus esquerda, Estado versus
mercado, tradição versus progressismo – não é apenas uma convenção estilística,
mas um dispositivo cognitivo que regula o modo pelo qual a imprensa torna o
mundo inteligível para seus públicos. Esse dispositivo possui eficácia
comunicacional inegável, já que simplifica o acesso a debates complexos, gera
identificação imediata e permite enquadramentos rápidos, compatíveis com o
imperativo da velocidade informacional.
Contudo,
ao traduzir sistematicamente a heterogeneidade das posições políticas em duelos
bem delimitados, o jornalismo não descreve o conflito, ele o performa. Nesse
sentido, a formulação de Robert Entman, em Framing (1993), sobre enquadramento
permanece central, pois selecionar e destacar certos aspectos da realidade
percebida é, necessariamente, promover uma interpretação particular, atribuir
causalidade e sugerir julgamentos morais. A escolha da estrutura bothsidesism
(doisladismo) como modelo dominante não é neutra, mas uma operação de poder
simbólico que define o que pode ser dito, quem pode dizê-lo e em que termos.
Stuart Hall, em Encoding/Decoding (1980), já alertava nessa direção, pois toda
operação de enquadramento é uma operação de poder, e a neutralidade enunciada é
sempre uma neutralidade produzida, jamais uma neutralidade encontrada.
Debates
sobre direitos reprodutivos, segurança pública, reforma tributária ou políticas
de saúde mental são recorrentemente comprimidos em categorias excludentes – “a
favor” ou “contra”, “conservador” ou “progressista” –, eliminando da discussão
coletiva as posições intermediárias, as ambivalências legítimas e os dados que
contradizem a narrativa dos extremos. Audiências expostas sistematicamente a
enquadramentos polarizados tendem a perceber seus adversários políticos como
mais radicais do que de fato são e a subestimar a complexidade das próprias
posições que sustentam, fenômeno descrito na literatura como “polarização
percebida” e em parte alimentado por rotinas jornalísticas que reforçam a
excepcionalidade do conflito em detrimento da negociação cotidiana.
É
precisamente aqui, no entanto, que emerge uma segunda problemática, a
reivindicação da complexidade, da nuance e das posições intermediárias como
antídoto editorial ao binarismo. Essa proposição, embora intuitivamente
plausível, carrega uma armadilha ideológica que a reflexão sobre mídia precisa
enfrentar. A reivindicação de complexidade pode, ela mesma, operar como gesto
político conservador, tendendo a beneficiar estruturalmente quem já detém
poder.
Quando
a imprensa enquadra o debate sobre cotas raciais, reparações históricas ou
emergência climática como “questões complexas com posições válidas em ambos os
lados”, não está necessariamente promovendo maturidade analítica, pode estar
neutralizando imperativos de justiça e urgência científica mediante a retórica
da ponderação equânime. O bothsidesism, amplamente criticado na literatura de
jornalismo estadunidense após o ciclo eleitoral de 2016, demonstrou
empiricamente que tratar como equivalentes posições epistêmica e moralmente
assimétricas não constitui neutralidade, mas uma forma de tomada de partido
disfarçada de procedimento isomorfo. A cobertura da pandemia de Covid-19
ofereceu um laboratório doloroso dessa distinção, haja vista que veículos que buscaram
“equilíbrio” entre o consenso científico e o negacionismo não produziram
jornalismo mais matizado, produziram jornalismo mais perigoso.
Impõe-se,
portanto, uma diferenciação que a crítica ao binarismo frequentemente
negligencia, isto é, a distinção entre complexidade enquanto valor epistêmico
legítimo e complexidade enquanto estratégia retórica funcional à manutenção do
status quo. Existem assimetrias factuais, científicas e morais que o recurso à
nuance não dissolve, ele apenas obscurece. A questão central não é substituir o
binário pelo gradiente de forma generalizada, mas desenvolver critérios
editoriais capazes de discriminar quando a complexidade é ontologicamente
pertinente ao fenômeno coberto e quando é retoricamente funcional a interesses
que resistem a ser nomeados. Complexidade analítica não é equivalente a
equidistância política, e o reconhecimento de nuances não implica tratar como
simétricas posições que mantêm relações radicalmente distintas com a evidência
empírica e com os princípios democráticos fundamentais.
Outro
conjunto de tensões diz respeito às condições materiais de produção
jornalística, dimensão que a crítica às práticas narrativas frequentemente
subestima ao tratá-las como escolhas editoriais reversíveis mediante mudança de
cultura profissional. Essa perspectiva voluntarista ignora as determinações
econômicas do campo midiático.
