O
jornalismo na era das fake news
Para
atualizar a reflexão sobre a informação, durante quatro dias na primeira semana
de maio, 300 representantes de 600 mil jornalistas dos cinco continentes
reuniram-se em Paris, França, convocados pela Federação Internacional de
Jornalistas (FIJ).O 32º congresso da mais importante organização sindical em
âmbito mundial celebrou seu próprio centenário, comparando os valores
fundadores de 1926 com os desafios atuais, redescobrindo semelhanças e
paralelos entre o passado e o presente, e avaliando os novos desafios para a
profissão como resultado das próprias mudanças civilizacionais.
Em
particular, identificando os desafios que os jornalistas enfrentam atualmente.
Muitas delas são quase universais, como, por exemplo: a defesa do direito de
produzir informações "objetivas" sem pressão do poder econômico,
político ou judicial; as consequências negativas da concentração da mídia,
assim como a exigência de poder reportar ativamente e sem censura em zonas de
guerra ou conflitos. Além disso, o esclarecimento sobre a delicada fronteira
entre contribuições positivas e ameaças à profissão resultantes da Inteligência
Artificial; a importância da mídia pública diferenciando claramente o que é
informação do que é propaganda, assim como a necessidade de uma proteção mais
coerente às jornalistas contra todas as formas de assédio ou discriminação. Sem
negar o desafio constante de diferenciar informações objetivas e profissionais
de notícias falsas/fake news, que criam opiniões deturpadas com argumentos,
fontes ou fatos distorcidos ou falsos.
<><>
Solidariedade essencial
O apoio
às/aos trabalhadoras/es da imprensa na Palestina – mais de 220 assassinados
desde outubro de 2023 – e no Líbano, que devem atuar em condições repressivas
desumanas e sob atentados permanentes, estiveram no centro da solidariedade
expressada pelas/os delegadas/os reunidos em Paris. Da mesma forma, o apoio ao
Sindicato dos Jornalistas do Iêmen "para enfrentar as forças e os
movimentos que buscam silenciá-lo". Vozes a favor de ajudar a restabelecer
o Sindicato dos Jornalistas Sudaneses ou de reviver a organização sindical
iraniana também receberam amplo apoio.
Um
apoio consensual que foi expressado na América Latina às mulheres e homens da
imprensa no México, um dos países onde a profissão sofre as maiores agressões
de poderes não institucionais e que, em geral, permanecem em quase total
impunidade. De igual forma às/aos jornalistas na Sérvia, que são ameaçadas/os e
perseguidas/os, assim como seus pares no Paquistão ou no Sri Lanka, que exigem
trabalho digno e igualdade de gênero.
Da
América do Sul, especificamente da Argentina, duas iniciativas receberam apoio
unânime: solidariedade ao fotojornalista Pablo Grillo, que foi atacado e
gravemente ferido durante uma mobilização, em março de 2025, pelas forças de
segurança do governo de Javier Milei. E a rejeição à tentativa desse governo de
revogar o Estatuto dos Jornalistas Profissionais (Lei 12.908), precarizando o
trabalho e enfraquecendo a ação sindical.
Os
protestos e demandas no mundo também são compensados por certas conquistas
quase históricas, como o que foi recentemente vivido na Mauritânia, onde 1860
jornalistas foram regularizadas/os graças à mobilização sindical nacional com o
apoio da FIJ, que desempenhou um papel decisivo na pressão internacional.
<><>
Jornalismo na mira em um mundo complexo
Tanto
da América Latina quanto da Europa, inúmeras vozes se ergueram no conclave
parisiense para alertar e denunciar o "avanço da direita neofascista"
(segundo a Federação Latino-Americana, FEPALC) e para convocar à "luta
contra a extrema-direita e o autoritarismo...", como argumentaram os
sindicatos franceses em uma moção que conseguiu o consenso da Federação. A
situação mundial, reforçada "pela eleição de Donald Trump nos Estados
Unidos, que expressa uma visão geopolítica que concebe o Sul global como um espaço
subordinado" (segundo os argumentos da FEPALC), ocupa a preocupação
unânime das/os jornalistas. O Congresso da FIJ lembrou o valor primordial da
Carta Mundial de Ética, publicada em 2019, que, juntamente com os Estatutos da
própria Federação e com inúmeras resoluções de organismos internacionais, como
a UNESCO, defende a qualidade da informação sem quaisquer pressões.
As
ameaças contra a profissão estão aumentando em muitas regiões do planeta,
promovidas por "discursos de ódio e restrições", bem como ataques
institucionais contra o jornalismo crítico e independente e as pressões das
grandes potências econômicas para impedir a divulgação de certas informações.
Essa tendência é agravada pela "criminalização do protesto social"
expressada, sempre segundo a FEPALC, na acusação de líderes sindicais,
estudantis e comunitários, bem como no uso de mecanismos estatais para assediar,
deslegitimar ou perseguir aquelas/es que exercem direitos democráticos
fundamentais.
Muito
significativo na reunião parisiense foi o interesse unânime em discutir a
crescente presença da Inteligência Artificial na atividade jornalística. O
Comitê Executivo da Federação propôs uma moção aceita por consenso para que os
sindicatos tenham uma "posição crítica e única" para facilitar o
aproveitamento, o arcabouço econômico e a regulação desse potencial emergente.
