Gilberto
Menezes Côrtes: O duelo eleitoral pela soberania
O
primeiro turno das eleições de 2026 está marcado para 4 de outubro, mas na
campanha eleitoral entre Lula e o representante do clã Bolsonaro, o filho 01,
senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), foi antecipado. Com a interferência do
Departamento de Estado, o governo Trump designou na última quinta-feira, 28 de
maio, valendo a partir do dia 5 de junho, as duas maiores facções de
narcotráfico do Brasil (o PCC, nascido em São Paulo, e o Comando Vermelho, com
base no Rio de Janeiro) como grupos terroristas. É cedo para medir as
consequências. O fato é que o governo Trump entrou no duelo eleitoral. Para o
bem ou para o mal.
No
encontro de três horas, em 7 de maio, entre chefes de governo na Casa Branca,
entre discussões sobre tarifas e negociação de acesso às terras raras, o
presidente Lula defendeu a soberania brasileira e apresentou extenso plano de
combate ao narcotráfico ao presidente Trump, solicitando a colaboração
americana no controle dos fluxos financeiros das organizações criminosas e
fraudadores de impostos do Brasil nos Estados Unidos, incluindo o tráfico de
armas pesadas que são remetidas de lá ao Brasil em contêineres para as falanges
do PCC e CV.
Entretanto,
como a decisão se deu dois dias após rápido encontro de pouco mais de 10
minutos, dia 26 de maio, entre o senador e o presidente Trump, no salão Oval da
Casa Branca, acompanhado do irmão, deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro
(PL-SP), e do economista Paulo Figueiredo, que insistiram com Trump (e, no dia
seguinte, com o secretário de Estado, Marco Rubio) para declarar as
organizações criminosas do PCC e do Comando Vermelho como equivalentes a
organizações terroristas, o senador, acuado por seu envolvimento com Daniel
Vorcaro, dono do liquidado Banco Master, responsável pela maior fraude
financeira da história do país, saiu temporariamente das cordas e comemorou o
fato como "grande vitória".
Na
verdade, Flávio Bolsonaro continua devendo explicações sobre as contradições de
seus encontros com Daniel Vorcaro. Primeiro, disse que “não o conhecia e que o
Banco Master era problema do governo Lula”. Mas a compra por Vorcaro da
carta-patente do enrolado Banco Máxima, transformado em Master em 2019, se deu
na gestão Roberto Campos Neto, no governo Bolsonaro, período em que dois
diretores do Banco Central foram acusados, em sindicância interna, de receber
subornos para facilitar a vida de Vorcaro.
Segundo
porque, em 13 de maio, quando o site “Intercept Brasil” revelou a gravação de
sua cobrança de mais da metade dos US$ 24 milhões – R$ 134 milhões - pedidos a
Daniel Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse” feito no Brasil e nos EUA,
sobre a vida do ex-presidente, ao ser indagado por repórter do “Intercept”,
disse que era mentira e fugiu da imprensa. À tarde disse que conhecera Vorcaro
em dezembro de 2024, (quando o governo Bolsonaro tinha acabado) e que é
"dinheiro privado para um filme privado”.
As
contradições se sucederam. Embora parte dos R$ 61 milhões adiantados por
Vorcaro tenham sido remetidos por fundos misteriosos (praxe do ex-banqueiro) a
um fundo gerido nos Estados Unidos pelo advogado de Eduardo Bolsonaro, diretor
executivo da produção, também teriam sido usados na compra da mansão de Eduardo
no Texas.
Ainda
na véspera do encontro com Trump, em entrevista à “Globonews”, o presidente do
PL, deputado federal Valdemar Costa Neto (PL-SP), disse que o encontro
posterior de Flávio com Daniel Vorcaro foi para “cobrar o restante do dinheiro”
– Flávio dissera que a conversa era para “botar um ponto final no assunto”; à
saída da Casa Branca, o senador que defende a liberdade de expressão quis
proibir a imprensa de perguntas sobre Vorcaro.
Era de
se esperar que tivesse acertado os ponteiros com o irmão Eduardo e com o outro
produtor do filme, o deputado federal Mário Frias (PL-SP), ex-ministro da
Cultura de Bolsonaro. Mas ele preferiu acreditar que tinha virado a página da
crise e iria surfar a onda da decisão americana.
