terça-feira, 2 de junho de 2026

Reinaldo Otoni: Traição à pátria, chantagem eleitoral e irresponsabilidade socioeconômica

Engana-se quem pensa que as articulações de Flávio Bolsonaro, seus irmãos e seu grupo, para que o secretário de Estado Marco Rubio incluísse o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas, nos Estados Unidos, tenham algo a ver com Segurança Pública. Não tem!

O próprio candidato já confessou que o objetivo é vencer as eleições, soltar o pai, com uma Anistia imposta pelos americanos, e garantir o livre trânsito de mentiras e calúnias nas redes sociais, sob o falso argumento de liberdade de expressão. É o que eles querem, não importa a que custo para o nosso país, a economia brasileira, a nossa soberania e a vida de milhões de pessoas.

Isso é traição à pátria, chantagem eleitoral e irresponsabilidade socioeconômica.

O que eles fizeram prejudica o combate ao crime organizado e a colaboração internacional e poderá ter graves consequências econômicas, financeiras e civis para o Brasil. Mas eles não estão nem aí, só pensam nas pequenas e sórdidas vitórias que possam alcançar, em estratégias insanas e irresponsáveis.

Como explicam especialistas, quando os EUA classificam uma organização como FTO (Foreign Terrorist Organizations/organização terrorista estrangeira), ativam várias leis e regras, com consequências ilimitadas e muito nefastas para o país afetado, seus cidadãos e empresas.

Uma delas é tornar crime federal, nos Estados Unidos, prestar qualquer "suporte material" à organização designada. E suporte material vai desde financiamento a pagamentos por serviços.

Ora, quem conhece um pouco dos territórios ocupados pelas facções criminosas sabe muito bem que os moradores do lugar são obrigados a pagar a traficantes e criminosos toda a sorte de serviços, do gás a internet, do pedágio para circular com carros até a permissão para ampliar um barraco. Pois essas pessoas - vulneráveis, inocentes e já tão violentadas pelo crime – poderão entrar para a lista americana de cúmplices das facções, ameaçadas de sanções como a perda de contas e cartões de crédito, entre outras penalidades. Muito cruel.

Mas, como o PCC e o CV atuam para além dos morros e favelas, os impactos também se espalham.

Para a economia, que o governo Lula conseguiu reerguer, os possíveis impactos ameaçam bancos, seguradoras e fundos de investimentos, que passarão a tratar operações no Brasil como arriscadas, por medo de serem acusadas de relações com o crime. Um único depósito bancário feito por um traficante pode gerar graves sanções a uma instituição, tenha ela ou não conhecimento de que se trata de um criminoso.

Ou seja, a medida coloca todo o sistema financeiro brasileiro sob suspeita e pode afetar inclusive programas como o PIX, que sempre incomodou os Estados Unidos, prejudicando diretamente toda a população.

Pela experiência do que sofreram outros países que passaram pelo mesmo problema, como México, Espanha e Grécia, outros setores vulnerários são os de infraestrutura, energia, logística, mineração, agronegócio, indústria exportadora e turismo.

É um verdadeiro desastre, provocado única e exclusivamente por um grupelho de verdadeiros gangters políticos.

O Brasil tem travado combate permanente contra as facções criminosas e milícias. Recentemente, aprovamos Lei aumentando as penas a até 80 anos de prisão para os líderes criminosos. Não foi fácil, por conta da resistência dos mesmos que hoje pedem a intervenção americana.

A medida defendida por eles não combate o crime organizado. Ao contrário, atrapalha este combate, afetando diretamente os acordos de colaboração entre Brasil e Estados Unidos, que envolvem a Polícia Federal (PF) e o Federal Bureau of Investigation (FBI).

A partir da inclusão do PCC e do CV como organizações terroristas, instituições como o FBI deixarão de cooperar com o Brasil, porque todas as investigações americanas passarão para a esfera da Central Intelligence Agency, a CIA, que só age de forma secreta, sem compartilhamento de informações. Um dos programas prejudicados será o do combate a Crimes Cibernéticos, de operações focadas em crimes virtuais e na dark web, incluindo contra pedófilos e agressores de mulheres e crianças.

Esse é o tamanho do crime cometido por Flavio Bolsonaro e sua gangue. Repito, é traição à pátria, chantagem eleitoral e irresponsabilidade socioeconômica.

