terça-feira, 2 de junho de 2026

Jorge Folena: Quando o crime organizado se infiltra na política e no poder público

Conforme apontado pelas investigações policiais, o caso do Banco Master revela a cada dia de que modo uma organização criminosa (que emprega atos de violência e grave ameaça) se espalhou pela política e se infiltrou nas estruturas do poder público brasileiro, tendo à frente, como testa de ferro, um playboy bem arrumadinho e com muito dinheiro para investir em networking.

Foi o que demonstrou a direção do Banco Central, ao decretar a intervenção e a liquidação extrajudicial do Banco Master e impedir a venda da sua carteira para o Banco de Brasília. Em depoimento prestado na sede do Supremo Tribunal Federal, em 30 de dezembro de 2025, o diretor de fiscalização do Bacen afirmou que os gestores do BRB não tiveram a menor acuidade em verificar nem a origem nem as condições daquilo que o banco de Vorcaro pretendia lhes transferir.

Não por acaso, nessa mesma tomada de depoimento à Polícia Federal, o próprio Vorcaro, ao ser inquirido, afirmou que mantinha relações com muitas autoridades na República e que esteve na casa do ex-governador de Brasília e este na sua residência.

Pouco tempo depois, a Polícia Federal apurou que o ex-presidente do BRB recebia vantagens financeiras e diversos favores do CEO do Banco Master, tendo sido revelado, inclusive, que o ex-dirigente do Banco de Brasília receberia apartamento avaliado em mais de 60 milhões de reais em comissão pelo serviço prestado. Ou seja, no processo de aquisição da carteira fraudulenta de um banco quebrado, fechavam-se os olhos da auditoria em troca de favores patrimoniais.

No início de maio de 2026, quando Daniel Vorcaro apresentou sua proposta de colaboração premiada, a Polícia Federal demonstrou “pari passu" que o senador Ciro Nogueira, presidente do Partido Progressista e “vice-presidente ideal” para a chapa de Flávio Bolsonaro, prestava serviço legislativo ao Banco Master, em troca de remuneração mensal (“mesada”) e aquisição  de imóveis luxuosos em São Paulo.

Com isto, a Polícia Federal implodiu a delação de Vorcaro (que omitiu o nome de Ciro Nogueira) e tornou pública a falta de credibilidade do ex-banqueiro para colaboração séria a ser prestada às autoridades, em troca de qualquer benefício; até porque, até o momento, a polícia já tem bastante informações, apuradas de apenas um aparelho telefônico.

Ao longo deste mês de maio (que vai chegando ao final com a confirmação do envolvimento de muitos políticos da extrema-direita com o crime organizado e as fraudes do Banco Master,) a Polícia Federal revelou o que se especulava desde o final de 2025, ou seja, o envolvimento do governador Bolsonarista do Rio de Janeiro com o Banco Master.

A polícia apontou um desvio de bilhões de reais do caixa do Rioprevidência (autarquia responsável pela administração das contribuições previdenciárias e pagamento de benefícios e pensões dos servidores do Estado do Rio de Janeiro), dinheiro que foi investido no Banco Master sem quaisquer condições de garantia de retorno do montante aplicado.

Como constou na decisão da PET 15.676/DF, do STF: “A tese  investigativa sustenta que a motivação central dessas decisões (de investir recursos do Rioprevidência no Master) não residiria em critérios técnicos regulares de investimento, mas em relação pessoal e indevida entre o controlador do Banco Master e autoridades com poder de mando sobre o RPPS (Regime de Previdência Público dos Servidores do Estado do Rio). Dentro dessa linha investigativa, a PF aponta conversas indicando que determinados aportes dependeriam de ‘alinhamento político’ com o ex-Governador do Estado.”

É importante destacar que, em outra parte da decisão, concluiu-se que “... as aplicações teriam sido procedidas ou acompanhadas de aproximação política, encontros pessoais e rearranjos administrativos no âmbito da autarquia previdenciária estadual."