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O efeito prático
O
Departamento de Estado dos EUA designou o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro
Comando da Capital (PCC) como Terroristas Globais Especialmente Designados
(SDGTs) e pretende designar ambos os grupos como Organizações Terroristas
Estrangeiras (FTOs), com vigência a partir de 5 de junho de 2026. Segundo a
nota do Departamento de Estado, que pretende controlar as Américas, os grupos
“são duas das organizações criminosas mais violentas do Brasil. Juntos,
comandam milhares de membros e orquestraram ataques brutais contra policiais,
autoridades públicas e civis brasileiros. Sua influência e redes ilícitas se
estendem muito além das fronteiras do Brasil, por toda a nossa região e todo o
país”.
Acrescenta
que “o governo Trump continuará a usar todas as ferramentas disponíveis para
proteger nossa nação e nossos interesses de segurança nacional, mantendo as
drogas ilícitas longe de nossas ruas e interrompendo o fluxo de recursos que
financiam narcoterroristas violentos”, e termina dizendo que “a ação tomada
(...) pelo Departamento demonstra (...) o compromisso inabalável do governo
Trump em desmantelar cartéis e organizações criminosas em nossa região e
garantir a segurança do povo americano”.
Assim
como em abril e agosto de 2025, quando começaram os tarifaços do governo Trump
(considerados ilegais este ano pela Suprema Corte, por falta de autorização do
Congresso), as restrições às exportações brasileiras aos Estados Unidos, que
acumulam bilhões de dólares de superávits contra o Brasil, motivaram reações
das entidades empresariais brasileiras e mobilizaram o governo Lula e o
Congresso a atuar, junto com as classes empresariais, em defesa da soberania;
agora os meios financeiros e empresariais reagem aos riscos draconianos das
medidas.
[em
julho de 2025, Trump condicionou, em sua rede social, a aplicação dos tarifaçde
até 50% à suspensão ("IMEDIATAMENTE") do julgamento do ex-presidente
[a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) não interrompeu os
trabalhos e Jair Bolsonaro está cumprindo 27 de prisão, com tornozeleira
eletrônica em casa por motivos de saúde]
A
decisão do Departamento de Estado dos EUA lança uma sombra de incerteza
regulatória sobre o setor financeiro brasileiro. Na sexta-feira, 29 de maio as
ações dos bancos tiveram baixas mais fortes que o Ibovespa. O sistema
financeiro (bancos e “fintechs” utilizados para os fluxos financeiros, com
auxílio de fundos exclusivos radicados em paraísos fiscais) e as atividades de
lavagem de dinheiro do narcotráfico, entre as quais se incluem hotéis, postos
de gasolina, farmácias e padarias, que giram com muito dinheiro, temem que a
inclusão desses grupos na lista dê a Washington instrumentos para impor
restrições capazes de afetar o sistema financeiro brasileiro.
O
precedente mexicano acendeu um alerta: o Departamento do Tesouro dos EUA
anunciou o bloqueio de transações entre bancos americanos e filiais mexicanas
do CIBanco e do Intercam Banco, além da corretora Vector Casa de Bolsa. As três
instituições rejeitaram veementemente as acusações, e a presidente do México,
Claudia Sheinbaum, afirmou que não havia provas para sustentá-las.
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Aumento de custos
A
partir de 5 de junho, empresas e instituições financeiras brasileiras estão
obrigadas a se adaptar imediatamente às regras de “compliance” - transparência
e identificação imediata de operações suspeitas previstas na legislação
norte-americana, o que custa tempo e dinheiro.
Sem a
adaptação, poderiam ficar expostas a sanções pelo simples fato de manterem
negócios, contratos ou transações de qualquer natureza com integrantes desses
grupos — mesmo de pequena monta, comuns em operações de lavagem de dinheiro, ou
feitas de forma involuntária.
