Bolsa
família, SUS, civilidade e cidadania
Ao se
resgatarem alguns episódios do período mais recente – alguns deles com início
não tão recente, o que só agrava a questão – emerge na sociedade brasileira um
quadro pintado com tonalidades sombrias e desafiadoras. E com isso, o debate
sobre a fala absolutamente infundada, mas convicta, de uma estrela bilionária
da indústria de comunicação, revela-se apenas como a ponta de um iceberg de
raízes profundas em nossa sociedade – a resistência permanente à constituição
de uma sociedade mais justa e igualitária.
Realidade
mais sombria ainda quando, segundo documento do PNUD recém-publicado, aponta
como o IDH do Brasil alcançou o patamar de muito alto (países desenvolvidos),
embora persistam as desigualdades entre regiões, raça e gênero. O que significa
que os avanços recentes dos indicadores sociais não impactaram a dimensão
estrutural da pobreza e da desigualdade no Brasil, em grande parte porque
políticas estruturais de criação de emprego e distribuição da riqueza não foram
implementadas de forma complementar às políticas sociais voltadas
essencialmente para o consumo.
De
fato, existe uma disparidade de tempo de realização e de impacto entre
políticas sociais emergenciais e aquelas estruturantes, tanto do ponto de vista
econômico quanto – o que mais nos interessa aqui – do ponto de vista da
construção de uma esfera pública em que os direitos e o acesso ao consumo de
bens sociais e coletivos se consolidem na consciência dos sujeitos sociais.
Em que
pese a presença em nossa trajetória de estudiosos e militantes da cidadania
como Darcy Ribeiro e Paulo Freire que enfatizaram o acesso a bens coletivos
como instrumento da conquista da cidadania por sujeitos sociais ativos, o
conjunto de políticas e programas sociais que enfatizam esse acesso a bens e
serviços e a cobertura da população, sobretudo as mais vulneráveis socialmente,
não foi capaz de fazer avanços nessa dimensão do fortalecimento de uma cultura
cidadã junto à população.
Isto é,
como constatava Lima Barreto na década de 20 do século passado, não se superou
ainda a realidade social do Brasil marcada pela presença de um povo e não de um
público. Ainda nos defrontamos com uma questão central: como enfrentar a
pobreza e as desigualdades sociais de forma a despertar a autonomia dos
sujeitos sociais marcados por políticas de subalternidade e exploração.
A
polêmica atual em torno do corte ou não corte das políticas e programas sociais
não se resume, assim, à conjuntura de ano eleitoral. Essa importa, e muito! No
entanto, o que se pretende evidenciar aqui é a urgência, mesmo com a vitória de
um projeto democrático nas eleições deste ano, de se atentar para o fato de que
os avanços sociais conquistados recentemente não se traduzem numa consciência
cidadã, em que pese a presença de uma rede de uma cultura de solidariedade no
cotidiano das classes subalternas. Onde reside e como apreender a disruptura
que marca não só a dimensão das disputas políticas como a própria sociedade?
De
início, vamos à polêmica provocada pelo personagem midiático sobre Bolsa
Família. Óbvio, como as quase unânimes manifestações nas redes sociais afirmam,
que se trata de um preconceito do senso comum das elites econômicas: tal como o
Jeca Tatu, pobre é preguiçoso e acomodado. Ter acesso a um valor base mensal de
R$ 600,00 – e um valor médio por família de R$ 690,00 com os adicionais – não
justifica a acomodação e a dependência confortável ao programa.
Por
outro lado, embora retire a família da pobreza extrema e das humilhações que
dela fazem parte, não é suficiente para dignificar a existência dessas famílias
beneficiárias, que vêm sua dignidade vinculada ao trabalho remunerado com
valores não miseráveis. Já em 2003, quando da instalação do programa, as elites
locais acusavam o Bolsa Família por não se encontrar mais empregadas domésticas
remuneradas com valores simbólicos.
O Bolsa
Família significa, além da possibilidade de um padrão mínimo de consumo de bens
essenciais, a possibilidade de negociação dos pobres por condições mais dignas
de trabalho. E é isso que as “novas elites”, os enriquecidos de forma célere
nas últimas décadas e que vêm se somar às “velhas elites tradicionais”,
compondo o que Jessé Souza denomina a “elite do atraso”, não admitem,
exatamente porque para eles os direitos sociais são privilégios – restrito a
eles.