•        Flavio Bolsonaro perdeu a condição de sair às ruas. Por Marco Damiani

Já tem bilhete reservado para entrar para a história a estratégia eleitoral do ainda pré-candidato miliciano-entreguista Flavio Bolsonaro.

Em apenas 15 dias, FB encontrou e percorreu, com o pé na tábua, o caminho mais curto para reverter uma situação de empate técnico nas pesquisas, em relação ao presidente Lula, para a de nem mais poder sair às ruas sem ser alvo de apupos. Em qualquer logradouro, de qualquer cidade, de qualquer estado do País.

Desafiado está.

Contra si, FB despertou os brios do povo e endereçou uma reeleição em primeiro turno para o presidente, ainda que faltem quatro meses e uma Copa do Mundo para a ida às urnas.

Ele espetou no próprio peito o broche de inimigo número 1 da soberania nacional. Forjou uma verdadeira frente ampla de asco e rejeição contra si mesmo. Uniu em sua oposição, com tempo recorde, das favelas à Faria Lima, como observou um arguto comentarista no universo TikTok.

Não há quem tenha saído em defesa da estratégia de submissão proposta por FB, de modo tosco, ao secretário de Estado Marco Rubio, dos Estados Unidos, que, por sua vez, induziu Donald Trump a mais um erro crasso. Deve, agora, estar bem contrariado o senhor da guerra, por conta do novo mau conselho.

O Brasil se uniu na vaia, menos Ronaldo Caiado (RC), ok, mas essa exceção é compreensível.

Depois de ser flagrado em associação criminosa com o maior malfeitor da economia popular brasileira desde 1500, Daniel Vorcaro (DV), FB consumou o que se pode chamar de auto-nocaute político.

Na direita, não há quem o queira por perto, nem Tarcísio de Freitas (TF), nem Silas Malafaia (SM), nem Rodrigo Constantino (RC), nem o até agora calado Carluxo (cC). Virou personagem tóxico.

FB bradou desde a capital americana pela classificação, por parte do governo ianque, das facções criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. Conseguiu. Porém, confirmando a percepção generalizada no Brasil, vídeos, áudios e fotos dele em articulações com os chefes criminosos e seus sustentáculos — leia-se, entre outros, o suspeito ex-governador fluminense Cláudio Castro (CC) — dimensionaram o tamanho do paradoxo de Washington.

O resultado é uma goleada contra em pleno andamento.

Fazia tempo que a gente brasileira, de todas as classes e regiões, não se unia tão rápida e firmemente.

Lembrando aqui, a campanha das Diretas, em 1984, mobilizou nacionalmente, em especial as camadas médias, mas isso levou pelo menos uns seis meses para ganhar nitidez nos históricos comícios daquele tempo patriótico e festivo.

Recordem o que recordem — da campanha do Petróleo é Nosso, entre as décadas de 1940 e 1950, à genuína consternação pelas perdas de Tancredo Neves, em 1985, e de Ayrton Senna, em 1994 —, fazia tempo que nada nem ninguém contribuíra tanto e tão diretamente para a união nacional quanto o FB. Ele reduziu, a olhos vistos, a polarização. Convenhamos, que feito extraordinário!

A maior estultice do filho 01 de Jair Bolsonaro, no entanto, pode ter sido a de não ter feito como o brother 03, Eduardo Bolsonaro (EB). Mais seguro para ele seria ter ficado de uma vez nos EUA. Estão aí os exemplos de sucesso de Alexandre Ramagem (AR), protegido pela administração trumpista, e do próprio EB.

Por aqui, além de protagonizar o maior vexame político dos últimos tempos, Flavio Bolsonaro corre o risco de, ali na frente, ir em cana, a exemplo do que tem acontecido com chefões e chefetes do crime organizado, reconhecidos por vulgos e siglas, captaram?

Sobre o FB recaem como uma luva acusações formais, por exemplo, de associação ao crime organizado, no caso Bozomaster, e pela relevante atuação internacional lesa-pátria.

Se balançou, mas não caiu, a partir da revelação do conluio com DV, FB conseguiu implodir em 15 dias o que lhe sobrara de sustentação política. Na dúvida, ele pode pagar para ver praticando uma caminhada em uma rua qualquer.

Em poucos dias, aposte-se, será um ex-pré-candidato miliciano-entreguista — e assim entrará para a história.