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O risco do Pix
Preocupado
em medir os possíveis riscos da medida, sobretudo pelo interesse velado das
instituições financeiras americanas que perderam receitas de seus instrumentos
de transferências de pagamentos por débito ou cartão de crédito, a partir da
criação, em fins de 2021, do Pix (gestado pelo Banco Central desde 2017), o
presidente Lula, que voltou a chamar Flávio Bolsonaro de “traidor da Pátria” e
o comparou a Silvério dos Reis, delator de Tiradentes, nomeou grupo de trabalho
coordenado pela chefe da Casa Civil, Miriam Belchior, e pelo ministro da
Fazenda, Dario Durigan, para levantar os impactos mais imediatos.
Em
entrevista à “Globonews”, Durigan disse que “o Pix é mal compreendido pelas
instituições que perderam receita, mas ele é um instrumento de infraestrutura”.
Eventualmente, deve ter sido usado por facções e na lavagem de dinheiro por
devedores contumazes, como revelou a “Operação Fluxo Oculto” realizada esta
semana, sequência da ”Carbono Oculto”. Coordenada com a “Operação Sem Refino”,
da Polícia Federal em vários estados, em articulação com a Receita Federal,
mostrou o grupo Refit (ex-Refinaria de Manguinhos), do advogado Ricardo Magro,
no centro da lavagem de dinheiro a partir de importações de nafta (que pode
virar gasolina) e gasolina dos EUA (Texas). Ambas são misturadas com álcool
clandestino no Brasil e vendidas nas bombas controladas pelo PCC e pelo Comando
Vermelho pelo país afora.
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Colarinho branco X roubo de celular
Por
isso, Lula fez questão de solicitar a Trump a colaboração do governo americano
para extraditar Ricardo Magro, que mora em Miami e sedia seus negócios no
pequeno estado de Delaware, espécie de “paraíso fiscal” americano, com a menor
tributação nos EUA. Magro é o maior sonegador fiscal do país. Há anos, a Refit
não refina petróleo em Manguinhos, bairro às margens da Avenida Brasil, com
imensos terrenos que terminam na divisa com a favela do Jacarezinho, uma das
maiores comunidades do Rio. Mas a Refit emite notas fiscais como se operasse
como refinaria.
As
dívidas com o fisco federal e dos estados do Rio de Janeiro. São Paulo e Paraná
(o grupo fazia importações de nafta e gasolina pelos portos de Santos e
Paranaguá e ainda Santa Catarina) montam a mais de R$ 55 bilhões. O governador
em exercício do Rio de Janeiro, o desembargador Ricardo Couto, presidente do
Tribunal de Justiça do RJ, que está fazendo uma faxina nas maracutaias do
governo Cláudio Castro (preso novamente sexta-feira, 29 de maio pela PF), após
uma devassa na Secretaria de Fazenda do Estado, onde a Polícia Federal prendeu
o ex-secretário Juliano Pasqual, o ex-subsecretário de Receita, Adilson Zegur,
e o superintendente de Fiscalização e Inteligência Fiscal, José Eduardo Lopes
Teixeira Filho, demitiu 40 funcionários suspeitos de acobertar o esquema de
fraudes de Ricardo Magro.
E no
dia 29, a Refit teve cassada pelo governo do Rio de Janeiro a sua inscrição
estadual. Contribuintes com a inscrição impedida ficam proibidos de emitir nota
fiscal de venda ou comprar produtos, inviabilizando a operação da empresa, que
ganhava mais recursos no trânsito de papéis do que no refino. E o governador
Ricardo Couto ameaça desapropriar os terrenos de Manguinhos e negociar sua
administração com a Petrobras.
O que
ocorre na região é um microcosmo da criminalidade do país. Na visão geral e
rasteira, alimentada pela chamada “banda podre” da polícia, origem dos
milicianos que se transformaram em força política importante em vários estados
do Brasil (no Rio de Janeiro, o então deputado estadual Flávio Bolsonaro, além
de empregar em seu gabinete familiares de milicianos matadores, como o falecido
ex-PM, Adriano da Nóbrega, não se cansava de condecorar milicianos e matadores
da Polícia, que bradam “bandido bom é bandido morto”), o crime está nas
favelas.