Mas a
atual realidade apresenta-se mais complexa. E aqui vale a inspiração no resgate
de análises como a de Guillermo O’Donnell, em especial do seu texto “Situações:
micro cenas da privatização do público em São Paulo”, publicado em 1988 pela
revista Novos Estudos Cebrap e de Roberto DaMatta, no livro A Casa e a Rua, de
1985. Porque a questão não é somente das elites, como expressa a atuação
presente do Congresso Nacional. Mas também a de tentar apreender a razão pela
qual os avanços na área social, flagrantes nas gestões petistas deste século,
difícil e raramente se traduzem na construção da consciência social de direitos
cidadãos.
Trata-se,
portanto, de ter clara a necessidade de buscar estratégias e meios de se barrar
a invasão da consciência de direitos como algo privado para que se constituam,
como são por sua natureza, públicos, pertinentes às políticas públicas. Tentar
captar, em suma, o que é público nas políticas públicas.
Como se
enfrentar o vácuo entre a extensão do acesso a direitos e benefícios sociais –
em benefícios e serviços – e a incorporação desse acesso enquanto direito de
todos a serem defendidos da mercantilização da oferta e da produção desses
benefícios e serviços. Enfim, como se contrapor à naturalização da pobreza e da
miséria, que se traduzem na atual conjuntura em defesa da superexploração do
trabalho.
Avanços
na área social não só existem como são notórios. O Brasil é tido como modelo
mundial na política de distribuição condicionada de renda com o Bolsa Família,
assim como na política de saúde com o SUS. No caso do Bolsa Família a ideia
original, em 2003, consistia explicitamente em ser um modelo de distribuição
condicionada de renda marcado fortemente pela busca da autonomia dos sujeitos
beneficiários.
Isso
contra as concepções das agências multilaterais, como o Banco Mundial, com as
quais eu era responsável por negociar os empréstimos que entendiam as
condicionalidades como meros traçadores para a focalização da população alvo,
penalizando-a quando do não cumprimento das mesmas, enquanto a concepção nossa
como governo consistia exatamente que esses descumprimentos funcionassem
enquanto monitoramento da qualidade das políticas públicas setoriais
envolvidas.
A
construção da autonomia desses sujeitos para que ativamente buscassem modos de
inserção na sociedade constituía a linha mestra do Bolsa Família, que assim não
se resumiria a uma folha de pagamento mensal, mas estaria estreitamente
articulado com as demais políticas econômicas e sociais, desenhando “portas de
saída” para os beneficiários.
Não só
os recursos eram repassados para as mulheres, possibilitando sua autonomia com
relação a seus parceiros e maior garantia na orientação dos gastos familiares
para a sobrevivência da família, como as condicionalidades na saúde e na
educação estariam garantindo condições futuras para quebra do ciclo
intergeracional da pobreza. Nesse sentido, o perfil do Bolsa Família
desenhava-se como uma política transversal às demais políticas.
No
entanto, o Bolsa Família foi concebido e implementado como um programa
emergencial de combate à extrema pobreza. Nessas condições, caberia ao conjunto
dos governos envolvidos promover uma série de ações de caráter estrutural que
possibilitasse a esses segmentos ultrapassarem sua condição de vulnerabilidade
social. Para tanto, são necessárias políticas de expansão do mercado formal e
informal do trabalho (o que vem sendo alcançado) para que torne possível às
famílias se desligarem do programa. Pobre não gosta de ser pobre nem da
pobreza, já alertava Joãozinho Trinta. Mas os não pobres e os ricos assim
pensam!
Em 2012
lancei um livro em que analiso 1375 cartas escritas entre 2004 e 2006
diretamente para o presidente Lula, e transcrevo trechos de várias delas. Elas
constituem uma relação direta dos segmentos pobres do país com o chefe do
Estado. Merecem destaque aqui, dentre o que elas revelam sobre como vivenciam e
sobrevivem à pobreza extrema, duas dimensões.
A
primeira, já nesse período do programa recém lançado, como esses invisíveis
pelo Estado sabiam em que portas institucionais bater para buscar seus
direitos. Só que elas se fechavam em efeito dominó. Assim, buscar a intervenção
de Lula para que tivessem acesso ao benefício, ao contrário do pressuposto
elitista desta autora, não era o primeiro e sim o último recurso de que
lançavam mão.
E a
segunda dimensão, que diz respeito ao que vem sendo tratado aqui, é a
solidariedade e a rede espontânea de proteção que existe entre esses sujeitos.