No
Brasil, menos de dez grupos controlam mais de 90% da audiência dos grandes
meios, conforme levantamentos do Media Ownership Monitor Brasil, configuração
oligopolista que constrange estruturalmente a diversidade editorial. Num
cenário de colapso do modelo publicitário tradicional e de dependência
crescente das plataformas digitais para distribuição e monetização de conteúdo,
a pergunta relevante não é se o jornalismo deseja ser mais complexo, mas em que
condições materiais essa complexidade se torna economicamente sustentável.
Os
formatos que aprofundam contexto, apresentam ambivalências e recusam o
enquadramento de confronto exigem mais tempo de produção, mais investimento em
formação e geralmente produzem menor engajamento imediato nas métricas de
plataforma, tornando-se sistematicamente desfavorecidos nas lógicas de alocação
de recursos das redações contemporâneas. A crítica ao jornalismo que não
articula a crítica à economia política da mídia responsabiliza indivíduos e
culturas profissionais por constrangimentos que são, fundamentalmente,
estruturais.
Por
fim, outro elemento compromete a profundidade do diagnóstico quando
negligenciado. Estamos falando da relação historicamente específica entre a
grande imprensa brasileira e a democracia. A afirmação de que os grandes
veículos nacionais possuem longa tradição de defesa das instituições
democráticas, tomada sem qualificação histórica, é empiricamente contestável,
já que a imprensa brasileira esteve, em momentos decisivos do século XX,
alinhada a rupturas institucionais. O apoio editorial ao golpe de 1964 é o
exemplo mais amplamente documentado pela historiografia do jornalismo nacional,
como demonstram os trabalhos de Carlos Fico e a cobertura analisada por
Bernardo Kucinski em Jornalistas e Revolucionários (1991). Sua relação com a
democracia foi historicamente mais seletiva do que a mitologia liberal do
jornalismo como “quarto poder” sugere, operando frequentemente como porta-voz
de interesses de determinadas classes e grupos econômicos. Ignorar esse
substrato histórico ao propor que a imprensa reveja suas práticas narrativas,
sem nomear os interesses que essas práticas historicamente serviram, constitui,
também, uma operação de simplificação que compromete o alcance do próprio
diagnóstico.
A
imprensa enfrenta, portanto, um imperativo analítico de difícil
operacionalização, examinar com honestidade intelectual o quanto suas próprias
convenções narrativas, suas estruturas de propriedade e sua história
institucional participam da arquitetura da polarização que diagnostica. Esse
exame não pode ser conduzido mediante à simples reivindicação de complexidade,
pois, como demonstrado, a complexidade pode ela própria ser instrumentalizada.
Tampouco pode ignorar que entre as condições estruturais do problema figuram os
interesses econômicos e políticos que a imprensa, historicamente, não tem sido
neutra em representar. O que se impõe não é uma autocrítica performática, mas
uma reflexividade institucional capaz de nomear, com precisão, quais práticas
servem ao aprofundamento democrático e quais servem, sob a aparência de
equilíbrio, à reprodução das relações de força que tornam o debate público
sistematicamente empobrecido.
• Os ataques à imprensa e o risco
estrutural para o ecossistema de comunicação. Por Guga Peccicacco
Em
2024, o Brasil registrou cerca de 700 mil ataques à imprensa. Minha projeção
para 2026, ano de eleições gerais, é que esse número, no mínimo, dobre e
alcance a casa de 1,4 milhão. Não se trata de uma estimativa retórica. Essa é
uma leitura de padrão e que leva em conta também a consolidação da IA
generativa no dia a dia da sociedade brasileira.
Sim,
ataques à imprensa não são novos, mas sua intensidade e escala ganham mais
contornos dentro de um ambiente de informação altamente digitalizada.
Ao
mesmo tempo em que traz benefícios, como a possibilidade de uma inserção mais
democrática, também traz o desafio de lidar com um modelo de descredibilização
do jornalismo profissional, que ganha nuances de estratégia deliberada.
Em
outras palavras, não estamos falando apenas de um subproduto da polarização: os
ataques à imprensa, hoje, fazem parte do jogo e é preciso buscar caminhos para
fortalecer veículos e profissionais que se atentam aos preceitos básicos do
jornalismo como a checagem e pluralidade de fontes, ética e respeito à
democracia.
