Sonho
da direita: Pix sob ameaça? O que é investigação do governo Trump sobre
práticas comerciais no Brasil
Menos
de um mês após os governos de Brasil e Estados Unidos terem chegado a um acordo para negociar um impasse
envolvendo tarifas e uma investigação comercial americana, existe a
expectativa de que a Casa Branca anuncie medidas que rompam esse acordo. Segundo
fontes ouvidas pela BBC News Brasil, o governo dos EUA estaria próximo de
anunciar o resultado de uma grande investigação comercial iniciada contra o
Brasil em julho do ano passado — na qual acusa o governo brasileiro de uma
série de práticas comerciais desleais. As acusações serviram como base para o
governo americano adotar uma série de tarifas contra produtos brasileiros.
Entre
as acusações dos americanos estão tarifas preferenciais e injustas, proteção
inadequada dos direitos de propriedade intelectual, falta de combate ao
desmatamento ilegal e práticas que prejudicam a competitividade das empresas no
setor de comércio digital e serviços de pagamento. O amplo pacote de acusações
vai de reclamações sobre o Pix, sistema de
pagamentos do Banco Central, até queixas sobre o desmatamento ilegal.
No mês
passado, os presidentes Luiz Inácio Lula da
Silva e Donald Trump discutiram o tema em reunião de mais de três horas na Casa
Branca.
Após o encontro, Lula disse que equipes dos dois governos deveriam fechar uma
proposta para resolver o impasse sobre tarifas de exportação e a investigação
comercial aberta pelos americanos contra o Brasil. Segundo Lula, os dois
presidentes receberiam uma nova proposta para encerrar as desavenças em 30 dias
— prazo que se encerraria no próximo domingo (07/06). "Eu falei assim:
'Vamos colocar um grupo de trabalho e vamos permitir que esse moço [do
Ministério] da Indústria e Comércio do Brasil, junto com o teu ministro do
Comércio, sentem em 30 dias e apresentem para nós uma proposta para a gente
poder bater o martelo'", disse Lula a jornalistas logo após o encontro. "Quem
estiver errado vai ceder. Se a gente tiver que ceder, nós vamos ceder."
Na
semana passada, os governos dos EUA e Brasil voltaram a entrar em atrito após
o governo americano anunciar que
passará a classificar facções criminosas brasileiras como organizações
terroristas.
A medida foi anunciada por Trump dois dias após um encontro no Salão Oval com o senador
Flávio Bolsonaro (PL-RJ) — pré-candidato à Presidência nas eleições de
outubro e rival de Lula. "Nós não aceitamos ser tratados como moleques.
Não aceitamos ser tratados como uma republiqueta", disse Lula, sobre a decisão americana.
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O que motivou a investigação?
Segundo especialistas ouvidos pela BBC News
Brasil na época em que a investigação foi lançada, a visão geral era a
de que a investigação tem caráter político e de proteção a empresas americanas,
ao mesmo tempo em que traz muitas alegações que são contraditórias e imprecisas
— embora algumas das acusações comerciais façam sentido. "Para mim é claro
que o governo Trump está tentando dar motivação econômica para que as tarifas
impostas contra o Brasil não sejam ilegais", disse na época Guilherme
Klein Martins, professor da Universidade de Leeds, no Reino Unido.
Segundo
o economista, os argumentos apresentados pelo presidente americano na carta em
que anunciou oficialmente a imposição da taxa de 50% às exportações brasileiras
mostram claramente que seu descontentamento é com o fato do ex-presidente Jair Bolsonaro
(PL) ter se tornado réu na ação que apura a tentativa de golpe de Estado e
com outras decisões do Judiciário brasileiro. Bolsonaro acabou condenado em
setembro do ano passado e está atualmente cumprindo pena de 27 anos, em prisão
domiciliar.
A
motivação puramente política, porém, "poderia gerar um problema interno
nos Estados Unidos", diz Klein.
Welber
Barral, ex-secretário de Comércio Exterior dos primeiros governos Lula, afirma
que o descontentamento americano com algumas das políticas comerciais
brasileiras já existia há anos, mas foram usados no contexto atual para
justificar uma investigação nos termos da Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA.
Esse trecho da legislação americana permite que o USTR realize apurações sobre
práticas que supostamente prejudicam o comércio internacional americano e
determine se há ou não irregularidades. A intenção é punir ações consideradas
discriminatórias contra empresas americanas com sanções aos países-alvo. "A
relevância econômica de algumas dessas reclamações é muito pequena e boa parte,
se não a maior parte delas, não têm justificativa fática nenhuma", afirma
Barral.