Enfatizou que a IA deve servir à criação de notícias imparciais e produzidas de
forma ética, para o benefício da humanidade e de acordo com os princípios
promovidos pela FIJ. Embora a discussão sobre essa ferramenta ainda esteja em
uma etapa inicial e exija atenção principal da profissão nos próximos meses e
anos, o Congresso especificou conceitos referenciais: opõe-se à desigualdade de
acesso à IA entre regiões do planeta; questiona a falta de supervisão humana da
IA, o que resulta em informações imprecisas e tendenciosas; assegura que
qualquer trabalho que pretenda ser jornalismo deve ser responsabilidade última
de um profissional do setor devidamente qualificado. E, por fim, promove a
necessidade de uma regulação internacional sólida da IA, com a participação de
jornalistas, evitando que fique restrita a poucas mãos e desrespeitando os
direitos trabalhistas. Em outras palavras, é necessário desenvolver e expandir
a proteção dos jornalistas frente a IA, enfatiza a FIJ, que, de forma mais
ampla (não apenas em termos de IA), propõe a promoção de campanhas para
promover leis em diferentes países que obriguem gigantes da tecnologia a pagar
um imposto extraordinário sobre seus lucros, destinados a serem investidos na
melhoria do conteúdo editorial e na ajuda para a promoção e o estímulo a novas
mídias.
Um tema
debatido em Paris não menos importante foi a defesa da mídia pública. Moções
dos sindicatos do Reino Unido-Irlanda e da Itália, assim como uma discussão
central em uma das mesas-redondas, ressaltaram a necessidade de enfrentar as
ameaças que atingem a mídia pública. Propostas específicas pediram proteção, em
particular, a da RAI, na Itália, assim como a da Agência Nacional de Notícias
AFP, na França. Embora significativos como exemplos, expressaram a convicção
mais ampla, em escala internacional, sobre o papel da mídia pública como
pilares do fortalecimento democrático, em muitos países seriamente ameaçados
pelo poder político ou pela concentração da mídia corporativa.
<><>
Unidade, relevo e paridade para defender melhor o jornalismo
A
reunião de Paris, como exemplo de diversidade e multiculturalismo (sindicatos
de 148 países participam da Federação), também representou um avanço na
capacidade organizativa da profissão. Isso se expressou em decisões que
delineiam o ser e a ação da própria FIJ na conjuntura atual. Cem anos após seu
nascimento, a Federação deu um passo à frente na renovação geracional. Zuliana
Lainez, uma proeminente jornalista e sindicalista peruana, de 49 anos, foi
nomeada presidente. Sua eleição significa que, pela primeira vez, uma
representante latino-americana assume a liderança da Federação. Lainez trabalha
como editora de opinião no jornal digital Crónica Viva e como editora de
notícias internacionais na ANP Radio. Além disso, é professora de direito da
imprensa e de direito à informação. Zuliana Lainez considerou "histórico
que a América Latina esteja à frente de uma federação mundial no centenário de
sua fundação... Nós, latino-americanas/os, como muitos de nossos colegas no
Sul, sabemos o que significa resistir e lutar. Essa história nos assombra, mas
também é uma força, uma marca para enfrentar os desafios de hoje".
Mulheres,
sejam jovens ou de meia-idade, avançam em posições de liderança na FIJ. A
presença latino-americana no comitê diretor, composto por cerca de vinte
membros, é completada por outros três jornalistas que representam os sindicatos
nacionais da Colômbia, do Brasil e da Argentina.Estimulado por uma segunda
presidência contínua de mulheres – precedida pela jornalista francesa Dominique
Pradalie, que serviu por quatro anos, até maio de 2026 – o Congresso aprovou
uma histórica reformulação estatutária que estabelece a paridade entre mulheres
e homens na composição de seu comitê. Embora essa decisão entre formalmente em
vigor em apenas três anos, o comitê atual já possui uma composição
absolutamente equitativa. Isso expressa que a vontade política dos representantes
que se reuniram em Paris precedeu até mesmo as mudanças nos Estatutos em termos
de paridade de gênero na liderança.A FIJ foi ferida em suas entranhas pela
saída, nos últimos dois ou três anos, de alguns sindicatos europeus,
especialmente dos países nórdicos, e o congresso de Paris foi um clamor
concreto a favor da unidade. As/os congressistas aprovaram por consenso várias
modificações estatutárias sobre o funcionamento interno que devem abrir caminho
para a reintegração desses sindicatos e associações em um futuro próximo.
Buscam revisar e fortalecer a governança, a representação e a transparência
organizativa para que a Federação seja "ainda mais acolhedora, unida e
solidária [do que o foi até agora] diante dos desafios globais".
A
informação, mera mercadoria, instrumento de propaganda egoísta ou um bem
público da humanidade? Um debate essencial da sociedade em um momento histórico
em que, muitas vezes, se torna difícil diferenciar entre notícias verificadas e
fake news inventadas, e onde o grande poder nacional ou internacional – seja
político, econômico ou militar – torna a disputa informativa uma prioridade
essencial na defesa de seus próprios interesses minoritários.
Fonte:
Por Sergio Ferrari, em Brasil 247

Nenhum comentário:
Postar um comentário