De
fato, roubos e furtos de automóveis, motos e de joias e celulares costumam ser
praticados por jovens das periferias. Entretanto, o alcance dos estragos
diretos e indiretos dos crimes de colarinho branco, como os perpetrados por
Ricardo Magro sonegam e “furtam” muito mais recursos, que poderiam aparelhar
melhor as polícias no embate contra o crime organizado, bem como em projetos da
área social (saúde, educação, saneamento básico).
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Segredos dos celulares de Castro
Por
falar em furtos de celulares, as ações da Polícia Federal, que apreendeu
sexta-feira, 29 de maio, cinco celulares na cobertura de luxo do ex-governador
Cláudio Castro, na Barra da Tijuca, avaliada em mais de R$ 5 milhões, podem
revelar mais crimes que nas batidas policiais em favelas. Há riscos de contágio
para a campanha de Flávio Bolsonaro.
De
imediato, o ex-governador que renunciou ao cargo à véspera de ser cassado, em
abril, pelo Tribunal Superior Eleitoral, e tinha acertado com Flávio a
candidatura a uma das vagas para senador pelo PL-RJ (o que poderia imunidade de
oito anos, como ocorreu com Flávio Bolsonaro, em 2018), anunciou desistir da
candidatura. Advogado, disse que pretende se dedicar à própria defesa.
A
devassa no conteúdo dos aparelhos ameaça desnudar a ação do grupo político
comandado por Flávio Bolsonaro e o tráfico internacional de fuzis, sobretudo
AK-47 e AR-15, que municiava a guerra entre traficantes e polícia no Rio.
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As voltas que o mundo dá
“O
mundo gira e a Lusitana roda”, dizia antiga propaganda da empresa de mudanças.
Continua atual. Em 22 de abril de 2020, o presidente Jair Bolsonaro ameaçou
trocar a cúpula da Polícia Federal e até o ministro [da Justiça e Segurança
Pública, que era Sérgio Moro] para evitar perseguições à família (o filho 01
era um dos alvos) e amigos. Dia 23, Moro pediu demissão e saiu atirando contra
Jair Bolsonaro.
Sexta-feira,
29 de maio, o candidato pelo PL estava em Curitiba dando apoio ao lançamento da
candidatura do senador (eleito pelo União e que migrou para o PL no começo
deste ano) a governador do Paraná. Os dois tinham rompido em 2022, no governo
do pai, Jair Bolsonaro.
Em
entrevista, em abril de 2022, à então revista “Crusoé”, Moro especificou que as
medidas não vetadas por Jair Bolsonaro, à sua proposta de cerco ao crime
organizado, limitavam a aplicação de prisão preventiva e regras para acordos de
colaboração premiada. O então ex-ministro vinculou as sanções presidenciais ao
andamento das investigações sobre o caso das “rachadinhas” na Assembleia
Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), que tinham Flávio Bolsonaro como alvo
principal.
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As outras promessas de Flávio
Tentando
virar a página de seu atoleiro no “Caso Master”, Flávio Bolsonaro disse ter
pedido ao presidente Trump o enquadramento do PCC e do CV como grupos
terroristas e prometeu que, a partir de janeiro de 2027, o Brasil integraria o
escudo das Américas — a aliança da ultradireita das Américas, junto com a
Argentina de Milei, El Salvador de Bukele, o Equador de Noboa, o Paraguai de
Peña, o Chile de Kast, o Panamá de Mulino e a República Dominicana de Abinader.
Sobre tarifas, afirmou que elas não seriam necessárias em seu governo, mas
evitou criticar as medidas ainda em vigor. O senador também aproveitou o
encontro para voltar ao tema dos minerais críticos, que lhe rendeu desgaste
após um discurso em congresso conservador no Texas (AQnon), quando foi acusado
de "entreguista". Disse ter defendido uma "parceria estratégica
de longo prazo" no setor, com investimento protegido e reindustrialização
compartilhada entre Brasil e Estados Unidos.
O
senador, que espera ter Trump como cabo eleitoral, parece ter esquecido que os
apoios de Donald Trump foram um fracasso para os candidatos da ultradireita na
Hungria, na Romênia, Polônia, Portugal, Espanha e na França.
Fonte:
JB

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