Ainda
segundo o especialista em comércio exterior, Trump já argumentou no passado que
as tarifas anunciadas por seu governo nos últimos meses contra diversos países
seriam uma tentativa de combater o déficit comercial dos EUA com essas nações.
No caso brasileiro, porém, a balança comercial é positiva para os americanos. "Usar
a seção 301 é uma forma dos EUA se garantirem ao aplicar essas tarifas contra o
Brasil", diz.
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Comércio digital e serviços de pagamento eletrônico
No
documento divulgado pelo USTR sobre a investigação comercial, uma das áreas
apontadas como foco da apuração é a de mídia social e serviços de pagamento
eletrônico. Segundo o órgão, existem evidências de que o Brasil se envolve em
diferentes "atos, políticas e práticas que podem prejudicar a
competitividade das empresas norte-americanas envolvidas em comércio digital e
serviços de pagamento eletrônico" no país. O USTR cita um julgamento do STF sobre
regulamentação das plataformas digitais no país como um exemplo.
Segundo
a instituição, a corte votou para "tornar as empresas de redes sociais
responsáveis por postagens ilegais de seus usuários, mesmo na ausência de uma
ordem judicial para remover esse conteúdo". A mudança descrita se refere
ao recurso julgado pelo STF sobre o artigo 19 do Marco Civil da Internet. O
trecho original da lei previa que as plataformas digitais só seriam
responsabilizadas por danos causados por conteúdos ofensivos se, depois de uma
ordem judicial específica, não tomassem providências para retirar o material do
ar. A nova decisão da corte não invalidou totalmente esse entendimento, mas
definiu que em casos de crimes, atos ilícitos e contas inautênticas (criadas
por robôs, por exemplo), as empresas de mídia social se tornam responsáveis se,
após serem notificadas extrajudicialmente (pela vítima ou advogado), não
removerem o conteúdo e a Justiça considerar o material ofensivo posteriormente.
Mas em
outros tipos de infração, como nos crimes contra a honra (injúria, calúnia e
difamação), ainda é necessária uma ordem judicial para retirar o conteúdo do
ar.
O USTR
também afirma em seus documentos que a Justiça brasileira teria emitido
"ordens secretas" instruindo companhias de mídia social americanas a
"censurar centenas de postagens e retirar dezenas de críticos políticos,
incluindo cidadãos dos EUA, de suas plataformas por discursos legais em solo
americano". A afirmação é uma referência à determinação do ministro
Alexandre de Moraes para bloqueio de diversos perfis em redes sociais
administrados por usuários acusados de atentar contra a democracia brasileira e
o processo eleitoral, levando à invasão, em 8 de janeiro de 2023, do Congresso
Nacional e do Supremo Tribunal Federal.
Para
Bruna Martins dos Santos, gerente de políticas e advocacia da Witness,
organização internacional sem fins lucrativos focada em tecnologia e direitos
humanos, a União Europeia (UE) também enfrentou problemas semelhantes, quando o
bloco também foi pressionado pelo governo Trump por suas regras digitais.
Desde
que assumiu a Casa Branca pela segunda vez, o republicano repete que a
regulação das big techs pela União Europeia é uma manobra para enfraquecer os
negócios americanos nos 27 países do bloco. "Vivemos em um momento de
exportação de agenda doméstica dos EUA, de uma extrema proteção da atuação de
empresas privadas e de relativização de obrigações que foram colocadas ao redor
do mundo em torno da atuação desses atores", afirma Santos. "Por isso
mesmo esses os argumentos [apresentados na investigação] não têm sentido",
opina. "Diversos países ao redor do mundo, enquanto nações soberanas,
dedicaram anos à elaboração de regulações em torno do ambiente digital e de
serviços digitais."
Ainda
segundo a especialista, não houve censura na decisão judicial que determinou a
retirada de postagens do ar e suspensão de contas nas redes sociais. Para
Santos, os alvos das determinações eram reincidentes, possuíam seguidores fiéis
envolvidos em incitação de violência e ameaçaram o próprio STF e seus
ministros, levando à tomada de ações mais drásticas.
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Pix ameaçado?
Ainda
na área digital, o governo americano também colocou o
Pix em sua mira,
acusando o sistema de pagamentos desenvolvido pelo Banco Central de ser uma
prática desleal, que prejudicaria empresas americanas que atuam no setor. "O
Brasil também parece envolver-se em uma série de práticas desleais em relação
aos serviços de pagamento eletrônico, incluindo, mas não se limitando a
promover seu serviço de pagamento eletrônico desenvolvido pelo governo",
diz um trecho do documento que não elenca a quais práticas supostamente ilegais
ele se refere.