•        O caso Vorcaro muda o quadro eleitoral?

Meu artigo anterior sobre a pré-campanha eleitoral foi distribuído na véspera das revelações do Intercept Brasil, apontando a relação íntima entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, personagem que passou de “sonho de consumo” do bolsonarismo (e muito mais gente) para pesadelo tóxico.

Amigos e não tão amigos me perguntaram no privado, se os novos fatos não anulavam a análise do meu artigo. Penso que não e me parece bem lógico.

O artigo citado apontava para um quadro pessimista para a campanha do presidente Lula e uma crescente ameaça de vitória da direita, com Flávio Bolsonaro ligeiramente à frente na pesquisa DataFolha para o segundo turno, mas com os outros dois direitosos, Ronaldo Caiado e Romeu Zema, também se aproximando de Lula nas simulações.

A minha conclusão ao olhar para esta pesquisa não mudou: a marca forte e persistente da sequência de pesquisas (não só da citada) é o antipetismo/lulismo. Em um primeiro momento, Flávio Bolsonaro herdou os votos do bolsonarismo raiz, avaliados entre 18 e 25% do eleitorado e logo arrastou o voto da direita antipetista/lulista, deixando Romeu Zema e Ronaldo Caiado com um indicativo inferior a 5% nas simulações de primeiro turno.

Dada a notória fragilidade do filho zero dois do energúmeno, a conclusão óbvia é que a direita não tem uma opção a favor do senador, mas busca a melhor possibilidade de derrotar Lula e o PT/aliados. Este raciocínio vale também para o posicionamento dos partidos da direita. Na ausência (voluntária) de uma candidatura de Tarcísio de Freitas, o jogo parecia jogado, apesar do nariz torcido de partes da Faria Lima.

A desmoralização de Flávio Bolsonaro, com a revelação de suas relações cada vez mais complicadas com Daniel Vorcaro, não indica que Lula possa ter vida mais fácil com as alternativas de direita disponíveis. Se as revelações do caso Vorcaro continuarem comprometendo o senador do PL teremos algumas possibilidades de mudança no quadro eleitoral para o primeiro turno.

Em um caso extremo, Flávio Bolsonaro pode ser enquadrado pela PF e pelo MPF e ter sua candidatura impugnada, o que parece improvável. Se isto não acontecer, haveria a possiblidade do PL considerar a candidatura um mico para suas pretensões a fazer uma super bancada na Câmara e no Senado e retirar o seu nome na convenção que indicará formalmente a sua candidatura, algo também improvável dado o peso do bolsonarismo no partido.

A terceira possiblidade é Flávio Bolsonaro virar um “pato manco” e ser batido por um dos seus adversários de direita no primeiro turno. Na primeira pesquisa depois da explosão do escândalo esta hipótese de ascensão de outro candidato da direita não se confirmou, com Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Renan Santos continuando a patinar entre 3 e 5 % das intenções de voto, algo a ser conferido pelas pesquisas eleitorais daqui para frente.

Dado o peso do bolsonarismo raiz isto também vai ser improvável, a não ser que um dos dois contentores se retire em benefício do outro. Ainda temos que considerar a hipótese do terceiro contentor de Flávio Bolsonaro na direita, Renan Santos (MBL), que se apresenta como o antissistema mais coerente, decole dos seus 2 a 3% de intenção de votos, para assumir o papel de um Pablo Marçal nas eleições para a prefeitura de São Paulo, em 2024, com melhor sucesso.

Nada disso altera a intenção de votos de Lula, embora possa dar a ele uma margem maior de vantagem sobre o segundo colocado no primeiro turno. A única possibilidade deste imbróglio todo favorecer Lula no segundo turno é uma combinação de resultados que derrube a candidatura de Flávio no primeiro turno e gere uma reação do bolsonarismo raiz contra os “traidores”, levando a um voto nulo de uma parcela desta base fanática. Se todos os votos de direita forem dirigidos para o candidato mais bem colocado no segundo turno o risco para Lula continua muito alto.

Lula continua necessitando convencer a pequena parcela do voto independente, que eu chamo de republicanos de centro-direita, de repetir o voto de 2022. Foi o que deu a vitória a Lula, mas naquelas circunstâncias este voto foi motivado pela ameaça bolsonarista à democracia e este impulso não parece tão forte nestas eleições.