Em numerosas cartas é chamada a atenção para que sua situação não é única, mas
de seus vizinhos também, do bairro, da comunidade, e isso em vários envelopes
“coletivos” (como não havia recursos de cada um para as despesas de correio,
era frequente um envelope conter várias delas).
De
qualquer forma, resta o traço mais marcante: a altivez com que solicitavam a
intervenção da autoridade máxima do país. Não eram pedidos de um favor de
alguém subalterno, mas de alguém invisível para o poder público, de alguém “que
já estava de canela seca de ir atrás”.
Por
outro lado, o SUS, e com ele a melhoria das condições de saúde da população (no
caso brasileiro o traçador com maior peso no aumento do IDH) apresenta um marco
de esvaziamento do conteúdo social que lhe deu origem, conforme o lema saúde é
democracia.
De
fato, nesses 40 anos desde a VIII Conferência Nacional de Saúde, sua
implementação contra a corrente das forças conservadoras da sociedade e do
mercado da saúde vem acompanhada de algo pernicioso: a saúde como um direito
sendo substituída pela saúde como um bem de consumo, em detrimento da
conscientização da sociedade de que saúde é um direito de cidadania. Para quem
fala o ocupante da pasta? Está sendo feita propaganda das ações de saúde que
vêm sendo adotadas, mas quem é atingido, e como dialogar com esses até então
“invisíveis” para o Estado?
É
simplista o diagnóstico de que o governo se distanciou das bases sociais. O que
se indaga aqui é exatamente quem e como vivem essas bases sociais, e como
atingi-las com algo que a elas faça sentido. Por exemplo, a luta para a
conquista do 5×2. Isso é codificável para o trabalhador, ou será mais
contundente em vez de um dia de folga em casa, lutar por dois dias?
Como
traduzir isso para a concretude da realidade vivida pela população, e que possa
se traduzir em instrumento para um salto da conscientização de que direito não
tem a ver com a tutela do Estado no sentido de regular seu cotidiano, mas sim
com a busca de garantias de vida digna para toda a população e consequentemente
de postura política propositiva que se contraponha ao discurso de que “todo
político é ladrão”.
Como
conscientizar que, ao contrário do discurso e do argumento da direita, tanto
José Serra quanto Lula, dona Marisa, Dilma Rousseff e agora José Dirceu
deveriam ser tratados pelo SUS, para “verem o que é bom pra tosse”, no mau
sentido, mas não o fazem porque dispõem de seguro saúde privado pelos cargos
exercidos e nessas condições não devem sobrecarregar os recursos (monetários,
materiais e humanos) do SUS? Pois o SUS é para todos, e vale lembrar que
Faustão foi atendido nos seus transplantes pelo maior e um dos mais respeitados
sistemas de transplantes público do mundo.
Todas
essas políticas, claro, têm impactos extremamente positivos nos indicadores
sociais da população. No entanto, ainda estão muito tímidas iniciativas de
redistribuição estrutural da renda e redução da desigualdade social, também
apontadas pelo estudo do PNUD. E essas desigualdades de renda, gênero e classe
persistem.
Mas
nunca é demais lembrar que: (a) tecnicamente somos equipados com instituições
de primeira linha para diagnósticos sociais; (b) que, no entanto, a vida vivida
cotidianamente pela população de baixíssima e de baixa renda ainda nos é
desconhecida; e (c) que desigualdades de renda, de raça e de gênero não
significam somente políticas para mulheres e para negros e indígenas, dentre
outras, mas para todas as diversidades existentes em nossa sociedade, pois elas
existem porque consistem de relações entre díspares.
NBolsa família, SUS, civilidade e cidadania
Ao se
resgatarem alguns episódios do período mais recente – alguns deles com início
não tão recente, o que só agrava a questão – emerge na sociedade brasileira um
quadro pintado com tonalidades sombrias e desafiadoras. E com isso, o debate
sobre a fala absolutamente infundada, mas convicta, de uma estrela bilionária
da indústria de comunicação, revela-se apenas como a ponta de um iceberg de
raízes profundas em nossa sociedade – a resistência permanente à constituição
de uma sociedade mais justa e igualitária.
Realidade
mais sombria ainda quando, segundo documento do PNUD recém-publicado, aponta
como o IDH do Brasil alcançou o patamar de muito alto (países desenvolvidos),
embora persistam as desigualdades entre regiões, raça e gênero. O que significa
que os avanços recentes dos indicadores sociais não impactaram a dimensão
estrutural da pobreza e da desigualdade no Brasil, em grande parte porque
políticas estruturais de criação de emprego e distribuição da riqueza não foram
implementadas de forma complementar às políticas sociais voltadas
essencialmente para o consumo.
