Jorge
Folena: Quando o crime organizado se infiltra na política e no poder público
Conforme
apontado pelas investigações policiais, o caso do Banco Master revela a cada
dia de que modo uma organização criminosa (que emprega atos de violência e
grave ameaça) se espalhou pela política e se infiltrou nas estruturas do poder
público brasileiro, tendo à frente, como testa de ferro, um playboy bem
arrumadinho e com muito dinheiro para investir em networking.
Foi o
que demonstrou a direção do Banco Central, ao decretar a intervenção e a
liquidação extrajudicial do Banco Master e impedir a venda da sua carteira para
o Banco de Brasília. Em depoimento prestado na sede do Supremo Tribunal
Federal, em 30 de dezembro de 2025, o diretor de fiscalização do Bacen afirmou
que os gestores do BRB não tiveram a menor acuidade em verificar nem a origem
nem as condições daquilo que o banco de Vorcaro pretendia lhes transferir.
Não por
acaso, nessa mesma tomada de depoimento à Polícia Federal, o próprio Vorcaro,
ao ser inquirido, afirmou que mantinha relações com muitas autoridades na
República e que esteve na casa do ex-governador de Brasília e este na sua
residência.
Pouco
tempo depois, a Polícia Federal apurou que o ex-presidente do BRB recebia
vantagens financeiras e diversos favores do CEO do Banco Master, tendo sido
revelado, inclusive, que o ex-dirigente do Banco de Brasília receberia
apartamento avaliado em mais de 60 milhões de reais em comissão pelo serviço
prestado. Ou seja, no processo de aquisição da carteira fraudulenta de um banco
quebrado, fechavam-se os olhos da auditoria em troca de favores patrimoniais.
No
início de maio de 2026, quando Daniel Vorcaro apresentou sua proposta de
colaboração premiada, a Polícia Federal demonstrou “pari passu" que o
senador Ciro Nogueira, presidente do Partido Progressista e “vice-presidente
ideal” para a chapa de Flávio Bolsonaro, prestava serviço legislativo ao Banco
Master, em troca de remuneração mensal (“mesada”) e aquisição de imóveis luxuosos em São Paulo.
Com
isto, a Polícia Federal implodiu a delação de Vorcaro (que omitiu o nome de
Ciro Nogueira) e tornou pública a falta de credibilidade do ex-banqueiro para
colaboração séria a ser prestada às autoridades, em troca de qualquer
benefício; até porque, até o momento, a polícia já tem bastante informações,
apuradas de apenas um aparelho telefônico.
Ao
longo deste mês de maio (que vai chegando ao final com a confirmação do
envolvimento de muitos políticos da extrema-direita com o crime organizado e as
fraudes do Banco Master,) a Polícia Federal revelou o que se especulava desde o
final de 2025, ou seja, o envolvimento do governador Bolsonarista do Rio de
Janeiro com o Banco Master.
A
polícia apontou um desvio de bilhões de reais do caixa do Rioprevidência
(autarquia responsável pela administração das contribuições previdenciárias e
pagamento de benefícios e pensões dos servidores do Estado do Rio de Janeiro),
dinheiro que foi investido no Banco Master sem quaisquer condições de garantia
de retorno do montante aplicado.
Como
constou na decisão da PET 15.676/DF, do STF: “A tese investigativa sustenta que a motivação
central dessas decisões (de investir recursos do Rioprevidência no Master) não
residiria em critérios técnicos regulares de investimento, mas em relação
pessoal e indevida entre o controlador do Banco Master e autoridades com poder
de mando sobre o RPPS (Regime de Previdência Público dos Servidores do Estado
do Rio). Dentro dessa linha investigativa, a PF aponta conversas indicando que
determinados aportes dependeriam de ‘alinhamento político’ com o ex-Governador
do Estado.”
É
importante destacar que, em outra parte da decisão, concluiu-se que “... as
aplicações teriam sido procedidas ou acompanhadas de aproximação política,
encontros pessoais e rearranjos administrativos no âmbito da autarquia
previdenciária estadual."