Ou seja, Vorcaro passou a controlar o ex-governador do Rio, que fazia o que o ex-banqueiro queria.  E, para facilitar inteiramente as operações, o governador nomeou pessoas de total confiança do ex-banqueiro (que foram infiltradas no poder público)  para controlar o fundo de previdência, conforme assim exposto na decisão judicial:  “... a atuação do ex-Governador não se limitou a contatos institucionais, mas envolveu vínculo pessoal estreito com o controlador do Banco Master, caracterizado  por encontros frequentes, inclusive em ambientes privados e no exterior, custeados pelo banqueiro, com elevada coincidência temporal em relação aos aportes bilionários do RioPrevidência. Esse relacionamento teria viabilizado o alinhamento político necessário para a liberação de investimento, bem como a nomeação estratégica de dirigentes do RioPrevidência em cargos chave (Presidência, Diretoria de Investimentos e Gerência  de Investimento), assegurando que as decisões de credenciamento e de aplicação de recursos previdenciários fossem conduzidas em desconformidade com a política de investimentos e com as normas regulatórias, mas em consonância com os interesses do Banco Master.” 

Pelo encadeamento desses fatos, constata-se que, desde 2019, quando teve início o governo Bolsonaro, Daniel Vorcaro e sua organização criminosa se infiltraram em diversas instâncias da política e na estrutura do poder público com o objetivo de fraudar instituições e desviar muito dinheiro para suas contas pessoais, controlando no processo figuras políticas que atendessem a seus interesses pessoais ou os de quem ele está a serviço (sendo esta uma grande interrogação, que, esperamos, as investigações consigam esclarecer, tornando públicos os reais interesses e maiores beneficiados de todo o esquema).

Resta clara a motivação do ex-banqueiro “irmãozão” ao financiar os Bolsonaros, desde a eleição de 2022 e sua candidatura presidencial de 2026, pois, deste modo, poderia ampliar o controle sobre o poder público para alcançar seus interesses mafiosos, em detrimento e prejuízo de milhões de brasileiros.  Por isso, o crime organizado, unido a políticos inescrupulosos bolsonaristas, fizeram de tudo para tentar impedir a posse em janeiro de 2023, inviabilizar o governo e, agora, tentar atrapalhar a reeleição do presidente Luís Inácio Lula da Silva.

•        A parceria da CIA com o crime organizado. Por Luís Nassif

A decisão do governo norte-americano de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas vai muito além de uma simples radicalização do combate ao crime organizado.

Ao enquadrar essas facções sob a ótica do terrorismo, os Estados Unidos deixam de tratar o tema apenas como questão policial e passam a inseri-lo no campo da segurança nacional. A questão central passa a ser: qual será o uso político e geopolítico dessa nova classificação?

Até agora, o combate ao crime organizado no Brasil tem ocorrido principalmente por meio da cooperação entre autoridades brasileiras e órgãos como o FBI e a DEA (Drug Enforcement Administration), agência vinculada ao Departamento de Justiça dos EUA e especializada no combate ao narcotráfico.

Diversas autoridades brasileiras que atuam diretamente contra o crime organizado, como o promotor de Justiça Lincoln Gakiya e o procurador de Justiça Mário Luiz Sarrubbo, já alertaram para a diferença fundamental entre a atuação desses órgãos e a da CIA.

Com FBI e DEA há cooperação policial. Com a CIA, a lógica é outra.

A preocupação decorre de um padrão histórico amplamente documentado: em diversas regiões do mundo, a CIA estabeleceu alianças com organizações criminosas sempre que isso atendia a objetivos estratégicos mais amplos.

Não se trata de teoria conspiratória. Trata-se de fatos registrados em relatórios oficiais, investigações parlamentares e estudos acadêmicos.

Em português claro: há enorme possibilidade de uma aliança da CIA com as organizações criminosas que historicamente cercam a família Bolsonaro.

<><> Antes da CIA: a aliança com a máfia na Segunda Guerra

A relação entre o aparato de inteligência norte-americano e organizações criminosas antecede a própria criação da CIA, fundada em 1947.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a inteligência naval dos Estados Unidos promoveu a chamada Operation Underworld. Em troca de colaboração para garantir a segurança das docas de Nova York e facilitar contatos na Sicília durante a invasão aliada de 1943, autoridades americanas negociaram diretamente com o mafioso Lucky Luciano.

Posteriormente, Luciano teve sua pena reduzida e foi deportado para a Itália.

<><> Itália e a Guerra Fria

No pós-guerra, os serviços de inteligência americanos apoiaram redes anticomunistas que incluíam personagens ligados à máfia siciliana.

Mais tarde, essas redes se conectariam às estruturas clandestinas de resistência antissoviética conhecidas como Gladio.