De
fato, existe uma disparidade de tempo de realização e de impacto entre
políticas sociais emergenciais e aquelas estruturantes, tanto do ponto de vista
econômico quanto – o que mais nos interessa aqui – do ponto de vista da
construção de uma esfera pública em que os direitos e o acesso ao consumo de
bens sociais e coletivos se consolidem na consciência dos sujeitos sociais.
Em que
pese a presença em nossa trajetória de estudiosos e militantes da cidadania
como Darcy Ribeiro e Paulo Freire que enfatizaram o acesso a bens coletivos
como instrumento da conquista da cidadania por sujeitos sociais ativos, o
conjunto de políticas e programas sociais que enfatizam esse acesso a bens e
serviços e a cobertura da população, sobretudo as mais vulneráveis socialmente,
não foi capaz de fazer avanços nessa dimensão do fortalecimento de uma cultura
cidadã junto à população.
Isto é,
como constatava Lima Barreto na década de 20 do século passado, não se superou
ainda a realidade social do Brasil marcada pela presença de um povo e não de um
público. Ainda nos defrontamos com uma questão central: como enfrentar a
pobreza e as desigualdades sociais de forma a despertar a autonomia dos
sujeitos sociais marcados por políticas de subalternidade e exploração.
A
polêmica atual em torno do corte ou não corte das políticas e programas sociais
não se resume, assim, à conjuntura de ano eleitoral. Essa importa, e muito! No
entanto, o que se pretende evidenciar aqui é a urgência, mesmo com a vitória de
um projeto democrático nas eleições deste ano, de se atentar para o fato de que
os avanços sociais conquistados recentemente não se traduzem numa consciência
cidadã, em que pese a presença de uma rede de uma cultura de solidariedade no
cotidiano das classes subalternas. Onde reside e como apreender a disruptura
que marca não só a dimensão das disputas políticas como a própria sociedade?
De
início, vamos à polêmica provocada pelo personagem midiático sobre Bolsa
Família. Óbvio, como as quase unânimes manifestações nas redes sociais afirmam,
que se trata de um preconceito do senso comum das elites econômicas: tal como o
Jeca Tatu, pobre é preguiçoso e acomodado. Ter acesso a um valor base mensal de
R$ 600,00 – e um valor médio por família de R$ 690,00 com os adicionais – não
justifica a acomodação e a dependência confortável ao programa.
Por
outro lado, embora retire a família da pobreza extrema e das humilhações que
dela fazem parte, não é suficiente para dignificar a existência dessas famílias
beneficiárias, que vêm sua dignidade vinculada ao trabalho remunerado com
valores não miseráveis. Já em 2003, quando da instalação do programa, as elites
locais acusavam o Bolsa Família por não se encontrar mais empregadas domésticas
remuneradas com valores simbólicos.
O Bolsa
Família significa, além da possibilidade de um padrão mínimo de consumo de bens
essenciais, a possibilidade de negociação dos pobres por condições mais dignas
de trabalho. E é isso que as “novas elites”, os enriquecidos de forma célere
nas últimas décadas e que vêm se somar às “velhas elites tradicionais”,
compondo o que Jessé Souza denomina a “elite do atraso”, não admitem,
exatamente porque para eles os direitos sociais são privilégios – restrito a
eles.
Mas a
atual realidade apresenta-se mais complexa. E aqui vale a inspiração no resgate
de análises como a de Guillermo O’Donnell, em especial do seu texto “Situações:
micro cenas da privatização do público em São Paulo”, publicado em 1988 pela
revista Novos Estudos Cebrap e de Roberto DaMatta, no livro A Casa e a Rua, de
1985. Porque a questão não é somente das elites, como expressa a atuação
presente do Congresso Nacional. Mas também a de tentar apreender a razão pela
qual os avanços na área social, flagrantes nas gestões petistas deste século,
difícil e raramente se traduzem na construção da consciência social de direitos
cidadãos.
Trata-se,
portanto, de ter clara a necessidade de buscar estratégias e meios de se barrar
a invasão da consciência de direitos como algo privado para que se constituam,
como são por sua natureza, públicos, pertinentes às políticas públicas. Tentar
captar, em suma, o que é público nas políticas públicas.