Esse
desafio fica mais evidente em períodos eleitorais. Durante o primeiro turno das
eleições municipais de 2024, a Coalizão em Defesa do Jornalismo registrou mais
de 44 mil ataques contra jornalistas e veículos em cerca de sete semanas de
monitoramento. A análise, feita em parceria com o Laboratório de Internet e
Ciência de Dados da Universidade Federal do Espírito Santo, acompanhou centenas
de contas em diferentes plataformas e identificou não apenas volume, mas padrão
de comportamento.
Inicialmente,
o X concentrava a maior parte das ocorrências, com mais de 34 mil registros em
poucas semanas. Após o bloqueio temporário da plataforma no Brasil no período,
o fluxo de ataques se redistribuiu e o TikTok passou a liderar em densidade de
hostilidade em um intervalo mais curto, seguido pelo Instagram, que também
apresentou crescimento relevante.
E esse
panorama segue se deteriorando. Segundo o Ranking dos Repórteres Sem
Fronteiras, a liberdade de imprensa atingiu, em 2025, o pior nível da sua
história, mantendo uma trajetória de queda observada nos últimos anos.
Mas os
ataques não se sustentam apenas por dinâmicas sociais. Há um componente
econômico que ajuda a explicar sua persistência. Um relatório da NewsGuard em
parceria com a Comscore aponta que cerca de US$ 2,6 bilhões em receita
publicitária global são direcionados, todos os anos, a sites de desinformação
por meio de publicidade programática. Isso significa que há incentivo
financeiro direto, ainda que involuntário, para a produção e circulação desse
tipo de conteúdo.
E esse
movimento só se intensifica com a evolução tecnológica. Ferramentas de geração
de conteúdo sintético, como deepfakes de áudio e vídeo, ampliam a capacidade de
fabricar fake news plausíveis em tempo reduzido, enquanto a checagem, por
definição, opera em outro ritmo: mesmo quando o desmentido ocorre, ele já
disputa espaço com uma narrativa que circulou antes e, muitas vezes, com mais
intensidade.
Assim,
é possível afirmar que a desinformação está inserida em uma lógica de escala,
monetização e distribuição algorítmica intencional e sistematizada. Diante
desse cenário, a projeção de duplicação dos ataques à imprensa em 2026 não
parece exagerada. Ela decorre da convergência de múltiplos fatores e é nesse
contexto complexo que é preciso agir na defesa da imprensa, que atua como
última instância mediadora do que é fato verificável.
Esse
ponto é especialmente relevante quando pensamos na fragilidade financeira de
parte relevante da imprensa. Investigações mais profundas, estruturas robustas
de checagem e proteção institucional demandam recursos. Em um panorama de
pressão constante por eficiência, essa equação se torna ainda mais difícil de
sustentar.
O copo
meio cheio desse debate está no fato de que boa parte da sociedade acredita na
necessidade de ações efetivas contra a desinformação. Uma pesquisa do
DataSenado, por exemplo, indica que 81% dos brasileiros acreditam que notícias
falsas podem influenciar significativamente os resultados eleitorais. Além
disso, 72% afirmam ter tido contato recente com esse tipo de conteúdo e
consideram relevante algum nível de controle para garantir equilíbrio no
processo democrático.
Diante
de tudo isso, estamos falando de um problema complexo que não pode ficar apenas
sob responsabilidade da imprensa, já que seus efeitos afetam todo o ecossistema
de comunicação (empresas, marcas, agências e profissionais de relações públicas
e marketing).
Afinal
de contas, a qualidade do ambiente informacional impacta diretamente a
capacidade de construir reputação, estabelecer confiança e sustentar narrativas
consistentes.
Para
tanto, são necessários alguns passos importantes: elevar o padrão da informação
que entregamos com dados, fontes claras e contexto; priorizar a consistência em
detrimento da velocidade quando o conteúdo exige verificação; colaborar com
processos de checagem e, sobretudo, não normalizar a desinformação. São
movimentos que, isoladamente, parecem pequenos, mas que, em conjunto, ajudam a
reequilibrar o sistema.
Há
também uma dimensão mais ampla e fundamental para a própria democracia. Em um
ambiente em que a credibilidade da imprensa é constantemente tensionada, o
silêncio tende a operar como conivência tácita.
A
questão, portanto, não é mais se os ataques vão aumentar. Os sinais indicam que
vão. A questão é como diferentes atores do ecossistema irão responder a esse
movimento, pois a reputação da imprensa é um ativo coletivo e essencial para a
economia e sociedades realmente livres.
Fonte:
Observatório da Imprensa

Nenhum comentário:
Postar um comentário