Ou
seja, Vorcaro passou a controlar o ex-governador do Rio, que fazia o que o
ex-banqueiro queria. E, para facilitar
inteiramente as operações, o governador nomeou pessoas de total confiança do
ex-banqueiro (que foram infiltradas no poder público) para controlar o fundo de previdência,
conforme assim exposto na decisão judicial:
“... a atuação do ex-Governador não se limitou a contatos institucionais,
mas envolveu vínculo pessoal estreito com o controlador do Banco Master,
caracterizado por encontros frequentes,
inclusive em ambientes privados e no exterior, custeados pelo banqueiro, com
elevada coincidência temporal em relação aos aportes bilionários do
RioPrevidência. Esse relacionamento teria viabilizado o alinhamento político
necessário para a liberação de investimento, bem como a nomeação estratégica de
dirigentes do RioPrevidência em cargos chave (Presidência, Diretoria de
Investimentos e Gerência de
Investimento), assegurando que as decisões de credenciamento e de aplicação de
recursos previdenciários fossem conduzidas em desconformidade com a política de
investimentos e com as normas regulatórias, mas em consonância com os
interesses do Banco Master.”
Pelo
encadeamento desses fatos, constata-se que, desde 2019, quando teve início o
governo Bolsonaro, Daniel Vorcaro e sua organização criminosa se infiltraram em
diversas instâncias da política e na estrutura do poder público com o objetivo
de fraudar instituições e desviar muito dinheiro para suas contas pessoais,
controlando no processo figuras políticas que atendessem a seus interesses
pessoais ou os de quem ele está a serviço (sendo esta uma grande interrogação,
que, esperamos, as investigações consigam esclarecer, tornando públicos os
reais interesses e maiores beneficiados de todo o esquema).
Resta
clara a motivação do ex-banqueiro “irmãozão” ao financiar os Bolsonaros, desde
a eleição de 2022 e sua candidatura presidencial de 2026, pois, deste modo,
poderia ampliar o controle sobre o poder público para alcançar seus interesses
mafiosos, em detrimento e prejuízo de milhões de brasileiros. Por isso, o crime organizado, unido a
políticos inescrupulosos bolsonaristas, fizeram de tudo para tentar impedir a
posse em janeiro de 2023, inviabilizar o governo e, agora, tentar atrapalhar a
reeleição do presidente Luís Inácio Lula da Silva.
• A parceria da CIA com o crime
organizado. Por Luís Nassif
A
decisão do governo norte-americano de classificar o PCC e o Comando Vermelho
como organizações terroristas vai muito além de uma simples radicalização do
combate ao crime organizado.
Ao
enquadrar essas facções sob a ótica do terrorismo, os Estados Unidos deixam de
tratar o tema apenas como questão policial e passam a inseri-lo no campo da
segurança nacional. A questão central passa a ser: qual será o uso político e
geopolítico dessa nova classificação?
Até
agora, o combate ao crime organizado no Brasil tem ocorrido principalmente por
meio da cooperação entre autoridades brasileiras e órgãos como o FBI e a DEA
(Drug Enforcement Administration), agência vinculada ao Departamento de Justiça
dos EUA e especializada no combate ao narcotráfico.
Diversas
autoridades brasileiras que atuam diretamente contra o crime organizado, como o
promotor de Justiça Lincoln Gakiya e o procurador de Justiça Mário Luiz
Sarrubbo, já alertaram para a diferença fundamental entre a atuação desses
órgãos e a da CIA.
Com FBI
e DEA há cooperação policial. Com a CIA, a lógica é outra.
A
preocupação decorre de um padrão histórico amplamente documentado: em diversas
regiões do mundo, a CIA estabeleceu alianças com organizações criminosas sempre
que isso atendia a objetivos estratégicos mais amplos.
Não se
trata de teoria conspiratória. Trata-se de fatos registrados em relatórios
oficiais, investigações parlamentares e estudos acadêmicos.
Em
português claro: há enorme possibilidade de uma aliança da CIA com as
organizações criminosas que historicamente cercam a família Bolsonaro.
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Antes da CIA: a aliança com a máfia na Segunda Guerra
A
relação entre o aparato de inteligência norte-americano e organizações
criminosas antecede a própria criação da CIA, fundada em 1947.
Durante
a Segunda Guerra Mundial, a inteligência naval dos Estados Unidos promoveu a
chamada Operation Underworld. Em troca de colaboração para garantir a segurança
das docas de Nova York e facilitar contatos na Sicília durante a invasão aliada
de 1943, autoridades americanas negociaram diretamente com o mafioso Lucky
Luciano.
Posteriormente,
Luciano teve sua pena reduzida e foi deportado para a Itália.
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Itália e a Guerra Fria
No
pós-guerra, os serviços de inteligência americanos apoiaram redes
anticomunistas que incluíam personagens ligados à máfia siciliana.
Mais
tarde, essas redes se conectariam às estruturas clandestinas de resistência
antissoviética conhecidas como Gladio.