Como se
enfrentar o vácuo entre a extensão do acesso a direitos e benefícios sociais –
em benefícios e serviços – e a incorporação desse acesso enquanto direito de
todos a serem defendidos da mercantilização da oferta e da produção desses
benefícios e serviços. Enfim, como se contrapor à naturalização da pobreza e da
miséria, que se traduzem na atual conjuntura em defesa da superexploração do
trabalho.
Avanços
na área social não só existem como são notórios. O Brasil é tido como modelo
mundial na política de distribuição condicionada de renda com o Bolsa Família,
assim como na política de saúde com o SUS. No caso do Bolsa Família a ideia
original, em 2003, consistia explicitamente em ser um modelo de distribuição
condicionada de renda marcado fortemente pela busca da autonomia dos sujeitos
beneficiários.
Isso
contra as concepções das agências multilaterais, como o Banco Mundial, com as
quais eu era responsável por negociar os empréstimos que entendiam as
condicionalidades como meros traçadores para a focalização da população alvo,
penalizando-a quando do não cumprimento das mesmas, enquanto a concepção nossa
como governo consistia exatamente que esses descumprimentos funcionassem
enquanto monitoramento da qualidade das políticas públicas setoriais
envolvidas.
A
construção da autonomia desses sujeitos para que ativamente buscassem modos de
inserção na sociedade constituía a linha mestra do Bolsa Família, que assim não
se resumiria a uma folha de pagamento mensal, mas estaria estreitamente
articulado com as demais políticas econômicas e sociais, desenhando “portas de
saída” para os beneficiários.
Não só
os recursos eram repassados para as mulheres, possibilitando sua autonomia com
relação a seus parceiros e maior garantia na orientação dos gastos familiares
para a sobrevivência da família, como as condicionalidades na saúde e na
educação estariam garantindo condições futuras para quebra do ciclo
intergeracional da pobreza. Nesse sentido, o perfil do Bolsa Família
desenhava-se como uma política transversal às demais políticas.
No
entanto, o Bolsa Família foi concebido e implementado como um programa
emergencial de combate à extrema pobreza. Nessas condições, caberia ao conjunto
dos governos envolvidos promover uma série de ações de caráter estrutural que
possibilitasse a esses segmentos ultrapassarem sua condição de vulnerabilidade
social. Para tanto, são necessárias políticas de expansão do mercado formal e
informal do trabalho (o que vem sendo alcançado) para que torne possível às
famílias se desligarem do programa. Pobre não gosta de ser pobre nem da
pobreza, já alertava Joãozinho Trinta. Mas os não pobres e os ricos assim
pensam!
Em 2012
lancei um livro em que analiso 1375 cartas escritas entre 2004 e 2006
diretamente para o presidente Lula, e transcrevo trechos de várias delas. Elas
constituem uma relação direta dos segmentos pobres do país com o chefe do
Estado. Merecem destaque aqui, dentre o que elas revelam sobre como vivenciam e
sobrevivem à pobreza extrema, duas dimensões.
A
primeira, já nesse período do programa recém lançado, como esses invisíveis
pelo Estado sabiam em que portas institucionais bater para buscar seus
direitos. Só que elas se fechavam em efeito dominó. Assim, buscar a intervenção
de Lula para que tivessem acesso ao benefício, ao contrário do pressuposto
elitista desta autora, não era o primeiro e sim o último recurso de que
lançavam mão.
E a
segunda dimensão, que diz respeito ao que vem sendo tratado aqui, é a
solidariedade e a rede espontânea de proteção que existe entre esses sujeitos.
Em numerosas cartas é chamada a atenção para que sua situação não é única, mas
de seus vizinhos também, do bairro, da comunidade, e isso em vários envelopes
“coletivos” (como não havia recursos de cada um para as despesas de correio,
era frequente um envelope conter várias delas).
De
qualquer forma, resta o traço mais marcante: a altivez com que solicitavam a
intervenção da autoridade máxima do país. Não eram pedidos de um favor de
alguém subalterno, mas de alguém invisível para o poder público, de alguém “que
já estava de canela seca de ir atrás”.
Por
outro lado, o SUS, e com ele a melhoria das condições de saúde da população (no
caso brasileiro o traçador com maior peso no aumento do IDH) apresenta um marco
de esvaziamento do conteúdo social que lhe deu origem, conforme o lema saúde é
democracia.