Para
especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, a inclusão do Pix na
investigação seria uma forma de proteger as big
techs e serviços de pagamentos americanos, como Whatsapp Pay, Apple Pay e
Google Pay. "Estamos falando aqui de uma competição tecnológica, onde os
EUA visam tirar qualquer tipo de tecnologia que possa oferecer algum tipo de
inovação e que não esteja sendo gerida dentro do próprio país ou que não esteja
sob controle dos EUA", diz Bruna Martins dos Santos.
"A
gente sabe que o Pix é um método de pagamento extremamente inovador e relevante
para o contexto brasileiro, com grandes níveis de adesão. De nenhuma maneira
ele deveria ser visto como uma prática desleal de serviço de pagamento
eletrônico." E segundo Welber Barral, o argumento de que, por ser ligado
ao Banco Central, o método de pagamento gera uma concorrência desleal, não é
apropriado.
Segundo
o ex-secretário, a Organização Mundial do Comércio (OMC) permite em suas normas
que empresas públicas atuem em setores em que há falhas de mercado. "Temos
uma população desbancarizada muito grande no Brasil. O Pix foi também uma forma
de integrar essas pessoas no mercado financeiro", diz.
Além
disso, afirma Barral, os EUA também possuem empresas públicas atuando para
suprir falhas de mercado. "É o caso, por exemplo, do Serviço Postal dos
Estados Unidos, que atua na área de correio. Mas isso não quer dizer que a UPS
[empresa privada de transporte e logística] possa processar o governo
americano", diz. "E o Pix não proíbe a concorrência, quem quiser pode
usar Apple Pay, PayPal, etc. Não há nenhuma proibição de concorrência."
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Tarifas preferenciais
O
Escritório do Representante Comercial dos EUA também acusa o Brasil de reduzir
tarifas de forma "injusta e preferencial" ao firmar acordos
comerciais preferenciais de escopo parcial com parceiros comerciais globalmente
competitivos, ao mesmo tempo em que aplica tarifas mais altas às importações
americanas. O órgão americano cita especialmente a Índia e o México como países
que se beneficiariam dessas tarifas preferenciais. "Este tratamento
preferencial aplica-se a centenas de produtos em vários setores, como produtos
agrícolas, veículos automotores e peças, minerais, produtos químicos e
máquinas", diz o USTR.
Segundo
o ex-secretário de Comércio Exterior Welber Barral, o Brasil tem, de fato, um
acordo parcial com o México, focado nos setores automobilístico e químico. Também
existe, no âmbito do Mercosul, um tratado com a Índia. Em vigor desde 2009, ele
prevê preferências tarifárias para 450 linhas tarifárias de cada lado. Barral
explica que, com essas tarifas preferenciais, produtos comprados do mesmo
fabricante, mas originários de países distintos, podem ser taxados de forma
totalmente diferente. "Uma empresa como a Ford, por exemplo, tem fábricas
tanto no México como nos Estados Unidos. Para exportar um modelo de carro para
o Brasil, pode pagar tarifa zero se vier do México, e de 35% se vier dos
Estados Unidos. É uma diferença grande", diz. "E alguns mercados
envolvidos são setores de interesse para os americanos."
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Fiscalização anticorrupção
Outro
ponto levantado pelo governo americano diz respeito ao combate à corrupção e à
ideia de que empresas americanas poderiam estar em desvantagem em um ambiente
com pouca transparência. "As evidências indicam que a falta de aplicação
de medidas anticorrupção e a falta de transparência no Brasil podem prejudicar
empresas americanas envolvidas em comércio e investimentos no Brasil e levantam
preocupações em relação às normas relativas ao combate ao suborno e à
corrupção", diz a USTR. O órgão ainda cita um protocolo de entendimento
para comércio e cooperação econômica assinado por Brasil e Estados Unidos,
assinado em 2021, que estabelece, entre outras coisas, que os dois países
buscariam promover medidas anticorrupção. Em 2024, o Brasil registrou sua pior
nota e pior colocação na série histórica do Índice de Percepção da Corrupção da
organização Transparência Internacional, considerado um dos principais
indicadores de corrupção do mundo.
