'Achava
que minha família tinha resistido a Hitler, até descobrir que meu bisavô era
nazista'
"Cresci
acreditando, e com orgulho, que vinha de uma linhagem de antifascistas",
conta Rosa, de 57 anos, moradora de Berlim, ao BBC News Rússia.
Mas,
com o tempo, Rosa — que pediu para ter o nome modificado pela BBC — acabou
descobrindo a verdade: o fascismo estava profundamente enraizado em toda a
sociedade alemã do início do século 20, sob o regime nazista.
Isso a
levou a uma jornada para investigar o envolvimento de seus antepassados no
regime de Adolf Hitler.
Essa
busca se aproximou de uma conclusão com a divulgação, na Alemanha, de milhões
de documentos sobre antigos membros do Partido Nazista, disponibilizados pelo
jornal Die Zeit.
Embora
Rosa diga que isso lhe trouxe uma sensação de encerramento, o banco de dados
reacendeu o debate sobre como o país lembra seu passado brutal.
Ela
cresceu ao norte de Berlim, na Alemanha Oriental. O país, formado em 1949, foi
oficialmente chamado de República Democrática Alemã — parte da Europa Oriental
sob influência de Moscou.
Após a
derrota dos nazistas em 1945, a Alemanha foi dividida em quatro zonas pelos
Aliados da Segunda Guerra Mundial: Estados Unidos, Reino Unido, França e União
Soviética (URSS).
Com o
início da Guerra Fria, a Alemanha se dividiu em duas — o Ocidente ficou
alinhado com as nações ocidentais, enquanto o Oriente ficou alinhado com a
União Soviética.
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Narrativa falsa
Quando
Rosa crescia na década de 1970, todos os aspectos da vida na Alemanha Oriental
estavam sob rígido controle do Estado.
"Nos
diziam que os alemães orientais eram, em grande parte, descendentes de
antifascistas, enquanto os 'vilões' vinham do Ocidente", lembra Rosa.
As
crianças da escola de Rosa cresciam lendo livros sobre os soldados soviéticos
libertadores.
Ela
própria via o regime soviético como um amigo — um "irmão mais velho".
Como resultado, algumas histórias de família sobre a Segunda Guerra Mundial a
confundiam.
Durante
anos, Rosa não conseguia entender por que sua avó "teve de fugir do
Exército Vermelho [da URSS]".
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Investigando a fundo a história da família
Quando
Rosa tinha 16 anos, uma delegação judaica dos Estados Unidos visitou sua escola
para uma palestra Children of survivors meet children of perpetrators (Filhos
de sobreviventes encontram filhos de perpetradores, na tradução para o
português).
Somente
perto do fim da discussão ela percebeu que pertencia ao segundo grupo, e não ao
primeiro.
"De
repente, tudo fez sentido: [eu percebi que] os alemães eram considerados o
inimigo."
Ela
lembra daquele momento como "a abertura de uma comporta" — uma
mudança súbita de entendimento.
"Foi
quando comecei a investigar a fundo minha história familiar."
Rosa
passou a consultar arquivos e pediu aos pais e a parentes mais velhos que
recontassem o passado.
Ao
longo dos anos, ela descobriu que o irmão de sua avó se alistou no exército aos
18 anos, tornando-se piloto de bombardeiro, e foi abatido sobre a Grécia antes
de completar 21 anos.
Um de
seus bisavós era um funcionário que apoiava os nazistas, embora sua posição
exata permaneça desconhecida.
O outro
bisavô, Otto, está no radar de Rosa há décadas.
"Ele
era policial na cidade polonesa de Białystok, perto da fronteira com
Belarus."
A
cidade foi palco de muitos episódios horríveis do Holocausto, incluindo
centenas de pessoas queimadas vivas dentro de uma sinagoga.
Com a
divulgação do banco de dados de membros do Partido Nazista, Rosa começou
imediatamente a procurar Otto.
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Milhares de buscas
"Eu
imediatamente encontrei o cartão de filiação dele. Ele entrou para o partido
ainda em 1933, o ano em que os nazistas chegaram ao poder. Fiquei surpresa?
Não, não naquele ponto. Foi simplesmente a confirmação final. Eu queria isso, e
consegui", diz Rosa.
"Foi
como encerrar uma longa história."
As
buscas de Rosa estão entre as milhares realizadas no banco de dados desde o seu
lançamento em fevereiro.
Até
recentemente, consultar a filiação de um parente ao Partido Nazista exigia
fazer um pedido aos Arquivos Federais da Alemanha.