A existência dessas redes foi oficialmente reconhecida pelo governo italiano em 1990. O grau exato de interação entre essas estruturas, grupos extremistas e organizações criminosas continua sendo objeto de debate histórico e judicial.

<><> O Triângulo Dourado e o ópio asiático

Após a vitória comunista na China, nos anos 1950, a CIA apoiou remanescentes do Kuomintang refugiados na Birmânia e na Tailândia.

Esses grupos passaram a financiar suas atividades por meio da produção e comercialização de ópio.

A logística de apoio americana, incluindo a empresa aérea Civil Air Transport — posteriormente transformada na Air America — acabou se inserindo nesse ambiente dominado pelo narcotráfico.

O tema foi amplamente documentado pelo historiador Alfred McCoy.

<><> O caso Castro: a parceria formal com a máfia

O episódio mais claramente comprovado envolve as tentativas de assassinato de Fidel Castro.

Nos anos 1960, a CIA recrutou mafiosos como:

•        Johnny Roselli

•        Sam Giancana

•        Santo Trafficante Jr.

para participar de operações destinadas à eliminação de Castro.

Esses fatos foram oficialmente confirmados pelo Church Committee, investigação parlamentar realizada entre 1975 e 1976.

<><> Laos, Vietnã e a heroína

Durante a Guerra do Vietnã, a CIA armou e financiou forças lideradas por Vang Pao no Laos.

A Air America foi repetidamente acusada de transportar ópio produzido por grupos aliados.

Embora o grau de participação direta da Agência continue sendo discutido, a presença dos aliados da CIA no narcotráfico regional é fato amplamente aceito pela historiografia.

<><> Os Contras e a cocaína

O episódio mais bem documentado ocorreu na América Central durante os anos 1980.

O chamado Kerry Committee, do Senado dos EUA, concluiu que indivíduos ligados ao abastecimento dos Contras nicaraguenses participavam de operações de narcotráfico.

Posteriormente, a série de reportagens Dark Alliance, do jornalista Gary Webb, levou o tema ao grande público.

Anos depois, o Inspetor-Geral da CIA, Frederick Hitz, reconheceu oficialmente que a Agência trabalhou com indivíduos suspeitos de envolvimento com tráfico de drogas e, em diversos casos, manteve essas relações mesmo tendo conhecimento das suspeitas.

Não se comprovou uma operação deliberada para distribuir drogas nos Estados Unidos. O que os relatórios demonstraram foi algo diferente: tolerância sistemática em nome de objetivos geopolíticos considerados prioritários.

<><> Afeganistão e o banco BCCI

Durante a guerra contra a União Soviética no Afeganistão, a CIA operou em parceria com o serviço secreto paquistanês.

Nesse período, ocorreu uma expansão sem precedentes da produção de ópio afegão.

Ao mesmo tempo, o sistema financeiro paralelo associado ao banco BCCI tornou-se peça importante em operações internacionais de financiamento clandestino.

As investigações posteriores demonstraram a sobreposição entre operações encobertas, narcotráfico e estruturas financeiras opacas.

<><> Noriega: agente e criminoso ao mesmo tempo

O caso de Manuel Noriega tornou-se emblemático.

Por anos, Noriega atuou simultaneamente como informante remunerado da CIA e colaborador dos cartéis colombianos.

As autoridades norte-americanas tinham conhecimento dessas atividades antes da invasão do Panamá, em 1989.

O episódio ilustra perfeitamente um padrão recorrente: quando interesses estratégicos estão em jogo, a condição criminal dos parceiros torna-se secundária.

<><> O padrão histórico

O ponto central não é afirmar que a CIA tenha atuado como organização criminosa.

O padrão observado é outro.

Em operações encobertas, a Agência frequentemente recorreu a atores que controlavam territórios, rotas logísticas, financiamento clandestino e redes de influência fora das estruturas formais do Estado.

Com frequência, esses atores eram organizações criminosas.

Em praticamente todos os casos, o objetivo geopolítico prevaleceu sobre qualquer consideração relativa à integridade dos parceiros escolhidos.

É essa experiência histórica que leva muitos especialistas a observar com cautela a decisão de transformar facções brasileiras em tema de segurança nacional dos Estados Unidos.

A questão não é apenas como combater PCC e Comando Vermelho.

A questão é quem conduzirá esse combate, com quais instrumentos e em benefício de quais objetivos estratégicos.

 

Fonte: Brasil 247/Jornal GGN

 

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