Segundo
a organização, o Brasil estaria falhando em reverter a trajetória "de
desmonte da luta contra a corrupção", levando a um "processo de
captura do Estado pela corrupção" evidente principalmente por conta da
presença "cada vez maior e explícita" do crime organizado nas
instituições estatais. Para Welber Barral, a ideia defendida pelos EUA em suas
alegações "não está totalmente errada". O especialista afirma, porém,
que a corrupção no Brasil não é uma questão que será resolvida com a aplicação
de tarifas por Washington.
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Proteção à propriedade intelectual e rua 25 de março
Os EUA
ainda se queixam sobre o Brasil se envolver "em uma variedade de atos,
políticas e práticas que aparentemente negam proteção e aplicação adequadas e
eficazes dos direitos de propriedade intelectual". O país se baseia
principalmente na alegação de que o governo brasileiro estaria falhando em
combater a venda de produtos falsificados e a pirataria em áreas como
streamings e jogos eletrônicos.
O USTR
cita também a rua 25 de Março, tradicional polo de comércio popular no centro
de São Paulo, para criticar as supostas falhas na proteção e aplicação adequada
e efetiva dos direitos de propriedade intelectual. Há ainda queixas sobre a
demora para a análise e aprovação de pedidos de patente no país. "O
impacto da atual pendência média de pedidos de patente de quase 7 anos (e 9,5
anos para patentes farmacêuticas concedidas entre 2020 e 2024) é reduzir o
prazo da patente", diz o órgão comercial americano.
Para
Guilherme Klein Martins, da Universidade de Leeds, a inclusão das queixas sobre
pirataria "servem muito mais como uma desculpa do que um fato" para
sustentar as tarifas e a investigação. "Pirataria e comércio ilegal são um
problema do mundo inteiro, não apenas do Brasil", diz.
Um
relatório de 2025 elaborado pela OCDE (Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Econômico) sobre as tendências em torno da pirataria identifica
China, Bangladesh, Líbano, Síria e Turquia como as principais fontes desses
produtos ilícitos. Sobre a demora para a análise dos pedidos de patentes, o
vice-presidente Geraldo Alckmin — que no ano passado ocupava o ministério do
Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços — afirmou que o Brasil estava
se esforçando para se adequar ao padrão internacional.
No
Brasil, o responsável pela concessão das patentes é o Instituto Nacional da
Propriedade Industrial (INPI). O órgão tem sido alvo de críticas e reclamações
nos últimos anos. Titulares de invenções passaram a ir ao Judiciário para, caso
a caso, buscar uma recomposição de prazo quando ficam anos esperando a decisão
do órgão.
Em maio
de 2021, o STF declarou inconstitucional o parágrafo único do artigo 40 da Lei
de Propriedade Industrial (LPI), que previa prazo mínimo de patentes de 10 anos
da concessão, para compensar demora na análise do pedido de patente superior a
10 anos da data do depósito. "O INPI estava levando sete anos para
registrar uma patente. Nós reduzimos para seis, para cinco, para quatro. No
final do ano deve chegar a três. E o ano que vem, dois anos, que é o padrão
internacional", disse Alckmin no ano passado, após as alegações
americanas.
Welber
Barral afirma ainda que, apesar da demora ser uma realidade, não há
discriminação contra os EUA, o que torna a queixa ilógica. "Um inventor
brasileiro ou uma empresa suíça também passam por esse problema. Não é algo
direcionado contra os EUA", diz.
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Etanol
A
investigação comercial americana também incluiria o comércio de etanol entre
Brasil e EUA. Segundo o USTR, o Brasil abandonou o tratamento recíproco e
virtualmente livre de impostos para o etanol, que promovia o comércio
bilateral, e impôs tarifas de importação íngremes e injustas sobre o etanol dos
EUA. O órgão comercial americano diz também que as exportações de etanol dos
EUA para o Brasil caíram significativamente devido a essas tarifas, indicando
uma desvantagem considerável para os produtores norte-americanos. "Essa é
uma reclamação americana de muito tempo. Já houve muitas negociações,
implementação de cota e postergação das decisões", diz Welber Barral,
ex-secretário de Comércio Exterior.
Segundo
o especialista, as taxas do Brasil ao etanol americano são, de fato, muito mais
elevadas do que as encontradas pelos produtores brasileiros nos EUA. E a
principal razão para isso, diz, é a necessidade de proteger as usinas no
nordeste do país. "Entra muito etanol americano na região, onde a produção
é menos eficiente do que nos EUA", explica.