A
existência dessas redes foi oficialmente reconhecida pelo governo italiano em
1990. O grau exato de interação entre essas estruturas, grupos extremistas e
organizações criminosas continua sendo objeto de debate histórico e judicial.
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O Triângulo Dourado e o ópio asiático
Após a
vitória comunista na China, nos anos 1950, a CIA apoiou remanescentes do
Kuomintang refugiados na Birmânia e na Tailândia.
Esses
grupos passaram a financiar suas atividades por meio da produção e
comercialização de ópio.
A
logística de apoio americana, incluindo a empresa aérea Civil Air Transport —
posteriormente transformada na Air America — acabou se inserindo nesse ambiente
dominado pelo narcotráfico.
O tema
foi amplamente documentado pelo historiador Alfred McCoy.
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O caso Castro: a parceria formal com a máfia
O
episódio mais claramente comprovado envolve as tentativas de assassinato de
Fidel Castro.
Nos
anos 1960, a CIA recrutou mafiosos como:
• Johnny
Roselli
• Sam
Giancana
• Santo
Trafficante Jr.
para
participar de operações destinadas à eliminação de Castro.
Esses
fatos foram oficialmente confirmados pelo Church Committee, investigação
parlamentar realizada entre 1975 e 1976.
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Laos, Vietnã e a heroína
Durante
a Guerra do Vietnã, a CIA armou e financiou forças lideradas por Vang Pao no
Laos.
A Air
America foi repetidamente acusada de transportar ópio produzido por grupos
aliados.
Embora
o grau de participação direta da Agência continue sendo discutido, a presença
dos aliados da CIA no narcotráfico regional é fato amplamente aceito pela
historiografia.
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Os Contras e a cocaína
O
episódio mais bem documentado ocorreu na América Central durante os anos 1980.
O
chamado Kerry Committee, do Senado dos EUA, concluiu que indivíduos ligados ao
abastecimento dos Contras nicaraguenses participavam de operações de
narcotráfico.
Posteriormente,
a série de reportagens Dark Alliance, do jornalista Gary Webb, levou o tema ao
grande público.
Anos
depois, o Inspetor-Geral da CIA, Frederick Hitz, reconheceu oficialmente que a
Agência trabalhou com indivíduos suspeitos de envolvimento com tráfico de
drogas e, em diversos casos, manteve essas relações mesmo tendo conhecimento
das suspeitas.
Não se
comprovou uma operação deliberada para distribuir drogas nos Estados Unidos. O
que os relatórios demonstraram foi algo diferente: tolerância sistemática em
nome de objetivos geopolíticos considerados prioritários.
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Afeganistão e o banco BCCI
Durante
a guerra contra a União Soviética no Afeganistão, a CIA operou em parceria com
o serviço secreto paquistanês.
Nesse
período, ocorreu uma expansão sem precedentes da produção de ópio afegão.
Ao
mesmo tempo, o sistema financeiro paralelo associado ao banco BCCI tornou-se
peça importante em operações internacionais de financiamento clandestino.
As
investigações posteriores demonstraram a sobreposição entre operações
encobertas, narcotráfico e estruturas financeiras opacas.
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Noriega: agente e criminoso ao mesmo tempo
O caso
de Manuel Noriega tornou-se emblemático.
Por
anos, Noriega atuou simultaneamente como informante remunerado da CIA e
colaborador dos cartéis colombianos.
As
autoridades norte-americanas tinham conhecimento dessas atividades antes da
invasão do Panamá, em 1989.
O
episódio ilustra perfeitamente um padrão recorrente: quando interesses
estratégicos estão em jogo, a condição criminal dos parceiros torna-se
secundária.
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O padrão histórico
O ponto
central não é afirmar que a CIA tenha atuado como organização criminosa.
O
padrão observado é outro.
Em
operações encobertas, a Agência frequentemente recorreu a atores que
controlavam territórios, rotas logísticas, financiamento clandestino e redes de
influência fora das estruturas formais do Estado.
Com
frequência, esses atores eram organizações criminosas.
Em
praticamente todos os casos, o objetivo geopolítico prevaleceu sobre qualquer
consideração relativa à integridade dos parceiros escolhidos.
É essa
experiência histórica que leva muitos especialistas a observar com cautela a
decisão de transformar facções brasileiras em tema de segurança nacional dos
Estados Unidos.
A
questão não é apenas como combater PCC e Comando Vermelho.
A
questão é quem conduzirá esse combate, com quais instrumentos e em benefício de
quais objetivos estratégicos.
Fonte:
Brasil 247/Jornal GGN

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