De
fato, nesses 40 anos desde a VIII Conferência Nacional de Saúde, sua
implementação contra a corrente das forças conservadoras da sociedade e do
mercado da saúde vem acompanhada de algo pernicioso: a saúde como um direito
sendo substituída pela saúde como um bem de consumo, em detrimento da
conscientização da sociedade de que saúde é um direito de cidadania. Para quem
fala o ocupante da pasta? Está sendo feita propaganda das ações de saúde que
vêm sendo adotadas, mas quem é atingido, e como dialogar com esses até então
“invisíveis” para o Estado?
É
simplista o diagnóstico de que o governo se distanciou das bases sociais. O que
se indaga aqui é exatamente quem e como vivem essas bases sociais, e como
atingi-las com algo que a elas faça sentido. Por exemplo, a luta para a
conquista do 5×2. Isso é codificável para o trabalhador, ou será mais
contundente em vez de um dia de folga em casa, lutar por dois dias?
Como
traduzir isso para a concretude da realidade vivida pela população, e que possa
se traduzir em instrumento para um salto da conscientização de que direito não
tem a ver com a tutela do Estado no sentido de regular seu cotidiano, mas sim
com a busca de garantias de vida digna para toda a população e consequentemente
de postura política propositiva que se contraponha ao discurso de que “todo
político é ladrão”.
Como
conscientizar que, ao contrário do discurso e do argumento da direita, tanto
José Serra quanto Lula, dona Marisa, Dilma Rousseff e agora José Dirceu
deveriam ser tratados pelo SUS, para “verem o que é bom pra tosse”, no mau
sentido, mas não o fazem porque dispõem de seguro saúde privado pelos cargos
exercidos e nessas condições não devem sobrecarregar os recursos (monetários,
materiais e humanos) do SUS? Pois o SUS é para todos, e vale lembrar que
Faustão foi atendido nos seus transplantes pelo maior e um dos mais respeitados
sistemas de transplantes público do mundo.
Todas
essas políticas, claro, têm impactos extremamente positivos nos indicadores
sociais da população. No entanto, ainda estão muito tímidas iniciativas de
redistribuição estrutural da renda e redução da desigualdade social, também
apontadas pelo estudo do PNUD. E essas desigualdades de renda, gênero e classe
persistem.
Mas
nunca é demais lembrar que: (a) tecnicamente somos equipados com instituições
de primeira linha para diagnósticos sociais; (b) que, no entanto, a vida vivida
cotidianamente pela população de baixíssima e de baixa renda ainda nos é
desconhecida; e (c) que desigualdades de renda, de raça e de gênero não
significam somente políticas para mulheres e para negros e indígenas, dentre
outras, mas para todas as diversidades existentes em nossa sociedade, pois elas
existem porque consistem de relações entre díspares.
Não se
trata, assim, de arregimentar votos, embora em ano eleitoral isso seja
essencial, mas de como as políticas públicas capturarem a altivez, a
solidariedade, a generosidade presentes nesses segmentos sociais, e que
fizeram, por exemplo, que a comunidade de Paraisópolis em São Paulo reagisse
com iniciativas de proteção e assistência para a própria comunidade durante a
Covid-19.
Como
transformar esses segmentos sociais alvo de políticas governamentais em povo e
não em público. O potencial está aí, e não pode ser sufocado pelas hordas
neoliberais que estão capturando as iniciativas políticas, quer obstaculizando
no concreto quer desnaturando seu conteúdo.
Creio
que para tanto, os democratas e progressistas estamos deixando a desejar, ou
não sabendo como atingir esse público de forma mais consequente. Eis o desafio.
Fonte:
Por Amélia Cohn, em A Terra é Redondaão se
trata, assim, de arregimentar votos, embora em ano eleitoral isso seja
essencial, mas de como as políticas públicas capturarem a altivez, a
solidariedade, a generosidade presentes nesses segmentos sociais, e que
fizeram, por exemplo, que a comunidade de Paraisópolis em São Paulo reagisse
com iniciativas de proteção e assistência para a própria comunidade durante a
Covid-19.
Como
transformar esses segmentos sociais alvo de políticas governamentais em povo e
não em público. O potencial está aí, e não pode ser sufocado pelas hordas
neoliberais que estão capturando as iniciativas políticas, quer obstaculizando
no concreto quer desnaturando seu conteúdo.
Creio
que para tanto, os democratas e progressistas estamos deixando a desejar, ou
não sabendo como atingir esse público de forma mais consequente. Eis o desafio.
Fonte:
Por Amélia Cohn, em A Terra é Redonda

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