Mas o
banco de dados digitalizado, publicado inicialmente pelos Arquivos Nacionais
dos Estados Unidos e depois transformado em uma ferramenta de busca pelo jornal
Die Zeit neste ano, tornou a pesquisa muito mais rápida.
Judith
Busch, porta-voz da Die Zeit, afirma à BBC que a ferramenta já foi acessada
milhares de vezes, gerando inúmeros comentários e mensagens.
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Filiação ao Partido Nazista
O
partido nazista de Hitler era oficialmente chamado de Partido
Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP). Ele tinha mais de 10
milhões de membros antes de ser derrotado pelos Aliados na Segunda Guerra
Mundial, em 1945.
O
arquivo de membros, mantido em Munique, quase foi destruído no fim da guerra:
50 toneladas de documentos foram enviadas para uma fábrica de papel, mas o
diretor da fábrica desobedeceu às ordens e entregou o material às forças dos
Estados Unidos.
A
filiação ao Partido Nazista tem sido um tema controverso na Alemanha desde a
queda do regime.
Todas
as pessoas que falaram com a BBC pediram para permanecer anônimas para não
correr o risco de críticas ou vergonha, caso outras pessoas descobrissem
ligações familiares com os nazistas.
Seus
nomes foram alterados nesta reportagem para proteger suas identidades.
"Acho
que isso está ligado ao sentimento de lealdade que as pessoas têm em relação
aos seus familiares, mesmo que essas pessoas já não estejam vivas", afirma
Johannes Spohr, historiador alemão especializado em história familiar.
"Durante
muito tempo, esse tema foi um tabu enorme", afirmou.
"Todo
mundo que eu conheço que pesquisou encontrou familiares nesses arquivos",
diz Hertha.
Ela
encontrou dois bisavôs — um policial e um professor — no banco de dados, mas
acredita que eles não tenham cometido crimes.
"Ser
filiado ao Partido Nazista não era incomum na época, e algumas pessoas até
precisavam fazer parte dele simplesmente por causa de seus empregos."
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'Nunca se filie a nenhum partido político'
Martin
também encontrou o nome de seu bisavô nos arquivos.
"Pra
mim, foi bem chocante. Meu pai disse que meu bisavô costumava dizer: 'Nunca se
filiem a nenhum partido político. Eu uma vez me filiei a um, mas depois percebi
que era o partido errado.'"
Em
geral, os historiadores concordam que ninguém se filiava ao partido
"automaticamente" — a adesão exigia um pedido pessoal e aprovação.
"Nem
todos os membros do partido estiveram pessoalmente envolvidos em crimes",
enfatiza Christian Staas, chefe de história do jornal Die Zeit.
"Mas
todos que escolheram se filiar ao NSDAP, dessa forma, apoiaram o regime
nazista, responsável pela guerra, pelo Holocausto e por muitos outros crimes
contra a humanidade."
Contudo,
um cartão de filiação por si só não mostra o quão ativa uma pessoa era nem se
ela cometeu crimes — isso exige pesquisa adicional.
Rosa
ainda não tem detalhes sobre o que o bisavô Otto fez em Bialystok.
Dezenas
de milhares de detidos judeus passaram pela cidade, onde registros de execuções
em massa e outras atrocidades foram encontrados após a guerra.
Depois
de confirmar sua suspeita de que Otto era membro do Partido Nazista, Rosa diz
sentir "uma sensação de responsabilidade para garantir que isso não
aconteça novamente".
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'Violação de privacidade'
Enquanto
alguns estão recorrendo ao banco de dados, outros criticam a divulgação.
Eles
argumentam que a publicação desses dados viola a privacidade. Outros acreditam
que revisitar os erros e traumas do passado impede que a Alemanha siga em
frente.
"É
verdade que alguns alemães estão cansados dessas discussões", diz Rosa.
"Alguns
dizem que deveríamos 'traçar uma linha' agora." Ela afirma que isso seria
como apagar a história.
"Não
podemos parar de ensinar isso às crianças", diz ela.
Johannes
Spohr levanta dúvidas sobre se o estudo da história familiar ajuda a evitar a
repetição de erros do passado. Mas ele afirma que lidar com o passado pode
promover maturidade e senso de responsabilidade.
"É
importante nos emanciparmos de todos os mitos e até das mentiras com as quais
crescemos — aquelas que também moldam a sociedade alemã — para entender quem
somos e o que nossos antepassados fizeram."
Fonte:
Por Liza Fokht, da BBC News Russian

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