A estratégia de Lula e do PT para estas eleições está centrada em produzir benesses para diferentes públicos, mas isto está gerando, até agora, nada mais do que uma pequena recuperação do presidente na sua própria base eleitoral, menos motivada agora do que em 2022. Com o eleitorado lulista decepcionado com o seu governo, o risco de uma parcela significativa vir a se abster ou votar nulo ou branco é um perigo enorme para Lula.

A piora no quadro econômico com aumento da inflação, sobretudo de combustíveis e alimentos, já está em curso e vai ser difícil de compensar com medidas paliativas e isto pode ter como consequência uma perda de votos, não necessariamente para Flávio Bolsonaro ou um candidato da direita, mas para um não voto. Os índices de abstenção vão ser um fator importante nestas eleições, talvez mais do que em qualquer outra no passado, dadas as estreitas margens de vantagem de Lula.

E este quadro econômico pode piorar muito em função de fatores externos como a guerra EUA/Israel x Irã ou planetários como o El Niño gigante prometido pelos cientistas para o segundo semestre.

Com este quadro mais do que arriscado, a decisão de Lula de reapresentar a candidatura de Jorge Messias ao STF é inexplicável. Há uma frase muito utilizada no teatro grego antigo que me veio à cabeça quando vi o anúncio da candidatura bis de Messias: “os deuses enlouquecem os que eles querem destruir” (Eurípides em As bacantes).

O que Lula espera deste novo embate? Na melhor das hipóteses Davi Alcolumbre simplesmente não colocaria a candidatura na pauta até as eleições, deixando Lula rangendo os dentes impotente, já que não tem forças para dobrar a vontade do presidente do Senado, nem conta com o apoio da opinião pública para isto. Na pior das hipóteses Davi Alcolumbre pode humilhar Lula de novo, com um desgaste difícil de medir, já que o tema é, para mim, marginal nas decisões do eleitorado. Em qualquer caso, ele tem nada a ganhar e algo a perder.

Ao insistir em seu fiel escudeiro, Lula está queimando a possibilidade de lançar um nome de peso que traria o apoio da opinião pública e perdendo a última chance de eleger um juíz ou juíza não bolsonarista. O risco para o futuro é enorme no caso de uma derrota eleitoral de Lula, pois daria à direita a maioria no STF, condição fundamental para golpear a democracia por dentro, como fez Viktor Orbán na Hungria.

Também não é inteligível a bronca de Lula nos eleitores antissistema com a frase infeliz “qualquer imbecil que se coloca contra tudo isso que está aí ganha aplausos entusiasmados” (ou algo parecido, não me lembro exatamente da frase). Afinal de contas, Lula já foi aplaudido por dizer que o Congresso tinha “300 picaretas com anel de doutor” e até ganhou uma música com o seu dito. O sentimento de que tudo é igual na política brasileira é o resultado de anos de concessões à direita e às classes dominantes mos governos de Lula e os de Dilma Rousseff e a bronca de Lula passa recibo de que está incomodado por ser confundido com isto tudo que está aí.

O elemento mais importante neste “novo” quadro é que ele não altera a perspectiva de votos para o congresso. Lula pode até ter mais “palanques” com a participação de candidatos da direita, já que alguns partidos do Centrão estão se dispondo a liberar suas bases para acordos eleitorais locais.

Esta decisão vai trazer mais votos para Lula? Isto é discutível, mas certamente estas alianças locais com a direita vão dificultar um pedido de votos de Lula para os partidos de esquerda para não desagradar seus novos aliados. O resultado vai ser uma enxurrada de deputados e senadores de direita e fisiológicos, escorados no dinheiro gasto pelas emendas parlamentares. E o congresso resultante vai ser ainda mais sinistro do que o atual.

A candidatura do mais do mesmo de um decepcionante governo Lula III, sem a sensação de uma ameaça à democracia que marcou a eleição de 2022 deixa o PT e aliados de esquerda sem uma mensagem de esperança no futuro do país e leva o eleitorado a olhar os candidatos para Senado e Câmara como uma geleia geral que não indica escolhas diferenciadas a serem feitas na hora de votar.

Votaremos (a esquerda) em Lula sem dúvida, mas descrentes em um futuro em que o “novo” governo irá enfrentar os graves problemas ambientais, sociais, energéticos e econômicos que nos assolam.

 

Fonte: Brasil 247/A Terra é Redonda

 

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