As
importações do biocombustível americano estão sujeitas a uma tarifa de 18%, que
é comum para todos os países membros do Mercosul. Já os EUA impõem atualmente
uma tarifa de 2,5% sobre as importações de etanol brasileiro. Durante as
negociações, o Brasil chegou a propor que os EUA aumentassem a cota de
importação de açúcar brasileiro para o país em troca de uma redução das tarifas
ao etanol, de forma a recompensar os produtores brasileiros que fazem o etanol
a partir da cana-de-açúcar. Mas o plano nunca foi considerado por Washington. "Os
EUA estão exigindo unilateralmente que o Brasil reduza a tarifa sem sequer
responder à proposta brasileira", diz Barral. Especialistas afirmam ainda
que o etanol americano é resultado de uma produção viabilizada por subsídios ao
milho, prática que influencia diretamente o preço do combustível. Para alguns,
portanto, a tarifa aplicada pelo Brasil ao etanol americano serviria como um
mecanismo de defesa comercial. "O Brasil também poderia alegar que se
sente injustiçado porque o etanol nos EUA é produzido de uma maneira cheia de
subsídios", avalia o economista Guilherme Klein Martins. "Isso abre
espaço para uma discussão mais ampla sobre o que é uma tarifa justa ou
injusta."
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Desmatamento ilegal
Os EUA
também se queixam de que o Brasil não consegue aplicar suas próprias leis
contra o desmatamento, prejudicando produtores agrícolas e de madeira
americanos.
"A
conversão de terras desmatadas ilegalmente para a produção agrícola proporciona
uma vantagem competitiva injusta às exportações agrícolas, reduzindo custos e
expandindo a disponibilidade de insumos agrícolas", alega o governo de
Donald Trump, que ainda aponta o Brasil como grande concorrente dos EUA nas
vendas globais de produtos agrícolas, "incluindo carne bovina, milho e
soja". O documento inicial da investigação comercial reconhece que
"as taxas de desmatamento diminuíram nos últimos anos" no país, mas
afirma que o patamar atual ainda é alto.
O
Relatório Anual do Desmatamento (RAD 2024) do MapBiomas, divulgado em maio
deste ano, revelou uma redução de 32,4% na área desmatada no Brasil em 2024 em
comparação com 2023. Cinco dos seis biomas brasileiros tiveram redução no
desmatamento, segundo o levantamento.
A área
total desmatada no acumulado dos últimos seis anos (2019-2024), porém, atinge a
marca alarmante de 9.880.551 hectares, uma área comparável ao tamanho da Coreia
do Sul. Para o secretário executivo do Observatório do Clima, Márcio Astrini, o
combate ao desmatamento no país tem se mostrado instável ao longo dos últimos
anos, a depender do governo. O especialista faz críticas contundentes às
políticas ambientais do governo de Jair Bolsonaro, que segundo ele "era
omisso em relação à questão" e "impulsionou o crime ambiental". "E
Donald Trump, em seu primeiro mandato, manteve relações estreitas e de apoio
com o governo Bolsonaro", aponta Astrini, que vê as acusações americanas
neste momento como uma demonstração de hipocrisia.
O
secretário do Observatório do Clima afirma ainda que a gestão do republicano
abandonou qualquer tipo de ajuda ao controle do desmatamento na Amazônia, ao
contrário de outros presidentes americanos, e que a forma como o tema está
sendo tratado nesse momento pode ser entendida como uma ameaça à soberania. "O
combate ao desmatamento deve ser realizado única e exclusivamente pelo governo
brasileiro de forma autônoma. Ajudas externas são bem-vindas, mas elas não
devem ameaçar a soberania brasileira", opina ainda o especialista.
Para
Guilherme Klein, da Universidade de Leeds, as alegações sobre desmatamento são
as que mais poderiam fazer sentido entre todas apresentadas pelo USTR. Segundo
ele, aumentar tarifas de importação ou restringir a importação com base em
deflorestamento ou emissões de carbono é uma tendência, com, por exemplo, a
implementação de mecanismos pela União Europeia.
O
chamado Mecanismo de Ajustamento de Carbono nas Fronteiras (CBAM) da UE
estabelece um preço para o carbono emitido durante a produção de bens com
elevado teor de carbono importados para o bloco. O economista afirma, porém,
que essas taxações ocorrem de maneira muito diferente da adotada pelos EUA com
o Brasil. "Não cabe como justificativa para aumentar em 50% a tarifa de
todas as importações", diz. "Está muito fora do tom."
Fonte:
Por Julia Braun, da BBC News Brasil em Londres

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